Quando minha irmã decidiu raspar a cabeça, depois de tomar conhecimento da queda dos cabelos, telefonou para seu cabeleireiro e amigo e combinou um horário em que sabia que não haveria ninguém em casa. Como era de seu estilo, sem alarde, sem chorar, sem lamentar sua triste sorte – que compartilhou cada dia com milhões de pessoas – anunciou a seus filhos o que havia feito. E continuou sua vida, enfrentando a cada quarenta dias, se não me engano, sessões de quimioterapia. Eu e sua filha, Alice, sempre a acompanhávamos, e, durante horas e mais horas, víamos gente entrando e saindo. Lembro-me de um rapazinho bonito, que ficava em outra sala, o braço esticado, recebendo na veia aquela poção terrível, que na reincidência do câncer foi fatal à minha irmã. E havia uma mulher bonita, elegante, que exibia uma peruca loura que lhe caia lindamente. Ninguém poderia imaginar que aquelas pessoas estivessem atingidas por mal de tamanha crueldade. Às vezes imagino quantas delas ainda estarão vivas.
Reinaldo Gianecchini, ator conhecido, homem de grande valor moral, raspou a cabeça antes que lhe caíssem os cabelos. Discretamente. A Presidente Dilma provavelmente fez o mesmo. E quem viu? Tanta gente famosa passou por esta experiência! Ana Maria Braga, Hebe Camargo, são exemplos de mulheres que amam a exposição, mas ninguém as viu raspando a cabeça. Talvez até uma questão de pudor, de não querer expor sua fragilidade, ou melhor, a nossa, de guardar sua privacidade, e sua dor.
Minha avó paterna morreu de câncer na laringe e desde bem pequena ouvi de minha mãe, com sua psicologia de mulher batida pela vida e pela adversidade, detalhes deste terrível sofrimento. O ano era 1939. Não havia quimioterapia, nem radioterapia que só surgiram depois da Segunda Guerra. Nem sei se era usada a tal bomba de cobalto, mas estou quase segura de que foi pouco antes de sua morte. Minha avó tinha cinqüenta e nove anos. Não sei se minha mãe contou-me algum detalhe quando passávamos à noite por uma ponte, mas sempre associo a escuridão das águas à morte de minha avó, e tenho a sensação de que ela foi tragada pelo rio indevassável e frio. E não gosto de passar por pontes à noite. Também tive um amigo, ou melhor, amigo de meu irmão, que morreu de câncer na laringe, provocado pelo álcool e tabagismo. Meu irmão ficou sinceramente consternado, não poderia imaginar que morreria três ou quatro meses depois. Também tenho um amigo que se salvou, mas teve que aprender a falar, se não me engano, chama-se voz faríngea. E o irmão de uma amiga, também sobrevivente. Lembro-me do que ela me contou ter assistido quando foi visitá-lo. Havia tanto sofrimento, dores terríveis para engolir a própria saliva, que, ao sair, ela não sabia que rumo tomar para chegar em casa. Assim, ainda que não tenha nenhum apreço pelo homem público, fiquei sinceramente abalada com a notícia da doença de Lula. Lembrei-me de tudo que ouvi e vi, e senti grande pena. Solidarizei-me. Admirei a transparência com que transmitiu ao povo a notícia de seu mal, e seu otimismo. Como me comovi ao ver o belíssimo depoimento de Gianecchini.
Mas qual não foi minha surpresa, ou talvez minha desilusão, diante de um homem que crescera no meu conceito, ao ver a lamentável foto de Lula sendo pelado por sua amada Mariza Letícia. Não sabia desta habilidade de nossa ilustre ex-primeira dama, e acho que nenhum brasileiro sabia, porque, afinal raspar uma barba e um cabelo deve ser coisa para profissional. Eu, por exemplo, não seria capaz de fazê-lo. E ainda deixou um bigode para o marido ficar mais bonito. Estão ambos tão felizes que dá vontade de enviar parabéns pela barbeira e pela doença. Lula é realmente um populista que nem uma doença grave consegue conter. É muito inteligente, conhece a pieguice do povo brasileiro, e seus valores. Virou herói até para quem não gosta dele. Nem Chavez chegou a este ponto. De sua careca, não se conhece a história. Com aquelas fotos, Lula ultrapassou todos os limites da dignidade, desnudou-se. Lamento, mas ainda torço sinceramente por ele. E ainda agradeço, porque, afinal nunca errei na avaliação que fiz do homem. Que tenha força e coragem, aquela mesma que teve ao anunciar a doença.
Sempre aceitei a morte como um fato inevitável, perdi minha família original, e apesar disso sou feliz. Só não entendo o sofrimento. Lula não é mau, é um populista inteligente e descarado. E que Deus o ajude.
domingo, 20 de novembro de 2011
A foto
Quando minha irmã decidiu raspar a cabeça, depois de tomar conhecimento da queda dos cabelos, telefonou para seu cabeleireiro e amigo, e combinou um horário em que sabia que não haveria ninguém em casa. Como era de seu estilo, sem alarde, sem chorar, sem lamentar sua triste sorte – que compartilhou cada dia com milhões de pessoas – anunciou a seus filhos o que havia feito. E continuou sua vida, enfrentando a cada quarenta dias, se não me engano, sessões de quimioterapia. Eu e sua filha Alice sempre a acompanhávamos, e, durante horas e mais horas, víamos gente entrando e saindo. Lembro-me de um rapazinho bonito, que ficava em outra sala, o braço esticado, recebendo na veia aquela poção terrível, que na reincidência do câncer foi fatal à minha irmã. E havia uma mulher bonita, elegante, que exibia uma peruca loura que lhe caia lindamente. Ninguém poderia imaginar que aquelas pessoas estivessem atingidas por mal de tamanha crueldade. Às vezes imagino quantas delas ainda estarão vivas.
Reinaldo Gianecchini, ator conhecido, homem de grande valor moral, raspou a cabeça antes que lhe caíssem os cabelos. Discretamente. A Presidente Dilma provavelmente fez o mesmo. E quem viu? Tanta gente famosa passou por esta experiência! Ana Maria Braga, Hebe Camargo, são exemplos de mulheres que amam a exposição, mas ninguém as viu raspando a cabeça. Talvez até uma questão de pudor, de não querer expor sua fragilidade, ou melhor, a nossa, de guardar sua privacidade, e sua dor.
