QUEM SOU EU

Sou professora de Francês, mas hoje minha principal atividade é escrever e ler, além de cuidar dos meus três vira-latas: Charmoso, Príncipe e Luther.



Gosto de fazer ginástica, sou vegetariana e adoro animais em geral, menos baratas.



Sinto especial prazer quando meus textos agradam aos meus leitores. Espero continuar produzindo e me comunicando com todos os meus amigos, neste maravilhoso universo da net.



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sábado, 18 de setembro de 2010

“HUIS CLOS” no abismo

No rosto do mineiro estampado na capa da “Veja”, há um olhar vazio, como se olhasse para o nada. E olha. Olha para paredes úmidas, frias, escuras. Falta-lhe esperança? Não se pode dizer. Há um vazio que domina toda a foto. Mas o que espera ele, enterrado vivo, com um socorro incerto, a centenas de metros de profundidade? Ele e mais trinta e dois homens, isolados do mundo. Falta-lhes a claridade do sol, seu calor.  Falta-lhes oxigênio, o mínimo de conforto, mas, acima de tudo, falta-lhes liberdade. Este tesouro que nos permite determinar nosso destino, que nos faz humanos. Quanto desejo deve haver de dizer a uma mulher amada “Eu te amo”, de acariciar um filho, de abraçar o pai, mãe, um amigo, de lutar por um projeto. De pedir perdão.  
Ao ver aquele rosto, solitário, com mais trinta e dois, lembrei-me da peça de Jean-Paul Sartre, “Huis Clos”. Li-a várias vezes, mas na generosidade de emprestar livros, o perdi. No entanto, até hoje ainda está gravada na minha memória. Numa sala, são confinadas três pessoas, três mortos que acabam de chegar ao inferno: Inès, Estelle e Garcin. Neste inferno não há espelhos, nem janelas, a luz nunca se apaga.  Uma porta se abre e fecha à sucessiva entrada de cada morto. Até que se fecha definitivamente e eles se vêem confrontados uns com os outros. Não há fogo, nem tridente, nem diabo. Cada um deles finge não saber por que está lá, até que não resistem e contam a verdade. Inès é uma lésbica, que ajudou a matar o marido de uma prima, e matou-se em seguida levando ao suicídio a amante. Garcin é desertor, e foi fuzilado. Durante anos torturou a mulher com suas amantes. Inés matou o próprio filho, produto de um amor proibido. Não me lembro bem, mas acho que levou o amante ao suicídio. Olham-se o tempo todo já que não podem fechar os olhos, e acabam odiando-se. Estelle, vaidosa, quer se olhar em algum espelho, mas só lhe resta o espelho dos olhos de Inès, e ao olhá-la, sente sua culpa estampada nos olhos da outra. “O inferno são os outros”. Sartre fazia questão de assinalar que sua frase não significa que as relações humanas são tão dolorosas, mas que situações limite levam a este inferno. Mortos, nada podem mudar. Como os mineiros do abismo.
 Estelle, Inès, Garcin, precederam décadas aqueles mortos-vivos. Mas quantas vezes, vivos, não experimentamos situações, solitários com quem nos acompanha, engessados, abrindo mão de nossa liberdade?
O que será desses pobres homens, confinados a uma estreita sala, olhando-se uns aos outros, infinitamente, na semi-escuridão que os cerca? Já não se fala neles, os esquecemos como esquecemos tantas outras tragédias. Até um dia em que verão novamente a luz do sol, ou sucumbirão seja por razões físicas ou porque o inferno dos outros se tornou grande demais    

