QUEM SOU EU

Sou professora de Francês, mas hoje minha principal atividade é escrever e ler, além de cuidar dos meus três vira-latas: Charmoso, Príncipe e Luther.



Gosto de fazer ginástica, sou vegetariana e adoro animais em geral, menos baratas.



Sinto especial prazer quando meus textos agradam aos meus leitores. Espero continuar produzindo e me comunicando com todos os meus amigos, neste maravilhoso universo da net.



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sábado, 1 de maio de 2010

“La cantatrice chauve” em Juiz de Fora

Durante alguns anos, na Universidade Federal de Juiz de Fora, tive em atividade um grupo de teatro em francês “Théâtre Gavroche”, ao qual mais tarde se incorporou minha colega Walquíria. E uma das peças que encenamos chamava-se “Scène à quatre”. Foi assim, durante as leituras e os ensaios, que pudemos conhecer o extraordinário Ionesco e divulgá-lo aos que vinham nos assistir.

Engène Ionesco (1909 – 1994) é um dramaturgo franco-romeno que expõe em sua obra a incomunicabilidade entre os homens, a irracionalidade e a fragilidade nas relações humanas. Foi, juntamente com Samuel Beckett, autor do extraordinário “En attendant Godot” (“Esperando Godot”), um dos criadores do “Teatro do absurdo”. Coube a estes geniais escritores tornar explícito o que nos ocorre diariamente, sem nos darmos conta. E uma de suas peças – “La cantatrice chauve” (“A cantora careca”), de 1950, é apresentada em Paris, no Théâtre de La Huchette, desde 1957. Conta-se que se inspirou num método de ensino de inglês, onde frases desconexas se amontoavam com o exclusivo fim de ensinar estruturas gramaticais. Aliás, lembro-me de meus primeiros anos de ensino de francês (é claro que em 1950 eu não podia ser professora de nada!), lá pelos anos 70, em que nos debatíamos ainda com textos totalmente incoerentes, dentro dos padrões ditos “estruturais” do ensino de línguas. No caso da “Cantatrice Chauve”, dois casais, uma empregada e um bombeiro, que não se sabe como veio parar na peça, debatem absurdos. Ou, como repetem seus personagens, “parler pour ne rien dire”.

Mas, afinal, não é minha intenção discorrer sobre a obra, de que, confesso, nem me lembrava mais. Retomei-a, assim como tudo que conheço de Ionesco, graças à Secretaria de Política Urbana da Prefeitura de Juiz de Fora, através da “Lei municipal 11.197/06 arts 9º. -1,10º. – I e II, 88, 105-I, 108 parágrafo 3º. Decreto Municipal 9117/07 arts. 11,21parágrafo 1º., 3º. e 7º. , 22-III parágrafo único”. Só de ler este amontoado de palavras desconexas, eu, cidadã comum, sinto-me ameaçada e imagino quantos crimes deva ter cometido sem saber. E o pior, qual será minha pena?
Mas vamos ver como começou este teatro ionesquiano. Eram três horas da tarde, eu estava me acomodando para ler “Os anos loucos – Paris na década de 1920”, que Ricardo me presenteou. Já havia começado e estava ansiosa para prosseguir. Tilinha, nossa cadelinha, já estava deitada ao meu lado na poltrona, e Charmoso, nosso vira-lata, deitadinho na sua almofada. O gato Boris havia chegado, dado uma olhadinha e chispado para nossa cama, seu lugar predileto. Eu estava colocando os óculos e pensando que às quatro horas iria passar um café e comer um pãozinho prensado, que acho delicioso. Enfim, anunciava-se uma tarde muito agradável. De repente, ouço o interfone – Quem será? Atendo e mantenho o seguinte diálogo:


- Boa tarde. Eu queria falar com dona Maria Lúcia Viana.
- Sou eu.
- Sou da Fiscalização da Prefeitura e um documento seu foi achado no lixo.
Levo um susto imenso!
- Como? Um documento meu no lixo???!!!! (E já me imagino correndo de uma central burocrática para outra em busca de novos documentos. E o meu CPF, que vale mais do que minha vida? Por sorte, tenho identidade do Ministério do Exército, onde a burocracia é menor. Será? Tudo isto me passa pela cabeça enquanto corro desorientada em busca de minha bolsa – Onde a deixei? – E nestas horas, a gente nunca sabe onde deixou as coisas! Finalmente a encontro, busco a carteira onde guardo os documentos, verifico , torno a verificar. Está tudo ali. Mas então o que foi? Vem- me à mente, com terror, que talvez tenha deixado cair o meu DARF, aquele do monstruoso Imposto de Renda. Mas tenho certeza de que o guardei, lá em cima no armário. Tudo isto se passa num espaço de alguns poucos minutos. Volto correndo para o interfone e resolvo colocar a razão para funcionar)



- Olha, moço. Vou descer. Não estou entendendo. Espere-me na garagem.
- Por favor, traga um documento, preferencialmente o CPF. 

Desço, imaginando alguma coisa ruim. Encontro, então, dois homens paramentados com coletes, tendo escrito nas costas em letras garrafais “FISCALIZAÇÃO – PREFEITURA DE JUIZ DE FORA”. O porteiro, meu amigo de muitos anos, sorri com o canto da boca, daquele jeito que só mineiro sabe fazer.

-Dona Lúcia, eu expliquei o que aconteceu, mas o homem não aceita.
Foi, então, que o absurdo me foi mostrado. O sujeito tinha nas mãos, entre outros papéis rasgados, um pedaço de um informe que recebo regularmente de uma entidade internacional de ajuda a crianças carentes para a qual contribuo. É evidente que deveriam colocar meu nome e endereço para que eu pudesse receber! Quando rasguei e joguei no LIXO SECO, ficaram intactos justamente este dois dados. E era este o “documento” meu que haviam achado no lixo!!!!! E eu estava sendo multada em “auto de infração” por sujar a rua!