Minha avó paterna morreu de câncer na laringe e desde bem pequena ouvi de minha mãe, com sua psicologia de mulher batida pela vida e pela adversidade, detalhes deste terrível sofrimento. O ano era 1939. Não havia quimioterapia, nem radioterapia que só surgiram depois da Segunda Guerra. Nem sei se era usada a tal bomba de cobalto, mas estou quase segura de que foi pouco antes de sua morte. Minha avó tinha cinqüenta e nove anos. Não sei se minha mãe contou-me algum detalhe quando passávamos à noite por uma ponte, mas sempre associo a escuridão das águas à morte de minha avó, e tenho a sensação de que ela foi tragada pelo rio indevassável e frio. E não gosto de passar por pontes à noite. Também tive um amigo, ou melhor, amigo de meu irmão, que morreu de câncer na laringe, provocado pelo álcool e tabagismo. Meu irmão ficou sinceramente consternado, não poderia imaginar que morreria três ou quatro meses depois. Também tenho um amigo que se salvou, mas teve que aprender a falar, se não me engano, chama-se voz faríngea. E o irmão de uma amiga, também sobrevivente. Lembro-me do que ela me contou ter assistido quando foi visitá-lo. Havia tanto sofrimento, dores terríveis para engolir a própria saliva, que, ao sair, ela não sabia que rumo tomar para chegar em casa. Assim, ainda que não tenha nenhum apreço pelo homem público, fiquei sinceramente abalada com a notícia da doença de Lula. Lembrei-me de tudo que ouvi e vi, e senti grande pena. Solidarizei-me. Admirei a transparência com que transmitiu ao povo a notícia de seu mal, e seu otimismo. Como me comovi ao ver o belíssimo depoimento de Gianecchini.
Mas qual não foi minha surpresa, ou talvez minha desilusão, diante de um homem que crescera no meu conceito, ao ver a lamentável foto de Lula sendo pelado por sua amada Mariza Letícia. Não sabia desta habilidade de nossa ilustre ex-primeira dama, e acho que nenhum brasileiro sabia, porque, afinal raspar uma barba e um cabelo deve ser coisa para profissional. Eu, por exemplo, não seria capaz de fazê-lo. E ainda deixou um bigode para o marido ficar mais bonito. Estão ambos tão felizes que dá vontade de enviar parabéns pela barbeira e pela doença. Lula é realmente um populista que nem uma doença grave consegue conter. É muito inteligente, conhece a pieguice do povo brasileiro, e seus valores. Virou herói até para quem não gosta dele. Nem Chavez chegou a este ponto. De sua careca, não se conhece a história. Com aquelas fotos, Lula ultrapassou todos os limites da dignidade, desnudou-se. Lamento, mas ainda torço sinceramente por ele. E ainda agradeço, porque, afinal nunca errei na avaliação que fiz do homem. Que tenha força e coragem, aquela mesma que teve ao anunciar a doença.
Sempre aceitei a morte como um fato inevitável, perdi minha família original, e apesar disso sou feliz. Só não entendo o sofrimento. Lula não é mau, é um populista inteligente e descarado. E que Deus o ajude.
A foto
Quando minha irmã decidiu raspar a cabeça, depois de tomar conhecimento da queda dos cabelos, telefonou para seu cabeleireiro e amigo, e combinou um horário em que sabia que não haveria ninguém em casa. Sem alarde, sem chorar, sem lamentar sua triste sorte – que compartilhou cada dia com milhões de pessoas – anunciou a seus filhos o que havia feito. E continuou sua vida, enfrentando a cada quarenta dias, se não me engano, sessões de quimioterapia. Eu e sua filha Alice sempre a acompanhávamos, e, durante horas e mais horas, víamos gente entrando e saindo. Lembro-me de um rapazinho bonito, que ficava em outra sala, o braço esticado, recebendo na veia aquela poção terrível, que na reincidência do câncer foi fatal à minha irmã. E havia uma mulher bonita, elegante, que exibia uma peruca loura que lhe caia lindamente. Ninguém poderia imaginar que aquelas pessoas estivessem atingidas por mal de tamanha crueldade. Às vezes imagino quantas delas ainda estarão vivas.
Reinaldo Gianecchini, ator conhecido, homem de grande valor moral, raspou a cabeça antes que lhe caíssem os cabelos. Discretamente. A Presidente Dilma provavelmente fez o mesmo. E quem viu? Tanta gente famosa passou por esta experiência! Ana Maria Braga, Hebe Camargo, são exemplos de mulheres que amam a exposição, mas ninguém as viu raspando a cabeça. Talvez até uma questão de pudor, de não querer expor sua fragilidade, ou melhor, a nossa, de guardar sua privacidade, e sua dor.
Minha avó paterna morreu de câncer na laringe e desde bem pequena ouvi de minha mãe, com sua psicologia de mulher batida pela vida e pela adversidade, detalhes deste terrível sofrimento. O ano era 1939. Não havia quimioterapia, nem radioterapia que só surgiram depois da Segunda Guerra. Nem sei se era usada a tal bomba de cobalto, mas estou quase segura de que foi pouco antes de sua morte. Minha avó tinha cinqüenta e nove anos. Não sei se minha mãe contou-me algum detalhe quando passávamos à noite por uma ponte, mas sempre associo a escuridão das águas à morte de minha avó, e tenho a sensação de que ela foi tragada pelo rio indevassável e frio. E não gosto de passar por pontes à noite. Também tive um amigo, ou melhor, amigo de meu irmão, que morreu de câncer na laringe, provocado pelo álcool e tabagismo. Meu irmão ficou sinceramente consternado, não poderia imaginar que morreria três ou quatro meses depois. Também tenho um amigo que se salvou, mas teve que aprender a falar, se não me engano, chama-se voz faríngea. E o irmão de uma amiga, também sobrevivente. Lembro-me do que ela me contou ter assistido quando foi visitá-lo. Havia tanto sofrimento, dores terríveis para engolir a própria saliva, que, ao sair, ela não sabia que rumo tomar para chegar em casa. Assim, ainda que não tenha nenhum apreço pelo homem público, fiquei sinceramente abalada com a notícia da doença de Lula. Lembrei-me de tudo que ouvi e vi, e senti grande pena. Solidarizei-me. Admirei a transparência com que transmitiu ao povo a notícia de seu mal, e seu otimismo. Como me comovi ao ver o belíssimo depoimento de Gianecchini.