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A ESTONTEANTE E A REBOLANTE

Criei um novo blog
“hppt://wwwbelezaefundamental.blogspot.com/”,

onde pretendo falar de mulheres, e também de homens, que deixaram, ou deixarão, sua marca na história, por sua beleza e/ou inteligência.  Meu interesse, e todos aqueles que me conhecem já sabem de antemão, não é exaltar beldades. Beldades se esvaem quando não há mais nada que as marque.  Todos nós, feios, bonitos, estúpidos ou inteligentes, temos o nosso tempo, que o próprio tempo consome, e, como no filme “Gangues de Nova Iorque”, somos pouco a pouco engolidos pelo mato ou pelas torres. E desaparecemos logo que aqueles que nos conheceram também cumprem seu tempo.
Como introdução ao meu novo blog, onde coloquei a linda foto de Marylin Monroe nua, não poderia deixar de falar de um fenômeno que explodiu há cerca de cinqüenta anos: a democratizão da beleza, da elegância, dos embelezadores, do prêt-à-porter, fenômeno que considero importantíssimo, já que permite a todos nós conservar nossa auto-estima, ainda que a esquerda radical considere tudo isso ridículo, como achava meu antigo namorado Robert, que, aliás, tenho certeza, mudou seus conceitos. A este respeito, escrevi, em 2008, um texto: “Feios e fedorentos”. Falar da “Explosão da beleza” nos remete a um mundo onde todos nós podemos nos cuidar, e nos gostar. Mas também podemos ressaltar que no mundo contemporâneo temos acesso a um conhecimento que até bem pouco tempo era inaccessível aos que chamávamos de “excluídos”. Ainda não chegamos a todos, há muita miséria e ignorância, mas não resta dúvida que, pela evolução da tecnologia em qualquer setor, há muito mais gente “incluída”. E certamente não por obra do governo Lula.
Mas não é para falar mal deste governo, de minhas decepções, de meus sonhos perdidos, que escrevo hoje: quero falar de pornografia. Amigos, sentiram-se surpresos, constrangidos, ofendidos? Que pena! Vocês ainda não perceberam que basta abrir um jornal, uma revista, assistir a um telejornal, e lá está ela, esfregando na cara da gente despudor, mau-cheiro, feiúra, mau-hálito, e muito mais coisa que por uma questão de respeito não colocarei aqui.
Foi uma leitura desastrosa do cristianismo, durante a Idade Média, que colocou como pecado tudo que se refere ao corpo e ao prazer, que só foi retomado na Renascença. Lembro-me de que, quando trabalhava num grupo de estudos sobre a civilização francesa, lemos um livro fantástico “Le plaisir au Moyen Âge”. Já começa com São Paulo, que não admite o prazer, mas tem consciência que sem ele não poderá haver reprodução. Discute-se longamente, e hilariamente,  como se reproduzir sem pecado. Posteriormente, sem conseguir resolver o problema, aconselha-se ao casal a fazê-lo castamente, devendo a mulher, durante o ato sexual, recitar para seu parceiro orações que possam absolvê-los do pecado que estão cometendo.  Estupefaciente, não acham? E é interessante lembrar-se de um monge, Roger de Caen, que, em 1095, escreve: “Não ame nada que dê prazer aos sentidos, pois o que encanta a carne prejudica o espírito; as alegrias do mundo engendram sofrimentos eternos...” E Santo Estevão (morto em 1190) que, entrando para o sacerdócio, troca o riso, a alegria e a despreocupação pela angústia e tristeza. Troca igualmente suas vestimentas confortáveis por silício e o usa constantemente em contato direto com a carne. Somente se alimenta de pão e água regados por suas lágrimas, e durante o inverno, quando o gelo recobre os lagos, introduz-se na água até que seu corpo esteja totalmente enregelado. E há ainda outras crueldades praticadas contra si mesmo. Enfim, submete seu corpo a um total aniquilamento seja pelo frio ou pela fome. E em nome de Cristo! Quanto a queimar gente na fogueira... são hereges! Lendo tudo isto, tenho a convicção de que foi assim que desenvolvemos a vergonha do corpo, e, apesar de tantos séculos passados, aí estão as religiões, dando cobertura a esta anomalia.  Logo, como já disse, para muita gente é preciso fechar os olhos para a obra dos mestres da Renascença, e considerar a foto de Marilyn nua imoral (!) (Não me canso de repetir esta burrice)
Imoral é Fidel, aquele da Coréia do Norte, Armadinejad ( e olhe que não tenho especial simpatia pelo Estado de Israel), que executam os opositores. Imoral é Tarso Genro que entregou ao ditador os pugilistas cubanos que queriam uma vida melhor e nos mentiu que haviam partido porque estavam com saudades de casa. Imoral é Chavez,  e já me cansei de falar nisso. Imoral é Putin, que destruiu a cidade de Grosny, deixando na orfandade milhares de crianças, algumas das quais barbaramente estupradas por soldados russos. Sobre esta tragédia vi cenas chocantes no filme “Os órfãos de Grosny”.   Imoral é achar normal ser ladrão, como ouvi há alguns dias de uma pessoa que se diz ilustrada: “Roubar, todo mundo rouba.”  Imoral é ser Geddel Viera Lima, que utilizou na sua Bahia natal 67%  da verba destinada a socorrer vítimas de catástrofes, sendo que ao Estado só coube cerca de 10%.  E já podemos imaginar o que fez com o restante. E mais imoral ainda é o Presidente que não o demite, porque afinal Geddel é da base aliada e conta votos. 


