QUEM SOU EU

Sou professora de Francês, mas hoje minha principal atividade é escrever e ler, além de cuidar dos meus três vira-latas: Charmoso, Príncipe e Luther.



Gosto de fazer ginástica, sou vegetariana e adoro animais em geral, menos baratas.



Sinto especial prazer quando meus textos agradam aos meus leitores. Espero continuar produzindo e me comunicando com todos os meus amigos, neste maravilhoso universo da net.



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segunda-feira, 11 de agosto de 2008

A espuma dos dias

Já é chavão dizer que não há nada mais incerto do que o amanhã. O amanhã pode me trazer coisas boas ou más, ótimas ou péssimas: ganho na Loteria, recebo uma linda declaração de amor, sou vítima de bala perdida, descubro que tenho um câncer, perco inesperadamente um ente querido, sou chamada pela Receita Federal. A incerteza do amanhã, de cada momento além deste fiozinho invisível do presente, chama-se vida. É não conhecermos o amanhã que nos impulsiona, ainda que isto possa parecer absurdo. É como na novela das nove, onde, uma vez que já se sabe quem é a assassina, espera-se, sem poder saber de antemão, o desenrolar do drama. E é o não-saber que torna tudo interessante. Como na vida, onde, é claro, não podemos esquecer a variável fundamental da liberdade humana.
Não sei o que me acontecerá dentro de poucos minutos: saio com minha cadelinha e um carro em alta velocidade nos atropela e nos leva para o outro mundo, eu abraçadinha a ela, toda trêmula. E se, como estou pensando em coar um cafezinho, o gás explode, ou deixo cair a cafeteira e provoco queimaduras? Minha mão pode tremer, uma barata passar, e a água fervente cair impiedosamente sobre mim. Enquanto falo, aquele fiozinho de presente já se transformou em passado, e este novo presente imediatamente será um passado. Mas afinal, se o presente é tão fugaz e o futuro é uma incógnita, o que nos resta?
A constatação da fascinante incerteza do amanhã, e da quase invisibilidade do presente, a única que me assegura alguma coisa de “palpável”, aprendi com a vida. Resolvi falar dela, quando a morte de uma amiga me trouxe a lembrança de velhos tempos, de imagens antigas quase esquecidas, ainda que seus protagonistas estejam para sempre presentes na minha história. Reuníamos, uma vez por semana, para um lanche noturno, na casa de minha irmã, Teresa. Éramos quatro mulheres de idades bem diferentes, e eu era a mais jovem. Minha mãe, minha irmã, e a amiga de quem falei há pouco. Por vezes, meu cunhado aparecia para tomar um cafezinho de boca-de-pito. Conversamos até lá pelas dez. Em casa, minha mãe e eu encontrávamos invariavelmente meu pai e meu irmão. Havia, na chegada, recriminações de meu pai, e uma invariável lamúria de minha mãe, o que fazia seu jeito de ser. Mas se entendiam bem, lá do jeito deles. Este era um presente meio chato por vezes, mas que me parecia sólido, quase permanente. O que não percebi é que, a cada dia, pouco a pouco, coisas foram acontecendo, e tudo foi se transformando. Teresa mudou-se. Meu pai acusou doença cardíaca, mudei-me para meu apartamento, ele piorou, trouxe-o para junto de mim. Nossas relações se inverteram e passei trata-lo como filho. Morreu. Pouco tempo depois, minha mãe fez uma queda, caiu em depressão, passou na cama seis anos. Virou minha filha. E morreu. Morreu meu irmão Sérgio, sem que tivéssemos tempo de nos dar conta de que estava doente. Foram algumas horas. Também morreu meu cunhado, inesperadamente. Morreu Teresa, vítima de um câncer, logo ela que sempre pareceu ter saúde perfeita. E agora se foi a amiga Cecília, de quem, malgrado eu, estava afastada há bastante tempo. Tomando um cafezinho entre duas aulas, encontrei Ricardo e, finalmente, conheci o verdadeiro amor. Dia a dia, a vida foi se transformando, até que daquele tempo só sobraram eu e minhas recordações. E até estas já estavam quase esquecidas. Este “amanhã”, que vivo hoje, daquele “presente” antigo é tão inesperado quanto o desenrolar da novela das nove.
Mas, como tenho dito, a vida me ensinou muita, muita coisa, e uma das mais importantes é saber alargar a fugacidade do presente, por pelo menos vinte e quatro horas, e se não houver um grande incêndio a vista, aproveitar ao máximo esta dádiva divina. Afinal, como será o amanhã?
Isto é saber ser feliz.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

