“... Estou aqui de passagem. Sei que adiante um dia vou morrer. De susto, de bala ou vício, de susto de bala ou vício...”
Este é um trecho do lindo poema que ilustra “Soy loco por ti America” de Caetano Veloso.
Aqui se fala da inevitabilidade da morte que habita todos nós, ainda que alguns se julguem imortais. Mas eles também, lá no fundo, têm medo, como cada um de nós. Medo do desconhecido, do absolutamente diferente. Mas apesar deste destino comum, há os que amam a vida e procuram preservá-la, e os que a desprezam ou desperdiçam. Há gente com David Servan-Schreiber e também como Amy Winehouse, Jimmy Hendrix, Janis Joplin, Kurt Cobain, Brian Jones.
David, que morreu na noite de 24 para 25 de julho, era um neurocientista e psiquiatra de renome na França e nos Estados Unidos. Durante uma pesquisa, por acaso, numa Universidade americana, descobriu que tinha um tumor cerebral. Tinha trinta e um anos. Morreu na semana anterior aos seus cinqüenta e um. Durante estes vinte surpreendentes anos de luta contra a terrível doença, escreveu artigos em revistas especializadas, e dois livros de auto-ajuda, que tenho como livros de cabeceira: “Anticancer” e “Cura”. Ao saber da gravidade da reincidência de seu mal, escreveu um último livro “On peut se dire au revoir plusieurs fois”. Não é meu propósito falar de suas obras, mas de seu amor e respeito pelo que de mais precioso possuímos: a vida. Sem ser religioso, provavelmente era ateu, deu a todos nós um exemplo magnífico de amor ao próximo. Seu site “Guérir” ensina-nos a cuidar da saúde, ser mais fortes, na alma e no corpo.
David morreu dois dias depois de Amy. Eram ambos judeus. David vinha de família rica, filho de um grande jornalista socialista, fundador de “L”Express”, provavelmente a revista mais importante da França, tornando-se um ícone do jornalismo mundial. Também escreveu um livro de grande repercussão: “O desafio americano”. Belo homem, apaixonado pela vida, muitas foram suas paixões. David viveu sua infância e juventude ao lado de gente do calibre intelectual de Jean-Paul Sartre, Camus e outros. Do pai herdou a inteligência, a coragem, nobreza e beleza. E o amor à vida.
Amy era filha de um chofer de taxi, gente da classe média, sem brilho. Feia, não tinha uma história digna de ser contada, mas era uma enorme cantora. O pai, homem simples, narra, emocionado, a história de sua menininha, que ganhou fama pela música e pela autodestruição. Amy morreu deliberadamente. Ao contrário de David, não tinha nenhuma nobreza, desprezava a vida, e dava mostras, como nenhum dos outros deu, de sua decadência física e moral. Amy e David eram antagônicos. Morte versus vida. Decadência versus nobreza. Ao ver a foto de David em uma palestra alguns meses antes de morrer e a de Amy em um hotel em Santa Teresa, totalmente embriagada, seios a mostra, nos damos conta de como é infinita nossa diversidade humana. E a escolha é nossa. Somos diversos porque somos livres, ”condenados à liberdade”, como dizia Sartre. David escolheu a vida, a alegria, o amor ao próximo, a nobreza. E por isso será, eternamente, para aqueles que leram sua obra, uma grande referência.
Histórias diferentes, vidas diferentes, destinos diferentes. Vejo a todo instante desconhecidos, jovens e velhos, cuja vida tantos obstáculos apresenta, mas vislumbro neles a luz do combate. Alguns parecem dizer: “Quero viver, e viver representa lutar.” Como o homem que vi hoje, numa cadeira de rodas automática, o corpo totalmente disforme, passeando na praça com seu cachorrinho. Também vejo os que se degradam. Enfim, a cada um de nós cabe escolher entre a felicidade e amargura, o riso e soturnez, a vida e a morte. E ainda que estejamos aqui de passagem, e que esta passagem em certos momentos seja dolorosa, podemos torná-la feliz.
Afinal, como dizia Gonzaguinha: “O que será amanhã, responda quem quiser; o que irá me acontecer, o meu destino será como Deus quiser” É certo que susto, bala, vício, tombo, AVC, câncer, tombo, vão nos levar um dia, mas porque não ser feliz, se ainda temos este instante de vida, que pode acabar num pluft.
E onde foram parar meus seguidores. Acho que alguém andou me sabotando. Será?
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
quinta-feira, 28 de julho de 2011
O perigo de vem de baixo.
Como tenho relembrado meu passado, também velhas canções me vêm à lembrança. De repente me vejo cantarolando alguma que não podia supor que minha memória houvesse guardado. É impressionante este computador que armazena tudo e que, a um leve toque, traz à tona todo um arquivo guardado há tantos anos! Lembrei-me um dia desses, e só sabe Deus porque, de uma velha música, acho que de Carnaval. Não me lembro do título, mas muito bem da letra, ou de uma parte dela:
“ A fonte do Manoel é um maná do céu, tira o leite taca água, taca, taca, taca sal. Tira o dinheiro da meia, bate o pé pra Portugal. Isto aqui é um paraíso, qualquer um pode se arrumar, Cabral descobriu o Brasil, Manoel quer carregar.”
Talvez algum dos meus leitores se lembre dela. É tão antiga que o Manoel manejava o leite como queria, e ,provavelmente, as industrias e suas inovações eram raras. Mas relembrando esta letra, veio-me à mente aquele magnífico “Raízes do Brasil” de Sérgio Buarque de Holanda. Ali ele relata como foi feita nossa colonização, tendo vindo para cá fidalgos já totalmente arruinados, que se misturavam ao povão, e com eles confraternizavam. Tanto isto é verdade que a Revolução Francesa, que acabaria com a mais poderosa monarquia do mundo de então, não teve em Portugal nenhuma repercussão. Ela já havia sido feita, na santa paz de Deus, sem que ninguém se desse conta. Os que aqui chegaram tinham um objetivo claro: viver o melhor possível, transando com índias, e aproveitando tudo que a terra dava. Não parece que pretendessem voltar a Portugal, a vida por aqui valia à pena. Assim entranhou-se na mentalidade do povo brasileiro o princípio de tirar vantagem em tudo, que esperteza é inteligência, e tantas outras mazelas. E neste caldo cultural foi-se pelo ralo, até o esgoto, qualquer resquício de ética. Manoel, o da musiqueta, tira vantagem em tudo, é esperto, e não tem nenhuma ética. É sintomático o que disse uma professora de canto a meu ex-marido: “Vamos, que o mundo é dos espertos!”. Não dos que trabalham e produzem. E assim é a grande maioria dos brasileiros. E se os políticos são exemplos rasgados deste terrível mal, estão lá eleitos por um povo que pensa como aquela médica de quem já falei: ”Roubar todo mundo rouba.” Ou como disse Lula para todos nós na televisão: “Todo partido tem seu caixa dois.” E nós que pensávamos que o Partido dos Trabalhadores fosse pra valer!
