O primeiro livro que li sobre Maria Antonieta foi aos meus onze anos. Trata-se de uma biografia escrita por um membro da Academia Francesa de Letras , mas que hoje me parece bastante romântica. Guardo- o, com a dedicatória de minha mãe, apesar do presente haver sido de meu pai. Naquele tempo, eu era uma menina brasileira, que havia sido confrontada a uma cultura diferente, e estimulada por meu pai a aproveitar ao máximo a oportunidade extraordinária que me oferecia a vida, através de seu esforço e da bolsa de estudos que ganhara como primeiro aluno em todos os cursos que freqüentara nas diferentes instituições militares por que passara. Lembro-me do meu deslumbramento na primeira vez que fui a Versalhes. E também do horror com que penetrei na cela minúscula, em que a rainha passara os últimos dias, na prisão da Conciergerie, à beira do Sena.
Naquele tempo, toda minha admiração era pela pobre rainha, que morrera humilhada, afastada de sua família, isolada naquela cela lúgubre. E, finalmente, guilhotinada. E li muita coisa sobre o Antigo Regime, a Revolução, Luís XVI, seu marido, igualmente guilhotinado. Tornei-me uma aficionada. Mas toda minha simpatia era dirigida à pobre mulher. E li, lá pelos meus dezesseis anos, sua biografia escrita por Stephan Zweig, Anos mais tarde, no auge de minha juventude, infiltrada pelos ideais esquerdistas, mudei radicalmente meu ponto de vista. Aliás, Maria Antonieta sumiu do horizonte, substituída pelos ideais da Revolução, da justiça social, da igualdade. Isto sim valia a pena. Como, então, importar-me com uma mulher que, afinal, representava o que havia de mais retrogrado e reacionário? Foi por essa época que li o historiador Albert Soboul, e sua análise marxista. No bicentenário da Revolução, eu estava na França, com uma bolsa de estudos, e fui a Paris, onde descera a humanidade, assistir ao grande desfile do 14 de julho, que, em 1789, marcou o fim da monarquia. Comprei livros, procurei documentos, conheci novos personagens, de quem pouco se fala. Continuei na minha posição revolucionária, fiel aos ideais da grande maioria de minha geração.
E os tempos passaram, anos, muitos. E o mundo mudou desde aquele 1989. E eu mudei. E continuo lendo sobre aquele período. Hoje, em plena maturidade, livre dos preconceitos que marcaram minha geração, posso juntar todo material acumulado na minha memória e repetir Tocqueville, o grande liberal, na sua magistral análise da Revolução Francesa: “Os Franceses fizeram em 1789 esforço maior do que já fizera qualquer povo , afim de, pode-se dizer, cortar em dois seu destino, e separar por um abismo o que haviam sido até então e o que desejavam ser doravante.” A Revolução francesa dividiu não só a história da França, mas trouxe para o mundo inteiro ideais até então desconhecidos, ou considerados quiméricos. E de nada disso eu cogitava naqueles meus longínquos onze anos. É claro!
E Maria Antonieta, onde foi parar? Maria Antonieta, princesa austríaca, filha da grande Imperatriz Maria Teresa, extraordinária estadista, que usou cada um de seus dezesseis filhos para seus projetos políticos, casou-se, por procuração, aos quatorze anos, com o desajeitado Delfim Luís, de dezesseis, que ela jamais vira. Disse adeus definitivo à sua mãe, seus irmãos e irmãs, e até à sua língua materna. Maria Antonieta fazia parte de um grande projeto político de sua mãe e do rei Luís XV, no sentido de unir duas potências e fortalecer-se diante da Prússia. Cartas do embaixador de Maria Teresa junto à corte francesa dão conta de tudo que se passa e mostram claramente o objetivo de manipular a garota em benefício da Áustria. No que ela saiu-se pior do que se previa.
O casamento sem amor levou oito anos para se consumar, não se sabe ao certo por que razão. Permanecendo virgem e logicamente sem oferecer um herdeiro, sendo bisbilhotada por cortesãos e serviçais, a princesa, e logicamente o marido, tornaram-se motivo de chacotas, o que já de início desprestigiou o futuro rei. Finalmente, tendo consumado o casamento, Maria Antonieta deu à luz quatro filhos, dos quais dois morreram ainda na primeira infância. Insatisfeita, vivendo ao lado de um homem a quem tinha sincera amizade, mas que jamais amara, já como rainha, Maria Antonieta jogou-se nas diversões, nas futilidades, e, ao que tudo faz crer, no amor ao embaixador da Suécia, Axel Fersen.
Mas que mais impressiona nesta mulher é seu destino trágico, engolida por uma máquina destruidora de tudo aquilo em que acreditava. De derrocada em derrocada, de Versalhes as Tulherias , em Paris, dali à prisão do Templo, fortaleza medieval, escura, úmida e gelada, até a cela infestada de ratos na Conciergerie, foi surgindo a mulher feita de força e coragem. Mãe de quem se arrancou o filho caçula, ultrajada durante o julgamento, em que foi acusada de atos incestuosos com o filho – “Apelo a todas as mães da França!”- e o silêncio da multidão enfurecida, mulher soberana, mais do que jamais havia sido, exposta à horda enfurecida, no derradeiro e ultrajante trajeto que a conduziu até o cadafalso. A história trágica da rainha guilhotinada, cujo corpo transportado numa carroça, sobre a palha, com a cabeça entre as pernas, nos mostra que há, em muitos de nós, uma força que nós mesmos desconhecemos, como provavelmente ela própria, e que confrontados à nossa inerente fragilidade humana, conseguimos desencavar do fundo de nós e avançar de cabeça erguida enfrentando nossas pequenas, e grandes, tragédias pessoais.
Como há algum tempo plagiei o título de Demétrio Magnoli, agora estou plagiando Alexis de Tocqueville. Mas, afinal, acho que valeu a pena.
sábado, 18 de abril de 2009
quarta-feira, 18 de março de 2009
DAS LAVADEIRAS ÀS LAVADORAS VATICANAS
A Igreja Católica, e sua sede vaticana, não deixam de nos surpreender. Depois da classificação do estupro como pecado muito menor do que o aborto que salvou a vida de uma criança, excomungando os médicos e a mãe, e absolvendo o estuprador, nos trás esta descoberta, que, de tão extravagante, não sei como classificar. Segundo Vossas Eminências, nós, mulheres, nos tornamos independentes graças à maquina de lavar roupas.
Desde que foi divulgada esta novidade, tenho puxado pela memória, a fim refazer os conceitos que fui elaborando ao longo dos anos. Pois, uma vez que o Papa é infalível, eu é que devo estar errada. Começo por minha mãe, a gente sempre começa pela mãe, e suas amigas. Lembro-me de Dona Mariinha. Era possuidora da primeira máquina de lavar que vi em minha vida. Eu era bem pequena quando ela fez a exibição de sua preciosidade para minha mãe. Era uma engenhoca redonda, sendo que a roupa era enxugada através de dois rolos de borracha, que se moviam fazendo girar uma manivela e comprimiam a peça molhada. Fiquei encantada. E dona Mariinha, hein? Quem diria que era uma feminista? Escarafuncho no fundo de minha memória e só encontro uma senhora, como qualquer outra daquele tempo, que, é verdade, mandava no marido. Então, concluo que sempre fiz dela uma idéia errada. Para mim, sempre foi uma típica dona-de-casa careta, mas na verdade era uma mulher liberada, a frente de seu tempo! E fico ainda mais estarrecida ao imaginar que, ao sonhar em ter uma máquina de lavar roupas, - minha mãe, logo ela!- escondesse nesse desejo, outro, inconfessável: a sua emancipação! E meu espanto aumenta ainda mais ao pensar que todas aquelas mães-de-família, que fofocavam e fingiam trocar receitas pelo telefone, e que aspiravam, TODAS, à maquina, fossem feministas!