Tentei esclarecer que sou uma disciplinada fanática, que meu lixo seco, é seco mesmo, que sirvo de motivo de chacota para toda a família, já que lavo quentinhas e garrafas, que acondiciono tudo caprichosamente, e entrego pessoalmente ao catador. Contei-lhe que carrego sempre sacolinhas de plástico – estou procurando as ecológicas – para recolher as fezes de meus cachorros, e que ensino isto aos meus netinhos, assim como o que se refere ao lixo seco. Que o catador, freguês meu há anos, havia deixado escapar aquele pedacinho de papel. Que faço parte do Green Peace (que ele nem deve saber o que é). Argumentei, tentei expor minhas ideais acerca de meus deveres de cidadã. Sugeri-lhe que desse a volta e olhasse a praça onde moro, onde a sujeira se acumula há vários dias. O bocó permaneceu intransigente, sempre me repetindo que eu havia violado uma lei municipal. Perplexa, abandonei toda argumentação, e só depois me lembrei de que, como não havia tido flagrante, já ninguém me vira “jogar o documento na rua”, “sujando-a”, eu não poderia ser indiciada. Afinal não é assim que age a justiça brasileira?

A descrição de minha infração é a seguinte:

Por depositar lixo e/ou resíduo em via pública fora do horário estabelecido pelo DEMLURB” 
Há ainda o local do flagrante (?), “no endereço acima citado, próximo à polícia, posto de polícia.” E também a data do “flagrante” e o “horário”. Mas como ele pode saber se ninguém me viu cometer o delito? 

Abaixo ele assinalou entre outras opções “Fica ciente que deverá apresentar defesa (!!!) no prazo de 10 dias do recebimento deste ato.”

Assinei o documento – eu estava transtornada – e perguntei-lhe se deveria ser acompanhada de advogado. Negou. Mas meu advogado vai comigo. O mais engraçado é que o bocó que o acompanhava, também devidamente paramentado, segurava uma porção de talões de débito automático, todos amassados. Tive vontade de perguntar como iriam descobrir os autores do delito, mas já estava de saco cheio. Meu livro delicioso ficara aberto sobre a poltrona, meu cafezinho esvaiu-se naquele absurdo em que a Prefeitura de Juiz de Fora me afogou, minha tarde gostosa havia ido pelos ares. Antes de subir, já a caminho do elevador disse-lhe:

- E eu que votei nesse cara! Antes tivesse votada na opositora, colega minha de tantos anos, mas que é do PT! Bem feito para mim!

Subi, telefonei para Ricardo e combinamos um cafezinho no Shopping. Mostrei-lhe o documento. Estourou de rir “Justo você!”. E é isto que tenho ouvido de toda minha família desde aquele dia 28 de abril.
No dia seguinte encontrei Joaquim, o catador, contei-lhe a história. Atônito, comentou:

- E logo quem!
Mas, com a seriedade que a situação merece, o adverti:

- Olha, Joaquim, e se eu for presa, você vai comigo!

Ontem de manhã, quando voltava da ginástica, encontrei-o catando minuciosamente no chão tudo que encontrava. E havia até uma vassoura novinha.

O que me aconteceu expõe claramente o país patrimonialista, onde os “donos do poder” e seus acólitos consideram o cidadão simples objeto, cuja função é servir aos seus interesses.

Não sei qual será minha pena, mas quem sabe será semelhante à da bruxa que torturou a criancinha de dois anos? E ainda ontem , quando Ricardo voltava de seu passeio com Charmoso, Joaquim, aproximou-se e disse com convicção:

- Professor, está tudo errado! Tudo errado!

É verdade, Joaquim, você definiu bem o país: está tudo errado. E desde o princípio.

Pena que Ionesco e Beckett não estejam mais aqui!

sábado, 27 de março de 2010

La buena y la mala educacion

Nestes dias em que assisto ao fim de vida de uma mulher, lembrei-me do filme de Almodavar intitulado “La mala educacion”. A obra do espanhol só vem ao caso pelo título. Na verdade, Almodovar não é dos meus cineastas prediletos, mas tem o mérito de por a nu, sem escrúpulos, com absoluta “mala educacion”, tudo aquilo que a “boa sociedade” joga para baixo do tapete. E poucos têm a coragem de fazê-lo.

Mas, para começar, falemos um pouco do que poderia significar “La buena educacion”, que acho resultaria num filme muito interessante. Simone de Beauvoir já havia falado desta boa educação no seu livro “Mémoires d´une fille rangée”, onde conta sua vida e a educação que quiseram lhe impor. Conta sua infância, adolescência e o início de suas indagações, sua vida universitária, e a transformação definitiva ao encontrar Sartre. Trata-se de obra de uma grande intelectual, onde sua visão crítica do mundo que a cerca impressionou-me imensamente, assim como seu magistral “Le Deuxième Sexe”.
Estas obras me trouxeram muitas outras indagações, além das que já tinha, e novos conceitos que substituíram muitos dos que me haviam sido incutidos desde muito cedo. São as minhas metamorfoses, que fizeram de mim o que sou hoje. Mas, enfim, o que pretendo é fazer aqui algumas observações corriqueiras, ou talvez divagações, sobre aquilo de que não se falou: “La buena educacion”. E por que não também sobre a “mala”?

