QUEM SOU EU

Sou professora de Francês, mas hoje minha principal atividade é escrever e ler, além de cuidar dos meus três vira-latas: Charmoso, Príncipe e Luther.



Gosto de fazer ginástica, sou vegetariana e adoro animais em geral, menos baratas.



Sinto especial prazer quando meus textos agradam aos meus leitores. Espero continuar produzindo e me comunicando com todos os meus amigos, neste maravilhoso universo da net.



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sexta-feira, 9 de março de 2012

Simplesmente mulheres

Poucas mulheres ainda, no século XXI, podem dizer ”Não me diferencio pelo meu gênero, mas pelo que sou como ser humano. Venci obstáculos, enfrentei os desafios que se interpuseram à minha escalada, sofri a censura dos que obedeciam cegamente às regras, tive coragem de dizer não, como tive a coragem de dizer sim quando esperavam que dissesse não. Não me importei com o que pensassem, e foi assim que criei minha individualidade e construi minha vida”. Felizes são as mulheres que escolheram e não simplesmente foram escolhidas, que viveram a trágica dor da perda de um ente amado, sofreram profundamente, choraram, mas souberam levantar a cabeça e continuar felizes. É a vida.  Estas são mulheres que se amam.
Mas quantas de nós são capazes de dizer tudo isso? Lembro-me do que ouvi na minha infância acerca da virgindade, da “moça que se perdeu”... e ficou na rua da amargura. Lembro-me das velhas que eram “moças” e das moças que não eram mais “moças”. E o sujeito que “fizera mal” a uma desmiolada! Quanta confusão! E havia também as “mulheres livres”, o que se opõe, evidentemente, a “mulheres escravas”! E as solteironas, “moças”, e “escravas”? Pobres coitadas! A estas só restava cuidar dos sobrinhos, já que haviam ficado para “titias”. Porque, afinal, casar, procriar, era sinal de superioridade. Quem não se casava, ficava “encalhada”, já que não havia sido escolhida e, não tendo sido escolhida, tinha a marca da inferioridade em face das casadas. E enquanto eu ouvia tudo isso, já em 1947, uma grande intelectual, na França, escrevia o seu magnífico tratado sobre mulheres. Chamava-se Simone de Beauvoir e sua obra, “Le deuxième sexe” . Mas foi preciso ainda quase uma década para que seus primeiros ecos se fizessem ouvir, no Primeiro Mundo. Aqui, para nós, continuou a tronar o enxoval, o vestido de noiva, a virgindade. Mulheres continuaram a ser vistas como um pacote que se compra no Supermercado e que não deve estar violado.
Aí surgiram as feministas, que, aliás, já existiam desde o século XIX, tendo conseguido algumas conquistas, das quais a mais importante  foi o direito ao voto. Mulheres começaram já naqueles tempos a se profissionalizar, mas com salário inferior ao do macho. E parece mentira que somente agora se cogita dessa igualdade no Brasil.  Mas, enfim, chegamos ao século XXI, sem “moças” e “mulheres”, sem “mulheres livres”, sem o “sujeito que fez mal”, sem “mulheres perdidas”, sem “titias”, sem “encalhadas”, mas ainda com estupro, com violência física e psicológica, com resignação. Como diz o filósofo francês, Gilles Lipovetsky em seu extraordinário “La troisième femme- Permanence et révolution du féminin”:  Celebrando o poder do sentimento sobre a mulher, definindo-a pelo amor, os modernos legitimaram seu cerceamento na esfera privada: a ideologia do amor contribuiu na reprodução social da mulher naturalmente dependente do homem, incapaz de aceder à plena soberania de si mesma.”  É verdade que há ainda muito caminho a percorrer. Mas, felizmente, podemos concluir, como o filósofo, que a condição feminina mudou mais no decorrer da segunda metade do século XX do que nos milênios anteriores, já que uma vez livres da servidão da procriação, podendo exercer livremente sua sexualidade e escolhendo a profissão que lhes aprouver, as mulheres fazem brechas nas muralhas de cidadelas antes exclusivamente masculinas.
Quanto a mim, considero-me uma mulher plenamente realizada, sou independente desde jovem, tive os romances que tinha que ter, dirijo minha vida como quero. Já me “perdi” há muitos anos, jamais me casei, não procriei, vivo sozinha com dois cachorros e um gato. E, salvo alguns amigos especiais, não quero ninguém comigo. Não precisei dar satisfação dos meus atos a meus pais, porque sempre soube que o fundamento da liberdade é a liberdade econômica. E achei graça quando me disseram que perdia minha juventude estudando e trabalhando. Enganavam-se, eu era  e sou feliz, ...e sabia. Escolhi ser uma “mulher livre”
E viva nós mulheres, tão mais fortes do que eles!
  

