QUEM SOU EU

Sou professora de Francês, mas hoje minha principal atividade é escrever e ler, além de cuidar dos meus três vira-latas: Charmoso, Príncipe e Luther.



Gosto de fazer ginástica, sou vegetariana e adoro animais em geral, menos baratas.



Sinto especial prazer quando meus textos agradam aos meus leitores. Espero continuar produzindo e me comunicando com todos os meus amigos, neste maravilhoso universo da net.



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terça-feira, 8 de março de 2011

Começar de novo

Este é o nome de uma antiga série de televisão, com Regina Braga e Denis Carvalho. Lembro-me que contava a história de uma mulher que recomeçava a vida após o divórcio, com uma filha pequena e todos os problemas do dia-a-dia, que teria que enfrentar sozinha. Pois 2011 foi para mim um recomeço de fato, o que não chegou a acontecer em 2010. E não foi somente minha separação de Ricardo, depois de tantos anos, que marcou este recomeço. Recomecei partindo de muito antes. Talvez desde meus primórdios.  Sinto como se, há muitos anos, houvesse plantado em mim uma semente, que só agora germina e começa a dar frutos. Não lamento nada. Vivi felicidade e dor, como ocorre com todos. E vivi intensamente. E agora, quando constato que estou sozinha, que dependo exclusivamente de mim, despojo-me deste passado longínquo, que vai muito além de Ricardo, e recomeço, cheia de vida e esperança, quando muitos já consideram tudo pronto.
Minha mãe, marcada por sua condição de “filha natural”, numa sociedade cruel e hipócrita, onde sofreu todo tipo de discriminação, pobreza e perdas, contou-me desde cedo sua história e eu, tenho consciência disso, a incorporei. A morte trágica, provavelmente por suicídio, de sua única irmã, aos dezessete anos. A morte de Maria, irmã de meu pai por parte de mãe, de peste bubônica, aos 12 anos. Era sua amiga, e minha mãe jamais pode esquecer esta tragédia. Agora, quero recomeçar, construir um futuro, de onde estejam ausentes lembranças e dramas que não são meus. Acerca deste passado escrevi um livro, que na verdade não pretendo publicar, que intitulei “Tudo que me contaram”. Nele relato histórias de família, que me foram passadas por meus pais e por velhos parentes.
Foi depois da saída de Ricardo de minha vida que, percorrendo a casa, constatei, perplexa, que minha presença ali era quase nula. Minha individualidade havia se diluído ao longo dos anos, de muitos anos, em outras presenças, em lembranças de um passado, que muitas vezes eu desconhecia. Fotos de minha tia Aracy, repetidas sobre um móvel e numa parede. Velhas almofadas de casamento, que mandei emoldurar, enfeitavam as paredes de meu quarto. E um fantástico medalhão do casamento de meus bisavós, de 1869, pendurado sobre a cama.  E ainda outras coisas, que eu jamais poderia cogitar em retirar, pois as havia identificado às  pessoas amadas que haviam partido. E desta profusão de recordações, numa tentativa de resgate, Ricardo e eu estávamos ausentes. Foi então que  percebi que meu recomeçar não tinha tanto a ver com a nossa separação e que ia muito além, o que o tornaria mais difícil.
Decidida, comecei pelos velhos livros, papéis, cartas, fotos, etc. O que já contei anteriormente. Depois me voltei para a decoração. Refiz tudo “clean”, com papel de parede de cor neutra, cobrindo igualmente todas as paredes. Cortinas claras. Percebi que minhas idéias acerca da decoração transitavam pelo que já passou. Guardei cuidadosamente as velhas fotos, as velhas almofadas, mas deixei o medalhão que pretendo colocar em algum lugar do quarto. Despojei minha casa. Dei roupas que não considero mais adequadas para mim. Esvaziei armários. Tive a coragem, o que me parecia difícil, de dizer adeus às velhas lembranças visíveis e guardá-las no meu coração. Inesquecíveis, coloquei numa parede fotos de meus pais e irmãos. E porta-retratos com fotos de meus netos. Presente. Passei uma tarde inteira, mais de três horas, posando num estúdio para um fantástico fotógrafo. Tirou cento e oitenta e sete fotos, das quais escolhi dezoito. Mas ainda há muita coisa que gostaria de escolher. Cheguei em casa exausta, mas ainda saí, feliz,  para passear com meus bichinhos. Entrei de corpo e alma na sua brincadeira, porque é brincando que ele trabalha. Aos poucos contei-lhe um pouco de minha vida. Pedi-lhe que mostrasse uma mulher madura, vivida, mas ainda em boa forma e, acima de tudo, feliz. E que não apagasse as marcas do tempo. E ainda que as fotos fossem elegantes, mas com uma pitadinha de sensualidade. Captou exatamente o que eu queria.
Amigos me aconselham a viajar, mas não é disso que preciso agora. Quero reconstruir, e essa reconstrução externa e interna exige minha presença aqui. O passado, o meu passado, jamais esquecerei. Não posso e não quero. Mas ser capaz de repensar minha vida me parece maravilhoso. Distribui fotos minhas pela casa, incluindo dois pôsteres. Vaidade, narcisismo? Talvez um pequeno pecado. Mas, nesta altura da vida, depois de tantos quilômetros percorridos, afinal tenho direito a alguns pequenos e, quem sabe, maiores pecados?

