Eu era ainda bem pequena, quando meu irmão, Sérgio, desde cedo intelectualizado, leu-me “A história do mundo para crianças” de Monteiro Lobato, assim com toda a série dos “Doze trabalhos de Hércules” do mesmo autor. E também muito mais coisas, livros de títulos já esquecidos, mas cujo conteúdo permanece na minha mente. Devo a estas sessões de leitura, como ouvinte atenta, e também às nossas conversas, importante parte de minha formação intelectual. Deliciavam-me as histórias da mitologia grega, com deuses tão humanos, assim como as aventuras dos heróis e os monstros. E também toda a riqueza da civilização helenística, que eu nem entendia muito bem, e que ele, pacientemente, procurava explicar-me. E ainda a história do antigo Egito com seus faraós, rainhas, múmias. Enfim um mundo fascinante, cujas portas me foram abertas por meu saudoso irmão.
Mas alguns anos depois, um choque! Ouvindo conversas, soube que uma amiga da família tinha Nefrite! Estarrecedor! Uma doença com nome de deusa grega, ou seria de rainha do Egito? Porque, agora, confusa, já não conseguia identificar uma e outra. Personalizei o mal que acometia a amiga, dei-lhe cara de mulher, igual as que via nos livros. E teria feito qualquer coisa para ver a doente, saber como estava, como se parecia. Até que recorri a meu irmão, que, depois de rir, explicou-me tudo. E hoje, tantos anos depois, nefrite ainda tem para mim cara de mulher, nobre, linda, deusa ou rainha.
E também há a história de Augusto da Paz, ou melhor, Doutor Augusto da Paz, aquele vetusto senhor, de grandes bigodes, jaquetão, e cabelo partido no meio! Descobri quem ele era, um certo dia, quando ainda era criança, assistindo a uma entrevista com Doutor Campos da Paz (naquele tempo as crianças assistiam a entrevistas com médicos!!!!!). Veio-me então à mente uma informação simples: este deve ser parente do Augusto da Paz, quem sabe, neto ou bisneto. Porque eu sabia que, tendo em conta o seu visual, parecido com o de meu bisavô, o Doutor Augusto era antigo. Somente anos mais tarde descobri a letra do Hino à bandeira (“Salve símbolo augusto da paz...”) e, conseqüentemente, a verdadeira identidade do augusto. Mas para mim, e para sempre, este hino trará a imagem indelével do Doutor, de bigodão, jaquetão e cabelo partido no meio.
E em meio a tantas lembranças antigas, não é possível desconhecer aquela do Hino à Independência, que nos faziam cantar na Semana da Pátria:
“Os grilhões que nos forjaram
De perfídia astuto ardil,
Houve mão mais poderosa,
Zombou deles o Brasil.
Houve mão mais poderosa
Zombou deles o Brasil.
Não temeis ímpias falanges,
Que apresentam face hostil
Nossos peitos nossos, braços,
São muralhas do Brasil.
Nossos peitos, nossos braços
São muralhas do Brasil”.
E vejam que de tanto “cantar” o hino, tantos anos depois, ainda o guardo intacto na memória.
Mas alguém se habilita a decifrar?
De quem, afinal, o Brasil zombou?
E quem seriam as “ímpias falanges, que apresentam face hostil”?
Tenho algumas idéias a respeito, e disto falaremos mais tarde.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
Detalhes
Tudo passou tão depressa! E com esta celeridade o tempo nos dá a sensação, sobretudo para nós, maiores de 50 anos, de que escorre através de nossos dedos, como água, e que, infelizmente, jamais será possível diminuir sua marcha. Mas, ainda que o tempo nos pareça água que se vai sem que possamos impedir, há ainda muita coisa a fazer. Ainda que tenhamos mais de 50. É novamente o começo, em que estamos tentando acertar, jogando fora o que não prestou nestes anos que já vivemos. E é preciso a coragem de dizer NÃO ao que já foi e que embolorou, morreu de velho, e ao qual muitas vezes permanecemos fiéis, até sem perceber.
Percorrendo o tempo, mudei. Não sei fiquei melhor, ou pior. Mas mudei. Não tenho saudades do passado, do já vivido, embora haja por lá muita coisa boa. Lembro-me dele com carinho, mas, quase sempre, ando por lugares já percorridos sem compreender o que havia ali de atraente. Afinal, fui eu que mudei, ou o lugar, ou as coisas, ou pessoas? Na verdade, fomos nós, foi tudo. Pequenos detalhes foram se acumulando em minha vida, trazendo pequenas mudanças, levando-me a perceber, pouco a pouco, o que não havia percebido antes, a amar o que não me seduzia, ou até me aborrecia. Pior ainda, até o que chegava a odiar. E também a desprezar o que me parecia tão bom. A abandonar velhas crenças. Estes detalhes, pequenos, que pareciam insignificantes, acumulados, transformaram-me ao longo dos anos. Nunca houve uma mudança conclusiva, que trouxesse em si uma carga de repúdio ou aceitação radical.
