QUEM SOU EU

Sou professora de Francês, mas hoje minha principal atividade é escrever e ler, além de cuidar dos meus três vira-latas: Charmoso, Príncipe e Luther.



Gosto de fazer ginástica, sou vegetariana e adoro animais em geral, menos baratas.



Sinto especial prazer quando meus textos agradam aos meus leitores. Espero continuar produzindo e me comunicando com todos os meus amigos, neste maravilhoso universo da net.



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domingo, 26 de julho de 2009

Souvenir d´enfance

É uma história real. Assisti-a desde seu primeiro ato, há muitos e muitos anos. Eu era ainda criança.
Era uma família, bem situada, formada por pai, mãe, uma filha e um filho caçula.
A mocinha que passava defronte à vila, onde eu morava me chamava a atenção. Não sei se a achava bonita, mas me chamava atenção por ser bem maior do que as demais. Era ali, na entrada da vila, habitada quase exclusivamente por militares, que eu espreitava a saída do colégio e esperava meus irmãos. Parava qualquer brincadeira e corria para lá. E ela vinha quase todos os dias, grande, destacando-se das outras. Um dia, parou de passar, e então eu soube que havia morrido. E a consternação foi geral. Todos falavam de sua alegria, de sua personalidade, da liderança que exercia sobre os colegas. Apesar dos meus poucos cinco anos, também fiquei consternada. Ouvi dizer que havia morrido de uma infecção intestinal provocada por camarão arruinado. Estava voltando de uma viagem. Que pena! Se houvesse evitado aquela empadinha! Se houvesse comido em outro lugar! Se não houvesse viajado! Mas eu não sabia, naquele tempo, que assim é a vida, no seu vôo cego.
A moça sumiu, mas deixou uma representação meio mágica, meio misteriosa, na imaginação de todos, o que sempre acontece quando uma vida é ceifada em plena juventude. Tinha dezesseis ou dezessete anos. Um dia, alguém me mostrou sua casa, num bairro nobre da cidade. Linda, estilo hollywoodiano. Ocupava uma esquina, branca, com sacadas, grades bem trabalhadas, tendo à sua volta um jardim cercado por um muro baixo. Ali ela vivera, e morrera. Imaginei a casa impregnada pela sua figura, como uma assombração. Diziam que a mãe, inconsolável, resolvera conservar intacto o quarto da filha. As janelas, sempre fechadas, davam a nítida impressão de vazio, um vazio que certamente existia depois da partida da garota. Somente o jardim florido fazia lembrar que alguém vivia ali. Sempre senti imensa curiosidade em entrar naquela casa, conhecê-la.
Os anos passaram, e minha fascinação e curiosidade decresceram. Afinal, eram já tantos! Quando era adolescente fiquei sabendo que seu irmão participara da depredação de um cemitério em uma cidadezinha vizinha. Que horror! Como eram todos filhinhos-de-papai, é claro, nada aconteceu. Naquela época dizia-se que o sujeito não trabalhava, não estudara nada e vivia como um playboy, desfilando em carrões, sua grande paixão. Era isto que se dizia. Nunca o vi. Mas vi seu pai, num dia chuvoso. Eu deveria ter uns dezessete anos quando minha mãe mostrou-me um senhor alto, careca, meio curvado. Havia nele muita distinção. Olhei-o e imaginei quanta dor deveria ter sofrido com a morte da filha. Alguns anos depois, disseram-me que havia morrido. Nem sei por quê. Na verdade, a história toda ficara no passado.
Passei fora algum tempo, e quando revi o casarão tive a nítida impressão de um lindo mausoléu. Lindo, lúgubre, rodeado de flores, a única expressão de vida. Mas quando elas murcharam, foi para anunciar a morte da mãe. Não creio que houvessem murchado de tristeza, afinal, parece que alegria já havia desaparecido dali há muitos anos, desde aquele dia longínquo em que a mocinha loira e alta se foi. Para sempre. E a grande nave branca continuou ancorada na esquina, habitada pelo filho, agora um homem já envelhecido pelos anos e pela vida. Mas ela continuou lá, talvez habitada por fantasmas, esperando pelo seu destino.
O garoto que se tornara filho único, bafejado pela sorte de menino rico, que jamais precisara trabalhar, que na juventude desfilara de óculos escuros, nos mais belos carros, de capota abaixada, estava reduzido à pobreza. Não sei o que aconteceu exatamente, mas estava reduzido à mais negra pobreza. Sem água, tomava banho na casa de um vizinho bondoso. Sem luz, iluminava-se com velas. E aquela casa que havia sido o lar de uma família bem-sucedida, onde vivia uma garota que se destacava pela sua alegria e personalidade, que seguramente iluminava também seu grupo familiar, havia se transformado numa velha e decrépita mansão mal-assombrada. Não sei quantos anos durou esta vida de miséria, mas um dia, não faz muito tempo, o velho playboy também se foi. Numa enfermaria geral.
Coberta de dívidas e infiltrações, a casa foi vendida pelos herdeiros, primos e primas. Será demolida dentro de algum tempo. No seu lugar vai surgir um daqueles espigões de gosto duvidoso, metido a elegante. E aí, quase ninguém mais vai se lembrar daquela moça, de sua morte prematura e do trágico desfecho deste drama, cujo primeiro ato assisti de longe, naqueles meus longínquos cinco anos.
Há algum tempo, encontrei, entre os guardados de Teresa, minha irmã, uma velha foto da equipe de vôlei do colégio. Lá está ela, reconheci-a por ser a mais alta. Sorridente, jovem, vitoriosa. Um ano antes de sua morte. Este é o vôo cego da vida, que mais nos ensina do que faz doer. Porque nos mostra a nossa fragilidade e o quanto não valorizamos este fiozinho que se rompe tão facilmente.
- Moça, prazer em conhecê-la finalmente. Sinto uma intima felicidade em ver seu rosto sorridente. Afinal, valeu a pena, não é?

