QUEM SOU EU

Sou professora de Francês, mas hoje minha principal atividade é escrever e ler, além de cuidar dos meus três vira-latas: Charmoso, Príncipe e Luther.



Gosto de fazer ginástica, sou vegetariana e adoro animais em geral, menos baratas.



Sinto especial prazer quando meus textos agradam aos meus leitores. Espero continuar produzindo e me comunicando com todos os meus amigos, neste maravilhoso universo da net.



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quinta-feira, 24 de julho de 2008

Meu ombro direito

Há algum tempo, escrevi sobre minhas desventuras com meu pé esquerdo. Já era a terceira vez que me dava problemas. Felizmente, com os ligamentos mais ou menos recuperados, estou de volta às minhas atividades. Aliás, já faz bastante tempo. Acho que desde de dezembro. Só que agora, vítima das mais variadas luxações transitando por meu corpo, instalou-se uma tendinite no ombro direito. E lá estou eu de volta às sessões de fisioterapia.
Já me sinto em casa. Freqüento a clínica desde 2002. Primeiro foi o pé esquerdo, algum tempo depois, novamente o tornozelo esquerdo, depois o joelho direito, novamente o tornozelo esquerdo, e agora o ombro direito. Tornei-me conhecida, e até querida: “Então, você aqui de novo!” Ninguém ainda me disse que sentiu saudades de mim, mas no fundo acho que ficam apostando quanto tempo vou permanecer afastada. Há inegavelmente algumas vantagens, como a ficha que não tenho que fazer, as conversam de amigo para amigo com os que cuidam de mim. Falamos de meus bichinhos, do shopping, do meu novo estilo de cabelo. Além disso, como se trata de ombro, não preciso de me arrastar, posso apresentar-me elegante, o que é tão importante para mim. E levar uma vida normal, passeando com Tilinha, indo ao restaurante, fazendo compras. É claro que não faço exercícios para os braços e preciso de ajuda dos professores e amigos para pegar os pesos das pernas.
As terríveis bolsas de gelo foram trocadas por bolsas de água quente, mas na clínica tenho que suportar a dor daqueles aparelhos de dão um puxão, acompanhados de uma temida bolsa de gelo, que alguns dias atrás quase me enregelou. As conversas continuam as mesmas, é engraçado, basta às pessoas entrarem numa sala de fisioterapia para pensarem em tendões, ligamentos, fraturas, etc. Ninguém fala da novela, quem seria afinal a assassina e se Donatela é pior, ou melhor, do que a outra. Ou xingar o Lula, o Dantas, o Greenhald. Levo sempre um livro, mas basta abri-lo para começar a ouvir os velhos papos. E ainda não consegui misturar ligamentos com Barack Obama. Ou Saint-Just, o enfezado jacobino, que deve ter tido todo tipo de desligamentos, já que teve a cabeça cortada.
Hoje cedo, quando tomávamos café, vimos uma propaganda interessante e que talvez explique minhas aventuras fisioterapeutas. Era de um tal Crecin, que tinge o cabelo deixando-o com cor de pêlo de rato. Dizia, mostrando primeiramente cenas dos anos 70: “Aquela geração que achava que não envelhecia, afinal chegou lá”.E aí pareciam eles hoje. Mas, afinal, os coroas se apresentavam em ótima forma, gatões de meia-idade, todos surfando, capazes de fazer inveja em muito garotão. Fiquei pensando e Ricardo, como que advinhando meus pensamentos acrescentou: “Foi a nossa não é?”
Será que a carapuça está me servindo? Também eu pensei que nunca envelheceria?