Afinal, o que é uma “jeune fille rangée”, ou a mulher, neste caso não importa a idade, provida de “buena educacion” ? E aí sou obrigada a retomar velhos chavões, que mesmo que hajam desaparecido do vocabulário da maioria das pessoas, ainda fazem parte das crenças profundas de muita gente. E logo me vem à mente aquela mulher que, coitada, não foi escolhida (seguramente porque tem algum defeito), e por isso não se casou, e assim sendo deve morrer “moça”. Ao pensar nela, na “buena educacion” , vejo claramente aquela que jamais se “perdeu” , a pobrezinha a quem nenhum homem “fez mal” . E morreu virgem. E ao cogitar da “buena educacion” , não há como impedir que me venha à memória minhas colegas de Faculdade, sem nenhum projeto profissional, que disputavam o mais belo enxoval! Será que isto ainda existe? ...enxoval?

Uma mulher bem educada, jovem ou não, pouco importa, tem algumas regras a seguir, ainda que isto lhe custe a felicidade e a vida. A “buena educacion” , humilha, mata, destrói, corrompe. A “buena educacion” me faz pensar em mulheres traídas, que não quiseram tomar seu próprio rumo, porque isto lhes exigiria um esforço, e, talvez, um compromisso que não se sentiam capazes de assumir, ainda que o fossem. A “buena educacion” faz-me lembrar de uma eterna criança, prima de minha mãe, e seu marido, que, gravemente doente, adotou uma menininha para que cuidasse da mãe na velhice, sendo a própria considerada incapaz para fazê-lo. O trágico é que esta “menininha” foi a grande causadora de sua morte.

Ao pensar na “buena educacion” , lembrei-me de histórias de mulheres que desenvolveram doenças graves, e morreram, afogadas na infelicidade de casamentos mal-sucedidos e filhos egoístas. Mulheres que deram a vida e tão pouco receberam em troca. Mas jamais disseram um palavrão, nem tiveram a coragem de enxotar de casa gente que as atormentava. Afinal “mulheres educadas” não podem buscar a felicidade. Mulheres educadas afogam suas mágoas com outras mulheres educadas, e, sem queixas, deixam a vida levá-las. Mulheres vítimas da “buena educacion” passam pela vida sem cogitar delas próprias, são boas mães, boas esposas, sacos de pancadas para todos.

Desde bem jovem, comecei a colocar em questão esta “buena educacion” e a cogitar da “mala” . É verdade que tive sempre a consciência de que tudo dependia de minha independência econômica, o que conquistei graças ao meu esforço, e me orgulho disso. Não fiz alarde de meus conceitos, levei meus pais, já velhos, para temporadas em estações de águas, mas não adotei jamais os princípios de uma menina bem comportada.
Minha “mala educacion” me permitiu chutar a dicotomia "moça/mulher" , “livre/escrava” (Quantas vezes ouvi dizer que fulana era uma mulher livre?) , "casada/encalhada" , "perdida/achada(?)" , "mulher da vida/mulher da morte (!)" , e alguns outros de que não me lembro. Contou-me meu mastologista – sou do grupo de risco já que minha mãe teve câncer de mama- que a maioria das mulheres que opera de câncer, sofreu desilusão amorosa ou foi abandonada. Ao que retruquei que há também aquelas cujos maridos trazem para elas a doença. E alguém já ouviu falar de algum marido traído, ou abandonado, que tenha desenvolvido, pela mágoa, câncer de próstata? Maridos traídos ou abandonados – em geral por maus-tratos às mulheres – muitas vezes resolvem o problema na base do tiro na cabeça. Da mulher.

Minha “mala educacion” me fez ficar “encalhada” aos olhos das mulheres de “buena educacion” até bem tarde. Mas me permitiu cultivar paixões, efêmeras, mas saborosas, o que moças bem-educadas não puderam fazer. Minha “mala educacion” me permite ainda hoje usar roupas colantes ao fazer minha ginástica diária, apesar dos meus muitos anos vividos, almoçar em restaurante diferente de meu companheiro, já que sou vegetariana, viajar quando quiser, ter minhas próprias opiniões. E, acho eu, ajudou-me a encontrar o amor, de alguém que se cansara, bem mais tarde do que eu, de moças bem-comportadas. Minha “mala educacion” me tira do célebre “grupo de risco”, me faz livre, e feliz, porque, afinal, não há bem maior do que a liberdade. E isto meu ginecologista, que me apresenta números, não sabe. E sei que somente a vontade de Deus poderá determinar o que virá.

A mulher que vejo, com sincero pesar, viver seus últimos dias, viveu todos os outros com seu exemplar comportamento. Deixará saudades, muitas. Haverá muita dor. Mas será que valeu a pena não ter tido um dia, pelo menos, de “mala educacion” ?

quarta-feira, 17 de março de 2010

Pegadas do passado

“Eu sonhei que tu estavas tão linda.
Numa festa de raro esplendor.
Teu vestido de baile, lembro ainda
Era branco, todo branco, meu amor
.................................................."

Voltei ao meu passado mais remoto. A primeira imagem que me veio à mente foi de minha avó Joana. E logo surgiu minha mãe, a pequena luz da máquina de costura acessa, pedalando ao som do rádio. Quem sabe aquela mesma canção, na voz poderosa de Carlos Galhardo.

Estávamos, Ricardo e eu, jantando em Tiradentes, à luz de velas, comemorando um dos meus tantos e tantos anos vividos. De repente uma dupla de músicos, violão e bandolim, entrou, e então ouvi esta canção. E com ela abri o arquivo de minha história.