terça-feira, 30 de junho de 2009

O vôo cego da vida.

Estávamos, Ricardo e eu, festejando nossos vinte anos de vida juntos. O lugar escolhido foi Gramado, onde já vivemos dias inesquecíveis. Fazia muito frio lá fora. Mas dentro do hotel havia um calorzinho delicioso. Lá pelas cinco da tarde, havíamos sido convidados para um happy-hour no saguão. Perto da enorme lareira haviam preparado alguns tira-gostos, havia batidas variadas, sucos e o inevitável chimarrão. Sentamo-nos defronte à lareira, e um casal se ofereceu para tirar uma foto nossa. Inesquecível! Por ali ficamos bastante tempo, conversando, observando as pessoas, e depois lendo os romances que havíamos levado. Era sábado, 30 de maio. Resolvemos não sair naquela noite, já que teríamos que tomar condução para Porto Alegre no dia seguinte cedo. Mais tarde tomamos uma canja no restaurante do hotel, e acompanhamos de vinho. Estávamos felizes, afinal, após tantos anos, ainda havia, e há, tanto a comemorar.
30 de maio, sábado. Naquele mesmo momento, outras pessoas também tinham muito a comemorar. Lembro-me de um casal que dava sua festa de casamento para cerca de quinhentas pessoas, um médico conhecido cirurgião plástico em Porto Alegre, que devia estar terminando de organizar sua bagagem para uma viagem de quinze dias com a mulher e a filha. Iam a Paris e depois seguiam para Grécia, um roteiro com que Ricardo e eu sonhamos há muito tempo. Havia um oceanógrafo que cursava doutorado na França. E um casal de advogados, um mecânico especializado em plataformas marinhas, que conseguira um emprego numa das maiores companhias de petróleo do mundo, uma funcionária pública, do interior de Santa Catarina, que, afinal, realizava seu grande sonho de conhecer a Europa e depois fazer um curso na Itália. E havia uma cantora que iniciava seu sucesso na Alemanha, um maestro, e até um príncipe. Havia crianças, gente de várias partes do mundo, turistas, homens de negócios. Naquele momento em que tomávamos nossa canja, e degustávamos nosso vinho, toda aquela gente se preparava para partir no dia seguinte, felizes. Como nós. Pouco mais de vinte e quatro horas depois, estavam todos no fundo do mar. A maior parte para sempre, sepultados em profundezas insondáveis.
Em julho de 2007, em Porto Alegre, no restaurante do hotel, incomodava-me a barulheira que fazia um grupo de funcionários de uma empresa baiana. Estavam ali para um evento programado pela empresa e tinham sempre um crachá que os identificava. Lembro-me que, apesar do barulho que faziam na hora do almoço, eram extremamente atenciosos e sempre seguravam o elevador para nós. Corríamos, agradecíamos, mas nunca conversamos com nenhum deles. Voltamos, e poucos dias depois vi pela televisão uma notícia extraordinária que falava de um incêndio no aeroporto de Guarulhos, provocado pelo choque de um avião com um prédio da TAM. Não se sabia de onde vinha, nem se havia passageiros. Logo depois, ficamos sabendo que partira de Porto Alegre e que transportava mais de cem pessoas. Alguns dias mais tarde, vendo a lista de passageiros, ficamos sabendo que várias vítimas eram funcionários daquela empresa baiana. Aquela que organizara o evento no hotel onde estávamos hospedados. Senti um aperto no coração ao imaginar que muitas daquelas pessoas com quem cruzei no hotel, aquelas que faziam o tumulto na hora do almoço, que seguravam a porta do elevador para nós, haviam sucumbido.
Há poucos dias, segui minha rotina diária. À noitinha, liguei a televisão e ouvi alguma coisa que se relacionava com Michael Jackson. Prestei atenção: ele havia morrido. Ainda de manhã, enquanto seguia minha rotina matinal, ele estava vivo! Não sei se saudável ou não, não se feliz ou não. Mas vivo! E tantos outros se foram naquele meio tempo! E tantos surgiram naquele meio tempo! E tantos pretendem viver eternamente, apegados às mais efêmeras coisinhas do dia-a-dia. E tantos passam cada dia da vida tentando ter ou ser mais. E tantos esperam coisas especiais, extraordinárias, para encontrar um pouco de felicidade, ou simplesmente de alegria! E tantos morrem assim, como os passageiros do vôo 447, como os da TAM, como Michael Jackson. Num estalar de dedos.
Em abril ou maio do ano passado, convidamos para jantar um casal amigo. Ele havia perdido a mãe em novembro do ano anterior. Um enfarto violento levou-o poucos meses depois daquele jantar em que nos divertimos ouvindo suas histórias. No seu velório, abraçamos seu irmão mais velho, que, atônito, comentava que em menos de um ano perdera mãe e irmão. Nove meses depois, abracei seu irmão caçula, que me dizia: “A família se foi. Agora só fiquei eu”. Senti profundamente sua dor, o mesmo aconteceu comigo. “Então estamos quites. Mas com você foi mais rápido.”
Refletir sobre tudo isto me convence cada dia mais daquele princípio básico, que, aliás, era bordão da Visa: “Viva, porque a vida é agora”. Tomar consciência da fragilidade de nossa existência, este fiozinho que pode romper-se a qualquer momento, não me trás amargura. Pelo contrário, me ensina todo dia a valorizar mais e mais cada momento, na sua cândida simplicidade. Depois de tudo que os anos me ensinaram, e têm me ensinado, só me resta dizer que, apesar de tudo, sou hoje mais feliz por saber beber com simplicidade cada gota de prazer que a vida me oferece.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