O que acharam da dança do elefante – Angela Guadagnin-, festejando a absolvição de um mensaleiro? Pura pornografia, felizmente punida pelos eleitores.

terça-feira, 22 de junho de 2010

BELEZA É FUNDAMENTAL


Coloquei no novo blog “Beleza é fundamental”, uma foto que mostra uma das mais belas mulheres deste mundo, em geral habitado por gente feia. Linda, sensual, e com aquele ar ingênuo, de menina meio perdida no mundo mau. A foto foi tirada, creio eu, em 1947, quando ela tinha apenas vinte e um anos. Era uma moça pobre, filha de mãe esquizofrênica, abandonada pelo pai e criada num orfanato. Ao sair, dizem, foi adotada por uma família pobre, que, tendo se mudado de cidade, não pode levar consigo a mocinha. Em 1942, Norma Jean, seu nome verdadeiro, resolveu casar-se com seu namorado de algum tempo, por quem, parece, estava apaixonada e que a livraria do orfanato. Tendo o marido sido convocado em 1944, Norma Jean passou a trabalhar numa fabrica onde foi vista por um fotógrafo que percebeu o potencial incrível daquela mocinha e contratou-a para posar. Daí pra frente, com os cabelos louros, e já rebatizada Marilyn Monroe, teve que escolher entre a carreira e o casamento. Divorciou-se em 1946. Parece que foi no ano seguinte que posou para a foto que coloquei para ilustrar o blog e que, passados mais de sessenta anos, ainda é considerada uma das mais belas, senão a mais bela foto de nu feminino.

Marilyn, a menina pobre, bastarda, filha de mãe esquizofrênica, criada num orfanato, tornou-se a mulher mais famosa do século XX. Marilyn, que, quase cinqüenta anos após sua morte, ainda encanta, e faz sonhar. E provoca inveja em outras mulheres que sonham em ser tão lindas quanto ela. Marilyn, que morreu solitária , talvez tentando salvar-se, com a mão estendida em direção ao telefone.

Conto tudo isto, já que, parece, a beleza desta nudez singela, singela como a nudez exposta pelos mestres Renascentista, pareceu pornográfica (!) a gente que vive no século XXI (!), que já deve ter visto, ainda que seja de passagem, algum quadro dos grandes gênios. O que dizer, então, do David de Michelangelo, exibindo sua virilidade no seu órgão másculo exposto? E a arte grega? E a romana? Ora, para mim pouco importa o que digam alguns ou algumas invejosas e ignorantes. Marilyn, naquela foto, é a Venus de Boticelli, que emerge nua das águas, e que nunca, ninguém poderá apagar. Marilyn, deusa da beleza, que durante pouco anos, infelizmente, encantou o mundo, é a Venus do século XX, sem silicone, sem lipo, sem ginástica, sem photoshop. Esta mulher jamais poderá ser considerada pornográfica, e sua foto esplendorosa, mostrando toda sua nudez, para sempre ilustrará o que se quiser falar de beleza.