“La p... respectueuse”

Sartre certamente não se inspirou nela. Sua peça é bem antiga, ainda que a p... a que me refiro também seja antiga. Aliás, muito mais do que a obra de Sartre, que, se não me engano, data de 1947.
A p... a que me refiro não é francesa, certamente nunca saiu do Brasil. Não é famosa, e tenho certeza de que jamais freqüentou uma sala de teatro. Nunca ouviu falar de Jean-Paul Sartre. E sua história, real, não tem nada a ver com a peça. A p... a que me refiro é uma velhinha, toda vestida de preto, tênis brancos, como seus cabelos, puxados para trás num coque desajeitado. O rosto é marcado por rugas profundas, as faces encovadas, a boca murcha, os lábios quase invisíveis, denunciando total, ou quase total falta de dentes. Nossa p... brasileira não pode andar rápido, já que lhe falta o ar.
Ao vê-la transitar pela praça, durante o dia, caso nos passe pela cabeça alguma associação, podemos pensar numa vovó que se dirige para casa a fim de preparar o almoço da família. Se for à noite, ficaremos surpreendidos ao vê-la sozinha em lugar ermo e perigoso. Chama-se “Rosinha”, ou “Dona Rosinha”, nome de guerra que assumiu desde os 17 anos, ao tornar-se prostituta. Era o ano de 1953. Ou seja, está nas ruas há cinqüenta e cinco anos! Nossa p... não é “respectueuse”, é uma pobre mulher, gasta pela vida, e, provavelmente, pela sua falta de inteligência. Conta ao repórter que a entrevistou que durante algum tempo foi faxineira e abandonou a vida “fácil”. Mas voltou. Talvez por ganhar mais. Diz serenamente que faz programas por necessidade. “Dona Rosinha” não tem nada, jamais terá aposentadoria, vive num casebre com uma cadelinha vira-lata. No meio da bagunça e sujeira, há, jogados pelo chão e atrás de arruinados móveis, velhos retratos de família amarelecidos pelo tempo, retratos de uma família que provavelmente nem existe mais. Ou se ainda existe, já a esqueceu há muito. Só Deus como acabará seus dias.
Tranqüilamente, conta como aborda os possíveis clientes, que muitas vezes não compreendem a princípio o que ela lhes propõe. Muitos se compadecem e aceitam, pagando-lhe trinta reais. Não consigo imaginar que tipo de homem poderá manter relações sexuais com a velha senhora. Estarrece-me pensar que, durante pelo menos trinta anos, jamais lhe tenha passado pela cabeça a idéia de progredir, de aprender um ofício. Mas os tempos eram outros, e prostituta era considerada um ser inferior, criado para o pecado, sem possibilidade de redenção. Não havia programas de recolocação social, e, francamente, não sei como funcionam hoje. Dona Rosinha, a puta velha brasileira, seguramente, precederá no céu muita gente bem comportada, que bate no peito, que vai à missa ou ao culto, que tem poder. Deputados, religiosos, socialites - muitas delas caras prostitutas disfarçadas -, banqueiros, Ministros, mensaleiros, amigos do homem, e, certamente, ele próprio.
Não foi Jesus que disse aos fariseus:
“As prostitutas vos precederão no paraíso.”?

