QUEM SOU EU

Sou professora de Francês, mas hoje minha principal atividade é escrever e ler, além de cuidar dos meus três vira-latas: Charmoso, Príncipe e Luther.



Gosto de fazer ginástica, sou vegetariana e adoro animais em geral, menos baratas.



Sinto especial prazer quando meus textos agradam aos meus leitores. Espero continuar produzindo e me comunicando com todos os meus amigos, neste maravilhoso universo da net.



Seguidores

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Mulheres apaixonadas

Sábado passado, havia um bloco de carnaval bem defronte à minha casa. A folia era animada com velhas músicas, aquelas que animaram os carnavais de nossa juventude e até de nossa infância. E, dentre muitas outras, ouvi repetidas vezes uma das mais lindas: “Bandeira branca”. Lembro-me de que era cantada por Dalva de Oliveira, e começa e se repete com a confissão da derrota de uma mulher apaixonada: “Bandeira branca, amor, não posso mais. Pela saudade que me invade, eu peço paz.” Foi composta em 1970, poucos anos antes da morte de Dalva. Não sei se a escolha da cantora foi proposital, mas pode-se pensar que sim. Há pouco tempo, vi pela televisão, como milhões de outros brasileiros, uma mini-série que contava a tumultuada vida amorosa de Dalva de Oliveira e Herivelto Martins. Parece que a história contada foi bastante fidedigna, já que teve a aprovação de Perry Ribeiro, filho de ambos, cantor muito popular no auge da Bossa Nova.

Mas, ao assistir à mini-série, e aos grandes conflitos vividos por uma mulher apaixonada e um homem que a considerava como propriedade sua, que a traía e mantinha, por razões de segurança, sobretudo profissional, o casamento e uma aparente vida familiar, não pude deixar de lembrar-me de muitas outras histórias de paixão, ódio, submissão e vingança. E a primeira a me vir à mente foi a de Diane, princesa de Gales. Dalva era filha de um carpinteiro, Diane de um conde. Uma morreu aos cinqüenta e cinco anos, a outra aos trinta e seis. Ambas acreditaram no amor. Estou certa de que Diane casou-se apaixonada, afinal o pretendente era um príncipe, e ela era muito jovem. Traídas, resolveram se vingar traindo. Diane foi escolha definida por necessidades da realeza britânica, e Dalva pela ambição de sucesso de seu parceiro. Traídas, falaram muito, queriam vingança. Colocaram em público suas vidas íntimas. Dalva e Diana, de origens tão diferentes, com vidas tão diferentes, tinham em comum um traço que desenhou seus destinos: foram mulheres apaixonadas. Vítimas da traição, se vingaram da mesma forma. E feriram-se ao tentar ferir seus homens. Não muito antes de morrer, numa entrevista Diane chocou o mundo. Ali, ela expunha sua vida, suas aventuras, e seu rancor. Há poucos dias, procurando informações na internet, vi uma entrevista de Dalva, feita pouco antes de sua morte, muito tempo depois da separação. Surpreendeu-me sua incontida mágoa.

Há, na literatura universal, obras magistrais acerca do domínio da paixão sobre mulheres. Basta lembrar Emma Bovary e Anna Karenina. Flaubert e Tolstoi, geniais escritores, conhecedores profundos da alma humana, souberam magnificamente descrever os conflitos que cercam a paixão e o adultério. Paixão e adultério, que, sob formas diferentes, ainda atormentam em nossos dias muitas mulheres. Anna de Assis, paradigma real das outras duas, também viveu uma paixão, que culminou não em uma, mas em várias tragédias sucessivas. Minha avó Joana, mãe de minha mãe, também viveu intensamente uma paixão. Por ela abandonou um lar estável e fugiu com o homem que a seduzira. Grávida, foi abandonada e trazida de volta, por um irmão, para a casa materna, para sempre desonrada. Nasceu minha mãe, Alice, registrada como “filha natural de pai desconhecido”. Também minha avó paterna, viúva aos vinte nove anos, com quatro filhos, apaixonou-se perdidamente por um ator português, que passava com uma Companhia pelo interior do Rio Grande do Sul. Por ele enfrentou tempestades. Mas a paixão terminou em separação e grande dor.