Amores, amigos, projetos, revejo-os com olhos de uma mulher madura, que já viveu muito, amou, sofreu, chorou, riu de felicidade, rejeitou. E também que foi amada e rejeitada. É a vida. Guardo fotografias de meus afetos que se foram, e também daqueles que já foram meus afetos e perderam-se pelas estradas, que nem sequer sei se ainda vivem. Tudo mudou no percorrer do caminho, sem que eu percebesse, gostos, modas, hábitos, amigos, amores, desafetos, crenças, projetos. Sinto-me como a fênix que se extingue no fogo e renasce das próprias cinzas.
Vivi intensamente meu tempo, acreditei nele, fui totalmente honesta. Hoje tantos anos após aqueles de minha juventude, sinto renovada, pronta a começar mais uma caminhada. Meus acompanhantes não são os mesmos daqueles tempos, minha família de então já partiu, mas não estou só. A caminhada continua e estou certa de que pequenos detalhes irão, cada dia, acrescentar, ou anular, alguma coisa em mim, e estarei em constante mudança. Até o dia em que, completada a travessia, eu possa dizer como o poeta: “Confesso que vivi!”
Percorrendo o tempo, mudei. Não sei fiquei melhor, ou pior. Mas mudei. Não tenho saudades do passado, do já vivido, embora haja por lá muita coisa boa. Lembro-me dele com carinho, mas, quase sempre, ando por lugares já percorridos sem compreender o que havia ali de atraente. Afinal, fui eu que mudei, ou o lugar, ou as coisas, ou pessoas? Na verdade, fomos nós, foi tudo. Pequenos detalhes foram se acumulando em minha vida, trazendo pequenas mudanças, levando-me a perceber, pouco a pouco, o que não havia percebido antes, a amar o que não me seduzia, ou até me aborrecia. Pior ainda, até o que chegava a odiar. E também a desprezar o que me parecia tão bom. A abandonar velhas crenças. Estes detalhes, pequenos, que pareciam insignificantes, acumulados, transformaram-me ao longo dos anos. Nunca houve uma mudança conclusiva, que trouxesse em si uma carga de repúdio ou aceitação radical.
Amores, amigos, projetos, revejo-os com olhos de uma mulher madura, que já viveu muito, amou, sofreu, chorou, riu de felicidade, rejeitou. E também que foi amada e rejeitada. É a vida. Guardo fotografias de meus afetos que se foram, e também daqueles que já foram meus afetos e perderam-se pelas estradas, que nem sequer sei se ainda vivem. Tudo mudou no percorrer do caminho, sem que eu percebesse, gostos, modas, hábitos, amigos, amores, desafetos, crenças, projetos. Sinto-me como a fênix que se extingue no fogo e renasce das próprias cinzas.
Vivi intensamente meu tempo, acreditei nele, fui totalmente honesta. Hoje tantos anos após aqueles de minha juventude, sinto renovada, pronta a começar mais uma caminhada. Meus acompanhantes não são os mesmos daqueles tempos, minha família de então já partiu, mas não estou só. A caminhada continua e estou certa de que pequenos detalhes irão, cada dia, acrescentar, ou anular, alguma coisa em mim, e estarei em constante mudança. Até o dia em que, completada a travessia, eu possa dizer como o poeta: “Confesso que vivi!”
sábado, 15 de dezembro de 2007
De volta ao cotidiano
Aleluia!
Tilinha já voltou a dar seus passeios diários. Está feliz!
E eu também.
Agora já posso novamente olhar vitrines, entrar nas lojas, conversar sem temor – nego-me a explicar minhas desventuras passadas – comprar enfeites para o Natal, freqüentar minha academia, preocupar-me em estar elegante, voltar ao restaurante. E ainda falar mal do Lula, do Chavez, e outros. Recobrei minha preciosissíma independência e transito sozinha por onde quero. Minha casa está decorada para a grande festa, linda! Nada mais de compressas geladas, tornozeleiras fedorentas, antiinflamatórios, espera por alguém que me leve e traga. Posso tomar meu vinho nos fins-de-semana, e minha pinga dominical. Retornei à vida. Eu, Ricardo, Tilinha, Boris, o gato, meu pé esquerdo, e também o direito, que mostrou o quanto é imprescindível e solidário, e com o qual fui injusta. É verdade que sinto um pouquinho de saudades de meus amigos, conquistados nas sessões de fisioterapia. Discorríamos sobre torsões, ligamentos, tendões, fraturas, cirurgias, etc. Conversa pra lá de excitante. Mas devo dizer que, inegavelmente, aqueles longos dias de tédio foram melhor suportados com a convivência dos que sofriam parecido comigo. Meu pé esquerdo ainda dá sinais de que não está totalmente recuperado, mas sei que vai passar. Tenho confiança nele. Sinto-me imensamente agradecida a todos, médico, fisioterapeuta, companheiros de caminhada, ou “não-caminhada”, mas nego-me terminantemente a sequer pensar em novas sessões.