Mas qual não foi minha surpresa, ou talvez minha desilusão, diante de um homem que crescera no meu conceito, ao ver a lamentável foto de Lula sendo pelado por sua amada Mariza Letícia. Não sabia desta habilidade de nossa ilustre ex-primeira dama, e acho que nenhum brasileiro sabia, porque, afinal raspar uma barba e um cabelo deve ser coisa para profissional. Eu, por exemplo, não seria capaz de fazê-lo. E ainda deixou um bigode para o marido ficar mais bonito. Estão ambos tão felizes que dá vontade de enviar parabéns pela barbeira e pela doença. Lula é realmente um populista que nem uma doença grave consegue conter. É muito inteligente, conhece a pieguice do povo brasileiro, e seus valores. Virou herói até para quem não gosta dele. Nem Chavez chegou a este ponto. De sua careca, não se conhece a história. Com aquelas fotos, Lula ultrapassou todos os limites da dignidade, desnudou-se. Lamento, mas ainda torço sinceramente por ele. E ainda agradeço, porque, afinal nunca errei na avaliação que fiz do homem. Que tenha força e coragem, aquela mesma que teve ao anunciar a doença.
Sempre aceitei a morte como um fato inevitável, perdi minha família original, e apesar disso sou feliz. Só não entendo o sofrimento. Lula não é mau, é um populista inteligente e descarado. E que Deus o ajude.
sábado, 19 de novembro de 2011
A foto
Quando minha irmã decidiu raspar a cabeça, depois de tomar conhecimento da queda dos cabelos, telefonou para seu cabeleireiro e amigo e combinou um horário em que sabia que não haveria ninguém em casa. Como de seu estilo, sem alarde, sem chorar, sem lamentar sua triste sorte – que compartilhou cada dia com milhões de pessoas – anunciou a seus filhos o que havia feito. E continuou sua vida, enfrentando a cada quarenta dias, se não me engano, sessões de quimioterapia. Eu e sua filha Alice sempre a acompanhávamos, e, durante horas e mais horas, víamos gente entrando e saindo. Lembro-me de um rapazinho bonito, que ficava em outra sala, o braço esticado, recebendo na veia aquela poção terrível, que na reincidência do câncer foi fatal à minha irmã. E havia uma mulher bonita, elegante, que exibia uma peruca loura que lhe caia lindamente. Ninguém poderia imaginar que aquelas pessoas estivessem atingidas por mal de tamanha crueldade. Às vezes imagino quantas delas ainda estarão vivas.
Reinaldo Gianecchini, ator conhecido, homem de grande valor moral, raspou a cabeça antes que lhe caíssem os cabelos. Discretamente. A Presidente Dilma provavelmente fez o mesmo. E quem viu? Tanta gente famosa passou por esta experiência! Ana Maria Braga, Hebe Camargo, são exemplos de mulheres que amam a exposição, mas ninguém as viu raspando a cabeça. Talvez até uma questão de pudor, de não querer expor sua fragilidade, ou melhor, a nossa, de guardar sua privacidade, e sua dor.
Minha avó paterna morreu de câncer na laringe e desde bem pequena ouvi de minha mãe, com sua psicologia de mulher batida pela vida e pela adversidade, detalhes deste terrível sofrimento. O ano era 1939. Não havia quimioterapia, nem radioterapia, que só surgiram depois da Segunda Guerra. Nem sei se era usada a tal bomba de cobalto, mas estou quase segura de que foi pouco antes de sua morte. Minha avó tinha cinqüenta e nove anos. Não sei se minha mãe contou-me algum detalhe quando passávamos à noite por uma ponte, mas sempre associo a escuridão das águas à morte de minha avó, e tenho a sensação de que ela foi tragada pelo rio indevassável e frio. E não gosto de passar por pontes à noite. Também tive um amigo, ou melhor, amigo de meu irmão, que morreu de câncer na laringe, provocado pelo álcool e tabagismo. Meu irmão ficou sinceramente consternado, não poderia imaginar que morreria três ou quatro meses depois. Também tenho um amigo que se salvou, mas teve que aprender a falar, se não me engano, chama-se voz faríngea. E o irmão de uma amiga, também sobrevivente. Lembro-me do que ela me contou ter assistido quando foi visitá-lo. Havia tanto sofrimento, dores terríveis para engolir a própria saliva, que, ao sair, ela não sabia que rumo tomar para chegar em casa. Assim, ainda que não tenha nenhum apreço pelo homem público, fiquei sinceramente abalada com a notícia da doença de Lula. Lembrei-me de tudo que ouvi e vi, e senti grande pena. Solidarizei-me. Admirei a transparência com que transmitiu ao povo a notícia de seu mal, e seu otimismo. Como me comovi ao ver o belíssimo depoimento de Gianecchini.
Mas qual não foi minha surpresa, ou talvez minha desilusão, diante de um homem que crescera no meu conceito, ao ver a lamentável foto de Lula sendo pelado por sua amada Mariza Letícia. Não sabia desta habilidade de nossa ilustre ex-primeira dama, e acho que nenhum brasileiro sabia, porque, afinal, raspar uma barba e um cabelo deve ser coisa para profissional. Eu, por exemplo, não seria capaz de fazê-lo. E ainda deixou um bigode para o marido ficar mais bonito. Estão ambos tão felizes, há tanto amor, que dá vontade de enviar parabéns pela barbeira e pela doença. Lula é realmente um populista que nem uma doença grave consegue conter. É muito inteligente, conhece a pieguice do povo brasileiro, e seus valores. Virou herói até para quem não gosta dele. Nem Chavez chegou a este ponto. De sua careca, não se conhece a história. Com aquelas fotos, Lula ultrapassou todos os limites da dignidade, desnudou-se. Lamento, mas ainda torço sinceramente por ele. E ainda agradeço, porque, afinal nunca errei na avaliação que fiz do homem. Que tenha força e coragem, aquela mesma que teve ao anunciar a doença.