Simone de Beauvoir, ao escrever dois longos livros pioneiros sobre a liberação feminina, perdeu tempo. Teria feito melhor se procurasse uma fábrica de eletro-domésticos e propusesse um plano de aquisição que se estendesse pelo mundo afora. Teria antecipado muita coisa, e evitado muita luta. Imagino minha mãe, com sua máquina, fazendo colocações sobre seus direitos de mulher livre, discordando abertamente de meu pai, colocando suas idéias na discussão familiar. Como faço eu. E qual seria a posição de meu pai? Será que acharia normal, como faz Ricardo? Faço um esforço de imaginação, e haja esforço, para visualizar meu pai ouvindo o discurso libertário da mulher.
E o mais importante para mim: descobri de onde saiu todo este desejo, que me acompanha desde minha juventude, o de ser independente. Surgiu naquele dia, perdido no passado, em que dona Mariinha encheu de inveja minha mãe, não porque possuísse uma máquina de lavar roupas, mas por ser uma mulher emancipada.
Não sou das que consideram a emancipação feminina fruto da pílula. É verdade que ela nos permitiu fazer, sem temor, o uso que nos aprouver de nosso corpo. Mas isto não é senão uma conseqüência de algo que vinha, desde há muito tempo, se construindo. A liberação feminina começou quando mulheres deixaram de se satisfazer com o casamento e a procriação. Houve um longo caminho que foi iniciado pela profissionalização, que dá independência financeira, e permite a nós, mulheres, não mais depender do macho provedor. Hoje, podemos dizer que temos o homem que queremos, mas não dependemos dele. Estamos a seu lado por nosso desejo. A independência econômica, segundo Marx a única efetiva, que tanto assustou homens de gerações passadas, nos permite até colocar na rua um companheiro que, por razões diversas, não mais queremos.
O conceito católico-vaticano é tão machista que nos restringe ao lar, nos coloca como eternas menores de idade, não levando em consideração, e seguramente desdenhando, qualquer uma de nossas conquistas como seres humanos, em igualdade com o sexo oposto. Considera a mulher uma eterna serviçal de seu macho, e de sua família. Mas o pior é que já vi muita gente da geração pós-guerra, aquela que, afinal, sacudiu a bandeira da igualdade, pensar como Vossas Eminências. Felizmente, o tipo mãe-de-família em tempo integral, esposa traída e resignada, mulher vivendo à sombra de seu macho vai, pouco a pouco, desaparecendo.
E viva nós, que soubemos brigar um dia, já faz muito tempo, e que, se gostamos da engenhoca de lavar é porque, afinal ela é útil. Útil para mulheres, e homens, que, saibam Vossas Excelências, também, nos dias de hoje, tratam do serviço doméstico.
E como me lembrou minha sobrinha, Alice, mais importante do que a pílula é a camisinha. Aliás, ambas condenadas pelo Vaticano.
E um lembrete final: após toda a gritaria nacional, e internacional, sobre a excomunhão, tendo havido até uma magnífica entrevista de Monsenhor di Falco, da alta cúpula da Igreja na França, publicada no jornal “Le Figaro” – L`Eglise de France opposée à l´évêque brésilien – a nossa CNBB e o Vaticano resolveram se manifestar contra. Mas já foi tarde.
Desde que foi divulgada esta novidade, tenho puxado pela memória, a fim refazer os conceitos que fui elaborando ao longo dos anos. Pois, uma vez que o Papa é infalível, eu é que devo estar errada. Começo por minha mãe, a gente sempre começa pela mãe, e suas amigas. Lembro-me de Dona Mariinha. Era possuidora da primeira máquina de lavar que vi em minha vida. Eu era bem pequena quando ela fez a exibição de sua preciosidade para minha mãe. Era uma engenhoca redonda, sendo que a roupa era enxugada através de dois rolos de borracha, que se moviam fazendo girar uma manivela e comprimiam a peça molhada. Fiquei encantada. E dona Mariinha, hein? Quem diria que era uma feminista? Escarafuncho no fundo de minha memória e só encontro uma senhora, como qualquer outra daquele tempo, que, é verdade, mandava no marido. Então, concluo que sempre fiz dela uma idéia errada. Para mim, sempre foi uma típica dona-de-casa careta, mas na verdade era uma mulher liberada, a frente de seu tempo! E fico ainda mais estarrecida ao imaginar que, ao sonhar em ter uma máquina de lavar roupas, - minha mãe, logo ela!- escondesse nesse desejo, outro, inconfessável: a sua emancipação! E meu espanto aumenta ainda mais ao pensar que todas aquelas mães-de-família, que fofocavam e fingiam trocar receitas pelo telefone, e que aspiravam, TODAS, à maquina, fossem feministas!
Simone de Beauvoir, ao escrever dois longos livros pioneiros sobre a liberação feminina, perdeu tempo. Teria feito melhor se procurasse uma fábrica de eletro-domésticos e propusesse um plano de aquisição que se estendesse pelo mundo afora. Teria antecipado muita coisa, e evitado muita luta. Imagino minha mãe, com sua máquina, fazendo colocações sobre seus direitos de mulher livre, discordando abertamente de meu pai, colocando suas idéias na discussão familiar. Como faço eu. E qual seria a posição de meu pai? Será que acharia normal, como faz Ricardo? Faço um esforço de imaginação, e haja esforço, para visualizar meu pai ouvindo o discurso libertário da mulher.
E o mais importante para mim: descobri de onde saiu todo este desejo, que me acompanha desde minha juventude, o de ser independente. Surgiu naquele dia, perdido no passado, em que dona Mariinha encheu de inveja minha mãe, não porque possuísse uma máquina de lavar roupas, mas por ser uma mulher emancipada.
Não sou das que consideram a emancipação feminina fruto da pílula. É verdade que ela nos permitiu fazer, sem temor, o uso que nos aprouver de nosso corpo. Mas isto não é senão uma conseqüência de algo que vinha, desde há muito tempo, se construindo. A liberação feminina começou quando mulheres deixaram de se satisfazer com o casamento e a procriação. Houve um longo caminho que foi iniciado pela profissionalização, que dá independência financeira, e permite a nós, mulheres, não mais depender do macho provedor. Hoje, podemos dizer que temos o homem que queremos, mas não dependemos dele. Estamos a seu lado por nosso desejo. A independência econômica, segundo Marx a única efetiva, que tanto assustou homens de gerações passadas, nos permite até colocar na rua um companheiro que, por razões diversas, não mais queremos.
O conceito católico-vaticano é tão machista que nos restringe ao lar, nos coloca como eternas menores de idade, não levando em consideração, e seguramente desdenhando, qualquer uma de nossas conquistas como seres humanos, em igualdade com o sexo oposto. Considera a mulher uma eterna serviçal de seu macho, e de sua família. Mas o pior é que já vi muita gente da geração pós-guerra, aquela que, afinal, sacudiu a bandeira da igualdade, pensar como Vossas Eminências. Felizmente, o tipo mãe-de-família em tempo integral, esposa traída e resignada, mulher vivendo à sombra de seu macho vai, pouco a pouco, desaparecendo.
E viva nós, que soubemos brigar um dia, já faz muito tempo, e que, se gostamos da engenhoca de lavar é porque, afinal ela é útil. Útil para mulheres, e homens, que, saibam Vossas Excelências, também, nos dias de hoje, tratam do serviço doméstico.
E como me lembrou minha sobrinha, Alice, mais importante do que a pílula é a camisinha. Aliás, ambas condenadas pelo Vaticano.
E um lembrete final: após toda a gritaria nacional, e internacional, sobre a excomunhão, tendo havido até uma magnífica entrevista de Monsenhor di Falco, da alta cúpula da Igreja na França, publicada no jornal “Le Figaro” – L`Eglise de France opposée à l´évêque brésilien – a nossa CNBB e o Vaticano resolveram se manifestar contra. Mas já foi tarde.
quinta-feira, 12 de março de 2009
CONFESSO QUE VIVI
Quem se lembra daquela linda canção de Chico Buarque, já bem antiga, chamada “Carolina”?