Minha semana de memoráveis alegrias começou quando o fisioterapeuta me deu alta, prolongou-se com a derrota de Chavez, e foi fechada com chave de ouro ao receber de presente uma fantástica cama “queen size”. Em relação à derrota de Chavez, devo dizer que, se meu pé esquerdo ainda estivesse doente, eu já me sentiria restabelecida só com esta maravilhosa notícia. Continuo afirmando que Chavez é um atentado a tudo que há de decente. É o governante mais desclassificado de que tenho lembrança. E olha que eu já vivi muito e sempre me interessei por política. Acho que afinal quem tem razão é aquele pastor americano que ofereceu dinheiro a quem o matasse. Como não me importo com o “politicamente correto”, vou continuar do lado do pastor. Em relação à cama, tivemos um sério temor. Quem sabe Tilinha, impedida de alcançar a altura da cama, não iria reclamar? Ouvi-la chorar a noite toda seria um tormento que não suportaríamos, mas a bichinha, ela também trazida de volta aos prazeres cotidianos, dormiu tranqüila. E desde então tem sido assim. Ou seja, tudo voltou ao normal, e até está melhor do que antes.
E assim são as coisas, afinal meu pé esquerdo me deu uma bela lição. Com ele aprendi a ter paciência, a suportar o incômodo, a conformar-me com as limitações. Até a tirar prazer do ruim. Vi incontáveis filmes, enquanto colocava incontáveis compressas de gelo e olhava incontáveis vezes o relógio esperando os vinte minutos recomendados. Mas consegui vencer tudo isso sem perder o bom humor, rir das brincadeiras de Ricardo acerca de minhas pretensões atléticas, e esperar a hora certa de recomeçar. Como dizia minha mãe, mesmo no ruim a gente pode achar um lado bom e aprender.
Tilinha já voltou a dar seus passeios diários. Está feliz!
E eu também.
Agora já posso novamente olhar vitrines, entrar nas lojas, conversar sem temor – nego-me a explicar minhas desventuras passadas – comprar enfeites para o Natal, freqüentar minha academia, preocupar-me em estar elegante, voltar ao restaurante. E ainda falar mal do Lula, do Chavez, e outros. Recobrei minha preciosissíma independência e transito sozinha por onde quero. Minha casa está decorada para a grande festa, linda! Nada mais de compressas geladas, tornozeleiras fedorentas, antiinflamatórios, espera por alguém que me leve e traga. Posso tomar meu vinho nos fins-de-semana, e minha pinga dominical. Retornei à vida. Eu, Ricardo, Tilinha, Boris, o gato, meu pé esquerdo, e também o direito, que mostrou o quanto é imprescindível e solidário, e com o qual fui injusta. É verdade que sinto um pouquinho de saudades de meus amigos, conquistados nas sessões de fisioterapia. Discorríamos sobre torsões, ligamentos, tendões, fraturas, cirurgias, etc. Conversa pra lá de excitante. Mas devo dizer que, inegavelmente, aqueles longos dias de tédio foram melhor suportados com a convivência dos que sofriam parecido comigo. Meu pé esquerdo ainda dá sinais de que não está totalmente recuperado, mas sei que vai passar. Tenho confiança nele. Sinto-me imensamente agradecida a todos, médico, fisioterapeuta, companheiros de caminhada, ou “não-caminhada”, mas nego-me terminantemente a sequer pensar em novas sessões.
Minha semana de memoráveis alegrias começou quando o fisioterapeuta me deu alta, prolongou-se com a derrota de Chavez, e foi fechada com chave de ouro ao receber de presente uma fantástica cama “queen size”. Em relação à derrota de Chavez, devo dizer que, se meu pé esquerdo ainda estivesse doente, eu já me sentiria restabelecida só com esta maravilhosa notícia. Continuo afirmando que Chavez é um atentado a tudo que há de decente. É o governante mais desclassificado de que tenho lembrança. E olha que eu já vivi muito e sempre me interessei por política. Acho que afinal quem tem razão é aquele pastor americano que ofereceu dinheiro a quem o matasse. Como não me importo com o “politicamente correto”, vou continuar do lado do pastor. Em relação à cama, tivemos um sério temor. Quem sabe Tilinha, impedida de alcançar a altura da cama, não iria reclamar? Ouvi-la chorar a noite toda seria um tormento que não suportaríamos, mas a bichinha, ela também trazida de volta aos prazeres cotidianos, dormiu tranqüila. E desde então tem sido assim. Ou seja, tudo voltou ao normal, e até está melhor do que antes.