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Meu porteiro e os milhões da VarigLog

Meu porteiro chama-se Bruno. Tem cerca de 21 anos. Trabalha durante todo o dia e estuda à noite. É claro que Bruno não conhece nada do caso Varig -VarigLog. Acho que nunca ouviu falar nisso. Bruno é um dos milhões de brasileiros que, provavelmente, votou no Lula – como, aliás, eu mesma, excetuando a última eleição – e também, muito provavelmente, acredita no homem. Deve acha-lo um semelhante, ouvindo Lula dizer aquele mundo de besteiras, de palavras chulas (Bruno, pelo menos diante de mim, jamais disse coisas inconvenientes, enquanto o chefe as diz diante de toda a nação). E ainda vê todo dia aquela cara do chefe, de pobre coitado.
Mas, afinal, o que tem a ver o caso da Varig com meu porteiro? Confesso que tive que ler mais de uma vez (agora mesmo estou relendo) a reportagem onde se conta toda a transação obscura da venda da Varig e da VarigLog. Como tudo que é obscuro, a história é cheia de meandros, de atalhos, de personagens que parecem ter saído de um romance policial, daqueles que a gente comprava em bancas de jornal. Tem um chinês, que é nascido lá, mas viveu aqui e agora é testa de ferro de um grupo americano. Um milionário com cara de bocó, que ninguém pode acreditar que tenha toda a fortuna declarada. Nem Denise Abreu acreditou nisso. Tem umas mulheres feiosas, com cara e roupas caipiras, bem ao estilo dona Marisa, e um advogado com pinta de metalúrgico – nada contra a categoria! Até aí, nada de extraordinário, sobretudo para nós, acostumados a assistir aos mais inusitados espetáculos de falta de ética e de estética. Mas o que é de dar medo é que, ao final da briga pela compra da Varig, venceu a Gol, cujo advogado, Roberto Teixeira, é compadre do chefão. Ou seja, venceu a companhia que oferecia 418 milhões de dólares a menos do que a TAM. Por que será? E para quem terá ficado toda esta dinheirama, já que não somos tão idiotas em acreditar em jogo limpo?
Falei tudo isto para contar minha história com Bruno, um pobre brasileiro, que trabalha o dia inteiro e estuda à noite, na esperança de melhorar sua renda, que deve ser pouco maior que um salário mínimo. “Bruno, você já imaginou o que significam 418 milhões de DOLARES?” – perguntei-lhe. Foi como se eu tivesse feito uma pergunta em aramaico. Coitadinho do Bruno! “O que a Senhora disse?” Repeti a pergunta. “Sabe, eu não consigo imaginar nem um milhão de reais!” - “Pois bem, Bruno, alguém, não sei quem, ou quem(s), papou 418 milhões de Dólares”. A princípio, tentei estimular o garoto a imaginar quantias elevadas. Estabelecemos uma brincadeira. - “E então, Bruno, já conseguiu?” E ele com aquele jeitão mineiro: - “Num dá nem pra começar”. Acrescentei à nossa brincadeira um processo pedagógico, que já dura alguns dias. - “Então, vamos lá, vai ser aos poucos. Vamos começar com os primeiros números: 4, por exemplo. O que você compra com 4 reais?” “E com 4 dólares?” Aí, ele já se complica. Dou o valor em moeda americana. - “Tudo isso? Aí eu já comprava um queijinho, salame, e manteiga”. – “Não exagere Bruno, tudo está mais caro. Agora vamos acrescentar 1, e temos 41”. “É muito Bruno?”- “Nem tanto, mas já melhora muito”. - “Então pensa no que poderá comprar com 41 reais e depois com cerca de 70, já que estamos falando de dólares”. Todos os dias pergunto-lhe - “E aí, já deu para imaginar 418 milhões de dólares?” Bruno ri. Faltam-lhe alguns dentes, é um menino pobre, trabalhador.
Não quero cansa-lo, já que conheço a dureza de sua vida. Hoje, chegamos aos 418, assim, sem nenhum zero, e em reais. Talvez seja tudo que ganha por mês. Amanhã, estava pensando em converter em dólares. Não sei exatamente a cotação, mas acredito que chegue a cerca de 680 reais. Depois disso, não sei se vou conseguir ir em frente. Talvez, eu deva recomeçar e mostrar tudo em reais. E parar no primeiro zero. Mesmo porque, eu também fico meio desvairada com tantos milhões. Aí, então, ficaremos nos 4.180 reais, uma quantia que Bruno só conseguirá juntar depois de trabalhar um ano.
Nosso jogo recomeça todos os dias, quando saio para a minha ginástica. Faz frio, Bruno está encolhidinho, chegou às seis horas. - “E aí, Bruno, já consegui algum progresso?” Ele ri: - “Nada, nem meu professor conseguiu!”
Estou como Bruno, e como seu professor, não consigo imaginar esta soma, que eles conseguiram abocanhar tão facilmente!