Pois vale a pena a gente lembrar a letra, que diz tanta coisa!
“Carolina, nos seus olhos fundos, guarda tanta dor, a dor de todo esse mundo.
Eu já lhe expliquei que não vai dar, seu pranto não vai nada ajudar,
Eu já convidei para dançar, é hora, já sei, de aproveitar.
Lá fora, amor, uma rosa nasceu, todo mundo sambou, uma estrela caiu.
Eu bem que mostrei sorrindo, pela janela, ah que lindo,
Mas Carolina não viu...
Carolina, nos seus olhos tristes, guarda tanto amor, o amor que já não existe.
Eu bem que avisei, vai acabar, de tudo lhe dei para aceitar,
Mil versos cantei pra lhe agradar, agora não sei como explicar.
Lá fora, amor, uma rosa morreu, uma festa acabou, nosso barco partiu.
Eu bem que mostrei a ela, o tempo passou na janela e só Carolina não viu.”
Que pena que não fui eu quem escreveu “Carolina”! Chico o fez no meu lugar.
Mas como me sinto feliz em poder dizer, neste dia que marca os meus tantos anos já vividos, que eu vi, sem lástimas, o tempo passar na janela! Que vi flores se abrindo, gente feliz dançando comigo, estrelas cadentes cruzando o céu. Vi a chuva e senti a água batendo no meu rosto. Vi o sol e senti seu calor inundando meu corpo. Vi dias nascerem tristes ou radiosos.E os vivi tristes ou radiosos.
Sinto-me imensamente gratificada em poder dizer que, se a vida foi dura comigo por longos períodos, com isto aprendi a valorizar cada momento de felicidade que ela me oferecia e, o mais importante, a tentar sempre multiplica-los. Sofri grandes tragédias pessoais, que fizeram padecer cada molécula de meu corpo, mas consegui superar e voltar a ser feliz. E compreendi a fragilidade de nossa existência. Já no outono, me lembro de minha primavera, e ,com tudo que os anos me ensinaram, tenho a convicção de que hoje aprendi a ser mais feliz do que naqueles anos dourados.
Como diz Jorge Luíz Borges, na vida perdemos várias oportunidades de ser felizes. E concordo com ele que, se pudesse recomeçar, transgrediria mais, apesar de nunca haver aceitado o que queriam me impor. O que me causou sérios problemas familiares. E não me arrependo! E como nunca tentei ser perfeita, nunca criei tensões na expectativa da aprovação alheia.E pude relaxar e viver feliz, apesar de tudo!
Minha desprentensão à aprovação alheia, me permitiu expandir esta força interna que temos dentro de nós, e que raramente, por ridículos pudores, temos a coragem de expor. A coragem de tocar, abraçar, acariaciar, falar do amor. De ilusões e desilusões. De banalidades e de “coisas sérias”. Dizer besteiras, dar gargalhadas, e também , na minha fragilidade, confessar o sofrimento. Enfim, nenhuma pretensão a ser mais do que humana. E esta foi uma grande conquista.
É verdade que tive, desde cedo, problemas reais, mas, afinal, eles foram benéficos, pois afastaram os imaginários. Então, não tive tempo de criar fantasmas.
E como detesto lentilhas, tomei mais sorvete.
Instantes (Poema de Luiz Borges)
“Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo do que tenho sido, na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico.
Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da sua vida; claro que tive momentos de alegria.
Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos, não perca o agora.
Eu era um desses que nunca ia à parte alguma sem ter um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas; se voltasse a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria até o final do outono.
Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças. Se tivesse outra vez uma vida pela frente... Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo...”
Ah, Carolina! Pobre Carolina! E quantas há que não vêem o tempo passar, e que quando despertam já é tarde para recomeçar. Já não podem correr riscos, subir montanhas, transgredir, não ser tão perfeita, gozar de verdade os bons momentos. E tomar mais sorvete!
Não tenho 85 anos, mas já ultrapassei os cinqüenta há bastante tempo. Não sei, nunca sabemos, o quanto me resta, mas decidi não deixar nada para trás. Quero ainda subir muitas montanhas, ver muitos entardeceres, correr muitos riscos, gozar intensamente os bons momentos que a vida ainda vai me dar. E ter a coragem de ter medo, de chorar, de sofrer. E jamais tentar ser perfeita.
É verdade que se pudesse recomeçar faria muita coisa diferente, mas afinal, contas feitas, posso afirmar como Neruda: “Confesso que vivi.”!
Pois vale a pena a gente lembrar a letra, que diz tanta coisa!
“Carolina, nos seus olhos fundos, guarda tanta dor, a dor de todo esse mundo.
Eu já lhe expliquei que não vai dar, seu pranto não vai nada ajudar,
Eu já convidei para dançar, é hora, já sei, de aproveitar.
Lá fora, amor, uma rosa nasceu, todo mundo sambou, uma estrela caiu.
Eu bem que mostrei sorrindo, pela janela, ah que lindo,
Mas Carolina não viu...
Carolina, nos seus olhos tristes, guarda tanto amor, o amor que já não existe.
Eu bem que avisei, vai acabar, de tudo lhe dei para aceitar,
Mil versos cantei pra lhe agradar, agora não sei como explicar.
Lá fora, amor, uma rosa morreu, uma festa acabou, nosso barco partiu.
Eu bem que mostrei a ela, o tempo passou na janela e só Carolina não viu.”
Que pena que não fui eu quem escreveu “Carolina”! Chico o fez no meu lugar.
Mas como me sinto feliz em poder dizer, neste dia que marca os meus tantos anos já vividos, que eu vi, sem lástimas, o tempo passar na janela! Que vi flores se abrindo, gente feliz dançando comigo, estrelas cadentes cruzando o céu. Vi a chuva e senti a água batendo no meu rosto. Vi o sol e senti seu calor inundando meu corpo. Vi dias nascerem tristes ou radiosos.E os vivi tristes ou radiosos.
Sinto-me imensamente gratificada em poder dizer que, se a vida foi dura comigo por longos períodos, com isto aprendi a valorizar cada momento de felicidade que ela me oferecia e, o mais importante, a tentar sempre multiplica-los. Sofri grandes tragédias pessoais, que fizeram padecer cada molécula de meu corpo, mas consegui superar e voltar a ser feliz. E compreendi a fragilidade de nossa existência. Já no outono, me lembro de minha primavera, e ,com tudo que os anos me ensinaram, tenho a convicção de que hoje aprendi a ser mais feliz do que naqueles anos dourados.
Como diz Jorge Luíz Borges, na vida perdemos várias oportunidades de ser felizes. E concordo com ele que, se pudesse recomeçar, transgrediria mais, apesar de nunca haver aceitado o que queriam me impor. O que me causou sérios problemas familiares. E não me arrependo! E como nunca tentei ser perfeita, nunca criei tensões na expectativa da aprovação alheia.E pude relaxar e viver feliz, apesar de tudo!
Minha desprentensão à aprovação alheia, me permitiu expandir esta força interna que temos dentro de nós, e que raramente, por ridículos pudores, temos a coragem de expor. A coragem de tocar, abraçar, acariaciar, falar do amor. De ilusões e desilusões. De banalidades e de “coisas sérias”. Dizer besteiras, dar gargalhadas, e também , na minha fragilidade, confessar o sofrimento. Enfim, nenhuma pretensão a ser mais do que humana. E esta foi uma grande conquista.
É verdade que tive, desde cedo, problemas reais, mas, afinal, eles foram benéficos, pois afastaram os imaginários. Então, não tive tempo de criar fantasmas.
E como detesto lentilhas, tomei mais sorvete.
Instantes (Poema de Luiz Borges)
“Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo do que tenho sido, na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico.
Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da sua vida; claro que tive momentos de alegria.
Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos, não perca o agora.
Eu era um desses que nunca ia à parte alguma sem ter um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas; se voltasse a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria até o final do outono.
Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças. Se tivesse outra vez uma vida pela frente... Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo...”