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Meus anos dourados

Nestes dias em que tenho estado de repouso por causa de uma gripe, tive tempo de reviver meus anos de intensa juventude, mais precisamente meus “anos dourados”. Pude trazer à minha lembrança tudo de bom e de ruim, e sentir como se estivesse vendo um filme de mim mesma. É extraordinário  como este computador que temos em nós é capaz de armazenar informação! E, neste dia quente e ensolarado de verão, não me interessa o que não foi bom, quero fazer ressurgir a adolescente que vivia seus grandes e inesquecíveis momentos. É verdade que àqueles anos dourados sucederam os de chumbo, mas não foram estes os mais significativos. Naqueles longínquos anos de meu início de adolescência ninguém imaginava o que viria depois. E ao rever toda minha vida, conclui que jamais fui tão feliz.
Foi, assim, meio sem esperar, mas já imaginando como deveria ser bom, que descobri meu primeiro e único grande amor. Depois, tantos passaram pela minha vida! Mas hoje, repetindo a velha canção que minha mãe sempre ouvia eu poderia dizer “sua imagem permanece imaculada, em minha retina cansada... Lábios que beijei, mãos que afaguei....” Inesquecíveis momentos de êxtase, como poderão ser relembrados sem emoção? A descoberta deste sentimento superior trouxe-me uma felicidade indescritível. Eu tinha quatorze anos e ele dezessete. Era aluno interno do colégio onde fui estudar, voltando do Rio. Vinha do Triângulo Mineiro, de Araguari. Fiquei eufórica quando ele pediu, através de uma amiga comum, para “falar comigo”. Era assim que se fazia a abordagem naquele tempo. Vivemos um amor puro, com o primeiro aperto caloroso de mãos, o primeiro beijo, o primeiro desejo, nunca realizado, mas sempre sonhado. Lembro-me das partidas de futebol que ia assistir, ainda que não entendesse nada, e não gostasse do jogo, mas ele estava lá, na equipe do colégio. Eu vestia camisas de meu pai, acho que era moda, sobre calças “três quartos”, que iam até o meio da canela, bem ajustadas, com um arremate xadrez. Era minha mãe quem costurava para mim e Teresa, e gostava de nos ver bonitas. E quando eu gostava, herdava roupas de minha irmã, dez anos mais velha do que eu. Vaidosa e me achando linda, eu estava sempre inventando alguma coisa nova. E foi assim que no meu aniversário de quatorze anos apareci de cabelo vermelho cor de fogo. E hoje vejo que tive pais muito liberais, pois naquele tempo que garota ousaria tal travessura? E ainda posso ouvir minha mãe comentando, à moda gaúcha, um desfile do colégio de que participei: “Bah! De longe se via aquela fogueira!”
Minha linda Alice, que me deixava dar uma fugidinha, nas festas juninas do colégio, para uma rua mais escurinha que ficava atrás do campo. Ah, inesquecíveis festas juninas, que não se vêem mais! O campo onde se realizavam as festas com pau-de-sebo, barraquinhas e fogueira era também o lugar onde as moças tinham aulas de ginástica. Ficava defronte ao colégio e nos preocupávamos em parecer bem com nossos lamentáveis calções bufantes, que mais pareciam indumentária dos homens da Renascença. No entanto, colégio protestante, americano, era muito mais liberal que os colégios católicos, só de meninas e onde jamais pernas eram expostas. Sabíamos que éramos observadas pelos internos que se aglomeravam, escondendo-se ao máximo, por trás das janelas. Alguns mais ousados chegavam até a sacada central do prédio. Eu tinha grande preocupação em apresentar-me bem, tentando empurrar para cima o horrível calção bufante para que ele, que eu sabia que me observava, visse minhas pernas. Terrível audácia! E também havia os “arrasta-pés”, onde rapazes e mocinhas dançavam ao som da orquestra de Paul Mauriat ou Ray Connif. Hoje, pensando bem, acho que foram estas festas que, afinal, nos afastaram. É que sempre amei a vida, a festa, a dança e ele, protestante, não sabia sequer dançar. E eu era muito jovem! Vivia dramas em casa com os problemas psíquicos de meu irmão. Precisava me divertir. Assim dividida, acabei indo a “arrasta-pés” sozinha, mas sem nunca ter pensado em outro. Fui cantada, mas nunca me interessei por ninguém. No entanto, pouco a pouco nossa relação foi esfriando, até acabar, nunca soube como. Esvaiu-se. Um ano depois, ele foi embora, estudar medicina em Ribeirão Preto, procurou-me pedindo emprestado um livro de ensino de francês. Não me falou em reatar e eu não ousei tocar no assunto. E nunca mais nos vimos. Não me lembro como me devolveu.
Depois vieram os anos de chumbo e tornei-me esquerdista. Mas jamais esqueci meus anos dourados, nem o homem que me despertou para o amor. Nunca mais falei dele, mas o guardei no fundo do meu coração. Hoje vivo meus anos a caminho da velhice. Não abandonei a vaidade, já fiz plástica, o cabelo vermelho ainda me seduz. Hoje, quando não me sobram tantos anos de vida, faço ginástica diariamente com roupas charmosas, cheias de glamour. O velho calção bufante ficou no passado, mas não foi esquecido. Meu grande amor morreu há muitos anos, e fiquei sabendo pelo Google. Minha família partiu e foi substituída por outra. Mas continuo amando a vida, e sou feliz nestes anos tão vividos. 
E sempre repito que, quando chegar minha hora, poderei dizer como o poeta : “Confesso que vivi”.