Para ela, escreveu este lindo poema, Ernesto Cardenal, poeta, religioso e revolucionário nicaragense

Oração para Marilyn Monroe


Senhor

recebe esta moça conhecida em toda a terra pelo nome de Marilyn Monroe
ainda que este não seja o seu nome verdadeiro
(mas Tu conheces o seu nome verdadeiro, o da pequena orfã).
violentada aos 9 anos,
a empregadinha de loja que quis se matar aos 16
e agora se apresenta diante de Ti sem nenhuma maquilagem
Sem seu Agente de Imprensa
Sem fotógrafos e sem assinar autógrafos
sozinha como um astronauta diante da noite espacial.
Ela sonhou quando menina que estava nua em uma igreja
(de acordo com a Time)
diante de uma multidão prostrada, com as cabeças no chão
e tinha que caminhar na ponta dos pés para não pisar nas cabeças.
Tu conheces nossos sonhos melhor que os psiquiatras.
Igreja, casa, cova, são a segurança do seio materno
mas também é mais que isso.

As cabeças são os admiradores, é claro
(a massa de cabeças na escuridão debaixo de um jorro de luz).
Porém o templo não são os estúdios da 20th Century Fox
que fizeram de Tua casa de oração um covil de ladrões.

Senhor
neste mundo contaminado de pecados e radioatividade
Tu não culparás apenas uma empregadinha de loja.
Que como toda empregadinha de loja sonhou ser estrela de cinema.
E o sonho foi realidade (mas como a realidade do technicolor).
Ela apenas representou de acordo com o script que lhe demos
--O de nossas próprias vidas-- E era um script absurdo.
Perdoa-lhe Senhor e nos perdoa
por nossa 20th Century
por esta Colossal Super Produção em que todos trabalhamos
Ela tinha fome de amor e oferecemos tranqüilizantes.
Pela tristeza de não sermos santos
recomendamos a Psicanálise.

Lembra-Te Senhor do seu crescente pavor da câmara
E seu ódio à maquilagem – insistindo em maquilar-se a cada cena –
e como se foi fazendo maior o horror
e maior a impontualidade nos estúdios.

Como toda empregadinha de loja
sonhou ser estrela de cinema.
E sua vida foi irreal quanto um sonho que um psiquiatra interpreta e arquiva.

Seus romances foram um beijo com os olhos fechados
que quando se abrem os olhos
descobrem-se embaixo de refletores
e os refletores se apagam.

E as duas paredes do quarto se desmontam (eram um set de cinema)
enquanto o Diretor se afasta com suas anotações
porque a cena já foi rodada.
Ou como uma viagem de iate, um beijo em Singapura, um baile no Rio
a recepção na mansão do Duque e da Duquesa de Windsor
vistas da sala do apartamento miserável.
O filme acabou sem o beijo final.
Acharam-na morta em sua cama com a mão ao telefone
E os detetives não souberam a quem ia chamar.
Foi
como alguém que discou o número da única voz amiga
e ouve apenas a voz de uma gravação dizendo: WRONG NUMBER
Ou como alguém que ferido pelos gangsters
estende a mão para um telefone desligado.
Senhor
quem quer que tenha sido a quem ela chamava
e não chamou (talvez ninguém
ou era Alguém cujo número não se encontra na Lista de Los Angeles)
atende Tu ao telefone.


quarta-feira, 16 de junho de 2010

Deus e o Diabo

“Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor. O Diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e amor com casamento.” 


“Será que todas estas moças estão se casando com imbecis?” O meu azar é que morávamos defronte a uma grande igreja, onde aos sábados os casamentos se sucediam, com lindas noivas, em lindos vestidos brancos, exibindo sua virgindade (que nesta época era pra valer). Nunca entramos num acordo meu pai e eu. Militar, engenheiro, gaúcho macho da fronteira, Felippe, jamais entendeu que um dos maiores beneficiados era ele mesmo. Tentei fazê-lo entender que amor e casamento não tinham nada a ver e que ao não ligar para este ato burocrático, eu o estava ajudando a fazer uma imensa economia, que poderia ser gasta em coisas mais interessantes, como uma viagem a Paris.