Dito tudo isto, que, aliás, nem precisava ser dito, já que a corrupção, a falta de vergonha, a cafajestagem, são esfregadas na cara das pessoas de bem a toda hora, que tal nos lembramos de alguns fatos ilustrativos? Tenho optado por listar as safadezas porque discorrer sobre cada uma delas transformaria este texto em livro:
- A Presidente Dilma faz cara cheia, passa pito, mas o Ministério dos Transportes continua com o PR, já que o Ministro pertence a este partido. Será que ele não sabia de nada, como Lula igualmente desconhecia o “mensalão” e os “aloprados”? E como assinala o jornalista J.R. Guzzo, sendo o número 2, só não ficaria sabendo caso não fosse nunca ao local de trabalho. A verdade é que no aparelhamento do Estado, promovido pelos oito anos de governo Lula, ao PR coube o Ministério dos Transportes. Como ao PDT, o do Trabalho. Não conheço os donos de todos os nacos do Estado brasileiro, generosamente distribuídos em troca de apoio. Mas sei que cada um levou o seu pedaço.
- O Governador do Estado do Rio de Janeiro é pego em flagrante em helicóptero de megabilionário, a quem , se não me engano, deu uma licença para construção de um porto, e, desmascarado, diz que vai escrever um código de ética.
- A lei da “ficha limpa” foi para o beleleu, e todos os “fichas sujas”, devidamente eleitos, estão sentados comodamente nas cadeiras em que o povo os colocou.
- O tal de Alfredo Nascimento, depois de ser confirmado ladrão, como todos os seus comparsas, voltou à sua vida tranqüila – não sei se tem cargo eletivo – e agora muito melhor com a dinheirama que enriqueceu o filhote e, evidentemente, ele próprio. E caso se candidate, aposto que vai se eleger.
- Os bueiros na “cidade maravilhosa” explodem a toda hora e até agora ninguém foi responsabilizado. No Rio de Janeiro o perigo vem de baixo, campo minado. Vi cenas, que chegavam a ser cômicas, de gente correndo dos bueiros. Também vem de cima e dos lados com as balas perdidas. Há seqüestros, relâmpagos ou não, explosão de caixas eletrônicos, assassinatos a qualquer hora. Estamos em guerra.
Ouvi num noticiário na televisão que o Brasil está em terceiro lugar dentre os países que pior recebem seus turistas. Imagino que o primeiro deva ser o Afeganistão e o segundo o Iraque. Ou vice-versa.
“ A fonte do Manoel é um maná do céu, tira o leite taca água, taca, taca, taca sal. Tira o dinheiro da meia, bate o pé pra Portugal. Isto aqui é um paraíso, qualquer um pode se arrumar, Cabral descobriu o Brasil, Manoel quer carregar.”
Talvez algum dos meus leitores se lembre dela. É tão antiga que o Manoel manejava o leite como queria, e ,provavelmente, as industrias e suas inovações eram raras. Mas relembrando esta letra, veio-me à mente aquele magnífico “Raízes do Brasil” de Sérgio Buarque de Holanda. Ali ele relata como foi feita nossa colonização, tendo vindo para cá fidalgos já totalmente arruinados, que se misturavam ao povão, e com eles confraternizavam. Tanto isto é verdade que a Revolução Francesa, que acabaria com a mais poderosa monarquia do mundo de então, não teve em Portugal nenhuma repercussão. Ela já havia sido feita, na santa paz de Deus, sem que ninguém se desse conta. Os que aqui chegaram tinham um objetivo claro: viver o melhor possível, transando com índias, e aproveitando tudo que a terra dava. Não parece que pretendessem voltar a Portugal, a vida por aqui valia à pena. Assim entranhou-se na mentalidade do povo brasileiro o princípio de tirar vantagem em tudo, que esperteza é inteligência, e tantas outras mazelas. E neste caldo cultural foi-se pelo ralo, até o esgoto, qualquer resquício de ética. Manoel, o da musiqueta, tira vantagem em tudo, é esperto, e não tem nenhuma ética. É sintomático o que disse uma professora de canto a meu ex-marido: “Vamos, que o mundo é dos espertos!”. Não dos que trabalham e produzem. E assim é a grande maioria dos brasileiros. E se os políticos são exemplos rasgados deste terrível mal, estão lá eleitos por um povo que pensa como aquela médica de quem já falei: ”Roubar todo mundo rouba.” Ou como disse Lula para todos nós na televisão: “Todo partido tem seu caixa dois.” E nós que pensávamos que o Partido dos Trabalhadores fosse pra valer!
Dito tudo isto, que, aliás, nem precisava ser dito, já que a corrupção, a falta de vergonha, a cafajestagem, são esfregadas na cara das pessoas de bem a toda hora, que tal nos lembramos de alguns fatos ilustrativos? Tenho optado por listar as safadezas porque discorrer sobre cada uma delas transformaria este texto em livro:
- A Presidente Dilma faz cara cheia, passa pito, mas o Ministério dos Transportes continua com o PR, já que o Ministro pertence a este partido. Será que ele não sabia de nada, como Lula igualmente desconhecia o “mensalão” e os “aloprados”? E como assinala o jornalista J.R. Guzzo, sendo o número 2, só não ficaria sabendo caso não fosse nunca ao local de trabalho. A verdade é que no aparelhamento do Estado, promovido pelos oito anos de governo Lula, ao PR coube o Ministério dos Transportes. Como ao PDT, o do Trabalho. Não conheço os donos de todos os nacos do Estado brasileiro, generosamente distribuídos em troca de apoio. Mas sei que cada um levou o seu pedaço.