domingo, 20 de novembro de 2011

A foto

Quando minha irmã decidiu raspar a cabeça, depois de tomar conhecimento da queda dos cabelos, telefonou para seu cabeleireiro e amigo, e combinou um horário em que sabia que não haveria ninguém em casa. Como era de seu estilo, sem alarde, sem chorar, sem lamentar sua triste sorte – que compartilhou cada dia com milhões de pessoas – anunciou a seus filhos o que havia feito. E continuou sua vida, enfrentando a cada quarenta dias, se não me engano, sessões de quimioterapia. Eu e sua filha Alice sempre a acompanhávamos, e, durante horas e mais horas, víamos gente entrando e saindo. Lembro-me de um rapazinho bonito, que ficava em outra sala, o braço esticado, recebendo na veia aquela poção terrível, que na reincidência do câncer foi fatal à minha irmã. E havia uma mulher bonita, elegante, que exibia uma peruca loura que lhe caia lindamente. Ninguém poderia imaginar que aquelas pessoas estivessem atingidas por mal de tamanha crueldade. Às vezes imagino quantas delas ainda estarão vivas.


Reinaldo Gianecchini, ator conhecido, homem de grande valor moral, raspou a cabeça antes que lhe caíssem os cabelos. Discretamente. A Presidente Dilma provavelmente fez o mesmo. E quem viu? Tanta gente famosa passou por esta experiência! Ana Maria Braga, Hebe Camargo, são exemplos de mulheres que amam a exposição, mas ninguém as viu raspando a cabeça. Talvez até uma questão de pudor, de não querer expor sua fragilidade, ou melhor, a nossa, de guardar sua privacidade, e sua dor.