Minha história... Cheguei àquele momento da vida em que começamos a rememorar, a trazer de muito longe lembranças adormecidas, mas que, ainda que adormecidas, estarão para sempre conosco. Até o momento final. Não tenho ilusões de que meu futuro é infinitamente menor do que meu passado. E não poderia ser de outra forma. Tenho tantas histórias para contar! Sempre fui boa observadora, e ouvinte. Cheguei a escrever um livro sobre a história de minha família baseada exclusivamente no que ouvia, sobretudo de minha mãe. Tenho-o guardado. Nem sei quem o leu, mas isto pouco importa. O que importa é o prazer de contar, de falar de um mundo que não existe mais; pessoas, lugares, hábitos, dramas. Não sei se algum dia contarei, não mais “tudo que me contaram”, mas “tudo que vi e vivi”. Diz Ricardo que tenho o talento gaúcho do “contador de histórias”. E aí está meu amado Érico Veríssimo.

Naquela noite, de frente a meu companheiro de tantos anos, diante de uma taça de vinho, falei ...e falei. Foi como se a memória de meu computador natural se abrisse e despejasse no ar, ao som de minha voz, tantas histórias. Falei de gente que já havia esquecido há muito tempo, revivi sensações. Lembrei-me da rua escura, num bairro distante, onde minha família se instalara após a transferência de meu pai para a cidade. Era iluminada por escassos postes altos, de luz amarelada, e, nas noites quentes, a criançada se reunia para brincar. Quase não havia trânsito e livremente transitávamos de uma calçada para outra. E ao descrever a rua, que revia de forma tão clara na minha mente, lembrei-me da mulher paupérrima que vivia em um casebre nos fundos de uma velha casa, bem defronte à nossa. Achava-a feia, mal-cheirosa. Nesta época, eu não tinha mais do que quatro anos. Somente bem mais tarde soube de sua miserável vida de prostituta. Tinha olhos azuis, cabelos louros, seguramente oxigenados, dentes estragados. Morava com a mãe e uma filha. Pobre gente! Já devem ter morrido há muito tempo.

Depois, mudamo-nos para uma vila, onde moravam quase exclusivamente militares. Lembro-me de minhas amiguinhas, todas filhas de militares, mas só guardei o nome de duas: Evinha e Léa. Brincávamos de pique - esconde, nos enfurnando nas varandas das casas, todas em estilo anos quarenta. Ou então brincávamos de estátua, o que eu detestava, já que nunca conseguia imobilizar-me de repente. E me lembro do cruel plano de surra numa menininha, justo no dia em que chegamos de mudança. Era filha da amante de um major, cuja filha fazia parte do grupo. Fiquei estarrecida. Por que bater nela? Não me lembro o que disseram, mas subi para casa aos prantos. Lembro-me bem que meu irmão me perguntava se haviam me maltratado, mas eu não sabia responder. Como acabou a história? Não tenho a mínima idéia.

E havia ainda tanta coisa a contar! Meu pavor dos “sujos”, que desfilavam no Carnaval, a cabeça coberta por uma fronha com dois buracos para os olhos e um para a boca. Acho que era assim, pois a única vez que vi um deles de perto, foi quando ele tocou meu ombro e, virando-me, vi aquele monstro medonho. Disparei aos gritos. Eu tinha cinco anos, mas disso me lembro bem. E dos beliscões de minha irmã, dez anos mais velha, quando eu ficava chateando seu namoro. Apaixonei-me por um de seus namorados, chamava-se José Félix, era gaúcho, como minha família, e lindo! Fiz até promessa quando ele propôs reatar o namoro, mas não deu. Fiquei penalizada. Como minha irmã podia ser tão burra!? E também me lembrei da moça loura, alta, que passava bem defronte à vila, na saída do colégio. Um dia deixou de passar, e então alguém me disse que havia morrido. Fiquei consternada! E também das festas de Cosme e Damião, quando a gente recebia um cornetinho feito de papel rosa, com balinhas dentro. E do meu horror à papinha que minha avó me obrigava a comer, feita de café com leite e pão picado, hábito da América espanhola, transplantado para a região da fronteira com a Argentina. Vi meu pai e minha mãe comerem isto a vida inteira. E sempre me causou o mesmo horror da infância. Lembrei-me de tanta coisa daquele passado tão remoto!

Hoje, aprendi a valorizar cada dia vivido, e dar graças por haver passado por muito sofrimento sem perder a alegria de viver. Compreendi a efemeridade de tudo e que de nada valem pequenas e mesquinhas vaidades, ainda que eu tenha a minha, mas que não é pequena nem mesquinha. Ouvindo naquela noite os dois músicos, que tocavam aquela velha canção, tive a certeza de que havia vencido. Sofrimentos, tive muitos, perdi minha família original, vi meu pai morrer cada dia, vítima de uma terrível cardiopatia, minha mãe sofrer durante seis anos,confinada à uma cama, minha irmã ser condenada pelo câncer, meu irmão morrer poucas horas depois de haver sido internado. Mas estou viva, lembrando aquele passado distante, diante do homem que amo, e brindando à vida.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Mulheres apaixonadas

Sábado passado, havia um bloco de carnaval bem defronte à minha casa. A folia era animada com velhas músicas, aquelas que animaram os carnavais de nossa juventude e até de nossa infância. E, dentre muitas outras, ouvi repetidas vezes uma das mais lindas: “Bandeira branca”. Lembro-me de que era cantada por Dalva de Oliveira, e começa e se repete com a confissão da derrota de uma mulher apaixonada: “Bandeira branca, amor, não posso mais. Pela saudade que me invade, eu peço paz.” Foi composta em 1970, poucos anos antes da morte de Dalva. Não sei se a escolha da cantora foi proposital, mas pode-se pensar que sim. Há pouco tempo, vi pela televisão, como milhões de outros brasileiros, uma mini-série que contava a tumultuada vida amorosa de Dalva de Oliveira e Herivelto Martins. Parece que a história contada foi bastante fidedigna, já que teve a aprovação de Perry Ribeiro, filho de ambos, cantor muito popular no auge da Bossa Nova.