Mulheres apaixonadas sempre existirão. Mulheres que encaram a vida, em toda sua complexidade, como se tudo se resumisse à outra pessoa. E isto é diferente de amar. No amor, cultivamos projetos pessoais, falamos deles ao companheiro, e ele nos fala dos seus. Partilhamos. Somos indivíduos, encorajados a cultivar nossa identidade, nossa história, que não é, e não pode ser a do outro. Diz Simone de Beauvoir na sua magistral obra pioneira Le deuxième Sexe: “Tudo ainda encoraja a jovem a esperar do príncipe encantado sucesso e felicidade, ao invés de tentar ela própria a difícil e incerta conquista”. O livro foi publicado pela primeira vez nos fins dos anos quarenta, e provocou escândalo na sociedade francesa. Mas, ainda que haja coisas que hoje não mais aceitamos, ficou para nós, mulheres, a lição de que esta “difícil e incerta conquista”, que se chama “projeto”, é que dá sentido à nossa vida, e nos permite amar de verdade.

Lembro-me de meu desespero diante do progressivo abandono da vida que acometeu à minha mãe após a morte de meu pai. Logo eu, mulher que se orgulha de sua contemporaneidade, de sua independência, de seu amor maduro por um companheiro de muitos anos, onde direitos e deveres são igualmente partilhados. Como, então, entender que Alice desejasse tão ardentemente a morte, mergulhada durante seis anos numa cama, sofrendo constantemente a dor de sua perda. Até que, depois de muita luta, compreendi, e me conformei. E quando ela se foi, eu, que nunca me casei, nem havia usado aliança, pedi à médica que nos havia comunicado sua morte que me permitisse tirar de seu dedo aquele símbolo que a havia acompanhado desde seus quinze anos. Coloquei-o no meu, e falei-lhe, acariciando seu rosto, enquanto, emocionada, minha irmã chorava: “Adeus Alice, agora você está feliz ao lado dele.”

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

“Os Farsantes”

O título, tomei-o de um livro de Graham Greene, escritor, se não me engano, escocês. Li-o quando era bem jovem e fiquei impressionada. Anos depois o vi na tela, com Peter Ustinov e Elizabeth Taylor. Não me lembro bem do enredo, mas trata-se da vida tumultuada de alguns americanos, comerciantes e diplomatas, que vivem no Haiti. Mas, se esqueci detalhes do enredo, ficou-me na lembrança, desde a leitura do livro, a imagem do país miserável, governado por um ditador sanguinário – será que há algum que não seja? – e sua polícia política, formada pelos “Tontons macoutes”, cuja crueldade deixou-me pasma. E olhem que eu também vivia sob uma ditadura! O ditador chamava-se François Duvalier, “carinhosamente” chamado de Papa Doc. Aliás, Stalin também era chamado de “paizinho”.

No seu magnífico livro “Uma gota de sangue – história do pensamento racial”, Demétrio Magnoli, conta as origens do Haiti, que surgiu da maior de todas as revoltas de escravos. Teve como líder um certo François-Dominique Toussaint Louverture , nome que vi na fachada semi destruída do prédio do aeroporto de Porto Príncipe. Toussaint, de escravo analfabeto, tornou-se homem instruído, ávido leitor do iluministas. Em 1801, convocou uma Assembléia Constitucional que proclamava a “igualdade entre os homens e proibia distinções derivadas da cor da pele.” Dizia o artigo 5º. da Constituição: “Nenhuma outra distinção existe senão aquelas de virtudes e talentos, nem qualquer superioridade senão a garantida pela lei no exercício de um cargo público.” Concluindo que: “A lei é a mesma para todos, quer ela puna ou proteja.” Seu governo durou menos de um ano e, por desgostar a Napoleão, foi vencido pelas tropas francesas e levado para França, onde maus tratos o levaram à morte por pneumonia. Outro general tomou o poder no Haiti, Dessalines, que derrotou as tropas francesas. “O Haiti tornou-se a segunda nação soberana nas Américas, e a única no mundo emanada de uma revolução de escravos.” Dessalines determinava no artigo 14 da Constituição que “os haitianos devem ser, de agora em diante, designados pelo nome genérico de negros.” Tornou-se Imperador , mas foi assassinado algum tempo depois. E desde então o Haiti tornou-se uma sucessão de tiranias, até desembocar, em 1957, em Papa Doc. Médico, cujo “reinado” durou quatorze anos, e só teve fim com sua morte. Foi sucedido por seu filho Baby Doc, cujo perfil moral é o mesmo do pai. Sua ditadura teve fim em 1985, e, tendo sido generosamente acolhido pela França, desfruta, ou desfrutou – dizem que está falido - das delícias de uma mansão perto de Cannes.