BRASILIDADE

Eu jamais poderia imaginar que a leitura de um livro fizesse encontrar-me comigo mesma de forma tão cabal. E não só comigo mesma; com familiares, amigos, conhecidos e desconhecidos. “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda é um retrato magnífico do que somos e porque somos assim.
Tudo começou ainda em Portugal, onde não tendo se implantado profundamente as raízes do sistema feudal, como na França, país onde se constituiu uma rígida estratificação social, ficou a sociedade portuguesa à mercê de um individualismo nobiliário sobranceiro, o mesmo tendo acontecido na Espanha. As rígidas “ordens” – nobreza, clero, e povo (ou “terceiro estado” como se fez conhecido mais tarde), a que pertencia cada indivíduo, e que regeram as sociedades fortemente plantadas no feudalismo, foram substituídas na Península Ibérica por um “salve-se quem puder para o seu próprio sucesso”. Esta é, segundo ele, a grande razão porque os princípios da Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade, Fraternidade – não repercutiram tão fortemente em Portugal, onde a mobilidade social já era um fato antigo. A conseqüência é que o fidalgo mistura-se ao povo, o que parece ser altamente democrático, mas sua conduta individualista cria uma sociedade insolidária e de estrutura frouxa. Neste quadro, onde todos são barões, não são criadas as condições necessárias para o sadio convívio na sociedade, que consiste em moralidade e amor ao trabalho.
O aventureiro que vem povoar e colonizar não pensa em formar uma comunidade, ele procura seu próprio benefício. A mentalidade ibérica, transplantada para um meio adverso, resultou em total falta de hierarquia e disciplina, cuja conseqüência é a falta de coesão social, repulsa à moral baseada no culto ao trabalho, sobretudo manual. “O trabalho manual e mecânico visa a um fim exterior ao homem e pretende conseguir a perfeição de uma obra distinta dele.” E numa sociedade onde o tecido social não é forte, o individualismo e o desejo do ganho fácil não podem se satisfazer com algo que lhes seja exterior. E em qualquer ofício, se aposta sempre no talento e não no trabalho duro. É assim que vemos espelhados nossos homens públicos, desde o Presidente, até o vereador de uma pequena cidade. O afã do lucro fácil, aliado à confusão entre o público e o privado, produz um tipo de comportamento em que tudo é permitido.
Lendo cada página deparei-me com velhos amigos, vivos e mortos. Gente com que convivo diariamente, e, confesso, comigo mesma. Somos um povo que, devido à mentalidade que vem próprio lar, iniciamos nossa vida “profissional” incapacitados para a luta pela conquista através de nosso esforço pessoal. Nossas profissões, em geral, são escolhidas dentro do próprio âmbito familiar, e muito raramente somos estimulados a discordar. E diz o autor, citando psicólogos e pedagogos modernos que a criança deve ser estimulada a “desobedecer nos pontos que sejam falíveis as previsões dos pais.” E ainda que as “boas mães causam maiores estragos do que as más, na acepção mais generalizada e popular destes vocábulos.” Filhos, em geral, concordam porque é mais cômodo, lhe garante melhores “possibilidades de sucesso”, daí o empenho geral pelo emprego público. E hoje, acréscimo meu, há até uma nova categoria, a do “concursista”, infelizmente com grande percentual de gente capaz de vencer por conta própria, de competir no mercado de trabalho, de sair vitorioso. Enfim, de mudar a face do país, de contribuir para o desenvolvimento da sociedade. Infelizmente, o que lhes interessa é um emprego público, onde seguirão a burocracia tacanha, mas que consideram seguro. A este tipo de gente, descrita minuciosamente, que constitui a quase totalidade da população, ele chama de “homem cordial”. E este homem singular é afetuoso e esbanja formas de mostrar sua “amizade”. Ele nunca trata ninguém pelo nome de família, o que é usual em outros países, e usa freqüentemente o sufixo “-inho”, aposto ao prenome: Geraldinho, Betinho, Lélinho, Ricardinho, Paulinho, etc. A propósito lembro-me da representante de uma editora, que havia feito assinaturas sem minha autorização. Quando recebi revistas que não queria e uma conta absurda, telefonei-lhe, furiosa, ameaçando-a até de um processo. E tive a seguinte resposta: ”Calma, dona Lúcia, afinal nós somos amigas.” Mais furiosa ainda retruquei que nem a conhecia, nunca a vira, e que não era sua amiga. E olhem que ela se ofendeu!
E fala o autor, dentre tantas outras coisas do “desleixo”, palavra que, como “saudade”, só existe no idioma português. Compara com as nossas cidades aquelas de colonização castelhana, com caprichados projetos urbanísticos, onde obstáculos da natureza são transpostos, a fim de obter regularidade e simetria,. As nossas se caracterizam pelo desleixo no traçado, e em todos os detalhes. Saio à rua, e já no elevador encontro um “homem cordial”, aquele que sorri e bate com a porta na minha cara, tropeço na calçada e dou de cara – literalmente – com o “desleixo”, encontro um amigo, ou amiga, e tenho certeza de que há algum “concursista” na família. E haveria tanta coisa ainda para contar!
Durante a leitura, às vezes no café perto de casa, às vezes durante as minhas sessões de bicicleta ergométrica na academia, tive que fazer esforço para não dizer: “Bom dia, Fulano.” “Como vai, Beltrano?” “Vejam só o sicrano!” E fechando o livro, cada dia, ficava-me sempre uma pergunta: “Será que dá pra consertar?”
E dizem que o Homem vem aí com o terceiro mandato. Mas afinal, o país é dele e dos aliados que comprou, com o nosso dinheiro. Nosso? Será? Porque afinal não consideramos, TODOS, o público como privado? E o Estado como uma extensão da família? E família brasileira!

