QUEM SOU EU

Sou professora de Francês, mas hoje minha principal atividade é escrever e ler, além de cuidar dos meus três vira-latas: Charmoso, Príncipe e Luther.



Gosto de fazer ginástica, sou vegetariana e adoro animais em geral, menos baratas.



Sinto especial prazer quando meus textos agradam aos meus leitores. Espero continuar produzindo e me comunicando com todos os meus amigos, neste maravilhoso universo da net.



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terça-feira, 6 de maio de 2008

“O mundo como vontade e representação”

Mãe coruja olha o gavião e implora-lhe: “Por favor, não devore meus filhinhos!” “Mas então, dona Coruja, como vou identifica-los? Minha natureza é de devorar presas fracas!” Ao que responde a mãe: “São lindos! Tenho certeza de que vai reconhece-los e encantar-se” E o gavião, no seu vôo à procura de presa, encontra um ninho, onde se acotovelam bichinhos horrendos: “Estes não podem ser os filhos de Dona Coruja!”. Ao voltar, a mãe desespera-se encontrando o ninho vazio. Procura, inconsolável, o gavião, chora, lamenta-se: “Como foi capaz de fazer isto?” E o gavião defende-se: “Mas dona Coruja, a senhora havia me dito que eram lindos!”.
“O mundo como vontade e representação” é uma grande obra de Arthur Schopenhauer, filósofo alemão (1788-1860). Foi publicada em 1818, e consta de quatro volumes. Confesso que não li, mas pretendo faze-lo logo que outras tarefas forem cumpridas. Interessei-me desde o título, e minha curiosidade ficou maior ainda ao saber da primeira frase com que Schopenhauer inicia sua obra filosófica: “O mundo é minha representação”.
Dona Coruja, se houvesse sido um pouquinho mais objetiva, teria salvado as vidas dos filhotes. Dizia um velho amigo, ateu, que somente um Ser seria totalmente objetivo, e este Ser seria Deus. E completava: “Como Deus não existe, a ninguém esta REALIDADE é accessível”.Para entendermos o mundo que nos cerca, o organizamos, estabelecemos valores, que são quase sempre culturais. Mas também partimos de nossa própria experiência. Resolvi falar deste princípio básico universal que rege nossas vidas, lembrando-me de uma história a que assisti há muito tempo. Um amigo muito lindo havia, segundo me contaram, encontrado uma noiva igualmente linda, modelo fotográfico, de carreira bem sucedida. Acreditei, não havia porque duvidar. Enfim, algum tempo depois, acabei conhecendo a garota. E fiz uma constatação: aqueles que a julgaram linda, modelo fotográfico, com uma bela carreira, simplesmente não a viram, mas sim “a namorada do rapaz lindão”, conseqüentemente, ela também lindona. Aos poucos a história foi sendo desmontada, até que do início não havia sobrado quase nada.
A cada momento, estamos criando sobre o mundo que nos cerca, pessoas ou objetos, alguma representação, uma imagem que obedeça a nossos valores culturais ou pessoais, às nossas expectativas, ou vontade. E ainda, estamos, permanentemente, criando alguma representação de nós mesmos. Há momentos em que somos poderosos, corajosos, transgressores, ou obedientes. Há momentos em que montamos uma imagem de vítimas. E, afinal, quem somos de fato? Os que têm poder usam estas múltiplas representações para manipular. Quando Francisco Weffort compara Lula à “metamorfose ambulante”, está expondo uma estratégia de que afinal todos nos servimos. O que choca no Presidente é que esta estratégia não obedece a nenhum princípio ético ou estético. O homem é um dia protetor do MST, e no dia seguinte abraça Blairo Maggi, Governador do Mato Grosso e maior produtor de soja do mundo, já apelidado de “Estuprador da Floresta” Ao lado do “estuprador”, Lula fala mal do Conselho Missionário Indigenista, da Pastoral da Terra, até ontem seus aliados. E é claro dos ecologistas. Um dia acha normal a “bolsa ditadura” e no outro elogia Médici. Durante anos, Lula foi o operário honesto, libertário, corajoso. Acreditamos nessa representação, não tínhamos porque duvidar. E como na história da noiva de meu amigo, descobrimos uma outra “realidade”. Mas afinal, quem é o verdadeiro Lula, ou a verdadeira noiva? Não sabemos. O que sabemos, seguramente, é que aquilo em que acreditávamos era uma imagem montada por eles, ou por outros. Quem sabe, no caso de Lula, por nós mesmos, ávidos por respirar liberdade? Se não temos acesso à realidade substancial que nos cerca, o que nos resta é optar pelo consenso, referente à parte mais esclarecida de nosso universo cultural. Hoje sabemos, que pena, que Lula não é o operário libertário em que acreditávamos, apesar de sua popularidade. E nem a noiva do bonitão é tão lindona e bem sucedida.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Isabela e todos os outros.