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Meu amigo Kiko.

Kiko se foi, que pena! Não posso pensar nele sem tristeza, sem me lembrar de sua patinha esquerda - acho que era canhoto - estendida para mim, cumprimentando-me alegremente. Kiko me reconhecia, saltava à minha volta, feliz, sabia o quanto eu havia feito para salvá-lo da maldade dos outros e me agradecia. Depois daqueles anos de rua, onde possivelmente sofrera o que sofre todo pobre cachorro de rua, Kiko foi amado. Meu amiguinho se foi, e imagino que deva estar ao lado São Francisco, estendendo a patinha esquerda para todos, Santos e animaizinhos que cheguem perto de seu grande amigo.
Foi há alguns anos. Teresa, minha irmã, e eu o encontramos numa noite fria. Cachorro de porte médio, pelo cor de mel, meio escasso. Deitava-se de forma estranha como se quisesse cobrir uma parte do corpo que lhe fazia mal. Cuidadosamente, para que não se assustasse, acariciamos sua cabeça, e seu olhar carinhoso nos impressionou. Mas percebemos um pedido de socorro, que só aqueles que amam os animais conseguem ver. Aos poucos, fizemos com que se virasse um pouco e constatamos, horrorizadas, que a parte direita de seu corpo estava coberta por uma só chaga, uma bicheira havia tomado conta de forma assustadora. Não podíamos voltar para casa, sem fazer nada. Com a ajuda do celular, localizamos um amigo que o levou para uma clínica, a única que o aceitou já naquela hora tardia. E naquelas condições! Kiko passou várias semanas em tratamento, teve que sofrer uma pequena cirurgia. Quando saiu, estava completamente restabelecido. Lindo, feliz! Foi adotado por uma família, que lhe deu o nome de Kiko. Gente simples, mas com imensa grandeza de alma, coisa que não se encontra facilmente.
E Kiko foi levando aquela vidinha de cachorrinho feliz. Seu maior amigo era Michael, filho menor da família. Mas também era amigo de todos os outros meninos da rua, com quem brincava. Conhecido por crianças e adultos. A todos estendia a patinha, seu sinal de amizade. Era como se dissesse: “Olá, amigos, como estão? Eu me sinto na melhor das formas”.Às vezes fugia, ia para casa de vizinhos, ou dava passeios mais longos. Mas logo voltava para a família que, afinal, era a sua.
Kiko morreu, como morrem todos os seres vivos. A família humilde tentou salvá-lo. Telefonaram-me logo que deu sinal de estar doente. Afinal eu era madrinha e sempre me encarregara de cuidar da saúde de meu afilhado. Mas meu telefone nunca respondeu, caindo sempre na secretária eletrônica. Pensaram que eu viajara. Em casa, misteriosamente mudo durante quinze dias, sem que conseguíssemos qualquer explicação. Desta vez não foi o destino (ou quem sabe nossas escolhas), que marca nossa partida, que deu fim à vidinha de Kiko. Foi uma tal de OI, aquela que deu milhões a Lulinha, aquela que pertence à família do Presidente do PSDB, o mais importante partido de oposição. Aquela cujo Presidente, irmão do Presidente do partido da oposição, foi um dos maiores financiadores da campanha de Lula. Afinal, quem sou eu para reclamar? Uma simples cidadã servida por uma servidora, que pela importância de seus chefes e apaniguados tem crescido desmesuradamente e que, para facilitar as coisas, até provocou mudanças na legislação.
Kiko é a primeira vítima de que tenho notícias de toda esta sem-vergonhice. A família, desolada, ainda não se acostumou com sua ausência. Seu “enterro” foi acompanhado por todos seus amiguinhos que deixavam as lágrimas correrem livremente. Como eu própria no dia em que soube que nunca mais ele me estenderia a patinha, nem saltaria à minha volta, naquele gesto de “Obrigado!”.