- O Governador do Estado do Rio de Janeiro é pego em flagrante em helicóptero de megabilionário, a quem , se não me engano, deu uma licença para construção de um porto, e, desmascarado, diz que vai escrever um código de ética.
- A lei da “ficha limpa” foi para o beleleu, e todos os “fichas sujas”, devidamente eleitos, estão sentados comodamente nas cadeiras em que o povo os colocou.
- O tal de Alfredo Nascimento, depois de ser confirmado ladrão, como todos os seus comparsas, voltou à sua vida tranqüila – não sei se tem cargo eletivo – e agora muito melhor com a dinheirama que enriqueceu o filhote e, evidentemente, ele próprio. E caso se candidate, aposto que vai se eleger.
- Os bueiros na “cidade maravilhosa” explodem a toda hora e até agora ninguém foi responsabilizado. No Rio de Janeiro o perigo vem de baixo, campo minado. Vi cenas, que chegavam a ser cômicas, de gente correndo dos bueiros. Também vem de cima e dos lados com as balas perdidas. Há seqüestros, relâmpagos ou não, explosão de caixas eletrônicos, assassinatos a qualquer hora. Estamos em guerra.
Ouvi num noticiário na televisão que o Brasil está em terceiro lugar dentre os países que pior recebem seus turistas. Imagino que o primeiro deva ser o Afeganistão e o segundo o Iraque. Ou vice-versa.
terça-feira, 14 de junho de 2011
Isto é Brasil
Amigos, acho que devo uma explicação pelo meu silêncio. Desde março não tenho escrito, abro raramente meu e-mail, e aproveitei o meu tempo para ler muito. Mas, sobretudo, decidi fazer um balanço de toda minha história, desde o momento em que alcança minha consciência. Tive infância difícil, com um irmão com graves problemas psíquicos, coincidente com insanidade que atingiu minha avó, que hoje se chamaria Alzheimer, mas que só foi diagnosticada em 1971. De minha mãe já contei a história e também seus seis últimos anos de vida, recusando-se a viver. Perdi minha única irmã, vítima de câncer, amiga e companheira em todos estes embates. Agora, sozinha, decidi, com a ajuda de meu analista, passar tudo a limpo. E precisei, acima de tudo, de mim mesma. Conclui, o que não foi novidade para mim, que gosto de viver só, e que é assim que a gente muitas vezes se reencontra.
Meu ostracismo valeu a pena, sinto feliz, tão feliz quanto pode ser alguém exposto aos inerentes perigos da vida. Mas sinto-me mais forte para enfrentá-los.
Um abraço muito carinhoso a todos vocês.
E agora, vamos ao texto.
Lembro-me de um velho samba que começava ufanisticamente “ Ai, nossas noites são tão claras, nossas praias são tão raras (?), isto é meu Brasil” . Mas será que é? Naquele tempo, eu era criança e acreditava firmemente que éramos lindos. Hoje tenho certeza que não. Na verdade nosso céu está irremediavelmente poluído. Por culpa da Petrobras, respiramos um ar contaminado com o dobro de enxofre dos outros países. Ou seja, o sonho de consumo de nenhum carro pode o ser o abastecimento pela dita estatal, como diz a propaganda – enganosa. Falsidade ideológica? Nossas praias estão contaminadas por todo tipo de sujeira, desde excrementos até animais mortos (e também gente morta). O Brasil real é tão diferente daquele do samba de minha infância!
E vamos a uma pequena lista que prova que o velho samba é lindo e enganador:
- acabamos de absolver um criminoso, condenado à prisão perpétua em sua terra natal, a Itália, país democrático onde teria seus direitos de cidadão respeitados. Mas mandamos, imediatamente, para a ditadura geriátrica cubana, dois lutadores de ficha limpa, que aspiravam a uma vida melhor. E tudo abençoado por Lula. Sendo que o então Ministro da Justiça justificava que o assassino Battisti lutava por um ideal. Hitler também. Como disse meu amigo Daniel : “Como existem paraísos fiscais, vamos ser conhecidos como paraíso penal.”
- nossos flagelados do início do ano continuam do mesmo jeito, ou seja, nada do que lhes foi prometido foi cumprido por ninguém;
- nosso Ministro da Educação diz que exigir de uma criança que aprenda a falar corretamente é uma atitude fascista, e cita Stalin e Hitler para tentar nos fazer aceitar a aberração (e tenho uma amiga professora que diz que ele é ótimo);
- uma cartilha distribuída às crianças de escolas públicas – sempre elas – ensina que dez menos três é quatro, ou cinco, não me lembro bem;
- para resolver o “pobrema” do “sete menas quatro é cinco”, criaram as cotas para as escolas públicas;
- defendendo o “anti- racismo”, criaram as “cotas raciais”. E também um “tribunal racial” que só existiu na Alemanha nazista. “Ei, meus netinhos vocês têm um tataravô negão, aproveitem e entrem na fila.”
- um assassino mata covardemente a ex-namorada e passa onze anos livre, sendo que com a redução de pena, idade, etc, etc, sairá dentro de dois ou três anos;
- um Ministro de uma casa mal-assombrada, aumenta vinte vezes seu patrimônio, e o ex- Presidente aconselha à Presidente Dilma que o mantenha, já que há no seu Ministério muita gente culpada de malversação do dinheiro público;
- um bandido mata covardemente um estudante no estacionamento da USP, apresenta-se à polícia e sai livre com direito a responder pelo crime em liberdade – assim reza a lei - , defendida magistralmente por nossos causídicos, sendo que aquele que defende o bandido assim justificou a recusa do indigitado de nomear seu cúmplice :” Bandido tem seu código de honra!” . E é verdade, nós é que não temos;
- outro bandido assalta em um túnel, é fotografado, reconhecido, e não pode ser preso por não ter sido feito flagrante: “Ei, pessoal, de agora em diante temos que andar acompanhados de um policial para armar o tal flagrante!”