E assim são as coisas, afinal meu pé esquerdo me deu uma bela lição. Com ele aprendi a ter paciência, a suportar o incômodo, a conformar-me com as limitações. Até a tirar prazer do ruim. Vi incontáveis filmes, enquanto colocava incontáveis compressas de gelo e olhava incontáveis vezes o relógio esperando os vinte minutos recomendados. Mas consegui vencer tudo isso sem perder o bom humor, rir das brincadeiras de Ricardo acerca de minhas pretensões atléticas, e esperar a hora certa de recomeçar. Como dizia minha mãe, mesmo no ruim a gente pode achar um lado bom e aprender.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
Morte na aurora
ARACY E MARIA
Tudo na vida tem princípio, meio e fim, inclusive ela própria. Disso todos sabemos. Mas há algumas que, de tão curtas que são, parecem ter suprimido o “meio”. São vidas nem ainda começadas e já terminadas. Lembro-me de “A peste” de Camus, onde o absurdo da vida e da morte é mostrado de forma tão dramática, sendo as mortes de jovens e crianças as mais absurdas das absurdas, ocorridas aos montes.
Minha tia Aracy morreu jovem, muito jovem. Tinha quinze ou dezesseis anos. Naqueles longínquos anos 20, quando tanta patologia ainda não havia sido diagnosticada, dizia-se que tinha temperamento difícil. Na realidade, pela descrição que dela fazia minha mãe, sua irmã, Aracy sofria de distúrbio bipolar, alternando momentos de euforia à extrema depressão. Numa de suas crises, suicidou-se. Já havia tentado antes. A família ocultou o suicídio, evitando que seu corpo fosse impedido, pela Igreja Católica, de ser enterrado em “campo santo”.
Também minha tia Maria, irmã de meu pai, morreu na aurora, ainda mais jovem do que Aracy. Tinha 12 anos. Foi vítima da peste bubônica. O ano era 1922. Supõe-se que um navio, atracado no porto do Guaíba, tenha trazido os primeiros ratos infectados. Logo as pulgas se espalharam pela cidade, onde não se cogitava de higiene publica. Governado por Borges de Medeiros, o Rio Grande do Sul era um Estado atrasado, à mercê de uma equipe de ignorantes que se dizia Positivistas. Maria morreu e logo foi seguida por sua melhor amiga, criança como ela. E tantos outros morreram!Velhos, jovens, crianças. Minha mãe contava-me o que foram aqueles tempos de medo, em que perdeu alguns de seus melhores amigos.
Tenho sobre minha mesa de trabalho, uma bela foto de Aracy. Tem a cabeça ligeiramente inclinada, com uma coroa de flores. Uma blusa drapeada deixa a mostra parte do colo e ombros. É linda, mas o que impressiona é o olhar, cheio de melancolia. Linda, mas muito triste. A foto foi tomada pouco antes de sua morte. Aracy é uma companheira que não conheci, mas que sempre esteve presente em minha vida. De Maria só tenho uma foto ainda neném. Sorridente, alegre, como diziam ser os que a conheceram. Deixou em todos a saudade de seu riso, de suas brincadeiras e traquinagens.
Aracy e Maria são para mim as mais claras representações do que há de absurdo, de incompreensível, na vida, e na morte. Aracy e Maria mal haviam começado e já partiram. Viveram o que vive uma rosa. Mas deixaram por aqui o perfume de sua presença. É assim que eu, mais de oitenta anos depois, falo delas e procuro transmitir a emoção que sempre despertaram em mim.
Tudo na vida tem princípio, meio e fim, inclusive ela própria. Disso todos sabemos. Mas há algumas que, de tão curtas que são, parecem ter suprimido o “meio”. São vidas nem ainda começadas e já terminadas. Lembro-me de “A peste” de Camus, onde o absurdo da vida e da morte é mostrado de forma tão dramática, sendo as mortes de jovens e crianças as mais absurdas das absurdas, ocorridas aos montes.
Minha tia Aracy morreu jovem, muito jovem. Tinha quinze ou dezesseis anos. Naqueles longínquos anos 20, quando tanta patologia ainda não havia sido diagnosticada, dizia-se que tinha temperamento difícil. Na realidade, pela descrição que dela fazia minha mãe, sua irmã, Aracy sofria de distúrbio bipolar, alternando momentos de euforia à extrema depressão. Numa de suas crises, suicidou-se. Já havia tentado antes. A família ocultou o suicídio, evitando que seu corpo fosse impedido, pela Igreja Católica, de ser enterrado em “campo santo”.
Também minha tia Maria, irmã de meu pai, morreu na aurora, ainda mais jovem do que Aracy. Tinha 12 anos. Foi vítima da peste bubônica. O ano era 1922. Supõe-se que um navio, atracado no porto do Guaíba, tenha trazido os primeiros ratos infectados. Logo as pulgas se espalharam pela cidade, onde não se cogitava de higiene publica. Governado por Borges de Medeiros, o Rio Grande do Sul era um Estado atrasado, à mercê de uma equipe de ignorantes que se dizia Positivistas. Maria morreu e logo foi seguida por sua melhor amiga, criança como ela. E tantos outros morreram!Velhos, jovens, crianças. Minha mãe contava-me o que foram aqueles tempos de medo, em que perdeu alguns de seus melhores amigos.