Adeus, Kiko! Quem sabe a gente se encontre algum dia lá do outro lado?

terça-feira, 6 de maio de 2008

“O mundo como vontade e representação”

Mãe coruja olha o gavião e implora-lhe: “Por favor, não devore meus filhinhos!” “Mas então, dona Coruja, como vou identifica-los? Minha natureza é de devorar presas fracas!” Ao que responde a mãe: “São lindos! Tenho certeza de que vai reconhece-los e encantar-se” E o gavião, no seu vôo à procura de presa, encontra um ninho, onde se acotovelam bichinhos horrendos: “Estes não podem ser os filhos de Dona Coruja!”. Ao voltar, a mãe desespera-se encontrando o ninho vazio. Procura, inconsolável, o gavião, chora, lamenta-se: “Como foi capaz de fazer isto?” E o gavião defende-se: “Mas dona Coruja, a senhora havia me dito que eram lindos!”.
“O mundo como vontade e representação” é uma grande obra de Arthur Schopenhauer, filósofo alemão (1788-1860). Foi publicada em 1818, e consta de quatro volumes. Confesso que não li, mas pretendo faze-lo logo que outras tarefas forem cumpridas. Interessei-me desde o título, e minha curiosidade ficou maior ainda ao saber da primeira frase com que Schopenhauer inicia sua obra filosófica: “O mundo é minha representação”.
Dona Coruja, se houvesse sido um pouquinho mais objetiva, teria salvado as vidas dos filhotes. Dizia um velho amigo, ateu, que somente um Ser seria totalmente objetivo, e este Ser seria Deus. E completava: “Como Deus não existe, a ninguém esta REALIDADE é accessível”.Para entendermos o mundo que nos cerca, o organizamos, estabelecemos valores, que são quase sempre culturais. Mas também partimos de nossa própria experiência. Resolvi falar deste princípio básico universal que rege nossas vidas, lembrando-me de uma história a que assisti há muito tempo. Um amigo muito lindo havia, segundo me contaram, encontrado uma noiva igualmente linda, modelo fotográfico, de carreira bem sucedida. Acreditei, não havia porque duvidar. Enfim, algum tempo depois, acabei conhecendo a garota. E fiz uma constatação: aqueles que a julgaram linda, modelo fotográfico, com uma bela carreira, simplesmente não a viram, mas sim “a namorada do rapaz lindão”, conseqüentemente, ela também lindona. Aos poucos a história foi sendo desmontada, até que do início não havia sobrado quase nada.
A cada momento, estamos criando sobre o mundo que nos cerca, pessoas ou objetos, alguma representação, uma imagem que obedeça a nossos valores culturais ou pessoais, às nossas expectativas, ou vontade. E ainda, estamos, permanentemente, criando alguma representação de nós mesmos. Há momentos em que somos poderosos, corajosos, transgressores, ou obedientes. Há momentos em que montamos uma imagem de vítimas. E, afinal, quem somos de fato? Os que têm poder usam estas múltiplas representações para manipular. Quando Francisco Weffort compara Lula à “metamorfose ambulante”, está expondo uma estratégia de que afinal todos nos servimos. O que choca no Presidente é que esta estratégia não obedece a nenhum princípio ético ou estético. O homem é um dia protetor do MST, e no dia seguinte abraça Blairo Maggi, Governador do Mato Grosso e maior produtor de soja do mundo, já apelidado de “Estuprador da Floresta” Ao lado do “estuprador”, Lula fala mal do Conselho Missionário Indigenista, da Pastoral da Terra, até ontem seus aliados. E é claro dos ecologistas. Um dia acha normal a “bolsa ditadura” e no outro elogia Médici. Durante anos, Lula foi o operário honesto, libertário, corajoso. Acreditamos nessa representação, não tínhamos porque duvidar. E como na história da noiva de meu amigo, descobrimos uma outra “realidade”. Mas afinal, quem é o verdadeiro Lula, ou a verdadeira noiva? Não sabemos. O que sabemos, seguramente, é que aquilo em que acreditávamos era uma imagem montada por eles, ou por outros. Quem sabe, no caso de Lula, por nós mesmos, ávidos por respirar liberdade? Se não temos acesso à realidade substancial que nos cerca, o que nos resta é optar pelo consenso, referente à parte mais esclarecida de nosso universo cultural. Hoje sabemos, que pena, que Lula não é o operário libertário em que acreditávamos, apesar de sua popularidade. E nem a noiva do bonitão é tão lindona e bem sucedida.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Isabela e todos os outros.