O assassinato de Isabela nos fez esquecer a menina torturada de Goiânia. Como já havíamos esquecido o menino estraçalhado, arrastado pelos bandidos, como já havíamos esquecido o brutal assassinato do casal de namorados em São Paulo (aliás, alguém ainda se lembra?), como já havíamos esquecido o garoto nissei, morto por funcionários de seu pai, que, aliás, de tudo faz para que jamais esqueçamos a tragédia. E por que será que nos esquecemos tão facilmente? Porque um caso terrível atropela outro, que atropela outro, e outro? Nossa memória, simplesmente, não consegue armazenar tudo? Não quero dizer que em outros países não haja violência. O que nos choca por aqui é a banalização, com os “di menor” sem nenhuma punição e livres aos 21 anos de qualquer mancha na sua ficha, com assassinos pagando as vidas que tiraram com cestas básicas, e até com lições de cidadania. Há cerca de uma semana, um bêbado matou uma família inteira, mãe e dois filhos, negou-se a fazer o teste do bafômetro, e saiu livre. Afinal são seus direitos de cidadão! Ficou para o pai a dor indescritível da total perda. Soube que alguns dias depois, o bandido foi preso. Babaca, devia ter fugido e logo seria esquecido. Mas também sei que logo será liberado. Outro, aliás, com antecedentes criminais como traficante, durante um “pega”, matou três ou quatro mulheres. Como não foi preso em flagrante, pagou fiança e foi para casa. Alguns dias depois, o delinqüente foi preso, mas já está solto novamente, beneficiado por algum destes instrumentos jurídicos feitos para favorecer a bandidagem. E estou certa que vai pagar sua pena com cestas básicas.
O assassinato de Isabela nos choca porque, ao que tudo leva a crer, foi executado pelo próprio pai. Ou pelo menos foi ele que a jogou pela janela. E é gente que pertence à classe média, onde não se supunha – quanta inocência- que não ocorresse este tipo de monstruosidade. Isabelas existem aos montes, nas camadas mais pobres, vítimas do alcoolismo, das drogas, do abandono. E quase sempre são os próprios pais os responsáveis. Ouvimos nos noticiários, lemos nos jornais, mas toda esta podridão tornou-se corriqueira. Talvez, quem sabe, por algum mecanismo psicológico, esqueçamos, porque não há como viver no meio de tanta sujeira. Como suportar a imundice nossa de cada dia se armazenarmos tanta coisa? E ainda há todo tipo de safadeza política, onde se acumulam os casos de bandidagem e só uns poucos (dá até uma pontinha de pena do Bejani!) são penalizados. Dizem que fomos mal colonizados, que aos portugueses jamais ocorreu formarem um verdadeiro país, mas que estavam somente preocupados com nossas riquezas. Assim, não elaboramos uma ética do trabalho, do progresso, e nem da justiça. Mas agora é tarde, não podemos voltar no tempo, escolher outros colonizadores, etc. O que podemos é escolher melhores governantes. Sentirmo-nos parte efetiva de uma sociedade. Se fomos capazes de levar adiante movimentos como “Diretas Já” e “Fora Collor” por que não podemos agora tentar mudar alguma coisa? Exigindo mudanças no Código Penal, no mal-fadado Estatuto do Menor e do Adolescente, e em tantas e tantas outras coisas? Nós, que fazemos parte da camada esclarecida da população?
Por que, se não for possível mudar o que vemos todos os dias, que tal repetirmos aquela antiga piada do tempo da ditadura: “Por favor, o último a sair, apague as luzes do aeroporto”.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