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Ecos do MEU passado

Há algum tempo, falei em ecos do passado, referindo-me à minha avó paterna. Ainda pretendo escrever sobre minha avó materna, figura inesperada naquela sociedade brasileira, conservadora. Mas agora, estes ecos referem-se a mim mesma, ao meu passado e ao que ele representa hoje para mim.
Durante este mês de férias estive em Florianópolis, linda cidade, e, é claro, fiquei o máximo que pude com minha prima, e amigona, Maria Helena. Nativa da ilha, ela conhece recantos deliciosos, onde se vê um pôr-do-sol inigualável, onde se pode comer os mais deliciosos frutos do mar, onde o mundo infestado de poluição – que cada dia mais se parece com aquele de Pequim – está tão longe quanto Urano. Encontrar Maria Helena me trás sempre recordações, boas, longínquas, mas sempre saborosas. Ouvir seu suave sotaque, típico da ilha, com algo de lusitano, mas muito mais doce, quanta recordação me trás!
Falo do passado sem nostalgia, da mesma forma que falo e brinco com a passagem do tempo, com a perda da juventude, com a inexorável aproximação do desfecho. Para quem, como eu, já sofreu tantas perdas, esta convicção não deixa nenhum laivo de dor ou angústia. Vejo tudo com naturalidade, procurando viver os anos que me restam da melhor forma possível. Revejo meus velhos conceitos, minhas expectativas e sinto-me recompensada, porque afinal, consegui o fundamental. Muita coisa deixei pelo caminho, e não arrependo-me. Estar com Maria Helena, e nem preciso expressar-me verbalmente, produz em mim uma espécie de reminiscência profunda, como se nos déssemos as mãos e olhássemos em silêncio tudo que já fomos e sonhamos. Falo por mim, e não posso saber o que significam para ela estes contatos. Mas cada um de nós é um, único, e sentimentos são unipessoais e intransferíveis. Muitas vezes, sinto-a mais ligada àqueles sonhos que, felizmente ou infelizmente, já abandonei há muito. Fossem eles ideológicos ou não.
Estar com minha “velha” prima, é um mergulho numa época de sonhos, de quebra de tabus, de conflitos familiares, de paixões efêmeras. É relembrar um tempo em que todos estavam por aqui, os que amamos e foram partindo pouco a pouco, mas que um dia, nós duas, resgatamos, uma ao lado da outra, sem que fosse preciso palavras, suas presenças, nossos sonhos, e nossos vinte anos.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Meu ombro direito

Há algum tempo, escrevi sobre minhas desventuras com meu pé esquerdo. Já era a terceira vez que me dava problemas. Felizmente, com os ligamentos mais ou menos recuperados, estou de volta às minhas atividades. Aliás, já faz bastante tempo. Acho que desde de dezembro. Só que agora, vítima das mais variadas luxações transitando por meu corpo, instalou-se uma tendinite no ombro direito. E lá estou eu de volta às sessões de fisioterapia.
Já me sinto em casa. Freqüento a clínica desde 2002. Primeiro foi o pé esquerdo, algum tempo depois, novamente o tornozelo esquerdo, depois o joelho direito, novamente o tornozelo esquerdo, e agora o ombro direito. Tornei-me conhecida, e até querida: “Então, você aqui de novo!” Ninguém ainda me disse que sentiu saudades de mim, mas no fundo acho que ficam apostando quanto tempo vou permanecer afastada. Há inegavelmente algumas vantagens, como a ficha que não tenho que fazer, as conversam de amigo para amigo com os que cuidam de mim. Falamos de meus bichinhos, do shopping, do meu novo estilo de cabelo. Além disso, como se trata de ombro, não preciso de me arrastar, posso apresentar-me elegante, o que é tão importante para mim. E levar uma vida normal, passeando com Tilinha, indo ao restaurante, fazendo compras. É claro que não faço exercícios para os braços e preciso de ajuda dos professores e amigos para pegar os pesos das pernas.
As terríveis bolsas de gelo foram trocadas por bolsas de água quente, mas na clínica tenho que suportar a dor daqueles aparelhos de dão um puxão, acompanhados de uma temida bolsa de gelo, que alguns dias atrás quase me enregelou. As conversas continuam as mesmas, é engraçado, basta às pessoas entrarem numa sala de fisioterapia para pensarem em tendões, ligamentos, fraturas, etc. Ninguém fala da novela, quem seria afinal a assassina e se Donatela é pior, ou melhor, do que a outra. Ou xingar o Lula, o Dantas, o Greenhald. Levo sempre um livro, mas basta abri-lo para começar a ouvir os velhos papos. E ainda não consegui misturar ligamentos com Barack Obama. Ou Saint-Just, o enfezado jacobino, que deve ter tido todo tipo de desligamentos, já que teve a cabeça cortada.
Hoje cedo, quando tomávamos café, vimos uma propaganda interessante e que talvez explique minhas aventuras fisioterapeutas. Era de um tal Crecin, que tinge o cabelo deixando-o com cor de pêlo de rato. Dizia, mostrando primeiramente cenas dos anos 70: “Aquela geração que achava que não envelhecia, afinal chegou lá”.E aí pareciam eles hoje. Mas, afinal, os coroas se apresentavam em ótima forma, gatões de meia-idade, todos surfando, capazes de fazer inveja em muito garotão. Fiquei pensando e Ricardo, como que advinhando meus pensamentos acrescentou: “Foi a nossa não é?”
Será que a carapuça está me servindo? Também eu pensei que nunca envelheceria?