- há dois meses brigo com uma tal de OI, pois tendo mudado para um plano muito mais barato, recebo contas astronômicas. Fui ao Procom e me disseram que talvez tenha que entrar com uma ação na Justica Especial, que nem sei direito o que é. Viva o Lulinha e seus milhões;
- para combater o banditismo o governo volta com aquela história de desarmamento. Relembro Garrinha, que, ouvindo as instruções do técnico Vicente Feola, perguntou: “Doutor, mas a gente já combinou com o adversário?”
- retirando dinheiro do CAIXA ELETRÔNICO, encontrei uma nota manchada de vermelho, ou seja, quando formos ao banco temos que verificar nota por nota, e, se a quantia for maior, um bandido pode comunicar-se com outro pelo celular e o cidadão acabar sendo assaltado e até morto;
- os hospitais estão pela hora da morte – sem metáfora – e pagamos impostos astronômicos que vão parar em contas particulares da corrupção;
- na tal de Copa, de nem sei quando, vai sobrar roubalheira, as de colarinho branco e as de chinelo de dedo, e faltar obras de infra-estrutura, Estádios, hotéis, etc, que vocês podem imaginar. E aposto que o show de abertura será com Escolas de Samba, muito silicone e muita bunda de fora.
E viva nós que agüentamos tudo, e somos considerados pelos gringos – que não vivem aqui – o povo mais feliz do mundo. Não é o que diz aquela propaganda das Havaianas?
Meu ostracismo valeu a pena, sinto feliz, tão feliz quanto pode ser alguém exposto aos inerentes perigos da vida. Mas sinto-me mais forte para enfrentá-los.
Um abraço muito carinhoso a todos vocês.
E agora, vamos ao texto.
Lembro-me de um velho samba que começava ufanisticamente “ Ai, nossas noites são tão claras, nossas praias são tão raras (?), isto é meu Brasil” . Mas será que é? Naquele tempo, eu era criança e acreditava firmemente que éramos lindos. Hoje tenho certeza que não. Na verdade nosso céu está irremediavelmente poluído. Por culpa da Petrobras, respiramos um ar contaminado com o dobro de enxofre dos outros países. Ou seja, o sonho de consumo de nenhum carro pode o ser o abastecimento pela dita estatal, como diz a propaganda – enganosa. Falsidade ideológica? Nossas praias estão contaminadas por todo tipo de sujeira, desde excrementos até animais mortos (e também gente morta). O Brasil real é tão diferente daquele do samba de minha infância!
E vamos a uma pequena lista que prova que o velho samba é lindo e enganador:
- acabamos de absolver um criminoso, condenado à prisão perpétua em sua terra natal, a Itália, país democrático onde teria seus direitos de cidadão respeitados. Mas mandamos, imediatamente, para a ditadura geriátrica cubana, dois lutadores de ficha limpa, que aspiravam a uma vida melhor. E tudo abençoado por Lula. Sendo que o então Ministro da Justiça justificava que o assassino Battisti lutava por um ideal. Hitler também. Como disse meu amigo Daniel : “Como existem paraísos fiscais, vamos ser conhecidos como paraíso penal.”
- nossos flagelados do início do ano continuam do mesmo jeito, ou seja, nada do que lhes foi prometido foi cumprido por ninguém;
- nosso Ministro da Educação diz que exigir de uma criança que aprenda a falar corretamente é uma atitude fascista, e cita Stalin e Hitler para tentar nos fazer aceitar a aberração (e tenho uma amiga professora que diz que ele é ótimo);
- uma cartilha distribuída às crianças de escolas públicas – sempre elas – ensina que dez menos três é quatro, ou cinco, não me lembro bem;
- para resolver o “pobrema” do “sete menas quatro é cinco”, criaram as cotas para as escolas públicas;
- defendendo o “anti- racismo”, criaram as “cotas raciais”. E também um “tribunal racial” que só existiu na Alemanha nazista. “Ei, meus netinhos vocês têm um tataravô negão, aproveitem e entrem na fila.”
- um assassino mata covardemente a ex-namorada e passa onze anos livre, sendo que com a redução de pena, idade, etc, etc, sairá dentro de dois ou três anos;
- um Ministro de uma casa mal-assombrada, aumenta vinte vezes seu patrimônio, e o ex- Presidente aconselha à Presidente Dilma que o mantenha, já que há no seu Ministério muita gente culpada de malversação do dinheiro público;
- um bandido mata covardemente um estudante no estacionamento da USP, apresenta-se à polícia e sai livre com direito a responder pelo crime em liberdade – assim reza a lei - , defendida magistralmente por nossos causídicos, sendo que aquele que defende o bandido assim justificou a recusa do indigitado de nomear seu cúmplice :” Bandido tem seu código de honra!” . E é verdade, nós é que não temos;
- outro bandido assalta em um túnel, é fotografado, reconhecido, e não pode ser preso por não ter sido feito flagrante: “Ei, pessoal, de agora em diante temos que andar acompanhados de um policial para armar o tal flagrante!”
- há dois meses brigo com uma tal de OI, pois tendo mudado para um plano muito mais barato, recebo contas astronômicas. Fui ao Procom e me disseram que talvez tenha que entrar com uma ação na Justica Especial, que nem sei direito o que é. Viva o Lulinha e seus milhões;
- para combater o banditismo o governo volta com aquela história de desarmamento. Relembro Garrinha, que, ouvindo as instruções do técnico Vicente Feola, perguntou: “Doutor, mas a gente já combinou com o adversário?”
- retirando dinheiro do CAIXA ELETRÔNICO, encontrei uma nota manchada de vermelho, ou seja, quando formos ao banco temos que verificar nota por nota, e, se a quantia for maior, um bandido pode comunicar-se com outro pelo celular e o cidadão acabar sendo assaltado e até morto;
- os hospitais estão pela hora da morte – sem metáfora – e pagamos impostos astronômicos que vão parar em contas particulares da corrupção;
- na tal de Copa, de nem sei quando, vai sobrar roubalheira, as de colarinho branco e as de chinelo de dedo, e faltar obras de infra-estrutura, Estádios, hotéis, etc, que vocês podem imaginar. E aposto que o show de abertura será com Escolas de Samba, muito silicone e muita bunda de fora.