ECOS DO PASSADO – II

Minha avó, na verdade, não calculou mal o passo que dava ao casar-se com um desconhecido. Ela simplesmente deixou-se levar pela paixão. Conceição, como Ana de Assis, aquela que viveu a tragédia do assassinato de Euclides da Cunha, são paradigmas reais de mulheres, que homens geniais, como Dostoiesky e Flaubert, profundos conhecedores da alma feminina, e também dos descaminhos românticos por onde eram encaminhadas, descreveram nas histórias de Anna Karenina e Emma Bovary. Eram mulheres alimentadas pelo sonho romântico, do príncipe encantado, do amor sem limites, sem razão, sem tréguas. Creio que a história de minha avó vale, sobretudo, como ilustração de um tempo, de uma mentalidade, onde não havia lugar para mulheres que quisessem ser alguma coisa mais do que mães de família.
Dizem que era uma mulher inteligente, sedutora, capaz de levar uma conversa com os amigos masculinos, que não gostava das mulheres que freqüentavam a sociedade tacanha de Uruguaiana. Gostava de ler, de música, de divertir-se. E era mal vista. E ainda foi mais mal vista pelas cunhadas, que não achavam conveniente seu comportamento. Mas ela pouco se importava. Tudo isto me contou uma velha prima, que havia ouvido de sua mãe, uma das cunhadas de Conceição. Foi mãe jovem, provavelmente dedicada, mas não ao ponto que se exigia de uma mulher bem comportada. Ela gostava de sua vida, SUA vida, com seus livros e suas músicas suas conversas inconvenientes para uma senhora de sua condição social. Encontrou no seu ator, possivelmente garboso, aquele príncipe de seus romances, e apaixonou-se.
Mas foi em Porto Alegre, depois da volta do Rio de Janeiro, onde fora tentar recomeçar sua história de paixão, que ela se deu conta do que realmente lhe acontecera. A filha que tivera com seu homem já havia morrido, e de forma trágica – falo dela em “Morte na aurora” - o dinheiro, depois da morte da mãe, tornava-se escasso, por mau gerenciamento dos irmãos. Sua herança fora desperdiçada, e seus filhos a censuravam. Na necessidade foi pianista em bares e restaurantes, ela que havia se apresentado ainda bem jovem no famoso teatro São Pedro, em Porto Alegre, um dos mais belos do Brasil.
No entanto, ainda conservava antigas amizades. E, como era mulher inteligente e interessante, sua presença era valorizada, ainda que ninguém lhe oferecesse trabalho, o que era considerado ultrajante para uma mulher de sua classe. Contava minha mãe que, nestas ocasiões, colocava as poucas jóias que ainda lhe restavam, o seu melhor vestido, arrumava-se como uma dama, que realmente era, e ia ao encontro dos velhos amigos do passado, que, ainda que conhecessem sua história, tinham por ela grande carinho. Assim, encaminhou seus dois filhos menores, meu pai e meu tio Armando, para a carreira militar, onde tiveram belas trajetórias. E disto falo depois. O filho mais velho, que sempre detestou o padrasto, tornou-se funcionário público, tendo tido uma vida extremamente atribulada. Onofre, o segundo, era deficiente mental.
Aos poucos a vida, ou a morte, foi-lhe tirando os velhos amigos, tornou-se descuidada com a aparência. Sua situação financeira era desastrosa e creio que os filhos a ajudavam. Vendeu o casarão da família, que até pouco tempo ainda estava de pé, no bairro da Glória em Porto Alegre. Passava os dias lendo e tocando piano, meio indiferente a tudo.
Nunca mais havia tido notícias de seu homem, até que, muitos anos depois, veio a saber, não sei como, que ele morrera no Rio, totalmente arruinado. E fora enterrado com indigente.
Minha avó morreu aos cinqüenta e nove anos, de câncer.
Mas havia vivido mais de cem. E viva as mulheres que não se conformaram com sua condição subalterna de fêmeas. Pagaram caro pelo seu “pecado”, mas é graças a elas que hoje somos mulheres livres. Capazes de escolher nossos caminhos e nossos homens. Mas hoje, acima de tudo, somos conscientes, de que não vale a paixão sem a independência econômica. A única que nos permite a verdadeira liberdade e, quem sabe, a paixão.