Mas, ao assistir à mini-série, e aos grandes conflitos vividos por uma mulher apaixonada e um homem que a considerava como propriedade sua, que a traía e mantinha, por razões de segurança, sobretudo profissional, o casamento e uma aparente vida familiar, não pude deixar de lembrar-me de muitas outras histórias de paixão, ódio, submissão e vingança. E a primeira a me vir à mente foi a de Diane, princesa de Gales. Dalva era filha de um carpinteiro, Diane de um conde. Uma morreu aos cinqüenta e cinco anos, a outra aos trinta e seis. Ambas acreditaram no amor. Estou certa de que Diane casou-se apaixonada, afinal o pretendente era um príncipe, e ela era muito jovem. Traídas, resolveram se vingar traindo. Diane foi escolha definida por necessidades da realeza britânica, e Dalva pela ambição de sucesso de seu parceiro. Traídas, falaram muito, queriam vingança. Colocaram em público suas vidas íntimas. Dalva e Diana, de origens tão diferentes, com vidas tão diferentes, tinham em comum um traço que desenhou seus destinos: foram mulheres apaixonadas. Vítimas da traição, se vingaram da mesma forma. E feriram-se ao tentar ferir seus homens. Não muito antes de morrer, numa entrevista Diane chocou o mundo. Ali, ela expunha sua vida, suas aventuras, e seu rancor. Há poucos dias, procurando informações na internet, vi uma entrevista de Dalva, feita pouco antes de sua morte, muito tempo depois da separação. Surpreendeu-me sua incontida mágoa.

Há, na literatura universal, obras magistrais acerca do domínio da paixão sobre mulheres. Basta lembrar Emma Bovary e Anna Karenina. Flaubert e Tolstoi, geniais escritores, conhecedores profundos da alma humana, souberam magnificamente descrever os conflitos que cercam a paixão e o adultério. Paixão e adultério, que, sob formas diferentes, ainda atormentam em nossos dias muitas mulheres. Anna de Assis, paradigma real das outras duas, também viveu uma paixão, que culminou não em uma, mas em várias tragédias sucessivas. Minha avó Joana, mãe de minha mãe, também viveu intensamente uma paixão. Por ela abandonou um lar estável e fugiu com o homem que a seduzira. Grávida, foi abandonada e trazida de volta, por um irmão, para a casa materna, para sempre desonrada. Nasceu minha mãe, Alice, registrada como “filha natural de pai desconhecido”. Também minha avó paterna, viúva aos vinte nove anos, com quatro filhos, apaixonou-se perdidamente por um ator português, que passava com uma Companhia pelo interior do Rio Grande do Sul. Por ele enfrentou tempestades. Mas a paixão terminou em separação e grande dor.

Mulheres apaixonadas sempre existirão. Mulheres que encaram a vida, em toda sua complexidade, como se tudo se resumisse à outra pessoa. E isto é diferente de amar. No amor, cultivamos projetos pessoais, falamos deles ao companheiro, e ele nos fala dos seus. Partilhamos. Somos indivíduos, encorajados a cultivar nossa identidade, nossa história, que não é, e não pode ser a do outro. Diz Simone de Beauvoir na sua magistral obra pioneira Le deuxième Sexe: “Tudo ainda encoraja a jovem a esperar do príncipe encantado sucesso e felicidade, ao invés de tentar ela própria a difícil e incerta conquista”. O livro foi publicado pela primeira vez nos fins dos anos quarenta, e provocou escândalo na sociedade francesa. Mas, ainda que haja coisas que hoje não mais aceitamos, ficou para nós, mulheres, a lição de que esta “difícil e incerta conquista”, que se chama “projeto”, é que dá sentido à nossa vida, e nos permite amar de verdade.

Lembro-me de meu desespero diante do progressivo abandono da vida que acometeu à minha mãe após a morte de meu pai. Logo eu, mulher que se orgulha de sua contemporaneidade, de sua independência, de seu amor maduro por um companheiro de muitos anos, onde direitos e deveres são igualmente partilhados. Como, então, entender que Alice desejasse tão ardentemente a morte, mergulhada durante seis anos numa cama, sofrendo constantemente a dor de sua perda. Até que, depois de muita luta, compreendi, e me conformei. E quando ela se foi, eu, que nunca me casei, nem havia usado aliança, pedi à médica que nos havia comunicado sua morte que me permitisse tirar de seu dedo aquele símbolo que a havia acompanhado desde seus quinze anos. Coloquei-o no meu, e falei-lhe, acariciando seu rosto, enquanto, emocionada, minha irmã chorava: “Adeus Alice, agora você está feliz ao lado dele.”

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

“Os Farsantes”

O título, tomei-o de um livro de Graham Greene, escritor, se não me engano, escocês. Li-o quando era bem jovem e fiquei impressionada. Anos depois o vi na tela, com Peter Ustinov e Elizabeth Taylor. Não me lembro bem do enredo, mas trata-se da vida tumultuada de alguns americanos, comerciantes e diplomatas, que vivem no Haiti. Mas, se esqueci detalhes do enredo, ficou-me na lembrança, desde a leitura do livro, a imagem do país miserável, governado por um ditador sanguinário – será que há algum que não seja? – e sua polícia política, formada pelos “Tontons macoutes”, cuja crueldade deixou-me pasma. E olhem que eu também vivia sob uma ditadura! O ditador chamava-se François Duvalier, “carinhosamente” chamado de Papa Doc. Aliás, Stalin também era chamado de “paizinho”.