Minha avó paterna morreu de câncer na laringe e desde bem pequena ouvi de minha mãe, com sua psicologia de mulher batida pela vida e pela adversidade, detalhes deste terrível sofrimento. O ano era 1939. Não havia quimioterapia, nem radioterapia que só surgiram depois da Segunda Guerra. Nem sei se era usada a tal bomba de cobalto, mas estou quase segura de que foi pouco antes de sua morte. Minha avó tinha cinqüenta e nove anos. Não sei se minha mãe contou-me algum detalhe quando passávamos à noite por uma ponte, mas sempre associo a escuridão das águas à morte de minha avó, e tenho a sensação de que ela foi tragada pelo rio indevassável e frio. E não gosto de passar por pontes à noite. Também tive um amigo, ou melhor, amigo de meu irmão, que morreu de câncer na laringe, provocado pelo álcool e tabagismo. Meu irmão ficou sinceramente consternado, não poderia imaginar que morreria três ou quatro meses depois. Também tenho um amigo que se salvou, mas teve que aprender a falar, se não me engano, chama-se voz faríngea. E o irmão de uma amiga, também sobrevivente. Lembro-me do que ela me contou ter assistido quando foi visitá-lo. Havia tanto sofrimento, dores terríveis para engolir a própria saliva, que, ao sair, ela não sabia que rumo tomar para chegar em casa. Assim, ainda que não tenha nenhum apreço pelo homem público, fiquei sinceramente abalada com a notícia da doença de Lula. Lembrei-me de tudo que ouvi e vi, e senti grande pena. Solidarizei-me. Admirei a transparência com que transmitiu ao povo a notícia de seu mal, e seu otimismo. Como me comovi ao ver o belíssimo depoimento de Gianecchini.

Mas qual não foi minha surpresa, ou talvez minha desilusão, diante de um homem que crescera no meu conceito, ao ver a lamentável foto de Lula sendo pelado por sua amada Mariza Letícia. Não sabia desta habilidade de nossa ilustre ex-primeira dama, e acho que nenhum brasileiro sabia, porque, afinal raspar uma barba e um cabelo deve ser coisa para profissional. Eu, por exemplo, não seria capaz de fazê-lo. E ainda deixou um bigode para o marido ficar mais bonito. Estão ambos tão felizes que dá vontade de enviar parabéns pela barbeira e pela doença. Lula é realmente um populista que nem uma doença grave consegue conter. É muito inteligente, conhece a pieguice do povo brasileiro, e seus valores. Virou herói até para quem não gosta dele. Nem Chavez chegou a este ponto. De sua careca, não se conhece a história. Com aquelas fotos, Lula ultrapassou todos os limites da dignidade, desnudou-se. Lamento, mas ainda torço sinceramente por ele. E ainda agradeço, porque, afinal nunca errei na avaliação que fiz do homem. Que tenha força e coragem, aquela mesma que teve ao anunciar a doença.

Sempre aceitei a morte como um fato inevitável, perdi minha família original, e apesar disso sou feliz. Só não entendo o sofrimento. Lula não é mau, é um populista inteligente e descarado. E que Deus o ajude.

A foto

Quando minha irmã decidiu raspar a cabeça, depois de tomar conhecimento da queda dos cabelos, telefonou para seu cabeleireiro e amigo  e combinou um horário em que sabia que não haveria ninguém em casa. Como era de seu estilo, sem alarde, sem chorar, sem lamentar sua triste sorte – que compartilhou cada dia com milhões de pessoas – anunciou a seus filhos o que havia feito. E continuou sua vida, enfrentando a cada quarenta dias, se não me engano, sessões de quimioterapia. Eu e sua filha, Alice, sempre a acompanhávamos, e, durante horas e mais horas, víamos gente entrando e saindo. Lembro-me de um rapazinho bonito, que ficava em outra sala, o braço esticado, recebendo na veia aquela poção terrível, que na reincidência do câncer foi fatal à minha irmã. E havia uma mulher bonita, elegante, que exibia uma peruca loura que lhe caia lindamente. Ninguém poderia imaginar que aquelas pessoas estivessem atingidas por mal de tamanha crueldade. Às vezes imagino quantas delas ainda estarão vivas.




Reinaldo Gianecchini, ator conhecido, homem de grande valor moral, raspou a cabeça antes que lhe caíssem os cabelos. Discretamente. A Presidente Dilma provavelmente fez o mesmo. E quem viu? Tanta gente famosa passou por esta experiência! Ana Maria Braga, Hebe Camargo, são exemplos de mulheres que amam a exposição, mas ninguém as viu raspando a cabeça. Talvez até uma questão de pudor, de não querer expor sua fragilidade, ou melhor, a nossa, de guardar sua privacidade, e sua dor.