Ah, Carolina! Pobre Carolina! E quantas há que não vêem o tempo passar, e que quando despertam já é tarde para recomeçar. Já não podem correr riscos, subir montanhas, transgredir, não ser tão perfeita, gozar de verdade os bons momentos. E tomar mais sorvete!
Não tenho 85 anos, mas já ultrapassei os cinqüenta há bastante tempo. Não sei, nunca sabemos, o quanto me resta, mas decidi não deixar nada para trás. Quero ainda subir muitas montanhas, ver muitos entardeceres, correr muitos riscos, gozar intensamente os bons momentos que a vida ainda vai me dar. E ter a coragem de ter medo, de chorar, de sofrer. E jamais tentar ser perfeita.
É verdade que se pudesse recomeçar faria muita coisa diferente, mas afinal, contas feitas, posso afirmar como Neruda: “Confesso que vivi.”!
sexta-feira, 6 de março de 2009
O reino das trevas
Hoje, penetrei no Reino das Trevas. Subitamente, vi fogueiras se acendendo, rostos ardendo em chamas, gritos de dor, vultos cobertos de negro, que se moviam de um lado para outro, carregando fardos de palha seca para o suplício. Uma voz, vinda das profundezas das Trevas, dizia algo que eu não conseguia entender. A voz era melíflua, como deveria ser aquela que ouviu Eva, ao ser tentada pela serpente no Paraíso. Havia no ar um odor fétido, de podridão misturada ao incenso. Olhei aterrorizada a figura estranha que surgia diante de mim, procurei entender o que dizia. Pensei que tivesse morrido e, por meus inúmeros pecadilhos, estivesse sendo instalada no inferno inquisitorial. Mas, afinal, o que eu poderia ter feito de tão horrendo que me condenasse a todo este HORROR. Procurei, utilizando todas minhas reservas racionais, compreender o que dizia a figura, surgida das sombras aterrorizantes.
Só então, depois de imenso esforço concentrado, consegui compreender. E aí, tudo clareou, voltei à minha cozinha, onde preparava meu lanche noturno. Olhei minhas plantinhas, meus bichinhos, afaguei-lhes a cabeça. O que dizia a estranha criatura não me dizia respeito, e não merecia o meu respeito. Afinal, o que poderia significar para mim ser excomungada? Nem sabia que isso ainda existia! E eu nunca entrei naquela instituição. E nunca entrarei. Logo, nunca serei expulsa.
Subitamente, de novo voltei ao Mundo das Trevas! Tilinha, Nenêm, onde estão vocês? E minhas florzinhas? Minha saladinha, o pão integral, o suco? Tudo foi embora, engolido pelo Terror. As Trevas novamente haviam se instalado. Por quê? Reuni, mais uma vez, toda minha capacidade de compreensão, queria saber por que haviam voltado. Prestei o máximo de atenção, e ouvi aquela voz, simultaneamente melíflua e soturna, dizendo que pior do que ser estuprador de criança é salvar a vida desta criança. A raiva que senti foi tão grande que chutei aquelas Trevas, que me haviam feito tremer, para bem longe, coloquei-me defronte ao aparelho e resolvi ouvir o resto. Então, é verdade que Vaticano, CNBB, e toda a corte católico-celestial consideram o estuprador menos, e muito menos, pecaminoso do os médicos?
Passada a revolta, estando só, enquanto degustava meu lanchinho noturno, acompanhada de meus bichinhos, criaturinhas de Deus, fiz certas reflexões. Afinal, esta instituição tem que ser coerente consigo mesma. Uma instituição onde abundam pedófilos, que destruíram vidas que recém haviam começado, e onde não se tem notícia de nenhuma excomunhão, deve achar mais aceitável o estupro do que a vida. Uma instituição que prega a eliminação de pobreza e mantém na pobreza milhares de seus membros, que não têm sequer a justa remuneração de seu trabalho. Uma instituição que não aceita o progresso científico e acha natural o sofrimento quando este pode ser minorado ou dirimido. E tantas outras aberrações.
Confesso que me sinto feliz por não pertencer a esta instituição. Confesso que aprendi a amar a Deus com minha mãe, avessa à fé católica. Confesso que entendo porque tanta gente se converte a outras religiões, onde não é pecado progredir, onde o indivíduo e seu trabalho são valorizados. Confesso que fico encantada com o olhar sedutor do Padre Fábio de Mello,... mas sedução é outra coisa.
E minha última confissão: confesso que tenho preguiça de continuar deblaterando contra esta gente atrasada, e que, afinal, no mundo que conta de verdade, não significa mais nada.
Só então, depois de imenso esforço concentrado, consegui compreender. E aí, tudo clareou, voltei à minha cozinha, onde preparava meu lanche noturno. Olhei minhas plantinhas, meus bichinhos, afaguei-lhes a cabeça. O que dizia a estranha criatura não me dizia respeito, e não merecia o meu respeito. Afinal, o que poderia significar para mim ser excomungada? Nem sabia que isso ainda existia! E eu nunca entrei naquela instituição. E nunca entrarei. Logo, nunca serei expulsa.
Subitamente, de novo voltei ao Mundo das Trevas! Tilinha, Nenêm, onde estão vocês? E minhas florzinhas? Minha saladinha, o pão integral, o suco? Tudo foi embora, engolido pelo Terror. As Trevas novamente haviam se instalado. Por quê? Reuni, mais uma vez, toda minha capacidade de compreensão, queria saber por que haviam voltado. Prestei o máximo de atenção, e ouvi aquela voz, simultaneamente melíflua e soturna, dizendo que pior do que ser estuprador de criança é salvar a vida desta criança. A raiva que senti foi tão grande que chutei aquelas Trevas, que me haviam feito tremer, para bem longe, coloquei-me defronte ao aparelho e resolvi ouvir o resto. Então, é verdade que Vaticano, CNBB, e toda a corte católico-celestial consideram o estuprador menos, e muito menos, pecaminoso do os médicos?
Passada a revolta, estando só, enquanto degustava meu lanchinho noturno, acompanhada de meus bichinhos, criaturinhas de Deus, fiz certas reflexões. Afinal, esta instituição tem que ser coerente consigo mesma. Uma instituição onde abundam pedófilos, que destruíram vidas que recém haviam começado, e onde não se tem notícia de nenhuma excomunhão, deve achar mais aceitável o estupro do que a vida. Uma instituição que prega a eliminação de pobreza e mantém na pobreza milhares de seus membros, que não têm sequer a justa remuneração de seu trabalho. Uma instituição que não aceita o progresso científico e acha natural o sofrimento quando este pode ser minorado ou dirimido. E tantas outras aberrações.
Confesso que me sinto feliz por não pertencer a esta instituição. Confesso que aprendi a amar a Deus com minha mãe, avessa à fé católica. Confesso que entendo porque tanta gente se converte a outras religiões, onde não é pecado progredir, onde o indivíduo e seu trabalho são valorizados. Confesso que fico encantada com o olhar sedutor do Padre Fábio de Mello,... mas sedução é outra coisa.
E minha última confissão: confesso que tenho preguiça de continuar deblaterando contra esta gente atrasada, e que, afinal, no mundo que conta de verdade, não significa mais nada.
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
SUPERAÇÃO
Durante nossas férias em Natal, aproveitei meu tempo para, além de gozar das belezas do lugar, retomar com maior intensidade o prazer da leitura, que, no corre-corre diário, muitas vezes se torna difícil. E pude ler avidamente um dos mais belos livros que encontrei nos últimos tempos. O título pode causar até algum mal-estar, algum temor, e foi por isso que não quis dizê-lo logo. Chama-se “Anticâncer” e o autor é David Servan Schreiber, neuropsiquiatra francês, pesquisador radicado nos Estados Unidos, na Universidade de Pittsbourg. David é filho de um lendário político e jornalista francês, Jean-Jacques Servan Schreiber, herói da Resistência contra a ocupação nazista.