No seu magnífico livro “Uma gota de sangue – história do pensamento racial”, Demétrio Magnoli, conta as origens do Haiti, que surgiu da maior de todas as revoltas de escravos. Teve como líder um certo François-Dominique Toussaint Louverture , nome que vi na fachada semi destruída do prédio do aeroporto de Porto Príncipe. Toussaint, de escravo analfabeto, tornou-se homem instruído, ávido leitor do iluministas. Em 1801, convocou uma Assembléia Constitucional que proclamava a “igualdade entre os homens e proibia distinções derivadas da cor da pele.” Dizia o artigo 5º. da Constituição: “Nenhuma outra distinção existe senão aquelas de virtudes e talentos, nem qualquer superioridade senão a garantida pela lei no exercício de um cargo público.” Concluindo que: “A lei é a mesma para todos, quer ela puna ou proteja.” Seu governo durou menos de um ano e, por desgostar a Napoleão, foi vencido pelas tropas francesas e levado para França, onde maus tratos o levaram à morte por pneumonia. Outro general tomou o poder no Haiti, Dessalines, que derrotou as tropas francesas. “O Haiti tornou-se a segunda nação soberana nas Américas, e a única no mundo emanada de uma revolução de escravos.” Dessalines determinava no artigo 14 da Constituição que “os haitianos devem ser, de agora em diante, designados pelo nome genérico de negros.” Tornou-se Imperador , mas foi assassinado algum tempo depois. E desde então o Haiti tornou-se uma sucessão de tiranias, até desembocar, em 1957, em Papa Doc. Médico, cujo “reinado” durou quatorze anos, e só teve fim com sua morte. Foi sucedido por seu filho Baby Doc, cujo perfil moral é o mesmo do pai. Sua ditadura teve fim em 1985, e, tendo sido generosamente acolhido pela França, desfruta, ou desfrutou – dizem que está falido - das delícias de uma mansão perto de Cannes.

No Haiti reinaram dezenas de tiranos, que empobreceram cada vez mais a população, enriquecendo-se e à uma elite corrupta que os seguia. Rafael Leonidas Trujillo fez o mesmo na vizinha República Dominicana. Acumulou imensa fortuna à custa da miséria de seu povo, e governava o país como sua fazenda particular. Era tão ordinário que dele dizia certo secretário de Estado americano: “É um filho-da-puta, mas é nosso filho-da-puta.” Foi assassinado em 1961, e seus assassinos foram cruelmente perseguidos, assim como suas famílias. Este “filho-da-puta” inspirou a Vargas Lhosa um magnífico livro, “A Festa do Bode”. Sucedeu-o seu filho Ramfis, assassino nato, que cometeu crueldades que se comparam às dos nazistas. Nadando na roubalheira, entre um assassinato e outro, especializou-se em comprar mundanas, que também eram atrizes como Kim Novak, Zsa Zsa Gabor, e muitas outras. Não sei quando foi apeado do poder, mas já morreu há muitos anos.E também havia Anastácio Somoza, ditador da Nicarágua, assassinado no Paraguay pelos Montoneros, com tiros de bazuca, nos anos oitenta.

Papa doc, Baby Doc, Rafael Trujillo, Ramfis, Somoza, e tantos outros, são produto do patrimonialismo, que confunde o público com o privado – fenômeno que nós brasileiros conhecemos bem – e da Guerra fria. Guerra fria, que, como todas as guerras, não coloca nenhum princípio moral, o que deixou claro aquele secretário de Estado americano ao referir-se a Trujillo. E é preciso que a gente não se esqueça que do outro lado também valia tudo.

Na América Latina sempre fomos vítimas de ditadores. Há uma extensa literatura que fala deles, na Venezuela, no Equador, na Argentina, na Bolívia. No Brasil, vivemos vinte anos sob uma ditadura, mas nossos pais já haviam amargado outra, a do Estado Novo. Hoje passados tantos anos, quando pensávamos nos ver livres de qualquer ditadura, seja de direita ou esquerda, vemos surgir um AI6, aquele dos “Direitos humanos”, um Chavez, um Correa, um Morales, e para substituir Somoza, um Ortega, que de tão insignificante pensei que havia morrido. E não podemos esquecer de Zelaya, candidato a filhote de Chavez, gentilmente abrigado em nossa embaixada, que virou uma espécie de cortiço. Vemos assassinos serem considerados heróis, e por gente de um governo que se diz democrático (“Afinal, diz Tarso Genro – Ministro da Justiça – ele (Battisti) matou por uma causa!” Mas, então, Bin Laden também mata por uma causa!). O que queremos hoje é que não exista mais gente miserável como os haitianos, que haja democracia, liberdade, que cada um seja respeitado como ser humano.

E que, ainda que vítimas de uma catástrofe natural, os haitianos, assim como todos os outros povos do mundo, nunca mais sejam vítimas dos tiranos, que os fizeram permanecer nas trevas da ignorância, tornando-os mais e mais miseráveis. Que gente como Papa Doc e Trujillo, sempre imundos e corruptos, e também os candidatos a sê-lo, sejam definitivamente varridos da História da Humanidade, e que essa raça cósmica que forma o gênero humano possa ser feliz neste espaço de tempo que temos por aqui, e que chamamos de VIDA.