Minha avó paterna morreu de câncer na laringe e desde bem pequena ouvi de minha mãe, com sua psicologia de mulher batida pela vida e pela adversidade, detalhes deste terrível sofrimento. O ano era 1939. Não havia quimioterapia, nem radioterapia que só surgiram depois da Segunda Guerra. Nem sei se era usada a tal bomba de cobalto, mas estou quase segura de que foi pouco antes de sua morte. Minha avó tinha cinqüenta e nove anos. Não sei se minha mãe contou-me algum detalhe quando passávamos à noite por uma ponte, mas sempre associo a escuridão das águas à morte de minha avó, e tenho a sensação de que ela foi tragada pelo rio indevassável e frio. E não gosto de passar por pontes à noite. Também tive um amigo, ou melhor, amigo de meu irmão, que morreu de câncer na laringe, provocado pelo álcool e tabagismo. Meu irmão ficou sinceramente consternado, não poderia imaginar que morreria três ou quatro meses depois. Também tenho um amigo que se salvou, mas teve que aprender a falar, se não me engano, chama-se voz faríngea. E o irmão de uma amiga, também sobrevivente. Lembro-me do que ela me contou ter assistido quando foi visitá-lo. Havia tanto sofrimento, dores terríveis para engolir a própria saliva, que, ao sair, ela não sabia que rumo tomar para chegar em casa. Assim, ainda que não tenha nenhum apreço pelo homem público, fiquei sinceramente abalada com a notícia da doença de Lula. Lembrei-me de tudo que ouvi e vi, e senti grande pena. Solidarizei-me. Admirei a transparência com que transmitiu ao povo a notícia de seu mal, e seu otimismo. Como me comovi ao ver o belíssimo depoimento de Gianecchini.


Mas qual não foi minha surpresa, ou talvez minha desilusão, diante de um homem que crescera no meu conceito, ao ver a lamentável foto de Lula sendo pelado por sua amada Mariza Letícia. Não sabia desta habilidade de nossa ilustre ex-primeira dama, e acho que nenhum brasileiro sabia, porque, afinal raspar uma barba e um cabelo deve ser coisa para profissional. Eu, por exemplo, não seria capaz de fazê-lo. E ainda deixou um bigode para o marido ficar mais bonito. Estão ambos tão felizes que dá vontade de enviar parabéns pela barbeira e pela doença. Lula é realmente um populista que nem uma doença grave consegue conter. É muito inteligente, conhece a pieguice do povo brasileiro, e seus valores. Virou herói até para quem não gosta dele. Nem Chavez chegou a este ponto. De sua careca, não se conhece a história. Com aquelas fotos, Lula ultrapassou todos os limites da dignidade, desnudou-se. Lamento, mas ainda torço sinceramente por ele. E ainda agradeço, porque, afinal nunca errei na avaliação que fiz do homem. Que tenha força e coragem, aquela mesma que teve ao anunciar a doença.


Sempre aceitei a morte como um fato inevitável, perdi minha família original, e apesar disso sou feliz. Só não entendo o sofrimento. Lula não é mau, é um populista inteligente e descarado. E que Deus o ajude.