Sempre aceitei a morte como um fato inevitável, perdi minha família original, e apesar disso sou feliz. Só não entendo o sofrimento. Lula não é mau, é um populista inteligente e descarado. E que Deus o ajude.
Reinaldo Gianecchini, ator conhecido, homem de grande valor moral, raspou a cabeça antes que lhe caíssem os cabelos. Discretamente. A Presidente Dilma provavelmente fez o mesmo. E quem viu? Tanta gente famosa passou por esta experiência! Ana Maria Braga, Hebe Camargo, são exemplos de mulheres que amam a exposição, mas ninguém as viu raspando a cabeça. Talvez até uma questão de pudor, de não querer expor sua fragilidade, ou melhor, a nossa, de guardar sua privacidade, e sua dor.
Minha avó paterna morreu de câncer na laringe e desde bem pequena ouvi de minha mãe, com sua psicologia de mulher batida pela vida e pela adversidade, detalhes deste terrível sofrimento. O ano era 1939. Não havia quimioterapia, nem radioterapia, que só surgiram depois da Segunda Guerra. Nem sei se era usada a tal bomba de cobalto, mas estou quase segura de que foi pouco antes de sua morte. Minha avó tinha cinqüenta e nove anos. Não sei se minha mãe contou-me algum detalhe quando passávamos à noite por uma ponte, mas sempre associo a escuridão das águas à morte de minha avó, e tenho a sensação de que ela foi tragada pelo rio indevassável e frio. E não gosto de passar por pontes à noite. Também tive um amigo, ou melhor, amigo de meu irmão, que morreu de câncer na laringe, provocado pelo álcool e tabagismo. Meu irmão ficou sinceramente consternado, não poderia imaginar que morreria três ou quatro meses depois. Também tenho um amigo que se salvou, mas teve que aprender a falar, se não me engano, chama-se voz faríngea. E o irmão de uma amiga, também sobrevivente. Lembro-me do que ela me contou ter assistido quando foi visitá-lo. Havia tanto sofrimento, dores terríveis para engolir a própria saliva, que, ao sair, ela não sabia que rumo tomar para chegar em casa. Assim, ainda que não tenha nenhum apreço pelo homem público, fiquei sinceramente abalada com a notícia da doença de Lula. Lembrei-me de tudo que ouvi e vi, e senti grande pena. Solidarizei-me. Admirei a transparência com que transmitiu ao povo a notícia de seu mal, e seu otimismo. Como me comovi ao ver o belíssimo depoimento de Gianecchini.
Mas qual não foi minha surpresa, ou talvez minha desilusão, diante de um homem que crescera no meu conceito, ao ver a lamentável foto de Lula sendo pelado por sua amada Mariza Letícia. Não sabia desta habilidade de nossa ilustre ex-primeira dama, e acho que nenhum brasileiro sabia, porque, afinal, raspar uma barba e um cabelo deve ser coisa para profissional. Eu, por exemplo, não seria capaz de fazê-lo. E ainda deixou um bigode para o marido ficar mais bonito. Estão ambos tão felizes, há tanto amor, que dá vontade de enviar parabéns pela barbeira e pela doença. Lula é realmente um populista que nem uma doença grave consegue conter. É muito inteligente, conhece a pieguice do povo brasileiro, e seus valores. Virou herói até para quem não gosta dele. Nem Chavez chegou a este ponto. De sua careca, não se conhece a história. Com aquelas fotos, Lula ultrapassou todos os limites da dignidade, desnudou-se. Lamento, mas ainda torço sinceramente por ele. E ainda agradeço, porque, afinal nunca errei na avaliação que fiz do homem. Que tenha força e coragem, aquela mesma que teve ao anunciar a doença.
Sempre aceitei a morte como um fato inevitável, perdi minha família original, e apesar disso sou feliz. Só não entendo o sofrimento. Lula não é mau, é um populista inteligente e descarado. E que Deus o ajude.
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Nunca antes neste país
Passamos oito anos, ouvindo que “nunca antes neste país” aconteceu tanta coisa boa. Viramos BRIC, e logo estaremos no Primeiro Mundo, a saúde é quase perfeita e o ensino vai de vento em popa. Mas será que é verdade? Há gente que acredita. O que fazer? Para mim e milhões de outros brasileiros a coisa é bem diferente.
“Nunca antes neste país” houve tanta sujeira. “Nunca antes neste país” houve tanta corrupção, tanta leniência dos governantes, tanto descaso com a saúde pública, onde pessoas não encontram leitos nos hospitais e acabam morrendo. “Nunca antes neste país” se viu tanta pouca vergonha. Vivemos num mar de lama. “Nunca antes neste país” houve “aloprados”, nem “mensalão”, ainda que houvesse, lá pelos anos oitenta, o famoso “ Centrão”, criado pelo amigo do peito para os fins mais espúrios. “Nunca antes neste país” foram criadas tantas Universidades que não ensinam o básico para seus alunos, nem nunca se varreu de forma tão esdrúxula para baixo do tapete a péssima qualidade do ensino, criando-se as vergonhosas “cotas raciais e sociais”. É verdade seu Lula , o senhor criou um país muito pior do que já era.
Passei minha adolescência sob o governo JK, e me lembro de figuras íntegras como Bilac Pinto, Milton Campos, Lott, Negrão de Lima, acusado pela oposição de corrupção, mas que ao morrer deixou para a família um apartamento. Confesso que nesta época, eu não dava atenção à política, mas estas figuras ficaram marcadas em minha mente como símbolos de um país que passou. É verdade, Lula, que “nuca antes neste país”, um homem com o prontuário de José Sarney seria Presidente do Senado, nem seria líder de qualquer coisa um dejeto como Renan Calheiros, nem o Presidente da Câmara, Marco Maia, faria piadinha com a corrupção dos desmandos do segundo homem de algum órgão público importante. Nunca antes neste país, uma entidade estudantil como a UNE, nossa velha heroína de tantas batalhas, se corrompeu com o dinheirão que o senhor lhe passa, a ponto de uma lider estudantil achar normal a absolvição de um tipo nojento como Renan Calheiros, que usava o nosso dinheiro para sustentar a amante: “Não nos cabe julgar a decisão dos deputados”. Ao ouvir esta frase senti uma grande tristeza enojada, se é possível tal conjunção. Senhor Lula, “nunca antes neste país” uma deputada, filmada recebendo dinheiro (nosso), foi absolvida alegando que na época não tinha nenhum cargo político. Neste caso, pense bem, Fernandinho Biera_mar, talvez convertando-se a alguma igreja evangélica, poderá, perfeitamente, ser eleito para qualquer cargo público. Leitores não vão lhe faltar.