sábado, 18 de abril de 2009

L´Ancien Régime et la Révolution

O primeiro livro que li sobre Maria Antonieta foi aos meus onze anos. Trata-se de uma biografia escrita por um membro da Academia Francesa de Letras , mas que hoje me parece bastante romântica. Guardo- o, com a dedicatória de minha mãe, apesar do presente haver sido de meu pai. Naquele tempo, eu era uma menina brasileira, que havia sido confrontada a uma cultura diferente, e estimulada por meu pai a aproveitar ao máximo a oportunidade extraordinária que me oferecia a vida, através de seu esforço e da bolsa de estudos que ganhara como primeiro aluno em todos os cursos que freqüentara nas diferentes instituições militares por que passara. Lembro-me do meu deslumbramento na primeira vez que fui a Versalhes. E também do horror com que penetrei na cela minúscula, em que a rainha passara os últimos dias, na prisão da Conciergerie, à beira do Sena.
Naquele tempo, toda minha admiração era pela pobre rainha, que morrera humilhada, afastada de sua família, isolada naquela cela lúgubre. E, finalmente, guilhotinada. E li muita coisa sobre o Antigo Regime, a Revolução, Luís XVI, seu marido, igualmente guilhotinado. Tornei-me uma aficionada. Mas toda minha simpatia era dirigida à pobre mulher. E li, lá pelos meus dezesseis anos, sua biografia escrita por Stephan Zweig, Anos mais tarde, no auge de minha juventude, infiltrada pelos ideais esquerdistas, mudei radicalmente meu ponto de vista. Aliás, Maria Antonieta sumiu do horizonte, substituída pelos ideais da Revolução, da justiça social, da igualdade. Isto sim valia a pena. Como, então, importar-me com uma mulher que, afinal, representava o que havia de mais retrogrado e reacionário? Foi por essa época que li o historiador Albert Soboul, e sua análise marxista. No bicentenário da Revolução, eu estava na França, com uma bolsa de estudos, e fui a Paris, onde descera a humanidade, assistir ao grande desfile do 14 de julho, que, em 1789, marcou o fim da monarquia. Comprei livros, procurei documentos, conheci novos personagens, de quem pouco se fala. Continuei na minha posição revolucionária, fiel aos ideais da grande maioria de minha geração.
E os tempos passaram, anos, muitos. E o mundo mudou desde aquele 1989. E eu mudei. E continuo lendo sobre aquele período. Hoje, em plena maturidade, livre dos preconceitos que marcaram minha geração, posso juntar todo material acumulado na minha memória e repetir Tocqueville, o grande liberal, na sua magistral análise da Revolução Francesa: “Os Franceses fizeram em 1789 esforço maior do que já fizera qualquer povo , afim de, pode-se dizer, cortar em dois seu destino, e separar por um abismo o que haviam sido até então e o que desejavam ser doravante.” A Revolução francesa dividiu não só a história da França, mas trouxe para o mundo inteiro ideais até então desconhecidos, ou considerados quiméricos. E de nada disso eu cogitava naqueles meus longínquos onze anos. É claro!