Tenho sobre minha mesa de trabalho, uma bela foto de Aracy. Tem a cabeça ligeiramente inclinada, com uma coroa de flores. Uma blusa drapeada deixa a mostra parte do colo e ombros. É linda, mas o que impressiona é o olhar, cheio de melancolia. Linda, mas muito triste. A foto foi tomada pouco antes de sua morte. Aracy é uma companheira que não conheci, mas que sempre esteve presente em minha vida. De Maria só tenho uma foto ainda neném. Sorridente, alegre, como diziam ser os que a conheceram. Deixou em todos a saudade de seu riso, de suas brincadeiras e traquinagens.
Aracy e Maria são para mim as mais claras representações do que há de absurdo, de incompreensível, na vida, e na morte. Aracy e Maria mal haviam começado e já partiram. Viveram o que vive uma rosa. Mas deixaram por aqui o perfume de sua presença. É assim que eu, mais de oitenta anos depois, falo delas e procuro transmitir a emoção que sempre despertaram em mim.
sábado, 1 de dezembro de 2007
Meu pé esquerdo
Há um filme com este título. Vi-o há anos, mas lembro-me de que conta a história de um rapaz tetraplégico que descobre, não me lembro como, que poderia vencer sua terrível limitação se aprendesse a utilizar seu pé esquerdo. Assim, ele impõe-se à família que o desprezava, consegue viver vida quase normal, e ainda conquista o amor de uma mulher.
Eu também tenho vivido minha história com meu pé esquerdo. Minha dependência não tem origem em grandes limitações, mas me fez compreender a sua importância em minha vida. Conclui que, sem meu pé esquerdo, meu pé direito é quase um zero, não à direita, mas à esquerda. Sem ele, ou com ele lesado, foram cortados - pequenos e grandes - prazeres. Nunca mais pude ir à academia, às compras, ao restaurante – meu pé pendente dói e pesa. Nem mesmo pude dar meu habitual passeio pelo bairro com minha cadelinha, admirando as vitrines de Natal. Tentei, algumas vezes, dar uma voltinha por perto de casa, mas desisti após a centésima explicação da causa de meu deplorável estado – a gente encontra montes de conhecidos e também de esquecidos (o que foi mesmo que aconteceu?). Isto sem falar na constante ameaça dos pares de pés alheios. Passei novembro colocando bolsas de gelo, fazendo fisioterapia, tomando antiinflamatórios. Estourei o estômago e tive que abdicar de meu vinho nos fins de semana. E também de minha pinga dominical. Parei de ler, de escrever, esqueci o Lula, o Chavez, desinspirei.
Fiquei impossibilitada de percorrer distância maior do que a da esquina de minha casa. Tornei-me dependente, logo eu que toda vida lutei pela minha independência. Fiquei muitas vezes esperando que Sicrano ou Beltrano me levasse à fisioterapia, meu único “passeio” durante o mês. Voltei à infância. Tive que usar, e ainda uso, tornozeleira e tênis, único calçado que suporto, e, nos dias quentes, quando coloco saia, faço um conjunto horroroso. Mas já decidi abandonar, pelo menos temporariamente, qualquer aspiração à elegância.
Na quinta-feira, tive alta. Disse-me o médico, e também o fisioterapeuta, que se a dor não passar, terei de voltar a fazer nova série. Estou de olho nele, no meu pé esquerdo. À noite acordo e acho que a dor está aumentando. Pela manhã, renasce a esperança de que tudo esteja terminado. Afinal, ele não pode fazer isto comigo! Por causa dele, abdiquei de meus melhores possíveis momentos deste lindo mês de novembro. Logo eu, que adoro os preparativos de Natal, a decoração da casa, a festa, os amigos! Mas alguma coisa, lá dentro de mim, talvez meus ligamentos estourados, me diz que tudo já está sarado. E então, logo que volte à minha vida normal, quero falar da alegria de retomar estas simples atividades do dia-a-dia, aquelas que nos permitem gozar de pequenos prazeres indispensáveis.
Eu também tenho vivido minha história com meu pé esquerdo. Minha dependência não tem origem em grandes limitações, mas me fez compreender a sua importância em minha vida. Conclui que, sem meu pé esquerdo, meu pé direito é quase um zero, não à direita, mas à esquerda. Sem ele, ou com ele lesado, foram cortados - pequenos e grandes - prazeres. Nunca mais pude ir à academia, às compras, ao restaurante – meu pé pendente dói e pesa. Nem mesmo pude dar meu habitual passeio pelo bairro com minha cadelinha, admirando as vitrines de Natal. Tentei, algumas vezes, dar uma voltinha por perto de casa, mas desisti após a centésima explicação da causa de meu deplorável estado – a gente encontra montes de conhecidos e também de esquecidos (o que foi mesmo que aconteceu?). Isto sem falar na constante ameaça dos pares de pés alheios. Passei novembro colocando bolsas de gelo, fazendo fisioterapia, tomando antiinflamatórios. Estourei o estômago e tive que abdicar de meu vinho nos fins de semana. E também de minha pinga dominical. Parei de ler, de escrever, esqueci o Lula, o Chavez, desinspirei.