sábado, 29 de janeiro de 2011

De volta ao passado

De  volta ao passado
“Mas onde está a cabeça?” Procurei bem lá no fundo. Não era a minha, que está solidamente presa ao pescoço, ainda que meio baratinada. Era cabeça de meu boneco predileto. Os outros membros estavam lá, desmembrados, mas a cabeça... O pobrezinho estava parecendo aqueles bichos indefinidos que “ornamentam” as calçadas de pedras portuguesas perto de minha casa. Ou Ravaillac, o assassino de Henrique IV, “écartelé”, tendo cada membro atado a cavalos que correriam em direções opostas. Mas não vamos pensar em crueldades, o que me interessava era saber onde estava a cabeça de meu bebê, que ganhei quando tinha dez anos. Minhas outras bonecas, tão antigas e queridas, deitadas de lado, de olhos abertos, me olhavam fixamente do fundo da balburdia. Lembrei-me das roupinhas que costurava para elas, e que faziam crer a minha mãe que eu teria grande talento para costura. O que não aconteceu. Desci da escada e fui para outro armário, em outro quarto. Minha prima Maria Luíza, que viera passar o Réveillon comigo, internauta de carteirinha, me trouxe de volta ao presente. Subi na escada, abri a porta superior do armário, e voltei ao passado. Lá estavam bolsas bordadas por minha mãe – há tantos anos! – e uma bolsinha minha de criança, manchada de alguma coisa parecendo ferrugem. Procurei a cabeça do meu bebê, sentindo um grande sentimento de culpa, como a gente pode recusar desta forma algo que, outrora, foi tão significativo? A voz de minha prima, querendo me ensinar alguma novidade na máquina que hoje nos rege, me trouxe de volta ao presente. Mas eu não queria saber de computador, queria a cabecinha do bebê, de cujo nome até esqueci. E remexendo mergulhei na minha infância, adolescência, mocidade. Foi como se estivesse sendo hipnotizada e tudo que minha memória profunda houvesse guardado voltasse à tona: o bom e o ruim. Subi e desci da escada dezenas de vezes, em todos os quartos, fui ao passado e voltei, cada vez que ouvia o barulhinho discreto do computador. Por fim, encontrei a cabeça perdida, envolta  em plástico. Não posso imaginar porque fiz essa maldade! Juntei tudo e doei para uma instituição de caridade. Disse-me uma amiga que não devia ter feito isso, mas, afinal, não brinco mais de bonecas, e minha neta, Luíza, tem 17 anos, e já passou da idade. Aliás, peço a Deus que nunca mais volte a brincar de bonecas. Credo!!!!
Peguei velhos livros de Monteiro Lobato, que meu pai dera a meu irmão, aqueles cujas histórias ele me contava, sentado na cadeira de balanço, enquanto eu, deitada no chão de bruços, escutava atentamente. Lembrei até de uns sonhos recheados de goiabada, que minha mãe fritara num dia de chuva em que ele me contava “Reinações de Narizinho”. Meu peito ficou apertado! Todos aqueles livros, de engenharia, de música, de histórias infantis, de crochê e bordado, haviam pertencido à minha família e todos haviam partido! Em outro armário encontrei quadros e pratos que minha mãe pintava. Via-a claramente, sentada diante de um pequeno cavalete. Saudade! Muita saudade! A voz de minha prima acompanhando alguma música que ouvia na Internet, me trouxe de volta ao presente e à necessidade de por à larga meu coração e despojar-me de tudo aquilo, que, afinal, entulhava minha casa e minha vida.
Meu amigo Cláudio, dono de uma livraria, meio sebo, meio antiquário, ajudou-me na dura tarefa de me desligar do passado. Levou mais de seis carrinhos grandes de feira, e pretende doar os livros infantis para bibliotecas comunitárias, que conseguiu organizar. Também arquiva objetos para cenários de peças de teatro. Os outros livros estão na sua livraria e terão melhor destino do que escondidos em armários. Minhas sobrinhas levaram alguns pratos, mas os quadros dei à minha diarista, que não tem nenhum adorno para suas paredes. Ficou feliz! Eles também estarão melhor ornamentando a casa que Josy e seu marido constroem com o trabalho duríssimo de cada dia.
E também guardei algumas relíquias de que nem me lembrava mais, minha camisola de batismo, de seda cor-de-rosa, com pequenas flores bordadas por minha avó. Camisolinhas de dormir no verão, todas enfeitadinhas, meu primeiro sapatinho, meu primeiro brinquedinho, uma argola de plástico com várias outras penduradas como balangandãs. E ainda um bicho feio parecendo um rinoceronte que me davam para morder. E aventaizinhos bordados, fantasias de carnaval de baiana e cigana, enfim, tudo que só avó faz. E minha capinha de crochê de lã, - será que alguma das minhas leitoras chegou a usar esta indumentária-? Lembrei-me de quando a colocava brincando de chapeuzinho-vermelho. Lembranças, lembranças. E muita saudade! Uma dor no peito, que tive que enfrentar. E tudo isto depois de haver rasgado mais de cinco sacos de cem litros de papel! E milhões de fotos e slides  de gente e lugares que não me interessam. Agora faltam os longplays e os discos de setenta e oito rotações, aqueles bem antigos, com agulhas que se comprava em caixinhas de metal. Meu sobrinho, Bertrand, que é músico, quer tudo para ele. Que bom!
Neste momento, estou despojando minha casa do passado. Mas guardo dezenas de álbuns de fotos  . Distribui pela casa fotos de minha família, e também minhas. Mas depois de amanhã, vou a um estúdio fazer um book meu. Quero fotos que mostrem uma mulher madura, que gosta de si, que soube enfrentar um passado tormentoso, que não se deixou vencer , que é feliz,e  ainda está em forma. A melhor, vou mandar ampliar, bem grande, e colocar na parede do fundo do corredor, que já preparei lindamente par recebê-la. E avisei ao fotógrafo: “Quero fotos glamorosas, mas não sensuais. “   
Afinal: “ Je repars à zero