E viva nós que agüentamos tudo, e somos considerados pelos gringos – que não vivem aqui – o povo mais feliz do mundo. Não é o que diz aquela propaganda das Havaianas?
terça-feira, 8 de março de 2011
Começar de novo
Este é o nome de uma antiga série de televisão, com Regina Braga e Denis Carvalho. Lembro-me que contava a história de uma mulher que recomeçava a vida após o divórcio, com uma filha pequena e todos os problemas do dia-a-dia, que teria que enfrentar sozinha. Pois 2011 foi para mim um recomeço de fato, o que não chegou a acontecer em 2010. E não foi somente minha separação de Ricardo, depois de tantos anos, que marcou este recomeço. Recomecei partindo de muito antes. Talvez desde meus primórdios. Sinto como se, há muitos anos, houvesse plantado em mim uma semente, que só agora germina e começa a dar frutos. Não lamento nada. Vivi felicidade e dor, como ocorre com todos. E vivi intensamente. E agora, quando constato que estou sozinha, que dependo exclusivamente de mim, despojo-me deste passado longínquo, que vai muito além de Ricardo, e recomeço, cheia de vida e esperança, quando muitos já consideram tudo pronto.
Minha mãe, marcada por sua condição de “filha natural”, numa sociedade cruel e hipócrita, onde sofreu todo tipo de discriminação, pobreza e perdas, contou-me desde cedo sua história e eu, tenho consciência disso, a incorporei. A morte trágica, provavelmente por suicídio, de sua única irmã, aos dezessete anos. A morte de Maria, irmã de meu pai por parte de mãe, de peste bubônica, aos 12 anos. Era sua amiga, e minha mãe jamais pode esquecer esta tragédia. Agora, quero recomeçar, construir um futuro, de onde estejam ausentes lembranças e dramas que não são meus. Acerca deste passado escrevi um livro, que na verdade não pretendo publicar, que intitulei “Tudo que me contaram”. Nele relato histórias de família, que me foram passadas por meus pais e por velhos parentes.
Foi depois da saída de Ricardo de minha vida que, percorrendo a casa, constatei, perplexa, que minha presença ali era quase nula. Minha individualidade havia se diluído ao longo dos anos, de muitos anos, em outras presenças, em lembranças de um passado, que muitas vezes eu desconhecia. Fotos de minha tia Aracy, repetidas sobre um móvel e numa parede. Velhas almofadas de casamento, que mandei emoldurar, enfeitavam as paredes de meu quarto. E um fantástico medalhão do casamento de meus bisavós, de 1869, pendurado sobre a cama. E ainda outras coisas, que eu jamais poderia cogitar em retirar, pois as havia identificado às pessoas amadas que haviam partido. E desta profusão de recordações, numa tentativa de resgate, Ricardo e eu estávamos ausentes. Foi então que percebi que meu recomeçar não tinha tanto a ver com a nossa separação e que ia muito além, o que o tornaria mais difícil.
Decidida, comecei pelos velhos livros, papéis, cartas, fotos, etc. O que já contei anteriormente. Depois me voltei para a decoração. Refiz tudo “clean”, com papel de parede de cor neutra, cobrindo igualmente todas as paredes. Cortinas claras. Percebi que minhas idéias acerca da decoração transitavam pelo que já passou. Guardei cuidadosamente as velhas fotos, as velhas almofadas, mas deixei o medalhão que pretendo colocar em algum lugar do quarto. Despojei minha casa. Dei roupas que não considero mais adequadas para mim. Esvaziei armários. Tive a coragem, o que me parecia difícil, de dizer adeus às velhas lembranças visíveis e guardá-las no meu coração. Inesquecíveis, coloquei numa parede fotos de meus pais e irmãos. E porta-retratos com fotos de meus netos. Presente. Passei uma tarde inteira, mais de três horas, posando num estúdio para um fantástico fotógrafo. Tirou cento e oitenta e sete fotos, das quais escolhi dezoito. Mas ainda há muita coisa que gostaria de escolher. Cheguei em casa exausta, mas ainda saí, feliz, para passear com meus bichinhos. Entrei de corpo e alma na sua brincadeira, porque é brincando que ele trabalha. Aos poucos contei-lhe um pouco de minha vida. Pedi-lhe que mostrasse uma mulher madura, vivida, mas ainda em boa forma e, acima de tudo, feliz. E que não apagasse as marcas do tempo. E ainda que as fotos fossem elegantes, mas com uma pitadinha de sensualidade. Captou exatamente o que eu queria.
Amigos me aconselham a viajar, mas não é disso que preciso agora. Quero reconstruir, e essa reconstrução externa e interna exige minha presença aqui. O passado, o meu passado, jamais esquecerei. Não posso e não quero. Mas ser capaz de repensar minha vida me parece maravilhoso. Distribui fotos minhas pela casa, incluindo dois pôsteres. Vaidade, narcisismo? Talvez um pequeno pecado. Mas, nesta altura da vida, depois de tantos quilômetros percorridos, afinal tenho direito a alguns pequenos e, quem sabe, maiores pecados?
sábado, 29 de janeiro de 2011
De volta ao passado
De volta ao passado
“Mas onde está a cabeça?” Procurei bem lá no fundo. Não era a minha, que está solidamente presa ao pescoço, ainda que meio baratinada. Era cabeça de meu boneco predileto. Os outros membros estavam lá, desmembrados, mas a cabeça... O pobrezinho estava parecendo aqueles bichos indefinidos que “ornamentam” as calçadas de pedras portuguesas perto de minha casa. Ou Ravaillac, o assassino de Henrique IV, “écartelé”, tendo cada membro atado a cavalos que correriam em direções opostas. Mas não vamos pensar em crueldades, o que me interessava era saber onde estava a cabeça de meu bebê, que ganhei quando tinha dez anos. Minhas outras bonecas, tão antigas e queridas, deitadas de lado, de olhos abertos, me olhavam fixamente do fundo da balburdia. Lembrei-me das roupinhas que costurava para elas, e que faziam crer a minha mãe que eu teria grande talento para costura. O que não aconteceu. Desci da escada e fui para outro armário, em outro quarto. Minha prima Maria Luíza, que viera passar o Réveillon comigo, internauta de carteirinha, me trouxe de volta ao presente. Subi na escada, abri a porta superior do armário, e voltei ao passado. Lá estavam bolsas bordadas por minha mãe – há tantos anos! – e uma bolsinha minha de criança, manchada de alguma coisa parecendo ferrugem. Procurei a cabeça do meu bebê, sentindo um grande sentimento de culpa, como a gente pode recusar desta forma algo que, outrora, foi tão significativo? A voz de minha prima, querendo me ensinar alguma novidade na máquina que hoje nos rege, me trouxe de volta ao presente. Mas eu não queria saber de computador, queria a cabecinha do bebê, de cujo nome até esqueci. E remexendo mergulhei na minha infância, adolescência, mocidade. Foi como se estivesse sendo hipnotizada e tudo que minha memória profunda houvesse guardado voltasse à tona: o bom e o ruim. Subi e desci da escada dezenas de vezes, em todos os quartos, fui ao passado e voltei, cada vez que ouvia o barulhinho discreto do computador. Por fim, encontrei a cabeça perdida, envolta em plástico. Não posso imaginar porque fiz essa maldade! Juntei tudo e doei para uma instituição de caridade. Disse-me uma amiga que não devia ter feito isso, mas, afinal, não brinco mais de bonecas, e minha neta, Luíza, tem 17 anos, e já passou da idade. Aliás, peço a Deus que nunca mais volte a brincar de bonecas. Credo!!!!