Não me atrevo a dizer que o Brasil tenha sido algum dia uma Finlândia. Políticos corruptos sempre existirão, em qualquer país, talvez salvo no citado acima, mas há um mínimo de compostura, de respeito ao cidadão que o elege e o paga. É verdade, nunca antes neste país mergulhamos de tal forma no poço da vergonha. “Herança maldita” seu Lula, é a que o senhor deixou para sua sucessora, que não se sabe para onde virar, que está mais perdida do que cego em tiroteio. E sabe por que? Porque o senhor, assessorado por seu maior conselheiro José Dirceu – é bom a gente se benzer quando disser este nome- fez aliança com todo tipo de bandido para ter maioria e conseguir deste Congresso o que desejasse.
“Há alguns dias, recebendo do porteiro a revista “Veja”, me deparei com manchete:” O ministro recebia o dinheiro na garagem”. Não fiquei estupefata, nada mais me deixa neste estado no país do “nunca antes”, mas resolvi ler em voz alta para meu porteiro, ao que ele retrucou ironicamente: “ Mas isto não foi aqui , não é?” Respondi: “ Foi na Suécia”. Rimos juntos. Isto é o Brasil do “nunca antes”, “herança maldita” deixada pelo maior populista que este infeliz país já conheceu.
Cabotinismo é uma palavra que vem francês cabotinage, e cabotin é o mal ator, o que quer se fazer notar. Franceses são mestres neste tipo de encenação, sobretudo em se tratando do Terceiro Mundo. No caso de Lula, quiseram mostrar que, sem preconceitos, admiram o grande líder, timoneiro deste barco que começa a se desgovernar mais uma vez, só que para a esquerda. Temos aí Chavez, Carrera, Morales, Ollanta Humala, a Kichner, e outros que ainda virão, todos sob a égide do moribundo Fidel. E ai eles entram como patronos, aqueles que reconhecem “Nunca antes neste país”. Fácil, eles vivem longe, ainda que seu barco dê provas de furos na proa. Quem sabe o Brasil possa ajudá-los?
“Nunca antes neste país” houve tanta sujeira. “Nunca antes neste país” houve tanta corrupção, tanta leniência dos governantes, tanto descaso com a saúde pública, onde pessoas não encontram leitos nos hospitais e acabam morrendo. “Nunca antes neste país” se viu tanta pouca vergonha. Vivemos num mar de lama. “Nunca antes neste país” houve “aloprados”, nem “mensalão”, ainda que houvesse, lá pelos anos oitenta, o famoso “ Centrão”, criado pelo amigo do peito para os fins mais espúrios. “Nunca antes neste país” foram criadas tantas Universidades que não ensinam o básico para seus alunos, nem nunca se varreu de forma tão esdrúxula para baixo do tapete a péssima qualidade do ensino, criando-se as vergonhosas “cotas raciais e sociais”. É verdade seu Lula , o senhor criou um país muito pior do que já era.
Passei minha adolescência sob o governo JK, e me lembro de figuras íntegras como Bilac Pinto, Milton Campos, Lott, Negrão de Lima, acusado pela oposição de corrupção, mas que ao morrer deixou para a família um apartamento. Confesso que nesta época, eu não dava atenção à política, mas estas figuras ficaram marcadas em minha mente como símbolos de um país que passou. É verdade, Lula, que “nuca antes neste país”, um homem com o prontuário de José Sarney seria Presidente do Senado, nem seria líder de qualquer coisa um dejeto como Renan Calheiros, nem o Presidente da Câmara, Marco Maia, faria piadinha com a corrupção dos desmandos do segundo homem de algum órgão público importante. Nunca antes neste país, uma entidade estudantil como a UNE, nossa velha heroína de tantas batalhas, se corrompeu com o dinheirão que o senhor lhe passa, a ponto de uma lider estudantil achar normal a absolvição de um tipo nojento como Renan Calheiros, que usava o nosso dinheiro para sustentar a amante: “Não nos cabe julgar a decisão dos deputados”. Ao ouvir esta frase senti uma grande tristeza enojada, se é possível tal conjunção. Senhor Lula, “nunca antes neste país” uma deputada, filmada recebendo dinheiro (nosso), foi absolvida alegando que na época não tinha nenhum cargo político. Neste caso, pense bem, Fernandinho Biera_mar, talvez convertando-se a alguma igreja evangélica, poderá, perfeitamente, ser eleito para qualquer cargo público. Leitores não vão lhe faltar.
Não me atrevo a dizer que o Brasil tenha sido algum dia uma Finlândia. Políticos corruptos sempre existirão, em qualquer país, talvez salvo no citado acima, mas há um mínimo de compostura, de respeito ao cidadão que o elege e o paga. É verdade, nunca antes neste país mergulhamos de tal forma no poço da vergonha. “Herança maldita” seu Lula, é a que o senhor deixou para sua sucessora, que não se sabe para onde virar, que está mais perdida do que cego em tiroteio. E sabe por que? Porque o senhor, assessorado por seu maior conselheiro José Dirceu – é bom a gente se benzer quando disser este nome- fez aliança com todo tipo de bandido para ter maioria e conseguir deste Congresso o que desejasse.
“Há alguns dias, recebendo do porteiro a revista “Veja”, me deparei com manchete:” O ministro recebia o dinheiro na garagem”. Não fiquei estupefata, nada mais me deixa neste estado no país do “nunca antes”, mas resolvi ler em voz alta para meu porteiro, ao que ele retrucou ironicamente: “ Mas isto não foi aqui , não é?” Respondi: “ Foi na Suécia”. Rimos juntos. Isto é o Brasil do “nunca antes”, “herança maldita” deixada pelo maior populista que este infeliz país já conheceu.