A foto

Quando minha irmã decidiu raspar a cabeça, depois de tomar conhecimento da queda dos cabelos, telefonou para seu cabeleireiro e amigo, e combinou um horário em que sabia que não haveria ninguém em casa. Como era de seu estilo, sem alarde, sem chorar, sem lamentar sua triste sorte – que compartilhou cada dia com milhões de pessoas – anunciou a seus filhos o que havia feito. E continuou sua vida, enfrentando a cada quarenta dias, se não me engano, sessões de quimioterapia. Eu e sua filha Alice sempre a acompanhávamos, e, durante horas e mais horas, víamos gente entrando e saindo. Lembro-me de um rapazinho bonito, que ficava em outra sala, o braço esticado, recebendo na veia aquela poção terrível, que na reincidência do câncer foi fatal à minha irmã. E havia uma mulher bonita, elegante, que exibia uma peruca loura que lhe caia lindamente. Ninguém poderia imaginar que aquelas pessoas estivessem atingidas por mal de tamanha crueldade. Às vezes imagino quantas delas ainda estarão vivas.
Reinaldo Gianecchini, ator conhecido, homem de grande valor moral, raspou a cabeça antes que lhe caíssem os cabelos. Discretamente. A Presidente Dilma provavelmente fez o mesmo. E quem viu? Tanta gente famosa passou por esta experiência! Ana Maria Braga, Hebe Camargo, são exemplos de mulheres que amam a exposição, mas ninguém as viu raspando a cabeça. Talvez até uma questão de pudor, de não querer expor sua fragilidade, ou melhor, a nossa, de guardar sua privacidade, e sua dor.
Minha avó paterna morreu de câncer na laringe e desde bem pequena ouvi de minha mãe, com sua psicologia de mulher batida pela vida e pela adversidade, detalhes deste terrível sofrimento. O ano era 1939. Não havia quimioterapia, nem radioterapia que só surgiram depois da Segunda Guerra. Nem sei se era usada a tal bomba de cobalto, mas estou quase segura de que foi pouco antes de sua morte. Minha avó tinha cinqüenta e nove anos. Não sei se minha mãe contou-me algum detalhe quando passávamos à noite por uma ponte, mas sempre associo a escuridão das águas à morte de minha avó, e tenho a sensação de que ela foi tragada pelo rio indevassável e frio. E não gosto de passar por pontes à noite. Também tive um amigo, ou melhor, amigo de meu irmão, que morreu de câncer na laringe, provocado pelo álcool e tabagismo. Meu irmão ficou sinceramente consternado, não poderia imaginar que morreria três ou quatro meses depois. Também tenho um amigo que se salvou, mas teve que aprender a falar, se não me engano, chama-se voz faríngea. E o irmão de uma amiga, também sobrevivente. Lembro-me do que ela me contou ter assistido quando foi visitá-lo. Havia tanto sofrimento, dores terríveis para engolir a própria saliva, que, ao sair, ela não sabia que rumo tomar para chegar em casa. Assim, ainda que não tenha nenhum apreço pelo homem público, fiquei sinceramente abalada com a notícia da doença de Lula. Lembrei-me de tudo que ouvi e vi, e senti grande pena. Solidarizei-me. Admirei a transparência com que transmitiu ao povo a notícia de seu mal, e seu otimismo. Como me comovi ao ver o belíssimo depoimento de Gianecchini.
Mas qual não foi minha surpresa, ou talvez minha desilusão, diante de um homem que crescera no meu conceito, ao ver a lamentável foto de Lula sendo pelado por sua amada Mariza Letícia. Não sabia desta habilidade de nossa ilustre ex-primeira dama,  e acho que nenhum brasileiro sabia, porque, afinal raspar uma barba e um cabelo deve ser coisa para profissional. Eu, por exemplo, não seria capaz de fazê-lo. E ainda deixou um bigode para o marido ficar mais bonito. Estão ambos tão felizes que dá vontade de enviar parabéns pela barbeira e pela doença. Lula é realmente um populista que nem uma doença grave consegue conter. É muito inteligente, conhece a pieguice do povo brasileiro, e seus valores. Virou herói até para quem não gosta dele. Nem Chavez chegou a este ponto. De sua careca, não se conhece a história. Com aquelas fotos, Lula ultrapassou todos os limites da dignidade, desnudou-se. Lamento, mas ainda torço sinceramente por ele. E ainda agradeço, porque, afinal nunca errei na avaliação que fiz do homem. Que tenha força e coragem, aquela mesma que teve ao anunciar a doença.
Sempre aceitei a morte como um fato inevitável, perdi minha família original, e apesar disso sou feliz. Só não entendo o sofrimento.  Lula não é mau, é um populista inteligente e descarado. E que Deus o ajude.