Fiquei impossibilitada de percorrer distância maior do que a da esquina de minha casa. Tornei-me dependente, logo eu que toda vida lutei pela minha independência. Fiquei muitas vezes esperando que Sicrano ou Beltrano me levasse à fisioterapia, meu único “passeio” durante o mês. Voltei à infância. Tive que usar, e ainda uso, tornozeleira e tênis, único calçado que suporto, e, nos dias quentes, quando coloco saia, faço um conjunto horroroso. Mas já decidi abandonar, pelo menos temporariamente, qualquer aspiração à elegância.
Na quinta-feira, tive alta. Disse-me o médico, e também o fisioterapeuta, que se a dor não passar, terei de voltar a fazer nova série. Estou de olho nele, no meu pé esquerdo. À noite acordo e acho que a dor está aumentando. Pela manhã, renasce a esperança de que tudo esteja terminado. Afinal, ele não pode fazer isto comigo! Por causa dele, abdiquei de meus melhores possíveis momentos deste lindo mês de novembro. Logo eu, que adoro os preparativos de Natal, a decoração da casa, a festa, os amigos! Mas alguma coisa, lá dentro de mim, talvez meus ligamentos estourados, me diz que tudo já está sarado. E então, logo que volte à minha vida normal, quero falar da alegria de retomar estas simples atividades do dia-a-dia, aquelas que nos permitem gozar de pequenos prazeres indispensáveis.
sexta-feira, 30 de novembro de 2007
Por que no te callas?
Viva o Rei! Até que enfim alguém disse ao Chavez o que tantos têm vontade de dizer. Chavez é uma pornografia ambulante. È um atentado à estética, aos valores morais, aos bons costumes. Devia ser proibido para menores, e maiores, de 16 anos. Não me lembro de nenhum chefe de estado tão desclassificado. E Lula, ao defende-lo, expõe sua verdadeira face, que não tentamos não ver porque nos assusta.
Quantas vezes não tivemos vontade de soltar um “cala boca”? Quantas vezes ouvimos sandices, que agridem nossa inteligência, e temos que engolir? Quantas vezes somos obrigados a sorrir, quando a vontade é exatamente o contrário? A “boa educação”, ou talvez o “politicamente correto”, muitas vezes nos converte em ouvintes excessivamente tolerantes, inertes. E sempre me pergunto se isto é bom. Dizem que a incapacidade de reagir pode desencadear doenças graves ou nos transformar em “neuróticos tolerantes”.
Basta ligar a televisão que damos de cara com o Lula falando mal da “zelite”, dizendo que tudo está ótimo, que jamais houve um Presidente tão honrado quanto ele. E tudo dito num português capenga e naquela voz, que temo ainda termos que ouvir por muito tempo. Nestes momentos, vem, lá do fundo da alma, aquela vontade quase selvagem de repetir a ordem do Rei. E tem mais, muito mais. Qual de nós não teve vontade de soltar um “cala boca” quando aparece na tela o Galvão Bueno, a Marta Suplicy, a Xuxa, a Ideli Salvati, o Mercadante, e tantos outros? E ainda que recorramos ao recurso do MUTE, ainda fica a imagem, que nos lembra a realidade em que vivemos. E não tem sentido a gente, ao ligar a televisão, por medida preventiva, fechar os olhos e tapar os ouvidos.
Uma vez revistas nossas escassas possibilidades de fugir da negra realidade que assola o país, talvez nos reste imitar Pangloss e cultivar nosso jardim. A falta dele, podemos tomar um avião e tomar ares alhures, mas aí nos deparamos com os aeroportos. E nada lembra mais o caos em que mergulhamos do que eles. Então, sem jardim, sem aeroportos, sem estradas, talvez, como última solução, quem sabe, possamos escrever alguma coisa que ponha para fora nossa indignação, e nos evite adoecer.
É o que tenho tentado fazer.
Quantas vezes não tivemos vontade de soltar um “cala boca”? Quantas vezes ouvimos sandices, que agridem nossa inteligência, e temos que engolir? Quantas vezes somos obrigados a sorrir, quando a vontade é exatamente o contrário? A “boa educação”, ou talvez o “politicamente correto”, muitas vezes nos converte em ouvintes excessivamente tolerantes, inertes. E sempre me pergunto se isto é bom. Dizem que a incapacidade de reagir pode desencadear doenças graves ou nos transformar em “neuróticos tolerantes”.
Basta ligar a televisão que damos de cara com o Lula falando mal da “zelite”, dizendo que tudo está ótimo, que jamais houve um Presidente tão honrado quanto ele. E tudo dito num português capenga e naquela voz, que temo ainda termos que ouvir por muito tempo. Nestes momentos, vem, lá do fundo da alma, aquela vontade quase selvagem de repetir a ordem do Rei. E tem mais, muito mais. Qual de nós não teve vontade de soltar um “cala boca” quando aparece na tela o Galvão Bueno, a Marta Suplicy, a Xuxa, a Ideli Salvati, o Mercadante, e tantos outros? E ainda que recorramos ao recurso do MUTE, ainda fica a imagem, que nos lembra a realidade em que vivemos. E não tem sentido a gente, ao ligar a televisão, por medida preventiva, fechar os olhos e tapar os ouvidos.