domingo, 6 de abril de 2008

LULA OU “A METAMORFOSE AMBULANTE”

“Metamorfose ambulante” faz parte, ou é título, de música de Raul Seixas. Foi lembrada por Francisco Weffort, fundador do PT, por ocasião do “vale tudo” sindical, promovido por Lula. Weffort desligou-se do partido há muitos anos, quando aceitou o convite de Fernando Henrique para ser Ministro de Cultura. Naquele tempo, o PT era o partido dos “puros”, como os Jacobinos da Revolução Francesa, que acabaram na guilhotina. Não desejo mesma sorte aos petistas, mesmo porque não há mais guilhotina. Mas naqueles tempos de pureza (não os da Revolução Francesa), não se admitia NENHUM acerto com partidos considerados conservadores. O mesmo expurgo já havia acontecido com Luíza Erundina.
Pois o que vemos agora é um festival de metamorfoses sem-vergonha. Sei, por minha própria experiência, o quanto a gente muda ao longo da vida. São mudanças sutis, que ela nos ensina, e que ocorrem pouco a pouco. E disto já falei anteriormente. O que estarrece agora é a desfaçatez com que o homem e seus asseclas renegam, pelas piores razões, tudo em que acreditaram um dia, há tão pouco tempo. E é sempre para pior. Porque todo mundo conhece a sem-vergonhice do peleguismo fisiológico (desculpem-me a redundância). Fiscalizar um dinheiro que é “doado” pelo trabalhador é dever do Estado, ou melhor, do TCU, que representa a sociedade. Mas, como determinou Lula, continuamos nos tempos do peleguismo getulista, montado também para favorecer o ditador, creio que ainda durante o famigerado Estado Novo. Peleguismo que compra os chefes sindicais e assegura votos. “Recebam e façam o que quiserem com o dinheiro. Mas assegurem o apoio a mim”.Há dirigentes sindicais que vivem vidas de rico, como o que chega ao trabalho no “Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil” a bordo de uma Mercedes. E há ainda dezenas de outros exemplos escandalosos. Joaquinzão era, nos anos 70, um líder sindical que se dava muito bem com a ditadura e dela se beneficiava, além de obter para o governo de então o apoio de seus sindicalizados metalúrgicos. E Lula era contra, com toda razão. Agora mudou de “idéia”.
Mudou também em relação à CPMF, ao contato indecoroso com partidos de direita (e que direita!), como PP, PTB- criação do General Golbery –o PMDB fisiológico. E alguns outros, criados ”ad hoc”, para garantir votos ao governo. Já beijou as mãos impolutas de Jarder Barbalho, e um dia desses defendeu Severino e Renan. Isto porque sabe que ambos têm votos daquela população ignorante do Nordeste, aquela que recebe a “Bolsa família” e que o considera um paizão. E que nunca, já que este não é o projeto do governo, sairá da pobreza.


E por falar em pobreza, lembrei-me do Ziraldo, aquele pobre jornalista, defensor de nossos direitos democráticos, que, a título de “indenização” vai receber mais de um milhão de reais e ainda uma pensão vitalícia de quatro mil e tantos reais. Ele e mais alguns iguais a ele. E não podemos jamais esquecer a lapidar frase do heróico Ziraldo: “Eu quero que morra quem está criticando. É tudo cagão”.
Fernando Gabeira, que foi preso e torturado, não quer indenização. O jornalista Raimundo Pereira, fundador do extinto jornal “O Movimento”, um dos maiores opositores da ditadura, “disse que nunca reivindicou indenização, por não considerar justo ser ressarcido”.(O Globo)
Felizmente, há gente como Gabeira e Raimundo Pereira. Mas, que pena, também existem os Joaquinzão, Ziraldo, Lupi, etc. E isto sem esquecer o chefe.