Peguei velhos livros de Monteiro Lobato, que meu pai dera a meu irmão, aqueles cujas histórias ele me contava, sentado na cadeira de balanço, enquanto eu, deitada no chão de bruços, escutava atentamente. Lembrei até de uns sonhos recheados de goiabada, que minha mãe fritara num dia de chuva em que ele me contava “Reinações de Narizinho”. Meu peito ficou apertado! Todos aqueles livros, de engenharia, de música, de histórias infantis, de crochê e bordado, haviam pertencido à minha família e todos haviam partido! Em outro armário encontrei quadros e pratos que minha mãe pintava. Via-a claramente, sentada diante de um pequeno cavalete. Saudade! Muita saudade! A voz de minha prima acompanhando alguma música que ouvia na Internet, me trouxe de volta ao presente e à necessidade de por à larga meu coração e despojar-me de tudo aquilo, que, afinal, entulhava minha casa e minha vida.
Meu amigo Cláudio, dono de uma livraria, meio sebo, meio antiquário, ajudou-me na dura tarefa de me desligar do passado. Levou mais de seis carrinhos grandes de feira, e pretende doar os livros infantis para bibliotecas comunitárias, que conseguiu organizar. Também arquiva objetos para cenários de peças de teatro. Os outros livros estão na sua livraria e terão melhor destino do que escondidos em armários. Minhas sobrinhas levaram alguns pratos, mas os quadros dei à minha diarista, que não tem nenhum adorno para suas paredes. Ficou feliz! Eles também estarão melhor ornamentando a casa que Josy e seu marido constroem com o trabalho duríssimo de cada dia.
E também guardei algumas relíquias de que nem me lembrava mais, minha camisola de batismo, de seda cor-de-rosa, com pequenas flores bordadas por minha avó. Camisolinhas de dormir no verão, todas enfeitadinhas, meu primeiro sapatinho, meu primeiro brinquedinho, uma argola de plástico com várias outras penduradas como balangandãs. E ainda um bicho feio parecendo um rinoceronte que me davam para morder. E aventaizinhos bordados, fantasias de carnaval de baiana e cigana, enfim, tudo que só avó faz. E minha capinha de crochê de lã, - será que alguma das minhas leitoras chegou a usar esta indumentária-? Lembrei-me de quando a colocava brincando de chapeuzinho-vermelho. Lembranças, lembranças. E muita saudade! Uma dor no peito, que tive que enfrentar. E tudo isto depois de haver rasgado mais de cinco sacos de cem litros de papel! E milhões de fotos e slides de gente e lugares que não me interessam. Agora faltam os longplays e os discos de setenta e oito rotações, aqueles bem antigos, com agulhas que se comprava em caixinhas de metal. Meu sobrinho, Bertrand, que é músico, quer tudo para ele. Que bom!
Neste momento, estou despojando minha casa do passado. Mas guardo dezenas de álbuns de fotos . Distribui pela casa fotos de minha família, e também minhas. Mas depois de amanhã, vou a um estúdio fazer um book meu. Quero fotos que mostrem uma mulher madura, que gosta de si, que soube enfrentar um passado tormentoso, que não se deixou vencer , que é feliz,e ainda está em forma. A melhor, vou mandar ampliar, bem grande, e colocar na parede do fundo do corredor, que já preparei lindamente par recebê-la. E avisei ao fotógrafo: “Quero fotos glamorosas, mas não sensuais. “
Afinal: “ Je repars à zero”
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Entre abraços e afagos, o brasileiro cordial
Jimmy era um cachorro dócil, amável, que gostava de crianças. Foi trazido de Ibitipoca por meu sobrinho, Bertrand, que viu quando a família que o abrigava embarcou numa caminhonete, deixando-o para traz. Viu quando o bichinho saiu correndo, tentando alcançar os que o haviam abandonado. Bertrand também saiu correndo, xingando-os com todos os palavrões que lhe vinham à cabeça. Mas eles, ainda que tenham ouvido, não pararam. Afinal, meu sobrinho é um homem grandalhão, e não valia a pena tentar limpar a “honra”. E foi assim que Jimmy surgiu na nossa vida. Como era um cachorro de grande porte, não pude abrigá-lo, mas pedi a um amigo que cuidasse dele. E então Jimmy ganhou uma família de fato, com crianças gentis e a companhia de outros animais.
E viveu feliz durante 11 anos. Já era um cachorro velho, quando meu amigo ligou-me dizendo que estava doente. Havia dois dias não queria comer, nem brincar. Levamos imediatamente à Clínica onde trato meus bichinhos. Quase sem forças para andar, foi carregado no colo até o consultório. Estava magro, triste. Meu amigo não quis assistir à consulta e ficou do lado de fora, chorando. Sabíamos que era grave. Após minucioso exame, a veterinária constatou vários tumores. Jimmy urinava sangue. Disse-me que estava quase certa de que ele tinha tumores cancerosos espalhados por todo corpo, mas precisava fazer alguns exames, incluindo uma biopsia. Deixamos na clínica. Eu tinha certeza de que o bichinho estava muito mal. No dia seguinte, ela me telefonou e confirmou o que havia dito. Disse-me que não havia o que fazer, e que, na sua idade, ele não agüentaria uma quimioterapia. Telefonei a meu amigo e resolvemos poupá-lo do sofrimento, optando pela eutanásia.