Cabotinismo é uma palavra que vem francês cabotinage, e cabotin é o mal ator, o que quer se fazer notar. Franceses são mestres neste tipo de encenação, sobretudo em se tratando do Terceiro Mundo. No caso de Lula, quiseram mostrar que, sem preconceitos, admiram o grande líder, timoneiro deste barco que começa a se desgovernar mais uma vez, só que para a esquerda. Temos aí Chavez, Carrera, Morales, Ollanta Humala, a Kichner, e outros que ainda virão, todos sob a égide do moribundo Fidel. E ai eles entram como patronos, aqueles que reconhecem “Nunca antes neste país”. Fácil, eles vivem longe, ainda que seu barco dê provas de furos na proa. Quem sabe o Brasil possa ajudá-los?
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Susto, bala ou vício
“... Estou aqui de passagem. Sei que adiante um dia vou morrer. De susto, de bala ou vício, de susto de bala ou vício...”
Este é um trecho do lindo poema que ilustra “Soy loco por ti America” de Caetano Veloso.
Aqui se fala da inevitabilidade da morte que habita todos nós, ainda que alguns se julguem imortais. Mas eles também, lá no fundo, têm medo, como cada um de nós. Medo do desconhecido, do absolutamente diferente. Mas apesar deste destino comum, há os que amam a vida e procuram preservá-la, e os que a desprezam ou desperdiçam. Há gente com David Servan-Schreiber e também como Amy Winehouse, Jimmy Hendrix, Janis Joplin, Kurt Cobain, Brian Jones.
David, que morreu na noite de 24 para 25 de julho, era um neurocientista e psiquiatra de renome na França e nos Estados Unidos. Durante uma pesquisa, por acaso, numa Universidade americana, descobriu que tinha um tumor cerebral. Tinha trinta e um anos. Morreu na semana anterior aos seus cinqüenta e um. Durante estes vinte surpreendentes anos de luta contra a terrível doença, escreveu artigos em revistas especializadas, e dois livros de auto-ajuda, que tenho como livros de cabeceira: “Anticancer” e “Cura”. Ao saber da gravidade da reincidência de seu mal, escreveu um último livro “On peut se dire au revoir plusieurs fois”. Não é meu propósito falar de suas obras, mas de seu amor e respeito pelo que de mais precioso possuímos: a vida. Sem ser religioso, provavelmente era ateu, deu a todos nós um exemplo magnífico de amor ao próximo. Seu site “Guérir” ensina-nos a cuidar da saúde, ser mais fortes, na alma e no corpo.
David morreu dois dias depois de Amy. Eram ambos judeus. David vinha de família rica, filho de um grande jornalista socialista, fundador de “L”Express”, provavelmente a revista mais importante da França, tornando-se um ícone do jornalismo mundial. Também escreveu um livro de grande repercussão: “O desafio americano”. Belo homem, apaixonado pela vida, muitas foram suas paixões. David viveu sua infância e juventude ao lado de gente do calibre intelectual de Jean-Paul Sartre, Camus e outros. Do pai herdou a inteligência, a coragem, nobreza e beleza. E o amor à vida.
Amy era filha de um chofer de taxi, gente da classe média, sem brilho. Feia, não tinha uma história digna de ser contada, mas era uma enorme cantora. O pai, homem simples, narra, emocionado, a história de sua menininha, que ganhou fama pela música e pela autodestruição. Amy morreu deliberadamente. Ao contrário de David, não tinha nenhuma nobreza, desprezava a vida, e dava mostras, como nenhum dos outros deu, de sua decadência física e moral. Amy e David eram antagônicos. Morte versus vida. Decadência versus nobreza. Ao ver a foto de David em uma palestra alguns meses antes de morrer e a de Amy em um hotel em Santa Teresa, totalmente embriagada, seios a mostra, nos damos conta de como é infinita nossa diversidade humana. E a escolha é nossa. Somos diversos porque somos livres, ”condenados à liberdade”, como dizia Sartre. David escolheu a vida, a alegria, o amor ao próximo, a nobreza. E por isso será, eternamente, para aqueles que leram sua obra, uma grande referência.
Histórias diferentes, vidas diferentes, destinos diferentes. Vejo a todo instante desconhecidos, jovens e velhos, cuja vida tantos obstáculos apresenta, mas vislumbro neles a luz do combate. Alguns parecem dizer: “Quero viver, e viver representa lutar.” Como o homem que vi hoje, numa cadeira de rodas automática, o corpo totalmente disforme, passeando na praça com seu cachorrinho. Também vejo os que se degradam. Enfim, a cada um de nós cabe escolher entre a felicidade e amargura, o riso e soturnez, a vida e a morte. E ainda que estejamos aqui de passagem, e que esta passagem em certos momentos seja dolorosa, podemos torná-la feliz.
Afinal, como dizia Gonzaguinha: “O que será amanhã, responda quem quiser; o que irá me acontecer, o meu destino será como Deus quiser” É certo que susto, bala, vício, tombo, AVC, câncer, tombo, vão nos levar um dia, mas porque não ser feliz, se ainda temos este instante de vida, que pode acabar num pluft.
E onde foram parar meus seguidores. Acho que alguém andou me sabotando. Será?
Este é um trecho do lindo poema que ilustra “Soy loco por ti America” de Caetano Veloso.
Aqui se fala da inevitabilidade da morte que habita todos nós, ainda que alguns se julguem imortais. Mas eles também, lá no fundo, têm medo, como cada um de nós. Medo do desconhecido, do absolutamente diferente. Mas apesar deste destino comum, há os que amam a vida e procuram preservá-la, e os que a desprezam ou desperdiçam. Há gente com David Servan-Schreiber e também como Amy Winehouse, Jimmy Hendrix, Janis Joplin, Kurt Cobain, Brian Jones.
David, que morreu na noite de 24 para 25 de julho, era um neurocientista e psiquiatra de renome na França e nos Estados Unidos. Durante uma pesquisa, por acaso, numa Universidade americana, descobriu que tinha um tumor cerebral. Tinha trinta e um anos. Morreu na semana anterior aos seus cinqüenta e um. Durante estes vinte surpreendentes anos de luta contra a terrível doença, escreveu artigos em revistas especializadas, e dois livros de auto-ajuda, que tenho como livros de cabeceira: “Anticancer” e “Cura”. Ao saber da gravidade da reincidência de seu mal, escreveu um último livro “On peut se dire au revoir plusieurs fois”. Não é meu propósito falar de suas obras, mas de seu amor e respeito pelo que de mais precioso possuímos: a vida. Sem ser religioso, provavelmente era ateu, deu a todos nós um exemplo magnífico de amor ao próximo. Seu site “Guérir” ensina-nos a cuidar da saúde, ser mais fortes, na alma e no corpo.