E viva a Bolsa Ditadura!

Uma amiga pediu-me o segundo capítulo da história de minha avó. É triste, e mais ainda porque foi censurada, desprezada a vida inteira por ter amado demais. E diante de tanta pornografia como as que venho de descrever, só me resta contar a sua história e redimi-la. Logo vou voltar à sua triste e injusta vida de mulher de um tempo, que, felizmente, já acabou.
Mas será que não foi substituído por outro, tão sem-vergonha e hipócrita quanto aquele antigo?

domingo, 30 de março de 2008

ECOS DO PASSADO -1

Minha avó Conceição, mãe de meu pai, foi uma mulher que merece ser lembrada, ainda que quase nada se fale dela na família. Conceição foi quase esquecida e dela não restou nenhuma foto jovem. Não sei como se parecia. Foi uma mulher que viveu fora de seu tempo, que ousou, mas cuja ousadia, infelizmente, não teve o respaldo da variável econômica, aquela que, segundo Marx, condiciona todas as outras. Ou seja, minha avó não tinha, como todas as mulheres de sua época, independência econômica, a única que nos permite total liberdade.
Pertencia, por parte de mãe, a família tradicional paulista, Almeida Prado. Seus antepassados haviam migrado para o sul do país, para estabelecimento de estâncias, numa época em que as terras devolutas abundavam. Por lá se fixaram, mas formaram uma espécie de elite fundiária, onde se falava francês, comia-se em pratos de porcelana inglesa e tomava-se vinho ou água em recipientes de cristal. A região era a da fronteira oeste do Rio Grande do Sul, rústica, que tem a vizinhança da Argentina. Uruguaiana deveria ser na época uma cidadezinha totalmente insignificante, - e ainda é-, mas por onde corria muito dinheiro, oriundo, sobretudo, da venda de gado.
Nada sei do pai de minha avó, a não ser que tinha o sobrenome Noronha. É figura totalmente apagada. Já a mãe, parece que viúva bem jovem foi uma mulher enérgica, que dirigiu os negócios da família com mão firme e morreu relativamente cedo. Sendo Buenos Aires mais próximo do que Porto Alegre, Conceição criou-se freqüentando a capital argentina, indo a teatros, assistindo a concertos, havia estudado piano desde criança com professores importados de Porto Alegre. Falava espanhol fluente, o que não é tão raro por aquelas bandas. Mas também lia francês e inglês. E lia sofregamente tudo que lhe caia nas mãos, romances, livros de divulgação, almanaques. Tenho dela, uma única lembrança, folhetins de “La mode illustrée”, que contam histórias de amor em capítulos, cuidadosamente colecionados e belamente encadernados, vindos diretamente de Paris.
Conceição casou-se cedo com o filho de um estancieiro. Chamava-se Felippe, era o pai de meu pai. Tiveram quatro filhos, todos homens. Mas Felippe morreu cedo, aos trinta e três anos. Deixou-a viúva aos vinte e nove anos. E ávida por viver. E foi assim, pouco tempo depois de viúva, que conheceu um ator. Creio que foi em Porto Alegre, já que o dito fazia parte de uma companhia de teatro portuguesa, de cujo nome jamais me esqueci: “Maria Malta”. E apaixonou-se perdidamente. Por ele enfrentou a família, o filho mais velho, os amigos, os preconceitos. Imaginem só! Casaram-se, apesar de tudo. Foram morar em Porto Alegre. Logo depois, ela engravidou e teve uma filha, Maria, que morreu aos doze anos, uma história que já contei aqui. O que Conceição não sabia é que seu homem era um ex-alcoolatra, que pouco tempo depois voltou ao vício. E aí se instalou o inferno na sua vida. Censurada por todos, pela família, pelos amigos e, sobretudo, pelos filhos, ela decidiu separar-se do único homem que amara de fato. Ele voltou para o Rio, para sua Companhia de teatro. Algum tempo depois, sem conseguir superar a paixão, Conceição, acompanhada de um filho doente, seguiu para o Rio. Lá viveu algum tempo, até que não pode mais suportar e voltou para o sul.