E Maria Antonieta, onde foi parar? Maria Antonieta, princesa austríaca, filha da grande Imperatriz Maria Teresa, extraordinária estadista, que usou cada um de seus dezesseis filhos para seus projetos políticos, casou-se, por procuração, aos quatorze anos, com o desajeitado Delfim Luís, de dezesseis, que ela jamais vira. Disse adeus definitivo à sua mãe, seus irmãos e irmãs, e até à sua língua materna. Maria Antonieta fazia parte de um grande projeto político de sua mãe e do rei Luís XV, no sentido de unir duas potências e fortalecer-se diante da Prússia. Cartas do embaixador de Maria Teresa junto à corte francesa dão conta de tudo que se passa e mostram claramente o objetivo de manipular a garota em benefício da Áustria. No que ela saiu-se pior do que se previa.
O casamento sem amor levou oito anos para se consumar, não se sabe ao certo por que razão. Permanecendo virgem e logicamente sem oferecer um herdeiro, sendo bisbilhotada por cortesãos e serviçais, a princesa, e logicamente o marido, tornaram-se motivo de chacotas, o que já de início desprestigiou o futuro rei. Finalmente, tendo consumado o casamento, Maria Antonieta deu à luz quatro filhos, dos quais dois morreram ainda na primeira infância. Insatisfeita, vivendo ao lado de um homem a quem tinha sincera amizade, mas que jamais amara, já como rainha, Maria Antonieta jogou-se nas diversões, nas futilidades, e, ao que tudo faz crer, no amor ao embaixador da Suécia, Axel Fersen.
Mas que mais impressiona nesta mulher é seu destino trágico, engolida por uma máquina destruidora de tudo aquilo em que acreditava. De derrocada em derrocada, de Versalhes as Tulherias , em Paris, dali à prisão do Templo, fortaleza medieval, escura, úmida e gelada, até a cela infestada de ratos na Conciergerie, foi surgindo a mulher feita de força e coragem. Mãe de quem se arrancou o filho caçula, ultrajada durante o julgamento, em que foi acusada de atos incestuosos com o filho – “Apelo a todas as mães da França!”- e o silêncio da multidão enfurecida, mulher soberana, mais do que jamais havia sido, exposta à horda enfurecida, no derradeiro e ultrajante trajeto que a conduziu até o cadafalso. A história trágica da rainha guilhotinada, cujo corpo transportado numa carroça, sobre a palha, com a cabeça entre as pernas, nos mostra que há, em muitos de nós, uma força que nós mesmos desconhecemos, como provavelmente ela própria, e que confrontados à nossa inerente fragilidade humana, conseguimos desencavar do fundo de nós e avançar de cabeça erguida enfrentando nossas pequenas, e grandes, tragédias pessoais.
Como há algum tempo plagiei o título de Demétrio Magnoli, agora estou plagiando Alexis de Tocqueville. Mas, afinal, acho que valeu a pena.