O assassinato de Isabela nos fez esquecer a menina torturada de Goiânia. Como já havíamos esquecido o menino estraçalhado, arrastado pelos bandidos, como já havíamos esquecido o brutal assassinato do casal de namorados em São Paulo (aliás, alguém ainda se lembra?), como já havíamos esquecido o garoto nissei, morto por funcionários de seu pai, que, aliás, de tudo faz para que jamais esqueçamos a tragédia. E por que será que nos esquecemos tão facilmente? Porque um caso terrível atropela outro, que atropela outro, e outro? Nossa memória, simplesmente, não consegue armazenar tudo? Não quero dizer que em outros países não haja violência. O que nos choca por aqui é a banalização, com os “di menor” sem nenhuma punição e livres aos 21 anos de qualquer mancha na sua ficha, com assassinos pagando as vidas que tiraram com cestas básicas, e até com lições de cidadania. Há cerca de uma semana, um bêbado matou uma família inteira, mãe e dois filhos, negou-se a fazer o teste do bafômetro, e saiu livre. Afinal são seus direitos de cidadão! Ficou para o pai a dor indescritível da total perda. Soube que alguns dias depois, o bandido foi preso. Babaca, devia ter fugido e logo seria esquecido. Mas também sei que logo será liberado. Outro, aliás, com antecedentes criminais como traficante, durante um “pega”, matou três ou quatro mulheres. Como não foi preso em flagrante, pagou fiança e foi para casa. Alguns dias depois, o delinqüente foi preso, mas já está solto novamente, beneficiado por algum destes instrumentos jurídicos feitos para favorecer a bandidagem. E estou certa que vai pagar sua pena com cestas básicas.
O assassinato de Isabela nos choca porque, ao que tudo leva a crer, foi executado pelo próprio pai. Ou pelo menos foi ele que a jogou pela janela. E é gente que pertence à classe média, onde não se supunha – quanta inocência- que não ocorresse este tipo de monstruosidade. Isabelas existem aos montes, nas camadas mais pobres, vítimas do alcoolismo, das drogas, do abandono. E quase sempre são os próprios pais os responsáveis. Ouvimos nos noticiários, lemos nos jornais, mas toda esta podridão tornou-se corriqueira. Talvez, quem sabe, por algum mecanismo psicológico, esqueçamos, porque não há como viver no meio de tanta sujeira. Como suportar a imundice nossa de cada dia se armazenarmos tanta coisa? E ainda há todo tipo de safadeza política, onde se acumulam os casos de bandidagem e só uns poucos (dá até uma pontinha de pena do Bejani!) são penalizados. Dizem que fomos mal colonizados, que aos portugueses jamais ocorreu formarem um verdadeiro país, mas que estavam somente preocupados com nossas riquezas. Assim, não elaboramos uma ética do trabalho, do progresso, e nem da justiça. Mas agora é tarde, não podemos voltar no tempo, escolher outros colonizadores, etc. O que podemos é escolher melhores governantes. Sentirmo-nos parte efetiva de uma sociedade. Se fomos capazes de levar adiante movimentos como “Diretas Já” e “Fora Collor” por que não podemos agora tentar mudar alguma coisa? Exigindo mudanças no Código Penal, no mal-fadado Estatuto do Menor e do Adolescente, e em tantas e tantas outras coisas? Nós, que fazemos parte da camada esclarecida da população?
Por que, se não for possível mudar o que vemos todos os dias, que tal repetirmos aquela antiga piada do tempo da ditadura: “Por favor, o último a sair, apague as luzes do aeroporto”.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