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Meu porteiro e os milhões da VarigLog

Meu porteiro chama-se Bruno. Tem cerca de 21 anos. Trabalha durante todo o dia e estuda à noite. É claro que Bruno não conhece nada do caso Varig -VarigLog. Acho que nunca ouviu falar nisso. Bruno é um dos milhões de brasileiros que, provavelmente, votou no Lula – como, aliás, eu mesma, excetuando a última eleição – e também, muito provavelmente, acredita no homem. Deve acha-lo um semelhante, ouvindo Lula dizer aquele mundo de besteiras, de palavras chulas (Bruno, pelo menos diante de mim, jamais disse coisas inconvenientes, enquanto o chefe as diz diante de toda a nação). E ainda vê todo dia aquela cara do chefe, de pobre coitado.
Mas, afinal, o que tem a ver o caso da Varig com meu porteiro? Confesso que tive que ler mais de uma vez (agora mesmo estou relendo) a reportagem onde se conta toda a transação obscura da venda da Varig e da VarigLog. Como tudo que é obscuro, a história é cheia de meandros, de atalhos, de personagens que parecem ter saído de um romance policial, daqueles que a gente comprava em bancas de jornal. Tem um chinês, que é nascido lá, mas viveu aqui e agora é testa de ferro de um grupo americano. Um milionário com cara de bocó, que ninguém pode acreditar que tenha toda a fortuna declarada. Nem Denise Abreu acreditou nisso. Tem umas mulheres feiosas, com cara e roupas caipiras, bem ao estilo dona Marisa, e um advogado com pinta de metalúrgico – nada contra a categoria! Até aí, nada de extraordinário, sobretudo para nós, acostumados a assistir aos mais inusitados espetáculos de falta de ética e de estética. Mas o que é de dar medo é que, ao final da briga pela compra da Varig, venceu a Gol, cujo advogado, Roberto Teixeira, é compadre do chefão. Ou seja, venceu a companhia que oferecia 418 milhões de dólares a menos do que a TAM. Por que será? E para quem terá ficado toda esta dinheirama, já que não somos tão idiotas em acreditar em jogo limpo?
Falei tudo isto para contar minha história com Bruno, um pobre brasileiro, que trabalha o dia inteiro e estuda à noite, na esperança de melhorar sua renda, que deve ser pouco maior que um salário mínimo. “Bruno, você já imaginou o que significam 418 milhões de DOLARES?” – perguntei-lhe. Foi como se eu tivesse feito uma pergunta em aramaico. Coitadinho do Bruno! “O que a Senhora disse?” Repeti a pergunta. “Sabe, eu não consigo imaginar nem um milhão de reais!” - “Pois bem, Bruno, alguém, não sei quem, ou quem(s), papou 418 milhões de Dólares”. A princípio, tentei estimular o garoto a imaginar quantias elevadas. Estabelecemos uma brincadeira. - “E então, Bruno, já conseguiu?” E ele com aquele jeitão mineiro: - “Num dá nem pra começar”. Acrescentei à nossa brincadeira um processo pedagógico, que já dura alguns dias. - “Então, vamos lá, vai ser aos poucos. Vamos começar com os primeiros números: 4, por exemplo. O que você compra com 4 reais?” “E com 4 dólares?” Aí, ele já se complica. Dou o valor em moeda americana. - “Tudo isso? Aí eu já comprava um queijinho, salame, e manteiga”. – “Não exagere Bruno, tudo está mais caro. Agora vamos acrescentar 1, e temos 41”. “É muito Bruno?”- “Nem tanto, mas já melhora muito”. - “Então pensa no que poderá comprar com 41 reais e depois com cerca de 70, já que estamos falando de dólares”. Todos os dias pergunto-lhe - “E aí, já deu para imaginar 418 milhões de dólares?” Bruno ri. Faltam-lhe alguns dentes, é um menino pobre, trabalhador.
Não quero cansa-lo, já que conheço a dureza de sua vida. Hoje, chegamos aos 418, assim, sem nenhum zero, e em reais. Talvez seja tudo que ganha por mês. Amanhã, estava pensando em converter em dólares. Não sei exatamente a cotação, mas acredito que chegue a cerca de 680 reais. Depois disso, não sei se vou conseguir ir em frente. Talvez, eu deva recomeçar e mostrar tudo em reais. E parar no primeiro zero. Mesmo porque, eu também fico meio desvairada com tantos milhões. Aí, então, ficaremos nos 4.180 reais, uma quantia que Bruno só conseguirá juntar depois de trabalhar um ano.
Nosso jogo recomeça todos os dias, quando saio para a minha ginástica. Faz frio, Bruno está encolhidinho, chegou às seis horas. - “E aí, Bruno, já consegui algum progresso?” Ele ri: - “Nada, nem meu professor conseguiu!”
Estou como Bruno, e como seu professor, não consigo imaginar esta soma, que eles conseguiram abocanhar tão facilmente!