O resto da história, eu conto depois.

terça-feira, 25 de março de 2008

Uma nova pedagogia

Crianças malcriadas, desobedientes, ladinas. Crianças que não estudam, que põem a língua de fora, que não respeitam os mais velhos. Muito se tem falado sobre a educação permissiva, de inspiração rousseauista, que tem trazido enormes prejuízos às nossas crianças. Muito se tem discutido, com a presença de especialistas, pedagogos, psicólogos, sociólogos, etc. Então, de repente, assim, surgindo do nada, ficamos conhecendo uma tal Sílvia Calabrese, pedagoga, podemos dizer inovadora, que, com a ajuda de seu lugar-tenente, introduziu uma nova metodologia educacional: “Educação pela tortura”.
Aliás, esta prática educacional já conhecíamos há tanto tempo! Podemos começar na Antiguidade, quando os cristãos eram lançados aos leões famintos, ou queimado vivos. O objetivo, Dra. Sílvia agora nos esclarece, daquilo que, durante dois mil anos, consideramos pura crueldade, era impedi-los de seguir o mau caminho, daquele maluco lá da Palestina, que pregava o amor e o desapego aos bens materiais. Afinal, Nero preocupava-se com a idéia de progresso que não via nos mandamentos do judeu. O Império, na verdade, só queria que os cristãos se assustassem, talvez se chamuscassem um pouquinho, e levassem uns arranhões das feras famintas. Mas os educadores erraram a dose – não havia tecnologia adequada -, e acabaram passando à História como bestas perversas. E só agora, graças à Dra. Sílvia descobrimos as boas intenções que cercavam aqueles atos, que nos horrorizam.
E ainda durante a Inquisição, quanta bondade! Torquemada e seus asseclas, especialistas em todo tipo de “pedagogia” –porque de agora em diante sinto um certo constrangimento em falar rasgadamente em TORTURA – só queriam (e até confessaram claramente e nós não entendemos) salvar pobres almas hereges das chamas do inferno. Porque as chamas acessas pela Igreja Católica eram repletas de bondade educativa, assim como todos aqueles castigos, como fazer o perverso engolir chumbo derretido, eram medidas pedagógicas, que tinham o objetivo cristão de EDUCAR, se não para esta, para a outra vida, onde o herege já entrava com os dois pés – se ainda tivesse algum – no Paraíso. E vejam que ficamos séculos xingando a Santa Inquisição, até que a Dra. Sílvia nos trás a luz.
Para falar de fatos mais recentes, passando por cima dos objetivos educativos dos Nazistas, tivemos a oportunidade de tomar conhecimento dos métodos pedagógicos empregados por aquele que considerávamos um monstro – o Delegado Sérgio Paranhos Fleury-, cuja morte, ainda que a Igreja nos acenasse com o castigo do pecado mortal, comemoramos, sobretudo tendo em vista a forma como foi desta para a melhor: afogamento. Agora, com os esclarecimentos da Dra. Sílvia, já me sinto meio culpada de ter comemorado a morte do “monstro”. Porque estou confusa e já nem sei se é monstro ou Educador. Quem sabe, o Dr. Sérgio, como a Dra. Sílvia, não tentavam formar cidadãos cheios de patriotismo, amor aos fracos, generosidade impar? Dr. Fleury, com seus afogamentos, por exemplo, pode ter querido exercitar aqueles ingratos a sobreviverem à cheias, que inundam nossas cidades nas chuvas de verão. Pode ser que quisesse transforma-los em heróis, capazes de salvar crianças e velhos de afogamentos. Há tanta coisa que não sabemos, que julgamos mal!
Dra. Sílvia ao cortar com alicate a língua da perigosa criança que tinha sob sua guarda, tenho pensado nisso, talvez quisesse impedi-la de dizer palavrões, usar palavras de baixo calão, ou falar um péssimo português, o que ouvimos todos os dias. Ao esmagar seus dedos na porta, pretendia impedi-la de roer as unhas, já que não haveria mais unhas. Ao pendura-la pelos braços e expô-la ao sol, tenho pensado que talvez quisesse fazer-lhe um alongamento prolongado, evitando a postura encurvada das adolescentes. Quanto ao sol, era para lhe dar uma bela cor de verão.
Dra. Sílvia e seu lugar-tenente, se este fosse um país justo, com oportunidades para todos, deveriam estar ensinando a outras detentas seu método pedagógico, evidentemente colocando à disposição das outras seus próprios corpinhos. Quanto ao marido, deveria fazer companhia aos outros detentos que conhecem um método infalível para educar gente como ele.
Que pena que este não seja um país decente!