Afinal, eu era filha de um General, e, logo, meu casamento não poderia ser qualquer coisinha. Imagino que naquele tempo poderiam dizer que eu me casava grávida, coisa horrível, ou, menos horrível, que meu pai era um sovina. Vejamos então os gastos, sempre altos, para a patente de uma filha de General. Primeiro, havia o célebre enxoval, que, tenho certeza interessaria à maioria de minhas amigas da época, todas antenadas no “desencalhe”. Milhões de toalhinhas inúteis, toalhas, colchas, mantas, enfim um arsenal capaz de cobrir um batalhão. Quem sabe até me fosse cobrada uma exposição? E o vestido de noiva, que deveria ser lindo, como o das moças que me eram mostradas como modelos. E havia ainda a grinalda, o buquê, sapatos especiais. Sem esquecer o véu. E a ornamentação da igreja. E as roupinhas da daminha, que certamente seria Ludmila, minha sobrinha, que odiaria esta função e também, certamente, a roupinha. E haveria também a roupa da mãe da noiva, e a do pai. E se não houvesse festa, muita gente se consideraria ultrajada, e sairia falando cobras e lagartos. Se houvesse, idem. E como tínhamos, meu pai e eu, uma profunda incompatibilidade quanto aos meus pretendentes, este item sempre foi supérfluo.

E pasmem, Felippe odiava todas estas solenidades, e só se casara no civil. E ainda por cima, era agnóstico, ou ateu, não sei bem. Meu pai, pena, foi vítima do “politicamente correto”, em que uma moça deve casar. Como diz Simone de Beauvoir, no seu inigualável “Segundo sexo”, as mulheres casadas gozam de maior prestígio do que as solteiras. Ele sabia disso e talvez temesse me deixar trilhar meu próprio caminho, como eu pretendia fazer, e fiz. O livro foi escrito em 1947, mas ainda hoje persiste na cabeça de muita gente esta crença profunda, que, por ser crença, é quase inextirpável.

Rompi, e espero haver rompido, de fato, com todo tipo de preconceito. Orgulho-me em dizer que tinha um bisavô mulato, uma avó cabrocha, que não sou casada, e pretendo nunca me casar, mas que vivo com o homem que escolhi livremente. E que temos uma relação absoluta igualitária, onde dividimos deveres, despesas e, evidentemente, prazeres. Que tenho queridos amigos homossexuais. Meu último rompimento com o que não me diz respeito aconteceu quando perdi minha única irmã, último membro de minha família original. Com meus sobrinhos, decidimos que não havia necessidade de “missa de sétimo dia”. Reunimos amigos, alguns deles religiosos, falamos do que significa esta dolorosa separação, a morte, que nos aguarda a todos. Li um texto em sua homenagem, onde falava de minha dor e saudade. Mas também rimos nos lembrando de bons momentos vividos juntos, e até fizemos um lanche preparado por suas filhas e noras. Porque eu sabia que Teresa estava bem, e está. Talvez conosco naquele momento, também recordando. Porque tenho fé. Fé que me segurou nos momentos de dor por que todos nós passamos e que me dará forças até o final.

Mas sem religião. Nem casamento.
A frase acima é de Machado de Assis, mas disse-me um amigo que se inspirou em Shakespeare.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Cidadania

Resolvi divulgar minha defesa, já que, como cidadã que paga seus impostos e jamais cometeu ato delituoso, senti-me profundamente agredida. Na minha consciência de cidadania, tenho feito a defesa de minha comunidade, sem temor de expor minha cabeça, como no caso do abaixo-assinado que fiz correr pelo bairro. Naquela ocasião levei pessoalmente a moradores e comerciantes o texto por mim elaborado, em que denunciava a presença ostensiva de traficantes na pracinha, nas barbas do Posto Policial, aliciando crianças como “aviões” e chegando ao ponto de pesar a droga nas balanças de uma padaria. Recebi respostas interessantes, de gente medrosa, como a do tipo que me veio me falar no golpe de 64, no PT, fazendo a apologia deste partido. Respondi-lhe que não se tratava de uma questão político-partidária, mas sim da defesa de nossas crianças e de nós mesmos. Ele, evidentemente, recusou-se a assinar. 
O ano era 1997. Tendo conseguido certo volume de assinaturas, enviei, através de pessoas que tinham acesso a estas autoridades, ao Prefeito de então – Tarcísio Delgado – e também ao Comandante da Polícia Militar e ao Delegado Chefe da Polícia Civil. Jamais recebi resposta de ninguém. Mas não temi expor minha cabeça. E me orgulho disso.