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Meu amigo Kiko.

Kiko se foi, que pena! Não posso pensar nele sem tristeza, sem me lembrar de sua patinha esquerda - acho que era canhoto - estendida para mim, cumprimentando-me alegremente. Kiko me reconhecia, saltava à minha volta, feliz, sabia o quanto eu havia feito para salvá-lo da maldade dos outros e me agradecia. Depois daqueles anos de rua, onde possivelmente sofrera o que sofre todo pobre cachorro de rua, Kiko foi amado. Meu amiguinho se foi, e imagino que deva estar ao lado São Francisco, estendendo a patinha esquerda para todos, Santos e animaizinhos que cheguem perto de seu grande amigo.
Foi há alguns anos. Teresa, minha irmã, e eu o encontramos numa noite fria. Cachorro de porte médio, pelo cor de mel, meio escasso. Deitava-se de forma estranha como se quisesse cobrir uma parte do corpo que lhe fazia mal. Cuidadosamente, para que não se assustasse, acariciamos sua cabeça, e seu olhar carinhoso nos impressionou. Mas percebemos um pedido de socorro, que só aqueles que amam os animais conseguem ver. Aos poucos, fizemos com que se virasse um pouco e constatamos, horrorizadas, que a parte direita de seu corpo estava coberta por uma só chaga, uma bicheira havia tomado conta de forma assustadora. Não podíamos voltar para casa, sem fazer nada. Com a ajuda do celular, localizamos um amigo que o levou para uma clínica, a única que o aceitou já naquela hora tardia. E naquelas condições! Kiko passou várias semanas em tratamento, teve que sofrer uma pequena cirurgia. Quando saiu, estava completamente restabelecido. Lindo, feliz! Foi adotado por uma família, que lhe deu o nome de Kiko. Gente simples, mas com imensa grandeza de alma, coisa que não se encontra facilmente.
E Kiko foi levando aquela vidinha de cachorrinho feliz. Seu maior amigo era Michael, filho menor da família. Mas também era amigo de todos os outros meninos da rua, com quem brincava. Conhecido por crianças e adultos. A todos estendia a patinha, seu sinal de amizade. Era como se dissesse: “Olá, amigos, como estão? Eu me sinto na melhor das formas”.Às vezes fugia, ia para casa de vizinhos, ou dava passeios mais longos. Mas logo voltava para a família que, afinal, era a sua.
Kiko morreu, como morrem todos os seres vivos. A família humilde tentou salvá-lo. Telefonaram-me logo que deu sinal de estar doente. Afinal eu era madrinha e sempre me encarregara de cuidar da saúde de meu afilhado. Mas meu telefone nunca respondeu, caindo sempre na secretária eletrônica. Pensaram que eu viajara. Em casa, misteriosamente mudo durante quinze dias, sem que conseguíssemos qualquer explicação. Desta vez não foi o destino (ou quem sabe nossas escolhas), que marca nossa partida, que deu fim à vidinha de Kiko. Foi uma tal de OI, aquela que deu milhões a Lulinha, aquela que pertence à família do Presidente do PSDB, o mais importante partido de oposição. Aquela cujo Presidente, irmão do Presidente do partido da oposição, foi um dos maiores financiadores da campanha de Lula. Afinal, quem sou eu para reclamar? Uma simples cidadã servida por uma servidora, que pela importância de seus chefes e apaniguados tem crescido desmesuradamente e que, para facilitar as coisas, até provocou mudanças na legislação.
Kiko é a primeira vítima de que tenho notícias de toda esta sem-vergonhice. A família, desolada, ainda não se acostumou com sua ausência. Seu “enterro” foi acompanhado por todos seus amiguinhos que deixavam as lágrimas correrem livremente. Como eu própria no dia em que soube que nunca mais ele me estenderia a patinha, nem saltaria à minha volta, naquele gesto de “Obrigado!”.