quarta-feira, 18 de março de 2009

DAS LAVADEIRAS ÀS LAVADORAS VATICANAS

A Igreja Católica, e sua sede vaticana, não deixam de nos surpreender. Depois da classificação do estupro como pecado muito menor do que o aborto que salvou a vida de uma criança, excomungando os médicos e a mãe, e absolvendo o estuprador, nos trás esta descoberta, que, de tão extravagante, não sei como classificar. Segundo Vossas Eminências, nós, mulheres, nos tornamos independentes graças à maquina de lavar roupas.
Desde que foi divulgada esta novidade, tenho puxado pela memória, a fim refazer os conceitos que fui elaborando ao longo dos anos. Pois, uma vez que o Papa é infalível, eu é que devo estar errada. Começo por minha mãe, a gente sempre começa pela mãe, e suas amigas. Lembro-me de Dona Mariinha. Era possuidora da primeira máquina de lavar que vi em minha vida. Eu era bem pequena quando ela fez a exibição de sua preciosidade para minha mãe. Era uma engenhoca redonda, sendo que a roupa era enxugada através de dois rolos de borracha, que se moviam fazendo girar uma manivela e comprimiam a peça molhada. Fiquei encantada. E dona Mariinha, hein? Quem diria que era uma feminista? Escarafuncho no fundo de minha memória e só encontro uma senhora, como qualquer outra daquele tempo, que, é verdade, mandava no marido. Então, concluo que sempre fiz dela uma idéia errada. Para mim, sempre foi uma típica dona-de-casa careta, mas na verdade era uma mulher liberada, a frente de seu tempo! E fico ainda mais estarrecida ao imaginar que, ao sonhar em ter uma máquina de lavar roupas, - minha mãe, logo ela!- escondesse nesse desejo, outro, inconfessável: a sua emancipação! E meu espanto aumenta ainda mais ao pensar que todas aquelas mães-de-família, que fofocavam e fingiam trocar receitas pelo telefone, e que aspiravam, TODAS, à maquina, fossem feministas!
Simone de Beauvoir, ao escrever dois longos livros pioneiros sobre a liberação feminina, perdeu tempo. Teria feito melhor se procurasse uma fábrica de eletro-domésticos e propusesse um plano de aquisição que se estendesse pelo mundo afora. Teria antecipado muita coisa, e evitado muita luta. Imagino minha mãe, com sua máquina, fazendo colocações sobre seus direitos de mulher livre, discordando abertamente de meu pai, colocando suas idéias na discussão familiar. Como faço eu. E qual seria a posição de meu pai? Será que acharia normal, como faz Ricardo? Faço um esforço de imaginação, e haja esforço, para visualizar meu pai ouvindo o discurso libertário da mulher.
E o mais importante para mim: descobri de onde saiu todo este desejo, que me acompanha desde minha juventude, o de ser independente. Surgiu naquele dia, perdido no passado, em que dona Mariinha encheu de inveja minha mãe, não porque possuísse uma máquina de lavar roupas, mas por ser uma mulher emancipada.
Não sou das que consideram a emancipação feminina fruto da pílula. É verdade que ela nos permitiu fazer, sem temor, o uso que nos aprouver de nosso corpo. Mas isto não é senão uma conseqüência de algo que vinha, desde há muito tempo, se construindo. A liberação feminina começou quando mulheres deixaram de se satisfazer com o casamento e a procriação. Houve um longo caminho que foi iniciado pela profissionalização, que dá independência financeira, e permite a nós, mulheres, não mais depender do macho provedor. Hoje, podemos dizer que temos o homem que queremos, mas não dependemos dele. Estamos a seu lado por nosso desejo. A independência econômica, segundo Marx a única efetiva, que tanto assustou homens de gerações passadas, nos permite até colocar na rua um companheiro que, por razões diversas, não mais queremos.
O conceito católico-vaticano é tão machista que nos restringe ao lar, nos coloca como eternas menores de idade, não levando em consideração, e seguramente desdenhando, qualquer uma de nossas conquistas como seres humanos, em igualdade com o sexo oposto. Considera a mulher uma eterna serviçal de seu macho, e de sua família. Mas o pior é que já vi muita gente da geração pós-guerra, aquela que, afinal, sacudiu a bandeira da igualdade, pensar como Vossas Eminências. Felizmente, o tipo mãe-de-família em tempo integral, esposa traída e resignada, mulher vivendo à sombra de seu macho vai, pouco a pouco, desaparecendo.
E viva nós, que soubemos brigar um dia, já faz muito tempo, e que, se gostamos da engenhoca de lavar é porque, afinal ela é útil. Útil para mulheres, e homens, que, saibam Vossas Excelências, também, nos dias de hoje, tratam do serviço doméstico.
E como me lembrou minha sobrinha, Alice, mais importante do que a pílula é a camisinha. Aliás, ambas condenadas pelo Vaticano.
E um lembrete final: após toda a gritaria nacional, e internacional, sobre a excomunhão, tendo havido até uma magnífica entrevista de Monsenhor di Falco, da alta cúpula da Igreja na França, publicada no jornal “Le Figaro” – L`Eglise de France opposée à l´évêque brésilien – a nossa CNBB e o Vaticano resolveram se manifestar contra. Mas já foi tarde.