Uma vez revistas nossas escassas possibilidades de fugir da negra realidade que assola o país, talvez nos reste imitar Pangloss e cultivar nosso jardim. A falta dele, podemos tomar um avião e tomar ares alhures, mas aí nos deparamos com os aeroportos. E nada lembra mais o caos em que mergulhamos do que eles. Então, sem jardim, sem aeroportos, sem estradas, talvez, como última solução, quem sabe, possamos escrever alguma coisa que ponha para fora nossa indignação, e nos evite adoecer.
É o que tenho tentado fazer.
quarta-feira, 21 de novembro de 2007
O mais sublime
Não se pode falar de amor sem referir-se ao belíssimo poema de São Paulo na Primeira Epístola aos Coríntos. Fala ele de caridade mas, conforme identificaram vários místicos, dentre eles Santa Teresa do Menino Jesus, refere-se ao amor, o mais sublime de todos os sentimentos.
Ainda que eu falasse línguas,
as dos homens e as dos anjos,
se eu não tivesse amor,
seria como bronze que soa
ou como címbalo que tine.
Ainda que eu tivesse o dom da profecia,
o conhecimento de todos os mistérios
e de toda a ciência,
ainda que eu tivesse toda a fé
a ponto de transportar montanhas,
se não tivesse amor,
nada seria.
Ainda que eu distribuísse
todos meus bens aos famintos,
ainda que entregasse
meu corpo às chamas,
se eu não tivesse amor,
isso de nada adiantaria.
O amor é paciente,
o amor é prestativo,
não é invejoso, não se ostenta,
não se incha de orgulho.
Nada faz de inconveniente,
não procura seu próprio interesse,
não se irrita, não guarda rancor.
Não se alegra com a injustiça,
nem se regozija com a verdade.
Tudo desculpa, tudo crê,
tudo espera, tudo suporta.
O amor jamais passará.
...........................
..............................
............................
AMOR- 1
Il passa!
...........................................................
Il parla:
..........................................................
Il m'aima:
..........................................................
Il partit: je devrais peut-être
Ne plus l'attendre et le vouloir;
Mais demain l'avril va paraître,
Et, sans lui, le ciel sera noir.
Lindo poema de Hélène Vacaresco, romena mas com grande produção em francês.
Aqui a mulher fala do homem que passa diante de sua casa, que lhe fala, que a ama, e que um dia parte. Ela sabe que não deveria estar tão aberta ao seu amor, que as belas palavras podem esconder o vazio,mas o que fazer se há sempre uma razão para amar?
E assim é o amor. Nós, mulheres, somos historicamente, reféns deste sentimento, que nos homens é ,digamos, mais racional. No seu livro “ La troisième femme- Permanence et révolution du féminin”, diz Gilles Lipovetsky, citando Nietzsche : “Le même mot “amour” signifie deux choses différentes pour l'homme et pour la femme.” E prossegue dizendo que enquanto para a mulher o amor significa renúncia, doação absoluta de corpo e alma, o mesmo não acontece em relação ao homem. Na verdade, ele quer possuí-la, a fim de enriquecer e aumentar seu poder. “ La femme se donne, l'homme s'augmente d'elle.”
Também Simone de Beauvoir falou sobre a disjunção dos sexos em relação ao amor, sobre a desigual significação deste sentimento maior para o homem e a mulher. E diz Lipovetsky : “Au masculin, l' amour ne se donne pas comme une vocation, une mystique, un idéal de vie capable d'absorber le tout de l'existence: il est plus un idéal contingent qu'une raison exclusive de vivre. Tout autre est l'attitude de la femme amoureuse, laquelle ne vit que pour l'amour et ne pense qu'à l'amour, toute sa vie se construisant en fonction de l'aimé, seul et unique but de son existence. “
E ele prossegue, citando Simone de Beauvoir, dizendo que, para muitas mulheres, o amor torna-se mais importante do que os filhos, a vida profissional e os deveres domésticos. Na verdade, a mulher é mais doadora, mais generosa, e daí se justifica a última estrofe do poema de Hélène Vacaresco: ele partiu mas eu o esperarei porque, afinal, o que significa a primavera sem ele?
No decorrer de minha vida, nas histórias que assisti se desenrolarem diante de meus olhos, nas que ouvi contar, há sempre aquelas de mulheres que se perderam de amor, que tudo arriscaram, que, destemidas, enfrentaram preconceitos e crueldades. Há sempre aquelas que tendo tudo arriscado, perderam e perderam-se nas trilhas obscuras traçadas por sociedades perversas e avessas ao amor. Lembro-me de histórias de romances como a de Ana Karenina, de Emma Bovary, e de Ana de Assis, paradigma real das outras duas, que viveu uma grande história de amor, em que ela foi a grande perdedora. Todas estas mulheres, Anas, Emmas, e tantas outras, jamais foram perdoadas,e passaram à história como traidoras, adúlteras, indignas.