“Minha defesa”

Quero esclarecer, antes de tudo, que não há o que defender na minha conduta e que, como cidadã, sinto-me profundamente indignada com o constrangimento a que fui submetida. Estava eu em casa, no dia 28 de abril do corrente ano, quando, ao atender ao interfone, fui informada por alguém que se dizia Fiscal da Prefeitura –Sr. Carlos Roberto Mazola (conforme documento anexo) - e que me dizia que um documento meu havia sido achado no lixo, o que me deixou assustada e perplexa, já que sou pessoa extremamente cuidadosa. Desci então à garagem, onde havia pedido ao citado Fiscal que me esperasse, pois não tendo constatado falta de nenhum documento, pensei poder tratar-se de golpe para penetrar em minha casa. Assim, ao encontrá-lo, acompanhado de outro Fiscal, mostrou-me um pedaço de papel rasgado com meu nome e endereço. Expliquei-lhe tratar-se de um informe de uma ONG internacional – Action Aids – ( e não de um documento meu) que ajuda crianças carentes. E que meu nome e endereço estavam impressos por tratar-se de correspondência. Expliquei ainda que de fato eu o rasgara e jogara no LIXO SECO, tendo entregue ao catador Joaquim, todo material reciclável devidamente acondicionado em sacolas plásticas. E ainda mais, que meu lixo seco é lavado, quando se trata de quentinhas ou garrafas, que pertenço ao Green Peace, que, aliás, ele me pareceu desconhecer. Invoquei o testemunho do porteiro – Carlos Antônio - e expliquei-lhe que simplesmente o catador Joaquim, conhecido em todo bairro de São Mateus, havia deixado escapar, no monte de material reciclável que junta e organiza, aquele pedacinho de papel. Irredutível, agindo de forma totalmente irracional, o citado funcionário da Prefeitura de Juiz de Fora, lavrou o auto de infração. Sendo que assinala um “horário de flagrante”, o que jamais poderia fazer já que nem ele nem ninguém me viu jogar o pedaço de papel no chão, “sujando” a via pública. 
Insurjo-me contra este ato autoritário, em que um funcionário do poder público constrange e tenta punir um cidadão, tratando-o arbitrariamente como autor de ato delituoso. E creio que atitudes como esta não só revoltam, mas ainda dão do governo municipal uma imagem de incompetência e autoritarismo. 
Não tendo nada mais a acrescentar, termino aqui “minha defesa” sugerindo à Secretaria de Política Urbana que dê uma vistoria na Praça Jarbas de Lery Santos, onde sujeira, folhas secas e galhos podres se amontoam. 

sábado, 1 de maio de 2010

“La cantatrice chauve” em Juiz de Fora

Durante alguns anos, na Universidade Federal de Juiz de Fora, tive em atividade um grupo de teatro em francês “Théâtre Gavroche”, ao qual mais tarde se incorporou minha colega Walquíria. E uma das peças que encenamos chamava-se “Scène à quatre”. Foi assim, durante as leituras e os ensaios, que pudemos conhecer o extraordinário Ionesco e divulgá-lo aos que vinham nos assistir.