ECOS DO PASSADO – II

Minha avó, na verdade, não calculou mal o passo que dava ao casar-se com um desconhecido. Ela simplesmente deixou-se levar pela paixão. Conceição, como Ana de Assis, aquela que viveu a tragédia do assassinato de Euclides da Cunha, são paradigmas reais de mulheres, que homens geniais, como Dostoiesky e Flaubert, profundos conhecedores da alma feminina, e também dos descaminhos românticos por onde eram encaminhadas, descreveram nas histórias de Anna Karenina e Emma Bovary. Eram mulheres alimentadas pelo sonho romântico, do príncipe encantado, do amor sem limites, sem razão, sem tréguas. Creio que a história de minha avó vale, sobretudo, como ilustração de um tempo, de uma mentalidade, onde não havia lugar para mulheres que quisessem ser alguma coisa mais do que mães de família.
Dizem que era uma mulher inteligente, sedutora, capaz de levar uma conversa com os amigos masculinos, que não gostava das mulheres que freqüentavam a sociedade tacanha de Uruguaiana. Gostava de ler, de música, de divertir-se. E era mal vista. E ainda foi mais mal vista pelas cunhadas, que não achavam conveniente seu comportamento. Mas ela pouco se importava. Tudo isto me contou uma velha prima, que havia ouvido de sua mãe, uma das cunhadas de Conceição. Foi mãe jovem, provavelmente dedicada, mas não ao ponto que se exigia de uma mulher bem comportada. Ela gostava de sua vida, SUA vida, com seus livros e suas músicas suas conversas inconvenientes para uma senhora de sua condição social. Encontrou no seu ator, possivelmente garboso, aquele príncipe de seus romances, e apaixonou-se.
Mas foi em Porto Alegre, depois da volta do Rio de Janeiro, onde fora tentar recomeçar sua história de paixão, que ela se deu conta do que realmente lhe acontecera. A filha que tivera com seu homem já havia morrido, e de forma trágica – falo dela em “Morte na aurora” - o dinheiro, depois da morte da mãe, tornava-se escasso, por mau gerenciamento dos irmãos. Sua herança fora desperdiçada, e seus filhos a censuravam. Na necessidade foi pianista em bares e restaurantes, ela que havia se apresentado ainda bem jovem no famoso teatro São Pedro, em Porto Alegre, um dos mais belos do Brasil.
No entanto, ainda conservava antigas amizades. E, como era mulher inteligente e interessante, sua presença era valorizada, ainda que ninguém lhe oferecesse trabalho, o que era considerado ultrajante para uma mulher de sua classe. Contava minha mãe que, nestas ocasiões, colocava as poucas jóias que ainda lhe restavam, o seu melhor vestido, arrumava-se como uma dama, que realmente era, e ia ao encontro dos velhos amigos do passado, que, ainda que conhecessem sua história, tinham por ela grande carinho. Assim, encaminhou seus dois filhos menores, meu pai e meu tio Armando, para a carreira militar, onde tiveram belas trajetórias. E disto falo depois. O filho mais velho, que sempre detestou o padrasto, tornou-se funcionário público, tendo tido uma vida extremamente atribulada. Onofre, o segundo, era deficiente mental.
Aos poucos a vida, ou a morte, foi-lhe tirando os velhos amigos, tornou-se descuidada com a aparência. Sua situação financeira era desastrosa e creio que os filhos a ajudavam. Vendeu o casarão da família, que até pouco tempo ainda estava de pé, no bairro da Glória em Porto Alegre. Passava os dias lendo e tocando piano, meio indiferente a tudo.
Nunca mais havia tido notícias de seu homem, até que, muitos anos depois, veio a saber, não sei como, que ele morrera no Rio, totalmente arruinado. E fora enterrado com indigente.
Minha avó morreu aos cinqüenta e nove anos, de câncer.
Mas havia vivido mais de cem. E viva as mulheres que não se conformaram com sua condição subalterna de fêmeas. Pagaram caro pelo seu “pecado”, mas é graças a elas que hoje somos mulheres livres. Capazes de escolher nossos caminhos e nossos homens. Mas hoje, acima de tudo, somos conscientes, de que não vale a paixão sem a independência econômica. A única que nos permite a verdadeira liberdade e, quem sabe, a paixão.

domingo, 6 de abril de 2008

LULA OU “A METAMORFOSE AMBULANTE”