Conta David que um certo dia, tendo faltado um estudante que lhe serviria de “cobaia”, sob sugestão de seu colega de pesquisa, resolve substituir o faltoso, e, assim, de repente, através de uma ressonância magnética, descobre que tem um câncer no cérebro. Choque, estupefação, medo. David reluta em acreditar, mas exames posteriores confirmam. É então submetido a uma cirurgia, tratamento de quimio e radioterapia. E prossegue na sua vida normalmente, ao lado da fiel companheira russa. Leva vida normal e passa a clinicar, procurando compartilhar com seus pacientes a dor de nossa comum fragilidade. Já começa a considerar-se curado, quando, mais uma vez, o acaso, desta vez numa cerimônia indígena onde fora acompanhar uma paciente, fica sabendo, através de vidente, que o mal está de volta. Mas como pode ser possível se, há dois ou três meses, um exame lhe dissera que tudo ia bem? De qualquer forma, volta aos exames e constata que há uma reincidência no mesmo lugar, e do mesmo tipo. Mais uma vez, submete-se a todo aquele ritual curativo. Só que agora ele se pergunta se não haverá recursos ao redor e dentro de nós que nos ajudem a combater o mal.
Faz então um balanço de sua vida antes da descoberta do tumor e depois de terminado o primeiro tratamento, há cerca de dois anos. E constata que nada mudou. Ao contrário, sua rotina tornou-se tão agitada que mal tem tempo de alimentar-se, engolindo rapidamente um prato de “chili”, aquela deliciosa comida mexicana. Ao final deste segundo tratamento, pergunta ao seu oncologista como deve alimentar-se e recebe a resposta de que coma o que quiser. Mas será verdade? David é médico e sabe que médicos não conhecem nada de nutrição. Conta-nos, de modo didático, como se desenvolve um tumor canceroso, e a importância de um sistema imunológico fortalecido. E começa a pesquisar. Tudo. Pesquisa as propriedades dos alimentos, informa-se sobre pesquisas avançadas nesta área, procura relatos de pessoas que tiveram câncer, que se salvaram, ou viveram mais do que estava previsto pelos doutores. David não tem medo de, como médico, colocar em questão a sabedoria “inquestionável” de seus pares. Mostra-nos como debilitamos ou fortalecemos nosso sistema imunológico. Procura os recursos que Deus, ou a natureza generosa, coloca à nossa disposição. Ele fala de coisas simples, o que ingerimos todos os dias, mostra o quanto há de venenoso na nossa dieta de classe média em países desenvolvidos, ou nem tanto. Mostra que na Índia, em condições quase sub-humanas, há menos câncer. Mas por que será?
David fala-nos de nossa civilização estressante, onde todos devem chegar em primeiro lugar, ganhar mais dinheiro, ter mais bens materiais. Nos relatos dos que viveram, e dos que morreram, encontra lições belíssimas de vida, de amor, de paz interior. Fala-nos de coisas que já esquecemos e que até consideramos piegas: um afago, o contato físico do outro, o amor. Fala de pessoas a quem deram poucos meses de vida e que se curaram, ou viveram ainda muitos anos, em perfeita saúde. Recomenda-nos esta introspecção, que muito poucos cultivam, este momento consigo mesmo, que podemos chamar de meditação, presente em tantas culturas e que nós, ocidentais, salvo no caso dos místicos, abolimos de nossas vidas. Fala-nos de atividade física, que muita gente de minha geração, pobres de nós, considera sinônimo de ignorância, e o quanto ela contribui para o fortalecimento de nosso sistema imunológico.
Talvez para mim, o relato tenha sido excepcionalmente comovente, porque retoma minha própria vida, ou a história de uma parte de minha vida, a luta de toda a família ao recebermos a notícia do câncer de Teresa, minha irmã. Eu já havia perdido pai, mãe e irmão. Teresa e eu éramos tão unidas! Quando, após a cirurgia, recebi dos médicos a notícia de que ela tinha um câncer ovariano, já metastásico, senti o mundo desabar sobre mim. Com Alice, sua filha caçula, acompanhei-a durante as longas sessões de quimioterapia. Procurei esperança, mas nenhum médico jamais me disse nada que pudesse trazer uma réstia de luz. Procurei na Internet, fiz que tomasse xarope de babosa, que fizesse alguma atividade física. Mas se o xarope ela aceitou, a atividade física sempre rejeitou, não acreditando que isso pudesse lhe trazer algum benefício. Teresa sempre soube da gravidade de sua doença e resolveu viver da melhor maneira possível o que lhe restava. Gostava de festa, organizava aniversários e grandes confraternizações de fim de ano. Nunca deixou de comer o que gostava, ainda que eu, através de minhas pesquisas na Internet, houvesse feito algumas descobertas e procurasse convencê-la a evitar certas coisas e aproveitar outras. Mas, afinal, era a sua liberdade. Viveu seus últimos anos rodeada de amor, amor de todos que também sabiam que o tempo podia ser mais curto do que se imaginava. Dizia-me sempre que nada lhe havia ensinado tanto quanto esta proximidade da morte. Que se sentia muito mais feliz do que antes, que aprendera a valorizar todas as pequenas coisas da vida. E lamentava que não houvesse compreendido antes. Quando o câncer reincidiu, três anos e meio depois, contrariando os doutores, que lhe haviam dado poucos meses, ela sentiu que ia morrer.
Ao ler certos relatos, senti especial emoção, pois me reportaram à nossa última conversa, na antevéspera de sua morte. Telefonei-lhe para saber como estava. Atendeu-me chorando, disse-me que sentia muita dor e que estava sozinha, já que pouco antes se sentia bem, e sua filha havia saído para uma compra urgente. Fui vê-la, o coração aos pulos. Encontrei-a andando pela casa, apertando a barriga. Sem saber o que fazer, sugeri que tomasse Novalgina em gotas. Disse-lhe então que se deitasse, para conversarmos. Afaguei-lhe o rosto, segurei sua mão. Fiz com que sentisse minha presença, meu carinho. Logo a dor cedeu – com uma simples Novalgina - e comecei então a falar, de nós, de nossas vidas. Foi nossa última conversa, mas, sem dúvida, aquela em que mais falamos de nós mesmas. Hoje, passados mais de três anos, relembro trechos que me deixam realmente perplexa. Perguntei-lhe se havia sido feliz, e ela, tranqüila, disse-me que, balanço feito, havia sido bastante feliz. Falamos então, com incrível naturalidade, da inevitável morte. Lembro-me que mostrei o lindo rostinho de Mariana Ximenes na tela de televisão que havia ficado ligada e comentei que também ela, linda, jovem, saudável, chegaria ao seu dia final. Não havia angústia na nossa troca de idéias sobre nossas vidas e sobre a morte. Estávamos ambas em paz.
Teresa partiu dois dias depois. Acompanhei-a até a entrada da UTI, dei-lhe um beijo e disse-lhe que Santa Teresinha a protegeria. Foi a última vez que vi minha irmã viva. Como já disse alguma vez, sofri durante muito tempo por ter ela partido sozinha, numa fria UTI, mas hoje tenho a convicção de que todos que a precederam, pai, mãe, irmão, marido, estavam lá, ajudando-a a fazer a travessia.
David traz-nos relatos de sobrevivência, de superação, na vida e na morte. Superação na morte significa paz, a vitória sobre o medo do desconhecido. Estou certa de que, como muitos daqueles que partiram, cujas histórias são relatadas no livro, Teresa também partiu em paz.
Para finalizar, David está vivo, quinze anos após sua reincidência, quando lhe deram alguns poucos meses de vida.