Dádiva de Deus.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Começar de novo

Quero começar 2010 como se fosse meu primeiro Ano Novo. Fiz esta promessa para mim mesma. Começar ou recomeçar, como se todas as mágoas do passado houvessem desaparecido. Dizer como Jean Renoir, cineasta, filho do grande pintor, ao escrever suas memórias: ”Do passado só o melhor.” Não conseguiu, como também não vou conseguir, mas quero definitivamente abandonar muitas coisas, a começar por aquelas que, não sei por que razão, guardei em meus armários: bolsinhas inúteis, bilhetinhos remotos, toalhinhas usadas quando a carruagem parava para a troca dos cavalos e as senhoras desciam para molhar levemente o rosto (tenho um monte, todas presenteadas, lindamente bordadas, e que nem sei onde meter). Quero despojar-me de tudo que não for necessário, não aceitarei mais presentes inúteis, que a gente ganha aos montes no Natal e depois fica sem saber o que fazer: nem bolsinhas para guardar calcinhas, bijuterias, lencinhos. Quero doar- e também não sei a quem - vasinhos, potinhos, bichinhos, toda a parafernália que enche a casa e a vida da gente.
Tenho feito um combate intransigente à inutilidade, quero viver com simplicidade. Simplicidade em tudo. Não quero coisas que atravanquem minha vida. Quero colocar meus milhões de CDs no Ipod. E depois que conseguir chegar ao final desta tarefa, que me parece tão árdua quanto “Os Doze Trabalhos de Hércules”, ainda terei o problema de distribuir os originais. Isto depois de uma cópia de segurança no Bekape. Quero passar para DVD os outros milhões de vídeos que venho amontoando, tudo com a contribuição do Ricardo, ao longo dos anos. Sendo que a maior parte é totalmente inútil. E ainda temos dezenas de álbuns com fotos nossas, tiradas aqui e ali, que quero reduzir ao meu Ipod, colocar em DVD, assegurando tudo no Bekape. Mas aí, o que fazer com os álbuns que se amontoam na parte superior de nossos armários? Jogar fora? Impossível! Afinal, fotos traduzem recordações que fazem parte da vida da gente! Quero reduzir, minimizar. Meu sonho mesmo é ter acesso à nanotecnologia. Quero vender, doar, dar de presente, minha mesa de madeira escura, enorme, com cadeiras pesadas e desconfortáveis, que pertencem a um passado que não posso e nem quero reviver. Quero uma mesa clean, pequena, onde Ricardo, eu e alguns poucos amigos possamos nos instalar e papear. Quero abrir armários com o necessário, bem organizados, que a gente saiba o que contêm.
Na minha busca pela simplicidade, encontrei coisas desaparecidas há muito tempo, de que nem me lembrava mais. Algumas guardei, outras joguei fora. Não quero fazer como meu pai que jogava dentro de um velho baú de ferro, todas suas más recordações. Quando fui remexê-lo, após sua morte, pude fazer um balanço de tudo que o atormentava. O que me atormenta, e todos têm alguma coisa que mexe mal com a gente, conto para meu analista. E depois de minha morte, meus segredos irão embora comigo. Do meu passado, quero guardar minhas fotos de felicidade, as lembranças dos que se foram muito antes de minha chegada, mas que, afinal, fazem parte da minha história: meu tataravô, meu bisavô, minha avó aos quinze anos, meu pai jovem e lindo, cheio de projetos e esperanças, suas fotos dedicadas à minha mãe com dedicatórias cheias de paixão: ”... à minha querida noivinha...”, lindo! E confesso que jamais recebi uma dedicatória assim. E ela numa foto enviada às amigas “... vejam como é lindo meu noivo...!” Quero Felippe e Alice felizes, para sempre na minha memória. Em 2010, não vou mais pensar neles doentes, sofredores. Quero alegria, porque afinal não sei quantos anos me restam. Confesso que, como no caso das toalhinhas bordadas e inúteis, também não sei o que fazer com certas lembranças, mas tanto umas quanto outras vão sumir do meu dia-a-dia e dar espaço a coisas úteis e gostosas.
Quero lembrar o meu passado sem mágoas, não quero maldizer meus sonhos de juventude, aqueles dos meus anos dourados, que na verdade eram anos de chumbo, quero pensar o quanto era lindo sonharmos. 2010 será meu ano de recomeço, e espero fazer este recomeço sempre que abrir os olhos para um novo dia, porque 1º. de janeiro nada mais é do que uma data. Um dia dentre os 365 outros, e eu quero 365 para recomeçar, o que, diga-se de passagem, meu Ipod, meus vídeos e minhas fotos vão me ajudar a fazer.
E viva o recomeço!