“Metamorfose ambulante” faz parte, ou é título, de música de Raul Seixas. Foi lembrada por Francisco Weffort, fundador do PT, por ocasião do “vale tudo” sindical, promovido por Lula. Weffort desligou-se do partido há muitos anos, quando aceitou o convite de Fernando Henrique para ser Ministro de Cultura. Naquele tempo, o PT era o partido dos “puros”, como os Jacobinos da Revolução Francesa, que acabaram na guilhotina. Não desejo mesma sorte aos petistas, mesmo porque não há mais guilhotina. Mas naqueles tempos de pureza (não os da Revolução Francesa), não se admitia NENHUM acerto com partidos considerados conservadores. O mesmo expurgo já havia acontecido com Luíza Erundina.
Pois o que vemos agora é um festival de metamorfoses sem-vergonha. Sei, por minha própria experiência, o quanto a gente muda ao longo da vida. São mudanças sutis, que ela nos ensina, e que ocorrem pouco a pouco. E disto já falei anteriormente. O que estarrece agora é a desfaçatez com que o homem e seus asseclas renegam, pelas piores razões, tudo em que acreditaram um dia, há tão pouco tempo. E é sempre para pior. Porque todo mundo conhece a sem-vergonhice do peleguismo fisiológico (desculpem-me a redundância). Fiscalizar um dinheiro que é “doado” pelo trabalhador é dever do Estado, ou melhor, do TCU, que representa a sociedade. Mas, como determinou Lula, continuamos nos tempos do peleguismo getulista, montado também para favorecer o ditador, creio que ainda durante o famigerado Estado Novo. Peleguismo que compra os chefes sindicais e assegura votos. “Recebam e façam o que quiserem com o dinheiro. Mas assegurem o apoio a mim”.Há dirigentes sindicais que vivem vidas de rico, como o que chega ao trabalho no “Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil” a bordo de uma Mercedes. E há ainda dezenas de outros exemplos escandalosos. Joaquinzão era, nos anos 70, um líder sindical que se dava muito bem com a ditadura e dela se beneficiava, além de obter para o governo de então o apoio de seus sindicalizados metalúrgicos. E Lula era contra, com toda razão. Agora mudou de “idéia”.
Mudou também em relação à CPMF, ao contato indecoroso com partidos de direita (e que direita!), como PP, PTB- criação do General Golbery –o PMDB fisiológico. E alguns outros, criados ”ad hoc”, para garantir votos ao governo. Já beijou as mãos impolutas de Jarder Barbalho, e um dia desses defendeu Severino e Renan. Isto porque sabe que ambos têm votos daquela população ignorante do Nordeste, aquela que recebe a “Bolsa família” e que o considera um paizão. E que nunca, já que este não é o projeto do governo, sairá da pobreza.


E por falar em pobreza, lembrei-me do Ziraldo, aquele pobre jornalista, defensor de nossos direitos democráticos, que, a título de “indenização” vai receber mais de um milhão de reais e ainda uma pensão vitalícia de quatro mil e tantos reais. Ele e mais alguns iguais a ele. E não podemos jamais esquecer a lapidar frase do heróico Ziraldo: “Eu quero que morra quem está criticando. É tudo cagão”.
Fernando Gabeira, que foi preso e torturado, não quer indenização. O jornalista Raimundo Pereira, fundador do extinto jornal “O Movimento”, um dos maiores opositores da ditadura, “disse que nunca reivindicou indenização, por não considerar justo ser ressarcido”.(O Globo)
Felizmente, há gente como Gabeira e Raimundo Pereira. Mas, que pena, também existem os Joaquinzão, Ziraldo, Lupi, etc. E isto sem esquecer o chefe.

E viva a Bolsa Ditadura!

Uma amiga pediu-me o segundo capítulo da história de minha avó. É triste, e mais ainda porque foi censurada, desprezada a vida inteira por ter amado demais. E diante de tanta pornografia como as que venho de descrever, só me resta contar a sua história e redimi-la. Logo vou voltar à sua triste e injusta vida de mulher de um tempo, que, felizmente, já acabou.
Mas será que não foi substituído por outro, tão sem-vergonha e hipócrita quanto aquele antigo?