Conta David que um certo dia, tendo faltado um estudante que lhe serviria de “cobaia”, sob sugestão de seu colega de pesquisa, resolve substituir o faltoso, e, assim, de repente, através de uma ressonância magnética, descobre que tem um câncer no cérebro. Choque, estupefação, medo. David reluta em acreditar, mas exames posteriores confirmam. É então submetido a uma cirurgia, tratamento de quimio e radioterapia. E prossegue na sua vida normalmente, ao lado da fiel companheira russa. Leva vida normal e passa a clinicar, procurando compartilhar com seus pacientes a dor de nossa comum fragilidade. Já começa a considerar-se curado, quando, mais uma vez, o acaso, desta vez numa cerimônia indígena onde fora acompanhar uma paciente, fica sabendo, através de vidente, que o mal está de volta. Mas como pode ser possível se, há dois ou três meses, um exame lhe dissera que tudo ia bem? De qualquer forma, volta aos exames e constata que há uma reincidência no mesmo lugar, e do mesmo tipo. Mais uma vez, submete-se a todo aquele ritual curativo. Só que agora ele se pergunta se não haverá recursos ao redor e dentro de nós que nos ajudem a combater o mal.
Faz então um balanço de sua vida antes da descoberta do tumor e depois de terminado o primeiro tratamento, há cerca de dois anos. E constata que nada mudou. Ao contrário, sua rotina tornou-se tão agitada que mal tem tempo de alimentar-se, engolindo rapidamente um prato de “chili”, aquela deliciosa comida mexicana. Ao final deste segundo tratamento, pergunta ao seu oncologista como deve alimentar-se e recebe a resposta de que coma o que quiser. Mas será verdade? David é médico e sabe que médicos não conhecem nada de nutrição. Conta-nos, de modo didático, como se desenvolve um tumor canceroso, e a importância de um sistema imunológico fortalecido. E começa a pesquisar. Tudo. Pesquisa as propriedades dos alimentos, informa-se sobre pesquisas avançadas nesta área, procura relatos de pessoas que tiveram câncer, que se salvaram, ou viveram mais do que estava previsto pelos doutores. David não tem medo de, como médico, colocar em questão a sabedoria “inquestionável” de seus pares. Mostra-nos como debilitamos ou fortalecemos nosso sistema imunológico. Procura os recursos que Deus, ou a natureza generosa, coloca à nossa disposição. Ele fala de coisas simples, o que ingerimos todos os dias, mostra o quanto há de venenoso na nossa dieta de classe média em países desenvolvidos, ou nem tanto. Mostra que na Índia, em condições quase sub-humanas, há menos câncer. Mas por que será?
David fala-nos de nossa civilização estressante, onde todos devem chegar em primeiro lugar, ganhar mais dinheiro, ter mais bens materiais. Nos relatos dos que viveram, e dos que morreram, encontra lições belíssimas de vida, de amor, de paz interior. Fala-nos de coisas que já esquecemos e que até consideramos piegas: um afago, o contato físico do outro, o amor. Fala de pessoas a quem deram poucos meses de vida e que se curaram, ou viveram ainda muitos anos, em perfeita saúde. Recomenda-nos esta introspecção, que muito poucos cultivam, este momento consigo mesmo, que podemos chamar de meditação, presente em tantas culturas e que nós, ocidentais, salvo no caso dos místicos, abolimos de nossas vidas. Fala-nos de atividade física, que muita gente de minha geração, pobres de nós, considera sinônimo de ignorância, e o quanto ela contribui para o fortalecimento de nosso sistema imunológico.
Talvez para mim, o relato tenha sido excepcionalmente comovente, porque retoma minha própria vida, ou a história de uma parte de minha vida, a luta de toda a família ao recebermos a notícia do câncer de Teresa, minha irmã. Eu já havia perdido pai, mãe e irmão. Teresa e eu éramos tão unidas! Quando, após a cirurgia, recebi dos médicos a notícia de que ela tinha um câncer ovariano, já metastásico, senti o mundo desabar sobre mim. Com Alice, sua filha caçula, acompanhei-a durante as longas sessões de quimioterapia. Procurei esperança, mas nenhum médico jamais me disse nada que pudesse trazer uma réstia de luz. Procurei na Internet, fiz que tomasse xarope de babosa, que fizesse alguma atividade física. Mas se o xarope ela aceitou, a atividade física sempre rejeitou, não acreditando que isso pudesse lhe trazer algum benefício. Teresa sempre soube da gravidade de sua doença e resolveu viver da melhor maneira possível o que lhe restava. Gostava de festa, organizava aniversários e grandes confraternizações de fim de ano. Nunca deixou de comer o que gostava, ainda que eu, através de minhas pesquisas na Internet, houvesse feito algumas descobertas e procurasse convencê-la a evitar certas coisas e aproveitar outras. Mas, afinal, era a sua liberdade. Viveu seus últimos anos rodeada de amor, amor de todos que também sabiam que o tempo podia ser mais curto do que se imaginava. Dizia-me sempre que nada lhe havia ensinado tanto quanto esta proximidade da morte. Que se sentia muito mais feliz do que antes, que aprendera a valorizar todas as pequenas coisas da vida. E lamentava que não houvesse compreendido antes. Quando o câncer reincidiu, três anos e meio depois, contrariando os doutores, que lhe haviam dado poucos meses, ela sentiu que ia morrer.
Ao ler certos relatos, senti especial emoção, pois me reportaram à nossa última conversa, na antevéspera de sua morte. Telefonei-lhe para saber como estava. Atendeu-me chorando, disse-me que sentia muita dor e que estava sozinha, já que pouco antes se sentia bem, e sua filha havia saído para uma compra urgente. Fui vê-la, o coração aos pulos. Encontrei-a andando pela casa, apertando a barriga. Sem saber o que fazer, sugeri que tomasse Novalgina em gotas. Disse-lhe então que se deitasse, para conversarmos. Afaguei-lhe o rosto, segurei sua mão. Fiz com que sentisse minha presença, meu carinho. Logo a dor cedeu – com uma simples Novalgina - e comecei então a falar, de nós, de nossas vidas. Foi nossa última conversa, mas, sem dúvida, aquela em que mais falamos de nós mesmas. Hoje, passados mais de três anos, relembro trechos que me deixam realmente perplexa. Perguntei-lhe se havia sido feliz, e ela, tranqüila, disse-me que, balanço feito, havia sido bastante feliz. Falamos então, com incrível naturalidade, da inevitável morte. Lembro-me que mostrei o lindo rostinho de Mariana Ximenes na tela de televisão que havia ficado ligada e comentei que também ela, linda, jovem, saudável, chegaria ao seu dia final. Não havia angústia na nossa troca de idéias sobre nossas vidas e sobre a morte. Estávamos ambas em paz.
Teresa partiu dois dias depois. Acompanhei-a até a entrada da UTI, dei-lhe um beijo e disse-lhe que Santa Teresinha a protegeria. Foi a última vez que vi minha irmã viva. Como já disse alguma vez, sofri durante muito tempo por ter ela partido sozinha, numa fria UTI, mas hoje tenho a convicção de que todos que a precederam, pai, mãe, irmão, marido, estavam lá, ajudando-a a fazer a travessia.
David traz-nos relatos de sobrevivência, de superação, na vida e na morte. Superação na morte significa paz, a vitória sobre o medo do desconhecido. Estou certa de que, como muitos daqueles que partiram, cujas histórias são relatadas no livro, Teresa também partiu em paz.
Para finalizar, David está vivo, quinze anos após sua reincidência, quando lhe deram alguns poucos meses de vida.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
Pavane pour une infante défunte
“Infante” é princesa espanhola. Pavane uma dança de movimento lento. Maurice Ravel compôs a obra em 1899, para a princesa de Polignac, na verdade uma judia americana, casada com o conde Edmond de Polignac, da mais antiga nobreza francesa. O título da obra, na verdade, não tem nada a ver com a morte de uma criança. Ravel explicou, tendo tal título causado certa perplexidade, que se tratava simplesmente de uma licença poética. É uma linda, e profundamente melancólica, composição, digna do gênio do grande compositor impressionista.