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Entre abraços e afagos, o brasileiro cordial

Jimmy era um cachorro dócil, amável, que gostava de crianças. Foi trazido de Ibitipoca por meu sobrinho, Bertrand, que viu quando a família que o abrigava embarcou numa caminhonete, deixando-o para traz. Viu quando o bichinho saiu correndo, tentando alcançar os que o haviam abandonado. Bertrand também saiu correndo, xingando-os com todos os palavrões que lhe vinham à cabeça. Mas eles, ainda que tenham ouvido, não pararam. Afinal, meu sobrinho é um homem grandalhão, e não valia a pena tentar limpar a “honra”. E foi assim que Jimmy surgiu na nossa vida. Como era um cachorro de grande porte, não pude abrigá-lo, mas pedi a um amigo que cuidasse dele. E então  Jimmy ganhou uma família de fato, com crianças gentis e a companhia de outros animais.
E viveu feliz durante 11 anos. Já era um cachorro velho, quando meu amigo ligou-me dizendo que estava doente. Havia dois dias não queria comer, nem brincar. Levamos imediatamente à Clínica onde trato meus bichinhos.  Quase sem forças para andar, foi carregado no colo até o consultório. Estava magro, triste. Meu amigo não quis assistir à consulta e ficou do lado de fora, chorando. Sabíamos que era grave. Após minucioso exame, a veterinária constatou vários tumores. Jimmy urinava sangue. Disse-me que estava quase certa de que ele tinha tumores cancerosos espalhados por todo corpo, mas precisava fazer alguns exames, incluindo uma biopsia. Deixamos na clínica. Eu tinha certeza de que o bichinho estava muito mal. No dia seguinte, ela me telefonou e confirmou o que havia dito. Disse-me que não havia o que fazer, e que, na sua idade, ele não agüentaria uma quimioterapia. Telefonei a meu amigo e resolvemos poupá-lo do sofrimento, optando pela eutanásia.
Alguns dias depois voltei à clínica, ainda estava chocada. Chorei, mas achei que havíamos feito o melhor. Jimmy foi enterrado num cemitério para animais, onde estão enterrados outros animais nossos, cães e gatos. A conta foi alta, muito alta, mas paguei sem lamentar. Enxugando os olhos, tirei meus óculos escuros e enfiei no decote da blusa. E voltei para casa. No caminho encontrei uma amiga, contei-lhe o que havia acontecido, compadeceu-se de todos nós, e, para expressar esta solidariedade, deu-me aquele abraço, bem apertado, saído diretamente do seu coração para meus óculos. Senti um “clic”, e pensei: lá se foram eles. Além da eutanásia, da conta astronômica, eu ainda tinha o prejuízo dos óculos. Tive vontade rir,... ou de chorar. Minha amiga, como todos os brasileiros usou seu corpo para expressar sua solidariedade.  Voltei para casa pensando que afinal usamos nosso corpo para expressar qualquer sentimento, o que encanta os estrangeiros, sobretudo os que não vivem aqui. Que o diga nossos desfiles de Carnaval, as praias. Por isso ganhamos a fama de “país das bundas”. Minha amiga usou seu corpo, e o meu, para expressar solidariedade na minha dor, mas poderia ser para dar-me parabéns, ou mostrar como estava alegre em reencontrar-me após longa separação.  O corpo é nosso instrumento de paz e de guerra, de alegria e tristeza, enfim, de qualquer sentimento. 
Lembro-me de que há alguns anos encontrei uma pessoa, não sei mais quem, que, de tão feliz em me rever, me deu um abraço forte, e de má pontaria, que arrancou uma de minhas argolas (sorte que não rasgou minha orelha), que foi parar nunca soubemos onde. É claro que fui gentil e disse-lhe que não havia problema, etc, etc. Mas era das minhas preferidas. Desolada, ela queria procurar pelo passeio, mas não me prestei a este ridículo, já que senti que havia pulado longe. E aí fiquei com uma só argola, o que para mim significa nenhuma. Num dos múltiplos velórios de minha família, lembro-me de uma outra pessoa que me massageava o braço, em sinal de solidariedade, creio eu. Esfregava com força, e quanto maior fosse a força maior seria sua solidariedade. Esquivei-me, já irritada. E tantas que me acariciaram fortemente, me descabelaram, me fazendo uma espécie de cafuné. Afinal maltrataram minha dignidade na dor, já que meu corpo exausto pedia descanso e um gesto simples de carinho, como um beijo.
E também há a história das amostras que levei para uma biópsia de uma pequena cirurgia de Ricardo. O hospital deveria fazê-lo, mas fui eu que tive que carregar os inúmeros potinhos cheios de um líquido, que não deviam balançar. Rezei para não dar com algum buraco, e acho que meu anjo da guarda colocou a mão sobre os que sempre recobrem o caminho de quem circula pelas ruas do Brasil. Depois de deixar o carro no estacionamento, rezei para não encontrar nenhum buraco nas calçadas de infames pedras portuguesas, E tampouco um bom amigo. Fui pelo caminho olhando obsessivamente para o chão e vigiando os transeuntes. Passei defronte ao prédio onde trabalha um desses calorosos, rezei para que não aparecesse. Finalmente, cheguei ao laboratório, com os vidrinhos intactos. UFA! Pelo menos uma etapa da ansiedade já havia sido superada, mas teríamos que esperar vários dias para o resultado. Com imensa ansiedade, resolvi buscá-lo, Pedi a proteção de Deus. Abri lá mesmo o envelope com o resultado. E agradeci mais uma vez. Negativo.
Conto tudo isto para mostrar uma das mais corriqueiras características que observo no “brasileiro cordial”, a que se refere Sérgio Buarque de Holanda do seu genial “Raízes do Brasil”.  O poder do corpo. Não é observação sua, mas estou certa de estes é um dos traços que constrói este homem singular. E há ainda tanta coisa que observo todo dia!! E o pior é que cada vez que observo um desses traços, sinto que não sou diferente.
Afinal, no que diz respeito à cultura, não posso dizer como Piaf: “Je repars à zero”.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Do passado, só o melhor