Alguns dias depois voltei à clínica, ainda estava chocada. Chorei, mas achei que havíamos feito o melhor. Jimmy foi enterrado num cemitério para animais, onde estão enterrados outros animais nossos, cães e gatos. A conta foi alta, muito alta, mas paguei sem lamentar. Enxugando os olhos, tirei meus óculos escuros e enfiei no decote da blusa. E voltei para casa. No caminho encontrei uma amiga, contei-lhe o que havia acontecido, compadeceu-se de todos nós, e, para expressar esta solidariedade, deu-me aquele abraço, bem apertado, saído diretamente do seu coração para meus óculos. Senti um “clic”, e pensei: lá se foram eles. Além da eutanásia, da conta astronômica, eu ainda tinha o prejuízo dos óculos. Tive vontade rir,... ou de chorar. Minha amiga, como todos os brasileiros usou seu corpo para expressar sua solidariedade. Voltei para casa pensando que afinal usamos nosso corpo para expressar qualquer sentimento, o que encanta os estrangeiros, sobretudo os que não vivem aqui. Que o diga nossos desfiles de Carnaval, as praias. Por isso ganhamos a fama de “país das bundas”. Minha amiga usou seu corpo, e o meu, para expressar solidariedade na minha dor, mas poderia ser para dar-me parabéns, ou mostrar como estava alegre em reencontrar-me após longa separação. O corpo é nosso instrumento de paz e de guerra, de alegria e tristeza, enfim, de qualquer sentimento.
Lembro-me de que há alguns anos encontrei uma pessoa, não sei mais quem, que, de tão feliz em me rever, me deu um abraço forte, e de má pontaria, que arrancou uma de minhas argolas (sorte que não rasgou minha orelha), que foi parar nunca soubemos onde. É claro que fui gentil e disse-lhe que não havia problema, etc, etc. Mas era das minhas preferidas. Desolada, ela queria procurar pelo passeio, mas não me prestei a este ridículo, já que senti que havia pulado longe. E aí fiquei com uma só argola, o que para mim significa nenhuma. Num dos múltiplos velórios de minha família, lembro-me de uma outra pessoa que me massageava o braço, em sinal de solidariedade, creio eu. Esfregava com força, e quanto maior fosse a força maior seria sua solidariedade. Esquivei-me, já irritada. E tantas que me acariciaram fortemente, me descabelaram, me fazendo uma espécie de cafuné. Afinal maltrataram minha dignidade na dor, já que meu corpo exausto pedia descanso e um gesto simples de carinho, como um beijo.
E também há a história das amostras que levei para uma biópsia de uma pequena cirurgia de Ricardo. O hospital deveria fazê-lo, mas fui eu que tive que carregar os inúmeros potinhos cheios de um líquido, que não deviam balançar. Rezei para não dar com algum buraco, e acho que meu anjo da guarda colocou a mão sobre os que sempre recobrem o caminho de quem circula pelas ruas do Brasil. Depois de deixar o carro no estacionamento, rezei para não encontrar nenhum buraco nas calçadas de infames pedras portuguesas, E tampouco um bom amigo. Fui pelo caminho olhando obsessivamente para o chão e vigiando os transeuntes. Passei defronte ao prédio onde trabalha um desses calorosos, rezei para que não aparecesse. Finalmente, cheguei ao laboratório, com os vidrinhos intactos. UFA! Pelo menos uma etapa da ansiedade já havia sido superada, mas teríamos que esperar vários dias para o resultado. Com imensa ansiedade, resolvi buscá-lo, Pedi a proteção de Deus. Abri lá mesmo o envelope com o resultado. E agradeci mais uma vez. Negativo.
Conto tudo isto para mostrar uma das mais corriqueiras características que observo no “brasileiro cordial”, a que se refere Sérgio Buarque de Holanda do seu genial “Raízes do Brasil”. O poder do corpo. Não é observação sua, mas estou certa de estes é um dos traços que constrói este homem singular. E há ainda tanta coisa que observo todo dia!! E o pior é que cada vez que observo um desses traços, sinto que não sou diferente.
Afinal, no que diz respeito à cultura, não posso dizer como Piaf: “Je repars à zero”.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Do passado, só o melhor
Em 2010, comecei o ano com um projeto claro: desembaraçar minha casa de toda bagulhada que a gente teima em juntar. São os doze trabalhos de Hércules. Mas de qualquer jeito, neste fim de ano, em que estou sozinha, juntei forças e recomecei a pleno vapor. O incrível é que tenho a terrível impressão de que meu trabalho de desentulhe pregresso não adiantou nada. Há ainda tanto a tirar! Neste último mês, doei livros, vídeos, fitas, enchi várias vezes meu carrinho de feira, que também vou dar, mas só Deus sabe quando, distribui para minha família, para a diarista, e a casa ainda me parece cheia. Num desses fins de semana, joguei fora centenas de slides amarelados e quase imperceptíveis, mas guardei aqueles, em bom estado, onde aparecem meus pais e irmãos, e também amigos queridos, o que resultou em mais de duzentos. Com eles guardei parte importante de meu passado. Rasguei centenas de fotos, depois de separar, meticulosamente, duas caixas com fotos de Ricardo. E ainda dúzias de envelopes com negativos. E máquinas de fotografia que não fotografam mais nada, mas encantaram amigos. Olho para a parte superior de meus armários e sinto arrepios, pois foi lá que joguei considerável parte do que desentulhei na parte de baixo. Vendo “Obsessivos compulsivos” na Sky, quase me sinto um deles. Há um velho cavalinho que tenho desde criança, e um vidro de perfume imitando uma garrafa de champagne dentro de um balde, que ganhei de meu pai, de que não consigo me desfazer. Mas, afinal, estes me trazem boas recordações. E assim, neste lufa-lufa, espero, se Deus me ajudar, conseguir chegar a uma casa clean até o fim do ano.