David morreu dois dias depois de Amy. Eram ambos judeus. David vinha de família rica, filho de um grande jornalista socialista, fundador de “L”Express”, provavelmente a revista mais importante da França, tornando-se um ícone do jornalismo mundial. Também escreveu um livro de grande repercussão: “O desafio americano”. Belo homem, apaixonado pela vida, muitas foram suas paixões. David viveu sua infância e juventude ao lado de gente do calibre intelectual de Jean-Paul Sartre, Camus e outros. Do pai herdou a inteligência, a coragem, nobreza e beleza. E o amor à vida.
Amy era filha de um chofer de taxi, gente da classe média, sem brilho. Feia, não tinha uma história digna de ser contada, mas era uma enorme cantora. O pai, homem simples, narra, emocionado, a história de sua menininha, que ganhou fama pela música e pela autodestruição. Amy morreu deliberadamente. Ao contrário de David, não tinha nenhuma nobreza, desprezava a vida, e dava mostras, como nenhum dos outros deu, de sua decadência física e moral. Amy e David eram antagônicos. Morte versus vida. Decadência versus nobreza. Ao ver a foto de David em uma palestra alguns meses antes de morrer e a de Amy em um hotel em Santa Teresa, totalmente embriagada, seios a mostra, nos damos conta de como é infinita nossa diversidade humana. E a escolha é nossa. Somos diversos porque somos livres, ”condenados à liberdade”, como dizia Sartre. David escolheu a vida, a alegria, o amor ao próximo, a nobreza. E por isso será, eternamente, para aqueles que leram sua obra, uma grande referência.
Histórias diferentes, vidas diferentes, destinos diferentes. Vejo a todo instante desconhecidos, jovens e velhos, cuja vida tantos obstáculos apresenta, mas vislumbro neles a luz do combate. Alguns parecem dizer: “Quero viver, e viver representa lutar.” Como o homem que vi hoje, numa cadeira de rodas automática, o corpo totalmente disforme, passeando na praça com seu cachorrinho. Também vejo os que se degradam. Enfim, a cada um de nós cabe escolher entre a felicidade e amargura, o riso e soturnez, a vida e a morte. E ainda que estejamos aqui de passagem, e que esta passagem em certos momentos seja dolorosa, podemos torná-la feliz.
Afinal, como dizia Gonzaguinha: “O que será amanhã, responda quem quiser; o que irá me acontecer, o meu destino será como Deus quiser” É certo que susto, bala, vício, tombo, AVC, câncer, tombo, vão nos levar um dia, mas porque não ser feliz, se ainda temos este instante de vida, que pode acabar num pluft.
E onde foram parar meus seguidores. Acho que alguém andou me sabotando. Será?
quinta-feira, 28 de julho de 2011
O perigo de vem de baixo.
Como tenho relembrado meu passado, também velhas canções me vêm à lembrança. De repente me vejo cantarolando alguma que não podia supor que minha memória houvesse guardado. É impressionante este computador que armazena tudo e que, a um leve toque, traz à tona todo um arquivo guardado há tantos anos! Lembrei-me um dia desses, e só sabe Deus porque, de uma velha música, acho que de Carnaval. Não me lembro do título, mas muito bem da letra, ou de uma parte dela:
“ A fonte do Manoel é um maná do céu, tira o leite taca água, taca, taca, taca sal. Tira o dinheiro da meia, bate o pé pra Portugal. Isto aqui é um paraíso, qualquer um pode se arrumar, Cabral descobriu o Brasil, Manoel quer carregar.”
Talvez algum dos meus leitores se lembre dela. É tão antiga que o Manoel manejava o leite como queria, e ,provavelmente, as industrias e suas inovações eram raras. Mas relembrando esta letra, veio-me à mente aquele magnífico “Raízes do Brasil” de Sérgio Buarque de Holanda. Ali ele relata como foi feita nossa colonização, tendo vindo para cá fidalgos já totalmente arruinados, que se misturavam ao povão, e com eles confraternizavam. Tanto isto é verdade que a Revolução Francesa, que acabaria com a mais poderosa monarquia do mundo de então, não teve em Portugal nenhuma repercussão. Ela já havia sido feita, na santa paz de Deus, sem que ninguém se desse conta. Os que aqui chegaram tinham um objetivo claro: viver o melhor possível, transando com índias, e aproveitando tudo que a terra dava. Não parece que pretendessem voltar a Portugal, a vida por aqui valia à pena. Assim entranhou-se na mentalidade do povo brasileiro o princípio de tirar vantagem em tudo, que esperteza é inteligência, e tantas outras mazelas. E neste caldo cultural foi-se pelo ralo, até o esgoto, qualquer resquício de ética. Manoel, o da musiqueta, tira vantagem em tudo, é esperto, e não tem nenhuma ética. É sintomático o que disse uma professora de canto a meu ex-marido: “Vamos, que o mundo é dos espertos!”. Não dos que trabalham e produzem. E assim é a grande maioria dos brasileiros. E se os políticos são exemplos rasgados deste terrível mal, estão lá eleitos por um povo que pensa como aquela médica de quem já falei: ”Roubar todo mundo rouba.” Ou como disse Lula para todos nós na televisão: “Todo partido tem seu caixa dois.” E nós que pensávamos que o Partido dos Trabalhadores fosse pra valer!
Dito tudo isto, que, aliás, nem precisava ser dito, já que a corrupção, a falta de vergonha, a cafajestagem, são esfregadas na cara das pessoas de bem a toda hora, que tal nos lembramos de alguns fatos ilustrativos? Tenho optado por listar as safadezas porque discorrer sobre cada uma delas transformaria este texto em livro:
- A Presidente Dilma faz cara cheia, passa pito, mas o Ministério dos Transportes continua com o PR, já que o Ministro pertence a este partido. Será que ele não sabia de nada, como Lula igualmente desconhecia o “mensalão” e os “aloprados”? E como assinala o jornalista J.R. Guzzo, sendo o número 2, só não ficaria sabendo caso não fosse nunca ao local de trabalho. A verdade é que no aparelhamento do Estado, promovido pelos oito anos de governo Lula, ao PR coube o Ministério dos Transportes. Como ao PDT, o do Trabalho. Não conheço os donos de todos os nacos do Estado brasileiro, generosamente distribuídos em troca de apoio. Mas sei que cada um levou o seu pedaço.