quinta-feira, 12 de março de 2009

CONFESSO QUE VIVI

Quem se lembra daquela linda canção de Chico Buarque, já bem antiga, chamada “Carolina”?
Pois vale a pena a gente lembrar a letra, que diz tanta coisa!

“Carolina, nos seus olhos fundos, guarda tanta dor, a dor de todo esse mundo.
Eu já lhe expliquei que não vai dar, seu pranto não vai nada ajudar,
Eu já convidei para dançar, é hora, já sei, de aproveitar.

Lá fora, amor, uma rosa nasceu, todo mundo sambou, uma estrela caiu.
Eu bem que mostrei sorrindo, pela janela, ah que lindo,
Mas Carolina não viu...
Carolina, nos seus olhos tristes, guarda tanto amor, o amor que já não existe.
Eu bem que avisei, vai acabar, de tudo lhe dei para aceitar,
Mil versos cantei pra lhe agradar, agora não sei como explicar.

Lá fora, amor, uma rosa morreu, uma festa acabou, nosso barco partiu.
Eu bem que mostrei a ela, o tempo passou na janela e só Carolina não viu.”

Que pena que não fui eu quem escreveu “Carolina”! Chico o fez no meu lugar.
Mas como me sinto feliz em poder dizer, neste dia que marca os meus tantos anos já vividos, que eu vi, sem lástimas, o tempo passar na janela! Que vi flores se abrindo, gente feliz dançando comigo, estrelas cadentes cruzando o céu. Vi a chuva e senti a água batendo no meu rosto. Vi o sol e senti seu calor inundando meu corpo. Vi dias nascerem tristes ou radiosos.E os vivi tristes ou radiosos.
Sinto-me imensamente gratificada em poder dizer que, se a vida foi dura comigo por longos períodos, com isto aprendi a valorizar cada momento de felicidade que ela me oferecia e, o mais importante, a tentar sempre multiplica-los. Sofri grandes tragédias pessoais, que fizeram padecer cada molécula de meu corpo, mas consegui superar e voltar a ser feliz. E compreendi a fragilidade de nossa existência. Já no outono, me lembro de minha primavera, e ,com tudo que os anos me ensinaram, tenho a convicção de que hoje aprendi a ser mais feliz do que naqueles anos dourados.
Como diz Jorge Luíz Borges, na vida perdemos várias oportunidades de ser felizes. E concordo com ele que, se pudesse recomeçar, transgrediria mais, apesar de nunca haver aceitado o que queriam me impor. O que me causou sérios problemas familiares. E não me arrependo! E como nunca tentei ser perfeita, nunca criei tensões na expectativa da aprovação alheia.E pude relaxar e viver feliz, apesar de tudo!
Minha desprentensão à aprovação alheia, me permitiu expandir esta força interna que temos dentro de nós, e que raramente, por ridículos pudores, temos a coragem de expor. A coragem de tocar, abraçar, acariaciar, falar do amor. De ilusões e desilusões. De banalidades e de “coisas sérias”. Dizer besteiras, dar gargalhadas, e também , na minha fragilidade, confessar o sofrimento. Enfim, nenhuma pretensão a ser mais do que humana. E esta foi uma grande conquista.
É verdade que tive, desde cedo, problemas reais, mas, afinal, eles foram benéficos, pois afastaram os imaginários. Então, não tive tempo de criar fantasmas.
E como detesto lentilhas, tomei mais sorvete.