No Haiti reinaram dezenas de tiranos, que empobreceram cada vez mais a população, enriquecendo-se e à uma elite corrupta que os seguia. Rafael Leonidas Trujillo fez o mesmo na vizinha República Dominicana. Acumulou imensa fortuna à custa da miséria de seu povo, e governava o país como sua fazenda particular. Era tão ordinário que dele dizia certo secretário de Estado americano: “É um filho-da-puta, mas é nosso filho-da-puta.” Foi assassinado em 1961, e seus assassinos foram cruelmente perseguidos, assim como suas famílias. Este “filho-da-puta” inspirou a Vargas Lhosa um magnífico livro, “A Festa do Bode”. Sucedeu-o seu filho Ramfis, assassino nato, que cometeu crueldades que se comparam às dos nazistas. Nadando na roubalheira, entre um assassinato e outro, especializou-se em comprar mundanas, que também eram atrizes como Kim Novak, Zsa Zsa Gabor, e muitas outras. Não sei quando foi apeado do poder, mas já morreu há muitos anos.E também havia Anastácio Somoza, ditador da Nicarágua, assassinado no Paraguay pelos Montoneros, com tiros de bazuca, nos anos oitenta.

Papa doc, Baby Doc, Rafael Trujillo, Ramfis, Somoza, e tantos outros, são produto do patrimonialismo, que confunde o público com o privado – fenômeno que nós brasileiros conhecemos bem – e da Guerra fria. Guerra fria, que, como todas as guerras, não coloca nenhum princípio moral, o que deixou claro aquele secretário de Estado americano ao referir-se a Trujillo. E é preciso que a gente não se esqueça que do outro lado também valia tudo.

Na América Latina sempre fomos vítimas de ditadores. Há uma extensa literatura que fala deles, na Venezuela, no Equador, na Argentina, na Bolívia. No Brasil, vivemos vinte anos sob uma ditadura, mas nossos pais já haviam amargado outra, a do Estado Novo. Hoje passados tantos anos, quando pensávamos nos ver livres de qualquer ditadura, seja de direita ou esquerda, vemos surgir um AI6, aquele dos “Direitos humanos”, um Chavez, um Correa, um Morales, e para substituir Somoza, um Ortega, que de tão insignificante pensei que havia morrido. E não podemos esquecer de Zelaya, candidato a filhote de Chavez, gentilmente abrigado em nossa embaixada, que virou uma espécie de cortiço. Vemos assassinos serem considerados heróis, e por gente de um governo que se diz democrático (“Afinal, diz Tarso Genro – Ministro da Justiça – ele (Battisti) matou por uma causa!” Mas, então, Bin Laden também mata por uma causa!). O que queremos hoje é que não exista mais gente miserável como os haitianos, que haja democracia, liberdade, que cada um seja respeitado como ser humano.

E que, ainda que vítimas de uma catástrofe natural, os haitianos, assim como todos os outros povos do mundo, nunca mais sejam vítimas dos tiranos, que os fizeram permanecer nas trevas da ignorância, tornando-os mais e mais miseráveis. Que gente como Papa Doc e Trujillo, sempre imundos e corruptos, e também os candidatos a sê-lo, sejam definitivamente varridos da História da Humanidade, e que essa raça cósmica que forma o gênero humano possa ser feliz neste espaço de tempo que temos por aqui, e que chamamos de VIDA.