- O Governador do Estado do Rio de Janeiro é pego em flagrante em helicóptero de megabilionário, a quem , se não me engano, deu uma licença para construção de um porto, e, desmascarado, diz que vai escrever um código de ética.
- A lei da “ficha limpa” foi para o beleleu, e todos os “fichas sujas”, devidamente eleitos, estão sentados comodamente nas cadeiras em que o povo os colocou.
- O tal de Alfredo Nascimento, depois de ser confirmado ladrão, como todos os seus comparsas, voltou à sua vida tranqüila – não sei se tem cargo eletivo – e agora muito melhor com a dinheirama que enriqueceu o filhote e, evidentemente, ele próprio. E caso se candidate, aposto que vai se eleger.
- Os bueiros na “cidade maravilhosa” explodem a toda hora e até agora ninguém foi responsabilizado. No Rio de Janeiro o perigo vem de baixo, campo minado. Vi cenas, que chegavam a ser cômicas, de gente correndo dos bueiros. Também vem de cima e dos lados com as balas perdidas. Há seqüestros, relâmpagos ou não, explosão de caixas eletrônicos, assassinatos a qualquer hora. Estamos em guerra.
Ouvi num noticiário na televisão que o Brasil está em terceiro lugar dentre os países que pior recebem seus turistas. Imagino que o primeiro deva ser o Afeganistão e o segundo o Iraque. Ou vice-versa.
“ A fonte do Manoel é um maná do céu, tira o leite taca água, taca, taca, taca sal. Tira o dinheiro da meia, bate o pé pra Portugal. Isto aqui é um paraíso, qualquer um pode se arrumar, Cabral descobriu o Brasil, Manoel quer carregar.”
Talvez algum dos meus leitores se lembre dela. É tão antiga que o Manoel manejava o leite como queria, e ,provavelmente, as industrias e suas inovações eram raras. Mas relembrando esta letra, veio-me à mente aquele magnífico “Raízes do Brasil” de Sérgio Buarque de Holanda. Ali ele relata como foi feita nossa colonização, tendo vindo para cá fidalgos já totalmente arruinados, que se misturavam ao povão, e com eles confraternizavam. Tanto isto é verdade que a Revolução Francesa, que acabaria com a mais poderosa monarquia do mundo de então, não teve em Portugal nenhuma repercussão. Ela já havia sido feita, na santa paz de Deus, sem que ninguém se desse conta. Os que aqui chegaram tinham um objetivo claro: viver o melhor possível, transando com índias, e aproveitando tudo que a terra dava. Não parece que pretendessem voltar a Portugal, a vida por aqui valia à pena. Assim entranhou-se na mentalidade do povo brasileiro o princípio de tirar vantagem em tudo, que esperteza é inteligência, e tantas outras mazelas. E neste caldo cultural foi-se pelo ralo, até o esgoto, qualquer resquício de ética. Manoel, o da musiqueta, tira vantagem em tudo, é esperto, e não tem nenhuma ética. É sintomático o que disse uma professora de canto a meu ex-marido: “Vamos, que o mundo é dos espertos!”. Não dos que trabalham e produzem. E assim é a grande maioria dos brasileiros. E se os políticos são exemplos rasgados deste terrível mal, estão lá eleitos por um povo que pensa como aquela médica de quem já falei: ”Roubar todo mundo rouba.” Ou como disse Lula para todos nós na televisão: “Todo partido tem seu caixa dois.” E nós que pensávamos que o Partido dos Trabalhadores fosse pra valer!
Dito tudo isto, que, aliás, nem precisava ser dito, já que a corrupção, a falta de vergonha, a cafajestagem, são esfregadas na cara das pessoas de bem a toda hora, que tal nos lembramos de alguns fatos ilustrativos? Tenho optado por listar as safadezas porque discorrer sobre cada uma delas transformaria este texto em livro:
- A Presidente Dilma faz cara cheia, passa pito, mas o Ministério dos Transportes continua com o PR, já que o Ministro pertence a este partido. Será que ele não sabia de nada, como Lula igualmente desconhecia o “mensalão” e os “aloprados”? E como assinala o jornalista J.R. Guzzo, sendo o número 2, só não ficaria sabendo caso não fosse nunca ao local de trabalho. A verdade é que no aparelhamento do Estado, promovido pelos oito anos de governo Lula, ao PR coube o Ministério dos Transportes. Como ao PDT, o do Trabalho. Não conheço os donos de todos os nacos do Estado brasileiro, generosamente distribuídos em troca de apoio. Mas sei que cada um levou o seu pedaço.
- O Governador do Estado do Rio de Janeiro é pego em flagrante em helicóptero de megabilionário, a quem , se não me engano, deu uma licença para construção de um porto, e, desmascarado, diz que vai escrever um código de ética.
- A lei da “ficha limpa” foi para o beleleu, e todos os “fichas sujas”, devidamente eleitos, estão sentados comodamente nas cadeiras em que o povo os colocou.
- O tal de Alfredo Nascimento, depois de ser confirmado ladrão, como todos os seus comparsas, voltou à sua vida tranqüila – não sei se tem cargo eletivo – e agora muito melhor com a dinheirama que enriqueceu o filhote e, evidentemente, ele próprio. E caso se candidate, aposto que vai se eleger.
- Os bueiros na “cidade maravilhosa” explodem a toda hora e até agora ninguém foi responsabilizado. No Rio de Janeiro o perigo vem de baixo, campo minado. Vi cenas, que chegavam a ser cômicas, de gente correndo dos bueiros. Também vem de cima e dos lados com as balas perdidas. Há seqüestros, relâmpagos ou não, explosão de caixas eletrônicos, assassinatos a qualquer hora. Estamos em guerra.
Ouvi num noticiário na televisão que o Brasil está em terceiro lugar dentre os países que pior recebem seus turistas. Imagino que o primeiro deva ser o Afeganistão e o segundo o Iraque. Ou vice-versa.
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