Em 2010, comecei o ano com um projeto claro: desembaraçar minha casa de toda bagulhada que a gente teima em juntar. São os doze trabalhos de Hércules. Mas de qualquer jeito, neste fim de ano, em que estou sozinha, juntei forças e recomecei a pleno vapor. O incrível é que tenho a terrível impressão de que meu trabalho de desentulhe pregresso não adiantou nada. Há ainda tanto a tirar! Neste último mês, doei livros, vídeos, fitas, enchi várias vezes meu carrinho de feira, que também vou dar, mas só Deus sabe quando, distribui para minha família, para a diarista, e a casa ainda me parece cheia. Num desses fins de semana, joguei fora centenas de slides amarelados e quase imperceptíveis, mas guardei aqueles, em bom estado, onde aparecem meus pais e irmãos, e também amigos queridos, o que resultou em mais de duzentos. Com eles guardei parte importante de meu passado. Rasguei centenas de fotos, depois de separar, meticulosamente, duas caixas com fotos de Ricardo. E ainda dúzias de envelopes com negativos. E máquinas de fotografia que não fotografam mais nada, mas encantaram amigos. Olho para a parte superior de meus armários e sinto arrepios, pois foi lá que joguei considerável parte do que desentulhei na parte de baixo. Vendo “Obsessivos compulsivos” na Sky, quase me sinto um deles. Há um velho cavalinho que tenho desde criança, e um vidro de perfume imitando uma garrafa de champagne dentro de um balde, que ganhei de meu pai, de que não consigo me desfazer. Mas, afinal, estes me trazem boas recordações. E assim, neste lufa-lufa, espero, se Deus me ajudar, conseguir chegar a uma casa clean até o fim do ano.

Neste ano de 2011, acrescentei à minha vida um novo projeto, inspirada no que disse Jean Renoir em seu livro de memórias :”das recordações, só as melhores”. Mas, para conseguir esta outra façanha, preciso dar um sumiço, colocar debaixo do colchão, esconder dentro do armário (?) aquilo que tenho que esquecer. E como tem coisa! Primeiro, parodiando Mariah Carey: “ Não faço mais aniversário. Se alguém me deseja feliz aniversário, eu digo: está falando de quem?” Pois agora vou me fazer de desentendida, olhar para os lados :”Quem?” Para alguém que, como eu, já entrou na contagem regressiva, esta história de números soa mal. Mas é preciso lembrar que a primeira coisa que faço, assim que acordo, é tomar meu Aradois com diurético de 100 miligramas. Quantas saudades dos meus sixties! Preciso também esquecer que teremos quatro anos de Dilma e mais, nem sei quantos, de Lula. E também a qualidade dos membros do novo Congresso, que dizem que é pior do que o anterior! E que um dos chefões das FARC está livre e bem instalado no Brasil, que Battisti está solto e que Tarso Genro, aquele que protege o assassino italiano e entregou os pugilistas ao ditador moribundo, foi eleito Governador, no primeiro turno, do meu querido Rio Grande. Preciso esquecer as cotas raciais, que estão criando no Brasil, onde todos somos mestiços, uma perigosa divisão. E também que foi criado em Brasília um Tribunal Racial, que só existiu na Alemanha nazista! Enfim, há tanta coisa para esquecer, que resolvi mergulhar no desentulhe e talvez assim alcançar uma espécie de amnésia.