Engène Ionesco (1909 – 1994) é um dramaturgo franco-romeno que expõe em sua obra a incomunicabilidade entre os homens, a irracionalidade e a fragilidade nas relações humanas. Foi, juntamente com Samuel Beckett, autor do extraordinário “En attendant Godot” (“Esperando Godot”), um dos criadores do “Teatro do absurdo”. Coube a estes geniais escritores tornar explícito o que nos ocorre diariamente, sem nos darmos conta. E uma de suas peças – “La cantatrice chauve” (“A cantora careca”), de 1950, é apresentada em Paris, no Théâtre de La Huchette, desde 1957. Conta-se que se inspirou num método de ensino de inglês, onde frases desconexas se amontoavam com o exclusivo fim de ensinar estruturas gramaticais. Aliás, lembro-me de meus primeiros anos de ensino de francês (é claro que em 1950 eu não podia ser professora de nada!), lá pelos anos 70, em que nos debatíamos ainda com textos totalmente incoerentes, dentro dos padrões ditos “estruturais” do ensino de línguas. No caso da “Cantatrice Chauve”, dois casais, uma empregada e um bombeiro, que não se sabe como veio parar na peça, debatem absurdos. Ou, como repetem seus personagens, “parler pour ne rien dire”.

Mas, afinal, não é minha intenção discorrer sobre a obra, de que, confesso, nem me lembrava mais. Retomei-a, assim como tudo que conheço de Ionesco, graças à Secretaria de Política Urbana da Prefeitura de Juiz de Fora, através da “Lei municipal 11.197/06 arts 9º. -1,10º. – I e II, 88, 105-I, 108 parágrafo 3º. Decreto Municipal 9117/07 arts. 11,21parágrafo 1º., 3º. e 7º. , 22-III parágrafo único”. Só de ler este amontoado de palavras desconexas, eu, cidadã comum, sinto-me ameaçada e imagino quantos crimes deva ter cometido sem saber. E o pior, qual será minha pena?
Mas vamos ver como começou este teatro ionesquiano. Eram três horas da tarde, eu estava me acomodando para ler “Os anos loucos – Paris na década de 1920”, que Ricardo me presenteou. Já havia começado e estava ansiosa para prosseguir. Tilinha, nossa cadelinha, já estava deitada ao meu lado na poltrona, e Charmoso, nosso vira-lata, deitadinho na sua almofada. O gato Boris havia chegado, dado uma olhadinha e chispado para nossa cama, seu lugar predileto. Eu estava colocando os óculos e pensando que às quatro horas iria passar um café e comer um pãozinho prensado, que acho delicioso. Enfim, anunciava-se uma tarde muito agradável. De repente, ouço o interfone – Quem será? Atendo e mantenho o seguinte diálogo:


- Boa tarde. Eu queria falar com dona Maria Lúcia Viana.
- Sou eu.
- Sou da Fiscalização da Prefeitura e um documento seu foi achado no lixo.
Levo um susto imenso!
- Como? Um documento meu no lixo???!!!! (E já me imagino correndo de uma central burocrática para outra em busca de novos documentos. E o meu CPF, que vale mais do que minha vida? Por sorte, tenho identidade do Ministério do Exército, onde a burocracia é menor. Será? Tudo isto me passa pela cabeça enquanto corro desorientada em busca de minha bolsa – Onde a deixei? – E nestas horas, a gente nunca sabe onde deixou as coisas! Finalmente a encontro, busco a carteira onde guardo os documentos, verifico , torno a verificar. Está tudo ali. Mas então o que foi? Vem- me à mente, com terror, que talvez tenha deixado cair o meu DARF, aquele do monstruoso Imposto de Renda. Mas tenho certeza de que o guardei, lá em cima no armário. Tudo isto se passa num espaço de alguns poucos minutos. Volto correndo para o interfone e resolvo colocar a razão para funcionar)



- Olha, moço. Vou descer. Não estou entendendo. Espere-me na garagem.
- Por favor, traga um documento, preferencialmente o CPF. 

Desço, imaginando alguma coisa ruim. Encontro, então, dois homens paramentados com coletes, tendo escrito nas costas em letras garrafais “FISCALIZAÇÃO – PREFEITURA DE JUIZ DE FORA”. O porteiro, meu amigo de muitos anos, sorri com o canto da boca, daquele jeito que só mineiro sabe fazer.