A foto

Quando minha irmã decidiu raspar a cabeça, depois de tomar conhecimento da queda dos cabelos, telefonou para seu cabeleireiro e amigo, e combinou um horário em que sabia que não haveria ninguém em casa. Sem alarde, sem chorar, sem lamentar sua triste sorte – que compartilhou cada dia com milhões de pessoas – anunciou a seus filhos o que havia feito. E continuou sua vida, enfrentando a cada quarenta dias, se não me engano, sessões de quimioterapia. Eu e sua filha Alice sempre a acompanhávamos, e, durante horas e mais horas, víamos gente entrando e saindo. Lembro-me de um rapazinho bonito, que ficava em outra sala, o braço esticado, recebendo na veia aquela poção terrível, que na reincidência do câncer foi fatal à minha irmã. E havia uma mulher bonita, elegante, que exibia uma peruca loura que lhe caia lindamente. Ninguém poderia imaginar que aquelas pessoas estivessem atingidas por mal de tamanha crueldade. Às vezes imagino quantas delas ainda estarão vivas.
Reinaldo Gianecchini, ator conhecido, homem de grande valor moral, raspou a cabeça antes que lhe caíssem os cabelos. Discretamente. A Presidente Dilma provavelmente fez o mesmo. E quem viu? Tanta gente famosa passou por esta experiência! Ana Maria Braga, Hebe Camargo, são exemplos de mulheres que amam a exposição, mas ninguém as viu raspando a cabeça. Talvez até uma questão de pudor, de não querer expor sua fragilidade, ou melhor, a nossa, de guardar sua privacidade, e sua dor.
Minha avó paterna morreu de câncer na laringe e desde bem pequena ouvi de minha mãe, com sua psicologia de mulher batida pela vida e pela adversidade, detalhes deste terrível sofrimento. O ano era 1939. Não havia quimioterapia, nem radioterapia que só surgiram depois da Segunda Guerra. Nem sei se era usada a tal bomba de cobalto, mas estou quase segura de que foi pouco antes de sua morte. Minha avó tinha cinqüenta e nove anos. Não sei se minha mãe contou-me algum detalhe quando passávamos à noite por uma ponte, mas sempre associo a escuridão das águas à morte de minha avó, e tenho a sensação de que ela foi tragada pelo rio indevassável e frio. E não gosto de passar por pontes à noite. Também tive um amigo, ou melhor, amigo de meu irmão, que morreu de câncer na laringe, provocado pelo álcool e tabagismo. Meu irmão ficou sinceramente consternado, não poderia imaginar que morreria três ou quatro meses depois. Também tenho um amigo que se salvou, mas teve que aprender a falar, se não me engano, chama-se voz faríngea. E o irmão de uma amiga, também sobrevivente. Lembro-me do que ela me contou ter assistido quando foi visitá-lo. Havia tanto sofrimento, dores terríveis para engolir a própria saliva, que, ao sair, ela não sabia que rumo tomar para chegar em casa. Assim, ainda que não tenha nenhum apreço pelo homem público, fiquei sinceramente abalada com a notícia da doença de Lula. Lembrei-me de tudo que ouvi e vi, e senti grande pena. Solidarizei-me. Admirei a transparência com que transmitiu ao povo a notícia de seu mal, e seu otimismo. Como me comovi ao ver o belíssimo depoimento de Gianecchini.
Mas qual não foi minha surpresa, ou talvez minha desilusão, diante de um homem que crescera no meu conceito, ao ver a lamentável foto de Lula sendo pelado por sua amada Mariza Letícia. Não sabia desta habilidade de nossa ilustre ex-primeira dama,  e acho que nenhum brasileiro sabia, porque, afinal raspar uma barba e um cabelo deve ser coisa para profissional. Eu, por exemplo, não seria capaz de fazê-lo. E ainda deixou um bigode para o marido ficar mais bonito. Estão ambos tão felizes que dá vontade de enviar parabéns pela barbeira e pela doença. Lula é realmente um populista que nem uma doença grave consegue conter. É muito inteligente, conhece a pieguice do povo brasileiro, e seus valores. Virou herói até para quem não gosta dele. Nem Chavez chegou a este ponto. De sua careca, não se conhece a história. Com aquelas fotos, Lula ultrapassou todos os limites da dignidade, desnudou-se. Lamento, mas ainda torço sinceramente por ele. E ainda agradeço, porque, afinal nunca errei na avaliação que fiz do homem. Que tenha força e coragem, aquela mesma que teve ao anunciar a doença.
Sempre aceitei a morte como um fato inevitável, perdi minha família original, e apesar disso sou feliz. Só não entendo o sofrimento.  Lula não é mau, é um populista inteligente e descarado. E que Deus o ajude.










sábado, 19 de novembro de 2011

A foto

Quando minha irmã decidiu raspar a cabeça, depois de tomar conhecimento da queda dos cabelos, telefonou para seu cabeleireiro e amigo e combinou um horário em que sabia que não haveria ninguém em casa. Como de seu estilo, sem alarde, sem chorar, sem lamentar sua triste sorte – que compartilhou cada dia com milhões de pessoas – anunciou a seus filhos o que havia feito. E continuou sua vida, enfrentando a cada quarenta dias, se não me engano, sessões de quimioterapia. Eu e sua filha Alice sempre a acompanhávamos, e, durante horas e mais horas, víamos gente entrando e saindo. Lembro-me de um rapazinho bonito, que ficava em outra sala, o braço esticado, recebendo na veia aquela poção terrível, que na reincidência do câncer foi fatal à minha irmã. E havia uma mulher bonita, elegante, que exibia uma peruca loura que lhe caia lindamente. Ninguém poderia imaginar que aquelas pessoas estivessem atingidas por mal de tamanha crueldade. Às vezes imagino quantas delas ainda estarão vivas.