Mas depois de limpar tudo que me desagrada ou causa horror, quero lembrar para sempre minha mãe, sentada na sua cadeira de balanço, comigo enroscada em seu colo aconchegante, enquanto balançava suavemente e ouvia rádio. Lembrança tão antiga, que me leva aos primórdios de minha vida. Quero lembrar a voz de meu pai nas manhãs de Natal, quando eu acordava: “Bem, já vou indo.” Eu pulava correndo da cama, mas nunca consegui encontrar Papai Noel. E também, quero lembrar sempre a fúria de minha irmã quando eu mexia nas suas coisas, “brincando de moça”. Quero me lembrar as tardes, quando a doença dava uma trégua, de meu irmão Sérgio lendo-me Monteiro Lobato. Quero lembrar meu primeiro e grande amor, tão grande que o guardei para sempre no fundo de meu coração. Era um mestiço, três anos mais velho, e estudava no mesmo colégio que eu. Apaixonei-me desde o primeiro momento em que o vi. Soube que morreu há anos e senti grande mágoa. E ainda a vozinha rouca de meu neto João, logo após a morte de sua avó paterna: “Vovó Lúcia, agora só ficou você. Você tem que durar muito.” E também dos lanches na casa de Teresa, com café fresquinho. E das festas de Natal e de Réveillon, que ela preparava com tanto esmero. Quero lembrar para sempre os anos felizes que vivi ao lado de Ricardo.

Mas sei que doravante também haverá muita coisa nova na minha vida, que guardarei até o fim como lembranças queridas. Porque a vida é assim, um eterno recomeçar.

E repitindo Piaf: “Je repars à zero”

domingo, 10 de outubro de 2010

O Lula que nós amávamos




Vim de uma família esquerdista. Ou melhor , meu pai ,  como muitos  militares de sua época, acreditou nos ideais marxistas. E mais ainda, que tais ideais eram praticados, de fato, na União Soviética stalinista. Não creio que tenha sido grande sua participação na chamada Intentona Comunista de 1935, mas quando morreu Prestes, minha mãe, já confinada ao leito, disse-me, com naturalidade:” Eu o vi lá em casa quando ia (ou foi)  falar com Felippe.” Fiquei perplexa! Sei que, após o fracasso, talvez temendo problemas maiores, meu pai pensou até em abandonar a carreira, mas foi dissuadido por minha avó, e ,como era aluno brilhante, veio para o Rio cursar Engenharia de Telecomunicações.  Mais tarde,  tornou-se professor do que na época chamava-se Escola Técnica do Exército, e algum tempo depois IME – Instituto Militar de Engenharia. Mas, há muito tempo, Felippe já havia se desiludido de seus ideais de juventude, quando, pouco a pouco, tomou conhecimento do que era, realmente, o stalinismo. No entanto, jamais abandonou os ideais de justiça social e de igualdade. Tornou-se um sincero socialista. Durante o tempo em que moramos na França, interessei-me pela história da Revolução Francesa, e sempre tinha perguntas para ele, que lera muito do que se havia publicado até então. Certa vez, falou-me de sua admiração, na juventude, pelo revolucionário jacobino Saint-Just, temido membro do “Comité de Salut Public”, guilhotinado com todos os outros membros de seu grupo. Lembro-me que disse: “Eu admirei sua fé num ideal que considerava justo, sua coragem, sua honestidade, sua absoluta retidão.”