Adeus, Kiko! Quem sabe a gente se encontre algum dia lá do outro lado?

terça-feira, 6 de maio de 2008

“O mundo como vontade e representação”

Mãe coruja olha o gavião e implora-lhe: “Por favor, não devore meus filhinhos!” “Mas então, dona Coruja, como vou identifica-los? Minha natureza é de devorar presas fracas!” Ao que responde a mãe: “São lindos! Tenho certeza de que vai reconhece-los e encantar-se” E o gavião, no seu vôo à procura de presa, encontra um ninho, onde se acotovelam bichinhos horrendos: “Estes não podem ser os filhos de Dona Coruja!”. Ao voltar, a mãe desespera-se encontrando o ninho vazio. Procura, inconsolável, o gavião, chora, lamenta-se: “Como foi capaz de fazer isto?” E o gavião defende-se: “Mas dona Coruja, a senhora havia me dito que eram lindos!”.
“O mundo como vontade e representação” é uma grande obra de Arthur Schopenhauer, filósofo alemão (1788-1860). Foi publicada em 1818, e consta de quatro volumes. Confesso que não li, mas pretendo faze-lo logo que outras tarefas forem cumpridas. Interessei-me desde o título, e minha curiosidade ficou maior ainda ao saber da primeira frase com que Schopenhauer inicia sua obra filosófica: “O mundo é minha representação”.
Dona Coruja, se houvesse sido um pouquinho mais objetiva, teria salvado as vidas dos filhotes. Dizia um velho amigo, ateu, que somente um Ser seria totalmente objetivo, e este Ser seria Deus. E completava: “Como Deus não existe, a ninguém esta REALIDADE é accessível”.Para entendermos o mundo que nos cerca, o organizamos, estabelecemos valores, que são quase sempre culturais. Mas também partimos de nossa própria experiência. Resolvi falar deste princípio básico universal que rege nossas vidas, lembrando-me de uma história a que assisti há muito tempo. Um amigo muito lindo havia, segundo me contaram, encontrado uma noiva igualmente linda, modelo fotográfico, de carreira bem sucedida. Acreditei, não havia porque duvidar. Enfim, algum tempo depois, acabei conhecendo a garota. E fiz uma constatação: aqueles que a julgaram linda, modelo fotográfico, com uma bela carreira, simplesmente não a viram, mas sim “a namorada do rapaz lindão”, conseqüentemente, ela também lindona. Aos poucos a história foi sendo desmontada, até que do início não havia sobrado quase nada.
A cada momento, estamos criando sobre o mundo que nos cerca, pessoas ou objetos, alguma representação, uma imagem que obedeça a nossos valores culturais ou pessoais, às nossas expectativas, ou vontade. E ainda, estamos, permanentemente, criando alguma representação de nós mesmos. Há momentos em que somos poderosos, corajosos, transgressores, ou obedientes. Há momentos em que montamos uma imagem de vítimas. E, afinal, quem somos de fato? Os que têm poder usam estas múltiplas representações para manipular. Quando Francisco Weffort compara Lula à “metamorfose ambulante”, está expondo uma estratégia de que afinal todos nos servimos. O que choca no Presidente é que esta estratégia não obedece a nenhum princípio ético ou estético. O homem é um dia protetor do MST, e no dia seguinte abraça Blairo Maggi, Governador do Mato Grosso e maior produtor de soja do mundo, já apelidado de “Estuprador da Floresta” Ao lado do “estuprador”, Lula fala mal do Conselho Missionário Indigenista, da Pastoral da Terra, até ontem seus aliados. E é claro dos ecologistas. Um dia acha normal a “bolsa ditadura” e no outro elogia Médici. Durante anos, Lula foi o operário honesto, libertário, corajoso. Acreditamos nessa representação, não tínhamos porque duvidar. E como na história da noiva de meu amigo, descobrimos uma outra “realidade”. Mas afinal, quem é o verdadeiro Lula, ou a verdadeira noiva? Não sabemos. O que sabemos, seguramente, é que aquilo em que acreditávamos era uma imagem montada por eles, ou por outros. Quem sabe, no caso de Lula, por nós mesmos, ávidos por respirar liberdade? Se não temos acesso à realidade substancial que nos cerca, o que nos resta é optar pelo consenso, referente à parte mais esclarecida de nosso universo cultural. Hoje sabemos, que pena, que Lula não é o operário libertário em que acreditávamos, apesar de sua popularidade. E nem a noiva do bonitão é tão lindona e bem sucedida.