Reinaldo Gianecchini, ator conhecido, homem de grande valor moral, raspou a cabeça antes que lhe caíssem os cabelos. Discretamente. A Presidente Dilma provavelmente fez o mesmo. E quem viu? Tanta gente famosa passou por esta experiência! Ana Maria Braga, Hebe Camargo, são exemplos de mulheres que amam a exposição, mas ninguém as viu raspando a cabeça. Talvez até uma questão de pudor, de não querer expor sua fragilidade, ou melhor, a nossa, de guardar sua privacidade, e sua dor.


Minha avó paterna morreu de câncer na laringe e desde bem pequena ouvi de minha mãe, com sua psicologia de mulher batida pela vida e pela adversidade, detalhes deste terrível sofrimento. O ano era 1939. Não havia quimioterapia, nem radioterapia, que só surgiram depois da Segunda Guerra. Nem sei se era usada a tal bomba de cobalto, mas estou quase segura de que foi pouco antes de sua morte. Minha avó tinha cinqüenta e nove anos. Não sei se minha mãe contou-me algum detalhe quando passávamos à noite por uma ponte, mas sempre associo a escuridão das águas à morte de minha avó, e tenho a sensação de que ela foi tragada pelo rio indevassável e frio. E não gosto de passar por pontes à noite. Também tive um amigo, ou melhor, amigo de meu irmão, que morreu de câncer na laringe, provocado pelo álcool e tabagismo. Meu irmão ficou sinceramente consternado, não poderia imaginar que morreria três ou quatro meses depois. Também tenho um amigo que se salvou, mas teve que aprender a falar, se não me engano, chama-se voz faríngea. E o irmão de uma amiga, também sobrevivente. Lembro-me do que ela me contou ter assistido quando foi visitá-lo. Havia tanto sofrimento, dores terríveis para engolir a própria saliva, que, ao sair, ela não sabia que rumo tomar para chegar em casa. Assim, ainda que não tenha nenhum apreço pelo homem público, fiquei sinceramente abalada com a notícia da doença de Lula. Lembrei-me de tudo que ouvi e vi, e senti grande pena. Solidarizei-me. Admirei a transparência com que transmitiu ao povo a notícia de seu mal, e seu otimismo. Como me comovi ao ver o belíssimo depoimento de Gianecchini.


Mas qual não foi minha surpresa, ou talvez minha desilusão, diante de um homem que crescera no meu conceito, ao ver a lamentável foto de Lula sendo pelado por sua amada Mariza Letícia. Não sabia desta habilidade de nossa ilustre ex-primeira dama, e acho que nenhum brasileiro sabia, porque, afinal, raspar uma barba e um cabelo deve ser coisa para profissional. Eu, por exemplo, não seria capaz de fazê-lo. E ainda deixou um bigode para o marido ficar mais bonito. Estão ambos tão felizes, há tanto amor, que dá vontade de enviar parabéns pela barbeira e pela doença. Lula é realmente um populista que nem uma doença grave consegue conter. É muito inteligente, conhece a pieguice do povo brasileiro, e seus valores. Virou herói até para quem não gosta dele. Nem Chavez chegou a este ponto. De sua careca, não se conhece a história. Com aquelas fotos, Lula ultrapassou todos os limites da dignidade, desnudou-se. Lamento, mas ainda torço sinceramente por ele. E ainda agradeço, porque, afinal nunca errei na avaliação que fiz do homem. Que tenha força e coragem, aquela mesma que teve ao anunciar a doença.


Sempre aceitei a morte como um fato inevitável, perdi minha família original, e apesar disso sou feliz. Só não entendo o sofrimento. Lula não é mau, é um populista inteligente e descarado. E que Deus o ajude.