E foi assim que nos incutiu o ideal de justiça social, de respeito ao próximo e ao seu trabalho, de honestidade e retidão. E guardou estes ideais até o último dia em que ainda teve condições de discorrer sobre a realidade. E a ele sempre agradecerei estes princípios com que tenho procurado nortear minha vida, ainda que, na minha humanidade, algumas vezes eu possa ter resvalado. No meu idealismo exacerbado dos anos 70,  dizia-me que não confiasse tanto nos ideais democráticos dos que se engajavam na guerrilha, que eu considerava heróis, pois provavelmente queriam outra ditadura, pior do que aquela em que vivíamos. Como sincero socialista, tinha grande admiração por Brizola. Felizmente, não teve tempo de se decepcionar. No entanto, o lider do "socialismo moreno" continua vivo e admirável nas minhas crenças profundas. E um dia, ao encontrá-lo no Galeão, não pude deixar de ir cumprimentá-lo e falar-lhe de minha admiração.
Mas quando surgiu um partido chamado dos trabalhadores, fiquei surpreendida, imaginando o que poderia ser um partido formado por trabalhadores. Tolamente, não imaginei que tal partido era formado majoritariamente por intelectuais, engajados na luta contra a ditadura, um partido que pretendia destacar-se pelo amor a um ideal democrático, honestidade, retidão. Aqueles mesmos que fizeram o jovem Felippe admirar Saint-Just. Quando votei pela primeira vez em 1989, optei, evidentemente, por Brizola no primeiro turno. Mas no segundo, emocionada com a posição que havia alcançado um pobre retirante, um modesto operário, cheio de ideais que jamais haviam existido no país, lancei-me numa campanha pessoal.  Vinte e um anos mais jovem, passei de carro, bem devagar,  provocativamente, diante de um comitê colorido com um enorme adesivo “LULA”. Levei uma paulada no meio da cara (bem feito!). Na democracia, temos que respeitar outras opiniões, mas, seguramente, a reação da mulher que festejava a vitória do cafajeste foi a altura do dito cujo.
E durante anos continuei a votar em Lula. Em 2002, Teresa havia feito sua última sessão de quimioterapia, estava sem cabelo, debilitada pelas múltiplas sessões que fora obrigada a fazer. Poderia ser dispensada, mas fez questão de votar. Não votávamos no mesmo lugar e fui encontrá-la em casa, sorridente: ”Acho que desta vez, vamos”. E fomos. E naquele dia 1º. de janeiro de 2003, até mesmo Ricardo, anti-petista ferrenho, se emocionou ao ver o torneiro mecânico ovacionado pelo povo, recebendo a faixa de Presidente. Teresa e eu ríamos, nos abraçamos, e acho que até choramos . Era o Lula da paz e do amor, dos nobres ideais, da honestidade indiscutível.
Que pena que o mensalão não tenha estourado um pouquinho  mais tarde, depois daquele início de primavera, quando Teresa se foi. Como meu pai, ela não teria tido tempo de se decepcionar. E quanto! Na seguinte eleição, em 2007,  quanta sujeira havia sido exposta!  Hoje o que vemos é um autoritário, cuja voz mesmo mudou. Ao vê-lo falar da “Bolsa família” em 2000, revemos com saudades o “Lulinha paz e amor”. O de hoje, com a voz gutural, utilizando, aos berros, palavras tão impróprias para o cargo que ocupa, para defender a mesma Bolsa que condenava há dez anos, matou o primeiro.
Gostaria de guardar, no fundo do meu coração, aquele líder operário corajoso, que respondeu a um militar que lhe perguntara se era comunista: “SOU TORNEIRO MECÂNICO”. Que pena que este tenha morrido!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Para Teresa