Instantes (Poema de Luiz Borges)

“Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo do que tenho sido, na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico.
Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da sua vida; claro que tive momentos de alegria.
Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos, não perca o agora.
Eu era um desses que nunca ia à parte alguma sem ter um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas; se voltasse a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria até o final do outono.
Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças. Se tivesse outra vez uma vida pela frente... Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo...”
Ah, Carolina! Pobre Carolina! E quantas há que não vêem o tempo passar, e que quando despertam já é tarde para recomeçar. Já não podem correr riscos, subir montanhas, transgredir, não ser tão perfeita, gozar de verdade os bons momentos. E tomar mais sorvete!

Não tenho 85 anos, mas já ultrapassei os cinqüenta há bastante tempo. Não sei, nunca sabemos, o quanto me resta, mas decidi não deixar nada para trás. Quero ainda subir muitas montanhas, ver muitos entardeceres, correr muitos riscos, gozar intensamente os bons momentos que a vida ainda vai me dar. E ter a coragem de ter medo, de chorar, de sofrer. E jamais tentar ser perfeita.
É verdade que se pudesse recomeçar faria muita coisa diferente, mas afinal, contas feitas, posso afirmar como Neruda: “Confesso que vivi.”!

sexta-feira, 6 de março de 2009

O reino das trevas

Hoje, penetrei no Reino das Trevas. Subitamente, vi fogueiras se acendendo, rostos ardendo em chamas, gritos de dor, vultos cobertos de negro, que se moviam de um lado para outro, carregando fardos de palha seca para o suplício. Uma voz, vinda das profundezas das Trevas, dizia algo que eu não conseguia entender. A voz era melíflua, como deveria ser aquela que ouviu Eva, ao ser tentada pela serpente no Paraíso. Havia no ar um odor fétido, de podridão misturada ao incenso. Olhei aterrorizada a figura estranha que surgia diante de mim, procurei entender o que dizia. Pensei que tivesse morrido e, por meus inúmeros pecadilhos, estivesse sendo instalada no inferno inquisitorial. Mas, afinal, o que eu poderia ter feito de tão horrendo que me condenasse a todo este HORROR. Procurei, utilizando todas minhas reservas racionais, compreender o que dizia a figura, surgida das sombras aterrorizantes.
Só então, depois de imenso esforço concentrado, consegui compreender. E aí, tudo clareou, voltei à minha cozinha, onde preparava meu lanche noturno. Olhei minhas plantinhas, meus bichinhos, afaguei-lhes a cabeça. O que dizia a estranha criatura não me dizia respeito, e não merecia o meu respeito. Afinal, o que poderia significar para mim ser excomungada? Nem sabia que isso ainda existia! E eu nunca entrei naquela instituição. E nunca entrarei. Logo, nunca serei expulsa.
Subitamente, de novo voltei ao Mundo das Trevas! Tilinha, Nenêm, onde estão vocês? E minhas florzinhas? Minha saladinha, o pão integral, o suco? Tudo foi embora, engolido pelo Terror. As Trevas novamente haviam se instalado. Por quê? Reuni, mais uma vez, toda minha capacidade de compreensão, queria saber por que haviam voltado. Prestei o máximo de atenção, e ouvi aquela voz, simultaneamente melíflua e soturna, dizendo que pior do que ser estuprador de criança é salvar a vida desta criança. A raiva que senti foi tão grande que chutei aquelas Trevas, que me haviam feito tremer, para bem longe, coloquei-me defronte ao aparelho e resolvi ouvir o resto. Então, é verdade que Vaticano, CNBB, e toda a corte católico-celestial consideram o estuprador menos, e muito menos, pecaminoso do os médicos?
Passada a revolta, estando só, enquanto degustava meu lanchinho noturno, acompanhada de meus bichinhos, criaturinhas de Deus, fiz certas reflexões. Afinal, esta instituição tem que ser coerente consigo mesma. Uma instituição onde abundam pedófilos, que destruíram vidas que recém haviam começado, e onde não se tem notícia de nenhuma excomunhão, deve achar mais aceitável o estupro do que a vida. Uma instituição que prega a eliminação de pobreza e mantém na pobreza milhares de seus membros, que não têm sequer a justa remuneração de seu trabalho. Uma instituição que não aceita o progresso científico e acha natural o sofrimento quando este pode ser minorado ou dirimido. E tantas outras aberrações.
Confesso que me sinto feliz por não pertencer a esta instituição. Confesso que aprendi a amar a Deus com minha mãe, avessa à fé católica. Confesso que entendo porque tanta gente se converte a outras religiões, onde não é pecado progredir, onde o indivíduo e seu trabalho são valorizados. Confesso que fico encantada com o olhar sedutor do Padre Fábio de Mello,... mas sedução é outra coisa.
E minha última confissão: confesso que tenho preguiça de continuar deblaterando contra esta gente atrasada, e que, afinal, no mundo que conta de verdade, não significa mais nada.