-Dona Lúcia, eu expliquei o que aconteceu, mas o homem não aceita.
Foi, então, que o absurdo me foi mostrado. O sujeito tinha nas mãos, entre outros papéis rasgados, um pedaço de um informe que recebo regularmente de uma entidade internacional de ajuda a crianças carentes para a qual contribuo. É evidente que deveriam colocar meu nome e endereço para que eu pudesse receber! Quando rasguei e joguei no LIXO SECO, ficaram intactos justamente este dois dados. E era este o “documento” meu que haviam achado no lixo!!!!! E eu estava sendo multada em “auto de infração” por sujar a rua!

Tentei esclarecer que sou uma disciplinada fanática, que meu lixo seco, é seco mesmo, que sirvo de motivo de chacota para toda a família, já que lavo quentinhas e garrafas, que acondiciono tudo caprichosamente, e entrego pessoalmente ao catador. Contei-lhe que carrego sempre sacolinhas de plástico – estou procurando as ecológicas – para recolher as fezes de meus cachorros, e que ensino isto aos meus netinhos, assim como o que se refere ao lixo seco. Que o catador, freguês meu há anos, havia deixado escapar aquele pedacinho de papel. Que faço parte do Green Peace (que ele nem deve saber o que é). Argumentei, tentei expor minhas ideais acerca de meus deveres de cidadã. Sugeri-lhe que desse a volta e olhasse a praça onde moro, onde a sujeira se acumula há vários dias. O bocó permaneceu intransigente, sempre me repetindo que eu havia violado uma lei municipal. Perplexa, abandonei toda argumentação, e só depois me lembrei de que, como não havia tido flagrante, já ninguém me vira “jogar o documento na rua”, “sujando-a”, eu não poderia ser indiciada. Afinal não é assim que age a justiça brasileira?

A descrição de minha infração é a seguinte:

Por depositar lixo e/ou resíduo em via pública fora do horário estabelecido pelo DEMLURB” 
Há ainda o local do flagrante (?), “no endereço acima citado, próximo à polícia, posto de polícia.” E também a data do “flagrante” e o “horário”. Mas como ele pode saber se ninguém me viu cometer o delito? 

Abaixo ele assinalou entre outras opções “Fica ciente que deverá apresentar defesa (!!!) no prazo de 10 dias do recebimento deste ato.”

Assinei o documento – eu estava transtornada – e perguntei-lhe se deveria ser acompanhada de advogado. Negou. Mas meu advogado vai comigo. O mais engraçado é que o bocó que o acompanhava, também devidamente paramentado, segurava uma porção de talões de débito automático, todos amassados. Tive vontade de perguntar como iriam descobrir os autores do delito, mas já estava de saco cheio. Meu livro delicioso ficara aberto sobre a poltrona, meu cafezinho esvaiu-se naquele absurdo em que a Prefeitura de Juiz de Fora me afogou, minha tarde gostosa havia ido pelos ares. Antes de subir, já a caminho do elevador disse-lhe:

- E eu que votei nesse cara! Antes tivesse votada na opositora, colega minha de tantos anos, mas que é do PT! Bem feito para mim!

Subi, telefonei para Ricardo e combinamos um cafezinho no Shopping. Mostrei-lhe o documento. Estourou de rir “Justo você!”. E é isto que tenho ouvido de toda minha família desde aquele dia 28 de abril.
No dia seguinte encontrei Joaquim, o catador, contei-lhe a história. Atônito, comentou:

- E logo quem!
Mas, com a seriedade que a situação merece, o adverti:

- Olha, Joaquim, e se eu for presa, você vai comigo!

Ontem de manhã, quando voltava da ginástica, encontrei-o catando minuciosamente no chão tudo que encontrava. E havia até uma vassoura novinha.

O que me aconteceu expõe claramente o país patrimonialista, onde os “donos do poder” e seus acólitos consideram o cidadão simples objeto, cuja função é servir aos seus interesses.

Não sei qual será minha pena, mas quem sabe será semelhante à da bruxa que torturou a criancinha de dois anos? E ainda ontem , quando Ricardo voltava de seu passeio com Charmoso, Joaquim, aproximou-se e disse com convicção:

- Professor, está tudo errado! Tudo errado!

É verdade, Joaquim, você definiu bem o país: está tudo errado. E desde o princípio.

Pena que Ionesco e Beckett não estejam mais aqui!