E como já disse uma vez, odeio o politicamente correto.

quarta-feira, 19 de março de 2008

MEUS ANOS VIVIDOS- 2

Há um ano, no meu aniversário, ou melhor, alguns dias depois, escrevi sobre os anos decorridos e sobre o que a vida me havia ensinado. Hoje, com mais um ano vivido, retorno, com uma semana de atraso, para compartilhar com meus amigos este trajeto, cujo começo já ficou longe. E cujo fim, infelizmente, já começa a se aproximar, apesar de todos os meus esforços. Digo isto sem mágoas, amo a vida e agradeço a Deus tudo que Ele me deu, de bom e também de mal. Como diz minha amiga Regina, há dias de sol e dias de chuva.
De todos estes anos vividos, talvez meu maior e mais precioso aprendizado tenha sido a consciência de minha liberdade, condição essencial de todo ser humano. É nossa capacidade de determinar, de escrever nossa história, de fazer-se ela, de ser o que cada um de nós é. Um ser único, inimitável. É o nosso delito humano, a que estamos irremediavelmente condenados. Não se trata de repetir Sartre, mas de constatar, de aprender o que a vida ensinou. Dizer que nascemos e morremos sozinhos, já é meio rotineiro. Todo mundo tem, ou devia ter consciência disso. Do que ninguém fala é de nosso irremediável isolamento pela vida afora, fruto de nossa irremediável liberdade. E repito que não há mágoa nesta constatação Não acho , como Sartre, no seu terrível pessimismo, que o outro seja o inferno. Ele é simplesmente o outro. Tem suas paixões, seus anseios, secretos ou não, vive seu inferno ou seu céu. Só dele. Posso compreendê-lo, aplaudi-lo, compartilhar, mas jamais poderei saber o que realmente lhe vai à alma. Posso amá-lo, meu filho, ou meu amante, mas ele ainda será a ilha de que falava Hemingway , assim como eu. E ainda que ele me conte, de coração aberto, sem nenhuma reticência, olhos nos olhos, tudo que atormenta ou enche de felicidade seu ser, minha leitura será sempre a minha, a que minha experiência, meus sonhos, enfim EU, poderei fazer. É a minha, única, inimitável, e a dele é a sua, igualmente única, inimitável. A dor que, no decorrer da vida, corroe meu coração é só minha, está impregnada da minha história, que é só minha, e que eu escrevi com minha liberdade.
O amor, muitas vezes, leva à decepção (quanta tolice!), quando constatamos que o outro não reage da forma que esperamos. O amor é livre, como todo sentimento, não pode se amarrar, disciplinar. Amor é, ao mesmo tempo, cumplicidade e liberdade. Ama-se como se pode, ou como se quer. E por esta razão é tão absurda, entre tantas outras, aquela preleção nos casamentos de que doravante marido e mulher serão um só corpo e uma só carne. Isto sem falar de seu aspecto meio esquizofrênico. Amar é ser livre, dar liberdade, saber cultivar sua ilha, e respeitar a do parceiro.
E agradecerei sempre a Deus poder dizer como é maravilhosa esta liberdade, com todas suas conseqüências, que cultivamos, eu e meu companheiro tão amado, cada dia, cada momento vivido. São nossas vidas, unidas e livres, voando acima das convenções, e sempre cultivando nossos projetos pessoais.