Para todas estas mulheres, as que souberam amar, houve sempre o olho julgador da sociedade “ bem constituída”, formada por atores que desprezavam a vida, o prazer, a beleza, a alegria, enfim, gente que não sabia amar. Juízes incapazes de perceber a grandeza deste sentimento maior, que pode ter arrastado muitas de nós à ruína mas que sempre trouxe em si a marca de uma imensa capacidade de doação.
Ainda que eu falasse línguas,
as dos homens e as dos anjos,
se eu não tivesse amor,
seria como bronze que soa
ou como címbalo que tine.
Ainda que eu tivesse o dom da profecia,
o conhecimento de todos os mistérios
e de toda a ciência,
ainda que eu tivesse toda a fé
a ponto de transportar montanhas,
se não tivesse amor,
nada seria.
Ainda que eu distribuísse
todos meus bens aos famintos,
ainda que entregasse
meu corpo às chamas,
se eu não tivesse amor,
isso de nada adiantaria.
O amor é paciente,
o amor é prestativo,
não é invejoso, não se ostenta,
não se incha de orgulho.
Nada faz de inconveniente,
não procura seu próprio interesse,
não se irrita, não guarda rancor.
Não se alegra com a injustiça,
nem se regozija com a verdade.
Tudo desculpa, tudo crê,
tudo espera, tudo suporta.
O amor jamais passará.
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AMOR- 1
Il passa!
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Il parla:
..........................................................
Il m'aima:
..........................................................
Il partit: je devrais peut-être
Ne plus l'attendre et le vouloir;
Mais demain l'avril va paraître,
Et, sans lui, le ciel sera noir.
Lindo poema de Hélène Vacaresco, romena mas com grande produção em francês.
Aqui a mulher fala do homem que passa diante de sua casa, que lhe fala, que a ama, e que um dia parte. Ela sabe que não deveria estar tão aberta ao seu amor, que as belas palavras podem esconder o vazio,mas o que fazer se há sempre uma razão para amar?
E assim é o amor. Nós, mulheres, somos historicamente, reféns deste sentimento, que nos homens é ,digamos, mais racional. No seu livro “ La troisième femme- Permanence et révolution du féminin”, diz Gilles Lipovetsky, citando Nietzsche : “Le même mot “amour” signifie deux choses différentes pour l'homme et pour la femme.” E prossegue dizendo que enquanto para a mulher o amor significa renúncia, doação absoluta de corpo e alma, o mesmo não acontece em relação ao homem. Na verdade, ele quer possuí-la, a fim de enriquecer e aumentar seu poder. “ La femme se donne, l'homme s'augmente d'elle.”
Também Simone de Beauvoir falou sobre a disjunção dos sexos em relação ao amor, sobre a desigual significação deste sentimento maior para o homem e a mulher. E diz Lipovetsky : “Au masculin, l' amour ne se donne pas comme une vocation, une mystique, un idéal de vie capable d'absorber le tout de l'existence: il est plus un idéal contingent qu'une raison exclusive de vivre. Tout autre est l'attitude de la femme amoureuse, laquelle ne vit que pour l'amour et ne pense qu'à l'amour, toute sa vie se construisant en fonction de l'aimé, seul et unique but de son existence. “
E ele prossegue, citando Simone de Beauvoir, dizendo que, para muitas mulheres, o amor torna-se mais importante do que os filhos, a vida profissional e os deveres domésticos. Na verdade, a mulher é mais doadora, mais generosa, e daí se justifica a última estrofe do poema de Hélène Vacaresco: ele partiu mas eu o esperarei porque, afinal, o que significa a primavera sem ele?
No decorrer de minha vida, nas histórias que assisti se desenrolarem diante de meus olhos, nas que ouvi contar, há sempre aquelas de mulheres que se perderam de amor, que tudo arriscaram, que, destemidas, enfrentaram preconceitos e crueldades. Há sempre aquelas que tendo tudo arriscado, perderam e perderam-se nas trilhas obscuras traçadas por sociedades perversas e avessas ao amor. Lembro-me de histórias de romances como a de Ana Karenina, de Emma Bovary, e de Ana de Assis, paradigma real das outras duas, que viveu uma grande história de amor, em que ela foi a grande perdedora. Todas estas mulheres, Anas, Emmas, e tantas outras, jamais foram perdoadas,e passaram à história como traidoras, adúlteras, indignas.
Para todas estas mulheres, as que souberam amar, houve sempre o olho julgador da sociedade “ bem constituída”, formada por atores que desprezavam a vida, o prazer, a beleza, a alegria, enfim, gente que não sabia amar. Juízes incapazes de perceber a grandeza deste sentimento maior, que pode ter arrastado muitas de nós à ruína mas que sempre trouxe em si a marca de uma imensa capacidade de doação.
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