domingo, 1 de novembro de 2009

O DESLEIXO

No início de minha adolescência, graças a uma bolsa de estudos de meu pai na França, tive a sorte de entrar em contato com outra cultura. Experiência incomparável, que nos proporciona, sobretudo nesta faixa de idade, o que se convencionou chamar “visão no espelho”, fenômeno em que, confrontado ao outro, o estrangeiro, percebemos a nós mesmos, numa dimensão diferente. Pude, graças a isto, começar desde cedo a desenvolver um olhar crítico sobre a sociedade em que vivia. É verdade que acabei cultivando certas crenças que me acarretaram alguns problemas, mas considero que, afinal, consegui, com este olhar crítico, chegar à juventude com maturidade e já ao entardecer da vida com uma suficiente sabedoria, que nossa educação brasileira pequeno-burguesa sonega aos filhos. Tive ainda a felicidade de encontrar um companheiro como Ricardo. Suas reflexões sobre nossa realidade, nossos longos bate-papos, permitiram um debate sobre tudo aquilo que me parecia perverso no país. E com “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, que li avidamente, como que coroando tudo que havia percebido e discutido, pude, digamos assim, sistematizar o que vinha pensando e debatendo até então.
Não foi novidade para mim, a triste afirmação do autor de que somos uma “sociedade” do “cada um por si”, mas lendo-o conheci o contexto histórico desta nossa triste realidade. Já há muito tempo, só para ilustrar para mim mesma, fico observando o que se passa ao meu redor e não sei se devo rir ou chorar. Aliás, acho que chorar é melhor, porque mostra que, afinal, não aprovo e não quero ser assim. Comecemos com a academia de ginástica que freqüento, onde pesos de quase cem quilos são invariavelmente deixados nos aparelhos para quem vier depois se virar como puder. Em anos de freqüentação, só encontrei uma única alma caridosa, que vendo que havia sido descortês, veio pedir-me desculpas e retirou os pesos. A partir de então ficamos amigos, e o considero um verdadeiro cavalheiro. E ainda há as conversas nos aparelhos, ou as alternâncias intermináveis entre amigos, que privatizam um espaço que é de todos, que pagam (a mesma quantia). Isto sem falar no suor, que não raras vezes inunda assentos, encostos e colchonetes, e que a gente é obrigada a secar e limpar com o detergente, que os instrutores colocam por todo lado. Uma amiga chegou a ficar perplexa porque eu, que pouco transpiro, limpei o aparelho ao deixá-lo. E tem também os ventiladores que, freqüentemente, metem na cara da gente, ou desligam como se nem existíssemos. Como sou atrevida, logo protesto, algumas vezes ouço desculpas, outras recebo uma cara séria, já meio ofendida. Mas não me dou por vencida e defendo sem temor meus direitos, doa a quem doer como diz Boris Casoy.
Tudo isto pode ser englobado numa palavra: DESLEIXO. Diz Sérgio Buarque de Holanda que esta é uma palavra que não tem correspondente em nenhuma outra língua. E, realmente, saindo do Brasil jamais encontrei alhures correspondente concreto deste nosso traço civilizacional. Desleixo na relação com os outros, desleixo na conservação de um patrimônio privado que serve a todos, e pelo qual todos pagam. Há o desleixo com o que é público, de imediato transformado em bem privado. Mas uma das coisas que mais me fascina são as calçadas, hoje, pelo menos na nossa região, infalivelmente, de pedras portuguesas. Como sou obrigada a olhar quase o tempo todo para baixo, evitando buracos perigosos, que já me fizeram torcer o tornozelo – sempre o esquerdo – pelo menos umas três vezes, fico observando o “desenho” que “enfeita” nossas perigosas calçadas. Há um desenho recorrente de um animal que penso pretende ser um cavalo marinho. Mas o de nossas calçadas tem uma espécie de asa, ou coisa parecida, que pode fazer pensar num dragão. Já procurei na Google imagens do bichinho e li alguma coisa sobre eles, já que gosto tanto dos animais, e acho que se forem cavalos marinhos devem ser machos, guardando no ventre os ovos, já que têm, ou tinham, uma barriga proeminente. Mas seja lá o que for, de cavalos marinhos há muito se transformaram em outra coisa. Um dia desses, dei-me ao trabalho de observar atentamente cada um desses finados animaizinhos. Constato, então – sem nenhum espanto-, que poucos, pouquíssimos sobraram. Num percurso de cerca de duzentos metros, há coisas interessantíssimas. A maioria perdeu o rabo e engordou incrivelmente no conserto que tentaram (?) fazer. O rabo juntou-se à barriga e o bicho ficou estranhíssimo, redondo e sem o rabinho revirado que o caracteriza. Outros perderam este membro, e o focinho característico, transformando-se em um bicho inidentificável. Há um, pobrezinho, que perdeu tudo isto e engordou tanto, que virou um saco sem forma definida. E há ainda uns dois ou três que foram cruelmente esquartejados. Deles resta alguma coisa parecida com a cabeça na beira da calçada, ou perto das edificações, o rabo, ou algo parecido, sempre em direção oposta, e, finalmente, um corpanzil, que restou inerte, como prova do homicídio doloso do DESLEIXO, bem no meio da calçada. E finalmente, outros foram volatizados, misturados às pedras claras.
Na praça onde moro, toda coberta das malfadadas pedras, vejo de vez em quando um grupo de operários “consertando” o buraco que a chuva causou. Felizmente não há figuras, que foram substituídas por horríveis remendos. Os desníveis – aliás, alguém conhece uma calçada nivelada no Brasil? - são perigosíssimos, e entre uma pedrinha e outra há quase um centímetro de distância. Os operários colocam displicentemente as pedras, batem com um martelo – não sei se é especial-, coçam a barriga e falam de futebol. O resultado final é horroroso, e perigoso. Como gosto de usar saltos altos, há trechos em que não me aventuro sozinha. Logo eu que já tenho experiência com as calçadas!
Para terminar, um pequeno relato. Há alguns dias, estava eu mostrando ao meu netinho de dois anos os coelhinhos em uma loja vizinha, havia chovido. De repente, uma água imunda cai no meu rosto e entra pela minha boca. Sorte que não foi nele! Sinto algo viscoso, nojento, entrando-me pela boca. Cuspo imediatamente, e repito a operação várias vezes. Corro para casa, escovo os dentes, passo desinfetante bucal. Mas antes de disparar para casa, olho para cima. A água goteja de vários buracos na marquise, onde deveria haver alguma iluminação. Arrancaram as luminárias, os fios estão à mostra, enrolados e enferrujados, gotejando, certeiramente nas cabeças dos passantes a imundice que se acumulou. Mas, afinal, somos uma “sociedade” do “cada um por si”, do “salve-se quem puder”! E não há porque se surpreender.
E uma pergunta que não posso calar: por que estamos tão revoltados com nossos políticos, que não são nada mais do que a mais clara e descarada expressão do país?
E foram eleitos por nós!
E uma notícia de última hora! O que vocês acham dos detectores de armas que há um tempão – não me lembro quanto – foram abandonados em um galpão, ou coisa parecida, justo no Rio de Janeiro? Foram encomendados para vigilância de nossas fronteiras e custaram milhões! Afinal quem será o responsável? Algum dia ficaremos sabendo? E alguém será punido? Ou ainda mais, teremos notícia do destino que tiveram? Afinal é o nosso dinheiro!