Hoje, início de primavera, faz cinco anos que minha irmã morreu. E ainda sinto um desejo infinito de contar-lhe minhas dúvidas, ouvir sua voz calma, ver seu sorriso. Minha confidente, minha melhor amiga se foi. Tanta coisa vivemos juntas! Recebi o telefonema às seis e meia da manhã, e ouvi de minha sobrinha Antônia a terrível notícia. Na véspera, em uma ambulância, eu a havia acompanhado ao hospital, onde ela ficaria na UTI até que conseguisse (?) vencer a infecção que se alastrara por seu corpo desprovido defesas, devido à quimioterapia. Beijei-a pela última vez, ainda na esperança de que não fosse um adeus definitivo. Três anos e meio haviam decorrido desde aquela tarde em que, após uma cirurgia de sete horas, os médicos entraram no quarto, balançaram a cabeça, e cortaram minha esperança. Mas, durante três anos e meio, vivemos da melhor forma o que eu sabia que ainda restava. Tinha esperança. É ela que salva a gente. Mas meu coração ficava apertado quando a via fazer planos para dali a meses. Teresa estava certa de que havia vencido a doença. Então, a partir do momento em que se constatou a reincidência, as coisas se precipitaram. Um mês, nada mais. Sei que foi melhor assim, e cada dia agradeço a Deus.


Sou uma sobrevivente. Perdi meu pai de uma terrível cardiopatia. E Deus me deu forças para cuidá-lo. Perdi minha mãe, vítima de profunda depressão depois da partida de seu grande amor. Seis anos de sofrimento, confinada a uma cama, decidida a morrer, sem que a morte chegasse. E, mais uma vez, Deus me deu forças para acompanhá-la até o momento derradeiro. Chorei sua partida, mas consolei-me, pois sabia que era sua libertação, aquela que tanto esperava. Cuidei de meu irmão, com problemas psíquicos, e acompanhei-o até o dia de sua morte, um ano e meio depois de minha mãe. Grande dor, uma vida, uma inteligência superior, desperdiçadas. Olho suas fotos de criança, lindo, sorridente. Ninguém jamais imaginaria o que estava por acontecer na adolescência.