Neste ano de 2011, acrescentei à minha vida um novo projeto, inspirada no que disse Jean Renoir em seu livro de memórias :”das recordações, só as melhores”. Mas, para conseguir esta outra façanha, preciso dar um sumiço, colocar debaixo do colchão, esconder dentro do armário (?) aquilo que tenho que esquecer. E como tem coisa! Primeiro, parodiando Mariah Carey: “ Não faço mais aniversário. Se alguém me deseja feliz aniversário, eu digo: está falando de quem?” Pois agora vou me fazer de desentendida, olhar para os lados :”Quem?” Para alguém que, como eu, já entrou na contagem regressiva, esta história de números soa mal. Mas é preciso lembrar que a primeira coisa que faço, assim que acordo, é tomar meu Aradois com diurético de 100 miligramas. Quantas saudades dos meus sixties! Preciso também esquecer que teremos quatro anos de Dilma e mais, nem sei quantos, de Lula. E também a qualidade dos membros do novo Congresso, que dizem que é pior do que o anterior! E que um dos chefões das FARC está livre e bem instalado no Brasil, que Battisti está solto e que Tarso Genro, aquele que protege o assassino italiano e entregou os pugilistas ao ditador moribundo, foi eleito Governador, no primeiro turno, do meu querido Rio Grande. Preciso esquecer as cotas raciais, que estão criando no Brasil, onde todos somos mestiços, uma perigosa divisão. E também que foi criado em Brasília um Tribunal Racial, que só existiu na Alemanha nazista! Enfim, há tanta coisa para esquecer, que resolvi mergulhar no desentulhe e talvez assim alcançar uma espécie de amnésia.
Mas depois de limpar tudo que me desagrada ou causa horror, quero lembrar para sempre minha mãe, sentada na sua cadeira de balanço, comigo enroscada em seu colo aconchegante, enquanto balançava suavemente e ouvia rádio. Lembrança tão antiga, que me leva aos primórdios de minha vida. Quero lembrar a voz de meu pai nas manhãs de Natal, quando eu acordava: “Bem, já vou indo.” Eu pulava correndo da cama, mas nunca consegui encontrar Papai Noel. E também, quero lembrar sempre a fúria de minha irmã quando eu mexia nas suas coisas, “brincando de moça”. Quero me lembrar as tardes, quando a doença dava uma trégua, de meu irmão Sérgio lendo-me Monteiro Lobato. Quero lembrar meu primeiro e grande amor, tão grande que o guardei para sempre no fundo de meu coração. Era um mestiço, três anos mais velho, e estudava no mesmo colégio que eu. Apaixonei-me desde o primeiro momento em que o vi. Soube que morreu há anos e senti grande mágoa. E ainda a vozinha rouca de meu neto João, logo após a morte de sua avó paterna: “Vovó Lúcia, agora só ficou você. Você tem que durar muito.” E também dos lanches na casa de Teresa, com café fresquinho. E das festas de Natal e de Réveillon, que ela preparava com tanto esmero. Quero lembrar para sempre os anos felizes que vivi ao lado de Ricardo.
Mas sei que doravante também haverá muita coisa nova na minha vida, que guardarei até o fim como lembranças queridas. Porque a vida é assim, um eterno recomeçar.
Neste ano de 2011, acrescentei à minha vida um novo projeto, inspirada no que disse Jean Renoir em seu livro de memórias :”das recordações, só as melhores”. Mas, para conseguir esta outra façanha, preciso dar um sumiço, colocar debaixo do colchão, esconder dentro do armário (?) aquilo que tenho que esquecer. E como tem coisa! Primeiro, parodiando Mariah Carey: “ Não faço mais aniversário. Se alguém me deseja feliz aniversário, eu digo: está falando de quem?” Pois agora vou me fazer de desentendida, olhar para os lados :”Quem?” Para alguém que, como eu, já entrou na contagem regressiva, esta história de números soa mal. Mas é preciso lembrar que a primeira coisa que faço, assim que acordo, é tomar meu Aradois com diurético de 100 miligramas. Quantas saudades dos meus sixties! Preciso também esquecer que teremos quatro anos de Dilma e mais, nem sei quantos, de Lula. E também a qualidade dos membros do novo Congresso, que dizem que é pior do que o anterior! E que um dos chefões das FARC está livre e bem instalado no Brasil, que Battisti está solto e que Tarso Genro, aquele que protege o assassino italiano e entregou os pugilistas ao ditador moribundo, foi eleito Governador, no primeiro turno, do meu querido Rio Grande. Preciso esquecer as cotas raciais, que estão criando no Brasil, onde todos somos mestiços, uma perigosa divisão. E também que foi criado em Brasília um Tribunal Racial, que só existiu na Alemanha nazista! Enfim, há tanta coisa para esquecer, que resolvi mergulhar no desentulhe e talvez assim alcançar uma espécie de amnésia.
Mas depois de limpar tudo que me desagrada ou causa horror, quero lembrar para sempre minha mãe, sentada na sua cadeira de balanço, comigo enroscada em seu colo aconchegante, enquanto balançava suavemente e ouvia rádio. Lembrança tão antiga, que me leva aos primórdios de minha vida. Quero lembrar a voz de meu pai nas manhãs de Natal, quando eu acordava: “Bem, já vou indo.” Eu pulava correndo da cama, mas nunca consegui encontrar Papai Noel. E também, quero lembrar sempre a fúria de minha irmã quando eu mexia nas suas coisas, “brincando de moça”. Quero me lembrar as tardes, quando a doença dava uma trégua, de meu irmão Sérgio lendo-me Monteiro Lobato. Quero lembrar meu primeiro e grande amor, tão grande que o guardei para sempre no fundo de meu coração. Era um mestiço, três anos mais velho, e estudava no mesmo colégio que eu. Apaixonei-me desde o primeiro momento em que o vi. Soube que morreu há anos e senti grande mágoa. E ainda a vozinha rouca de meu neto João, logo após a morte de sua avó paterna: “Vovó Lúcia, agora só ficou você. Você tem que durar muito.” E também dos lanches na casa de Teresa, com café fresquinho. E das festas de Natal e de Réveillon, que ela preparava com tanto esmero. Quero lembrar para sempre os anos felizes que vivi ao lado de Ricardo.
Mas sei que doravante também haverá muita coisa nova na minha vida, que guardarei até o fim como lembranças queridas. Porque a vida é assim, um eterno recomeçar.
E repitindo Piaf: “Je repars à zero”
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