Lembrei-me dela ao ver a foto do rostinho sorridente de Luana Eger, de três anos, a primeira vítima da tragédia de Santa Catarina. Luana, ao contrário da princesa de Polignac, morreu no alvorecer da vida. E pertencia a uma família pobre, seu pai é um simples comerciário, e, como todas as outras vidas que conhecemos ceifadas ainda na aurora, logo será esquecida, salvo por sua família. Luana é o símbolo desse absurdo com que nos deparamos a cada dia, da morte, da dor, da destruição. Crianças como Luana morrem soterradas, assassinadas, seviciadas. Crianças que são vítimas de alguma força perversa da natureza ou dos homens. Talvez de ambos.
Vi outros rostos infantis, sorridentes, como o da linda Luana. Todos agora mortos. Vi pais, mães, avós, expondo sua dor, tentando entender o porquê de tanto sofrimento. Mas como entender? Lembro-me de “La peste” de Albert Camus, em que, de repente, a cidade de Oran, no norte da África, é invadida por ratos que aparecem mortos aos montes. Mas logo desaparecem, dando lugar à morte de homens, mulheres, crianças. Lembro-me de certo Doutor Rieux, médico herói, tentando salvar vidas. E também de sua revolta diante do sofrimento, maior ainda quando a vítima é uma criança. E da incapacidade do padre em explicar tanta dor de inocentes. E lembrei-me, então, de minha tia Maria, e de tantas outras Marias, personagens reais, vítimas do mesmo mal daquelas do romance de Camus: a peste bubônica. Em Porto Alegre, dos anos vinte, ratos infestavam a cidade imunda, governada por outros ratos, e arrastavam-se doentes, antes que a morte começasse a ceifar vidas humanas. Ignorância, perversidade? Possivelmente ambas. Um dia, meu tio Alfredo vendo um rato que se arrastava pela sala, observa, numa premunição: “Este rato está doente. E isto pode ser grave!”. Mas ninguém presta atenção. Afinal, ratos infestam casas, de todas as classes sociais. Até que a morte chegou para os humanos, e levou Maria, e também sua melhor amiga, e vizinhos, adultos e crianças.
Não importa se o mal veio dos homens ou da natureza ultrajada, enfurecida, justa ou injustamente. O que importa é que a vida vai nos falando, cada vez mais severamente, que nossos limites humanos são infinitamente estreitos. Se a juventude nos faz crer em nossa imortalidade, os anos nos trazem a cruel consciência de tudo que não podemos. E podemos tão pouco! O absurdo de que nos fala Camus, em toda sua obra, tragicamente faz parte da vida. Luana, Isabela, os dois irmãos seviciados, assassinados, esquartejados, queimados, pelo pai, pela madrasta, pela vizinha covarde, pelos médicos omissos, pela Conselheira Tutelar, por todos nós, de quem já nem lembramos mais, os namorados adolescentes, também já quase totalmente esquecidos, Maria, sua melhor amiga, todos que não puderam prosseguir sua caminhada, nos trazem a dolorosa convicção de nossa intrínseca incapacidade em vencer o sofrimento e a morte. Ou, quem sabe, nossa insensibilidade, se a dor e a morte forem do outro. E o absurdo do sofrimento que conduz à morte surge de todos os lados, e dele ninguém pode escapar. Surge da natureza, dos homens, de um deus vingativo, do demônio.
Camus, em obras anteriores, nos dizia que somente no suicídio, ato supremo de rebeldia, poderíamos afrontar este Deus, no qual ele não cria, que nos atormenta com o absurdo da vida. No entanto, em “La Peste” resgata o amor como a única arma de que dispomos para este desafio. E ainda relembra, por intermédio do doutor Rieux, que o sofrimento “havia confrontado os homens ao absurdo de suas existências e à precariedade da condição humana.”
Não haverá “Pavane” para Luana, nem para os garotos supliciados, nem para Isabela, nem para Maria, nem para sua amiguinha, mas para todos nós, que ainda cultivamos a esperança, haverá sempre a possibilidade de exercer o amor, o verdadeiro, aquele expandido, que recobre toda criação, de que falava Dom Helder Câmara.
Lembrei-me dela ao ver a foto do rostinho sorridente de Luana Eger, de três anos, a primeira vítima da tragédia de Santa Catarina. Luana, ao contrário da princesa de Polignac, morreu no alvorecer da vida. E pertencia a uma família pobre, seu pai é um simples comerciário, e, como todas as outras vidas que conhecemos ceifadas ainda na aurora, logo será esquecida, salvo por sua família. Luana é o símbolo desse absurdo com que nos deparamos a cada dia, da morte, da dor, da destruição. Crianças como Luana morrem soterradas, assassinadas, seviciadas. Crianças que são vítimas de alguma força perversa da natureza ou dos homens. Talvez de ambos.
Vi outros rostos infantis, sorridentes, como o da linda Luana. Todos agora mortos. Vi pais, mães, avós, expondo sua dor, tentando entender o porquê de tanto sofrimento. Mas como entender? Lembro-me de “La peste” de Albert Camus, em que, de repente, a cidade de Oran, no norte da África, é invadida por ratos que aparecem mortos aos montes. Mas logo desaparecem, dando lugar à morte de homens, mulheres, crianças. Lembro-me de certo Doutor Rieux, médico herói, tentando salvar vidas. E também de sua revolta diante do sofrimento, maior ainda quando a vítima é uma criança. E da incapacidade do padre em explicar tanta dor de inocentes. E lembrei-me, então, de minha tia Maria, e de tantas outras Marias, personagens reais, vítimas do mesmo mal daquelas do romance de Camus: a peste bubônica. Em Porto Alegre, dos anos vinte, ratos infestavam a cidade imunda, governada por outros ratos, e arrastavam-se doentes, antes que a morte começasse a ceifar vidas humanas. Ignorância, perversidade? Possivelmente ambas. Um dia, meu tio Alfredo vendo um rato que se arrastava pela sala, observa, numa premunição: “Este rato está doente. E isto pode ser grave!”. Mas ninguém presta atenção. Afinal, ratos infestam casas, de todas as classes sociais. Até que a morte chegou para os humanos, e levou Maria, e também sua melhor amiga, e vizinhos, adultos e crianças.
Não importa se o mal veio dos homens ou da natureza ultrajada, enfurecida, justa ou injustamente. O que importa é que a vida vai nos falando, cada vez mais severamente, que nossos limites humanos são infinitamente estreitos. Se a juventude nos faz crer em nossa imortalidade, os anos nos trazem a cruel consciência de tudo que não podemos. E podemos tão pouco! O absurdo de que nos fala Camus, em toda sua obra, tragicamente faz parte da vida. Luana, Isabela, os dois irmãos seviciados, assassinados, esquartejados, queimados, pelo pai, pela madrasta, pela vizinha covarde, pelos médicos omissos, pela Conselheira Tutelar, por todos nós, de quem já nem lembramos mais, os namorados adolescentes, também já quase totalmente esquecidos, Maria, sua melhor amiga, todos que não puderam prosseguir sua caminhada, nos trazem a dolorosa convicção de nossa intrínseca incapacidade em vencer o sofrimento e a morte. Ou, quem sabe, nossa insensibilidade, se a dor e a morte forem do outro. E o absurdo do sofrimento que conduz à morte surge de todos os lados, e dele ninguém pode escapar. Surge da natureza, dos homens, de um deus vingativo, do demônio.
Camus, em obras anteriores, nos dizia que somente no suicídio, ato supremo de rebeldia, poderíamos afrontar este Deus, no qual ele não cria, que nos atormenta com o absurdo da vida. No entanto, em “La Peste” resgata o amor como a única arma de que dispomos para este desafio. E ainda relembra, por intermédio do doutor Rieux, que o sofrimento “havia confrontado os homens ao absurdo de suas existências e à precariedade da condição humana.”
Não haverá “Pavane” para Luana, nem para os garotos supliciados, nem para Isabela, nem para Maria, nem para sua amiguinha, mas para todos nós, que ainda cultivamos a esperança, haverá sempre a possibilidade de exercer o amor, o verdadeiro, aquele expandido, que recobre toda criação, de que falava Dom Helder Câmara.