Aí, ficamos Teresa e eu, remanescentes. Até aquele dia de início de primavera, quando beijei seu rosto gelado, sentindo meu peito estraçalhado de dor. Foi então que me tornei uma sobrevivente. Mas sei que sou guerreira, que não nasci para me deixar vencer. E continuo amando a vida. Só não tenho mais com quem dividir minhas lembranças, tirar alguma dúvida sobre o passado.

Há quinze dias, Ricardo e eu nos separamos, após vinte e um anos de união. Fizemos aquilo que muita gente não tem coragem de fazer: recomeçar sobre novas bases. Como dizia Vinícius “O amor é eterno enquanto dure.”. Vivemos momentos de intensa felicidade, tivemos nossos arrufos, mas nossa vida foi muito boa. E antes que o amor que acabou se transformasse em hostilidade, dissemos adeus. Mas não me sinto só. Olho meu passado e me sinto orgulhosa de tudo que tive a coragem de enfrentar e fazer. Continuo minha ginástica diária, cuido-me, gosto de mim e por gostar de mim posso viver sozinha e feliz.

E viva a vida porque ela é um dom maravilhoso que Deus nos deu, e eu sei que jamais estarei solitária, porque o terei sempre ao meu lado.

sábado, 18 de setembro de 2010

“HUIS CLOS” no abismo

No rosto do mineiro estampado na capa da “Veja”, há um olhar vazio, como se olhasse para o nada. E olha. Olha para paredes úmidas, frias, escuras. Falta-lhe esperança? Não se pode dizer. Há um vazio que domina toda a foto. Mas o que espera ele, enterrado vivo, com um socorro incerto, a centenas de metros de profundidade? Ele e mais trinta e dois homens, isolados do mundo. Falta-lhes a claridade do sol, seu calor.  Falta-lhes oxigênio, o mínimo de conforto, mas, acima de tudo, falta-lhes liberdade. Este tesouro que nos permite determinar nosso destino, que nos faz humanos. Quanto desejo deve haver de dizer a uma mulher amada “Eu te amo”, de acariciar um filho, de abraçar o pai, mãe, um amigo, de lutar por um projeto. De pedir perdão.  
Ao ver aquele rosto, solitário, com mais trinta e dois, lembrei-me da peça de Jean-Paul Sartre, “Huis Clos”. Li-a várias vezes, mas na generosidade de emprestar livros, o perdi. No entanto, até hoje ainda está gravada na minha memória. Numa sala, são confinadas três pessoas, três mortos que acabam de chegar ao inferno: Inès, Estelle e Garcin. Neste inferno não há espelhos, nem janelas, a luz nunca se apaga.  Uma porta se abre e fecha à sucessiva entrada de cada morto. Até que se fecha definitivamente e eles se vêem confrontados uns com os outros. Não há fogo, nem tridente, nem diabo. Cada um deles finge não saber por que está lá, até que não resistem e contam a verdade. Inès é uma lésbica, que ajudou a matar o marido de uma prima, e matou-se em seguida levando ao suicídio a amante. Garcin é desertor, e foi fuzilado. Durante anos torturou a mulher com suas amantes. Inés matou o próprio filho, produto de um amor proibido. Não me lembro bem, mas acho que levou o amante ao suicídio. Olham-se o tempo todo já que não podem fechar os olhos, e acabam odiando-se. Estelle, vaidosa, quer se olhar em algum espelho, mas só lhe resta o espelho dos olhos de Inès, e ao olhá-la, sente sua culpa estampada nos olhos da outra. “O inferno são os outros”. Sartre fazia questão de assinalar que sua frase não significa que as relações humanas são tão dolorosas, mas que situações limite levam a este inferno. Mortos, nada podem mudar. Como os mineiros do abismo.
 Estelle, Inès, Garcin, precederam décadas aqueles mortos-vivos. Mas quantas vezes, vivos, não experimentamos situações, solitários com quem nos acompanha, engessados, abrindo mão de nossa liberdade?
O que será desses pobres homens, confinados a uma estreita sala, olhando-se uns aos outros, infinitamente, na semi-escuridão que os cerca? Já não se fala neles, os esquecemos como esquecemos tantas outras tragédias. Até um dia em que verão novamente a luz do sol, ou sucumbirão seja por razões físicas ou porque o inferno dos outros se tornou grande demais