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
A manchete errada
O título não é meu. Roubei-o de Demétrio Magnoli, extraordinário sociólogo da USP. Ilustra um artigo publicado no Globo, logo antes da eleição de Obama. Magnoli chama a atenção para a importância da eleição de Obama, mas não por ser negro. Assinala que, ao contrário de Jesse Jackson, Obama jamais se apresentou como negro, mas como americano, filho de um negro queniano e de uma branca americana. Tem uma irmã, filha de sua mãe com um indonésio, e que é casada com um chinês. Obama tem parentes na África, que comemoraram, com danças típicas, sua vitória. É cidadão do mundo, que supera até as chamadas fronteiras nacionais. Obama significa o pós-racial, o pós-radical nacional, Obama é o pós-moderno.
Dizem que o século XIX só acabou com o fim da Primeira Guerra. Encanta-me pensar que Obama, com sua bela figura pós-racial, nos introduz, afinal, no Terceiro Milênio. E uma vez derrubado o muro que dividia o mundo em dois, Obama significa o pós-ideológico, onde não cabe nenhum sectarismo. Com ele, não dá para pensar em passado, não dá para ser anti-semita, não dá para fanatismos nacionalistas ou religiosos. Tudo isso nos parece ridículo e, ainda mais, odioso. Com ele, recriamos força para brigar contra qualquer preconceito, como sua mãe, que pertencia àquela geração nascida durante ou logo após a Segunda Guerra, e que, nos anos 60 e 70, começou a dizer não ao que estava estabelecido. Obama é o ressurgimento vivo, jovem e belo, de um velho sonho. Temos vencido muitos preconceitos, mas ainda há muita coisa a fazer. Mas, se Obama representa nossa definitiva entrada no século XXI, cotas raciais representam a volta ao passado. Cotas raciais dividem, quando o que se espera é a união, cotas raciais empurram para debaixo do tapete o grande problema do ensino público e promovem a estagnação do país. E tenho certeza de que, no futuro, vamos ter um novo tipo de preconceito, contra o profissional negro, suspeito de pertencer às cotas e de ter tido, portanto, sua trajetória facilitada. E os movimentos negros, que procuram estimular ao máximo a segregação? Mas é politicamente correto defender cotas e movimentos negros, seja a que custo for.
Lembro-me de meus primórdios como professora de francês. Tínhamos, então, a impossível tarefa de transformar nossos alunos, e nós mesmos, em franceses. Pronúncia perfeita, entonação, e até gestualidade! Durante cerca de duas horas, tentávamos em vão uma tarefa, já de cara, impossível. No pós-colonialismo, encontramos o justo objetivo, somos brasileiros, espanhóis, ingleses, chineses, que falam, ou aprendem uma outra língua. Somos para sempre nós mesmos, seja onde for e em qualquer circunstância. Estamos impregnados de nossa cultura, e sem ela não somos A nem B. E não importa, ou não deve importar, se somos brancos, negros, bonitos, feios, homo ou heteros, se somos dotados ou não. Se somos jovens ou não. Neste novo milênio, nossa luta deve ser contra QUALQUER tipo de discriminação. E ele, na verdade, só poderá ser novo se nos despojarmos de nossas velhas e fedorentas mazelas. Nós que vivemos aqueles anos de chumbo, que chutamos o balde, que abrimos portas fechadas, que penetramos em quartos escuros e proibidos. Nós, mulheres, que repudiamos o machismo, o casamento como profissão, a maternidade como único projeto de vida, a servidão feminina, que durante séculos nos humilhou. Vamos partir deste pós-racial e reiniciar, ao lado dos mais jovens, a luta que iniciamos na nossa juventude e que agora, como num belo despertar, nos parece fascinante, como naqueles velhos tempos. Ainda que estejamos certos de que a vitória jamais será definitiva, que sempre haverá muita coisa a combater.
E afinal, quem sabe, nós, contemporâneos dos velhos sonhos de um mundo mais justo, poderemos dizer que valeu a pena, e que não sonhamos o sonho errado ou impossível.
O título não é meu. Roubei-o de Demétrio Magnoli, extraordinário sociólogo da USP. Ilustra um artigo publicado no Globo, logo antes da eleição de Obama. Magnoli chama a atenção para a importância da eleição de Obama, mas não por ser negro. Assinala que, ao contrário de Jesse Jackson, Obama jamais se apresentou como negro, mas como americano, filho de um negro queniano e de uma branca americana. Tem uma irmã, filha de sua mãe com um indonésio, e que é casada com um chinês. Obama tem parentes na África, que comemoraram, com danças típicas, sua vitória. É cidadão do mundo, que supera até as chamadas fronteiras nacionais. Obama significa o pós-racial, o pós-radical nacional, Obama é o pós-moderno.
Dizem que o século XIX só acabou com o fim da Primeira Guerra. Encanta-me pensar que Obama, com sua bela figura pós-racial, nos introduz, afinal, no Terceiro Milênio. E uma vez derrubado o muro que dividia o mundo em dois, Obama significa o pós-ideológico, onde não cabe nenhum sectarismo. Com ele, não dá para pensar em passado, não dá para ser anti-semita, não dá para fanatismos nacionalistas ou religiosos. Tudo isso nos parece ridículo e, ainda mais, odioso. Com ele, recriamos força para brigar contra qualquer preconceito, como sua mãe, que pertencia àquela geração nascida durante ou logo após a Segunda Guerra, e que, nos anos 60 e 70, começou a dizer não ao que estava estabelecido. Obama é o ressurgimento vivo, jovem e belo, de um velho sonho. Temos vencido muitos preconceitos, mas ainda há muita coisa a fazer. Mas, se Obama representa nossa definitiva entrada no século XXI, cotas raciais representam a volta ao passado. Cotas raciais dividem, quando o que se espera é a união, cotas raciais empurram para debaixo do tapete o grande problema do ensino público e promovem a estagnação do país. E tenho certeza de que, no futuro, vamos ter um novo tipo de preconceito, contra o profissional negro, suspeito de pertencer às cotas e de ter tido, portanto, sua trajetória facilitada. E os movimentos negros, que procuram estimular ao máximo a segregação? Mas é politicamente correto defender cotas e movimentos negros, seja a que custo for.
Lembro-me de meus primórdios como professora de francês. Tínhamos, então, a impossível tarefa de transformar nossos alunos, e nós mesmos, em franceses. Pronúncia perfeita, entonação, e até gestualidade! Durante cerca de duas horas, tentávamos em vão uma tarefa, já de cara, impossível. No pós-colonialismo, encontramos o justo objetivo, somos brasileiros, espanhóis, ingleses, chineses, que falam, ou aprendem uma outra língua. Somos para sempre nós mesmos, seja onde for e em qualquer circunstância. Estamos impregnados de nossa cultura, e sem ela não somos A nem B. E não importa, ou não deve importar, se somos brancos, negros, bonitos, feios, homo ou heteros, se somos dotados ou não. Se somos jovens ou não. Neste novo milênio, nossa luta deve ser contra QUALQUER tipo de discriminação. E ele, na verdade, só poderá ser novo se nos despojarmos de nossas velhas e fedorentas mazelas. Nós que vivemos aqueles anos de chumbo, que chutamos o balde, que abrimos portas fechadas, que penetramos em quartos escuros e proibidos. Nós, mulheres, que repudiamos o machismo, o casamento como profissão, a maternidade como único projeto de vida, a servidão feminina, que durante séculos nos humilhou. Vamos partir deste pós-racial e reiniciar, ao lado dos mais jovens, a luta que iniciamos na nossa juventude e que agora, como num belo despertar, nos parece fascinante, como naqueles velhos tempos. Ainda que estejamos certos de que a vitória jamais será definitiva, que sempre haverá muita coisa a combater.
E afinal, quem sabe, nós, contemporâneos dos velhos sonhos de um mundo mais justo, poderemos dizer que valeu a pena, e que não sonhamos o sonho errado ou impossível.
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