Dádiva de Deus.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Começar de novo

Quero começar 2010 como se fosse meu primeiro Ano Novo. Fiz esta promessa para mim mesma. Começar ou recomeçar, como se todas as mágoas do passado houvessem desaparecido. Dizer como Jean Renoir, cineasta, filho do grande pintor, ao escrever suas memórias: ”Do passado só o melhor.” Não conseguiu, como também não vou conseguir, mas quero definitivamente abandonar muitas coisas, a começar por aquelas que, não sei por que razão, guardei em meus armários: bolsinhas inúteis, bilhetinhos remotos, toalhinhas usadas quando a carruagem parava para a troca dos cavalos e as senhoras desciam para molhar levemente o rosto (tenho um monte, todas presenteadas, lindamente bordadas, e que nem sei onde meter). Quero despojar-me de tudo que não for necessário, não aceitarei mais presentes inúteis, que a gente ganha aos montes no Natal e depois fica sem saber o que fazer: nem bolsinhas para guardar calcinhas, bijuterias, lencinhos. Quero doar- e também não sei a quem - vasinhos, potinhos, bichinhos, toda a parafernália que enche a casa e a vida da gente.
Tenho feito um combate intransigente à inutilidade, quero viver com simplicidade. Simplicidade em tudo. Não quero coisas que atravanquem minha vida. Quero colocar meus milhões de CDs no Ipod. E depois que conseguir chegar ao final desta tarefa, que me parece tão árdua quanto “Os Doze Trabalhos de Hércules”, ainda terei o problema de distribuir os originais. Isto depois de uma cópia de segurança no Bekape. Quero passar para DVD os outros milhões de vídeos que venho amontoando, tudo com a contribuição do Ricardo, ao longo dos anos. Sendo que a maior parte é totalmente inútil. E ainda temos dezenas de álbuns com fotos nossas, tiradas aqui e ali, que quero reduzir ao meu Ipod, colocar em DVD, assegurando tudo no Bekape. Mas aí, o que fazer com os álbuns que se amontoam na parte superior de nossos armários? Jogar fora? Impossível! Afinal, fotos traduzem recordações que fazem parte da vida da gente! Quero reduzir, minimizar. Meu sonho mesmo é ter acesso à nanotecnologia. Quero vender, doar, dar de presente, minha mesa de madeira escura, enorme, com cadeiras pesadas e desconfortáveis, que pertencem a um passado que não posso e nem quero reviver. Quero uma mesa clean, pequena, onde Ricardo, eu e alguns poucos amigos possamos nos instalar e papear. Quero abrir armários com o necessário, bem organizados, que a gente saiba o que contêm.
Na minha busca pela simplicidade, encontrei coisas desaparecidas há muito tempo, de que nem me lembrava mais. Algumas guardei, outras joguei fora. Não quero fazer como meu pai que jogava dentro de um velho baú de ferro, todas suas más recordações. Quando fui remexê-lo, após sua morte, pude fazer um balanço de tudo que o atormentava. O que me atormenta, e todos têm alguma coisa que mexe mal com a gente, conto para meu analista. E depois de minha morte, meus segredos irão embora comigo. Do meu passado, quero guardar minhas fotos de felicidade, as lembranças dos que se foram muito antes de minha chegada, mas que, afinal, fazem parte da minha história: meu tataravô, meu bisavô, minha avó aos quinze anos, meu pai jovem e lindo, cheio de projetos e esperanças, suas fotos dedicadas à minha mãe com dedicatórias cheias de paixão: ”... à minha querida noivinha...”, lindo! E confesso que jamais recebi uma dedicatória assim. E ela numa foto enviada às amigas “... vejam como é lindo meu noivo...!” Quero Felippe e Alice felizes, para sempre na minha memória. Em 2010, não vou mais pensar neles doentes, sofredores. Quero alegria, porque afinal não sei quantos anos me restam. Confesso que, como no caso das toalhinhas bordadas e inúteis, também não sei o que fazer com certas lembranças, mas tanto umas quanto outras vão sumir do meu dia-a-dia e dar espaço a coisas úteis e gostosas.
Quero lembrar o meu passado sem mágoas, não quero maldizer meus sonhos de juventude, aqueles dos meus anos dourados, que na verdade eram anos de chumbo, quero pensar o quanto era lindo sonharmos. 2010 será meu ano de recomeço, e espero fazer este recomeço sempre que abrir os olhos para um novo dia, porque 1º. de janeiro nada mais é do que uma data. Um dia dentre os 365 outros, e eu quero 365 para recomeçar, o que, diga-se de passagem, meu Ipod, meus vídeos e minhas fotos vão me ajudar a fazer.
E viva o recomeço!

domingo, 1 de novembro de 2009

O DESLEIXO

No início de minha adolescência, graças a uma bolsa de estudos de meu pai na França, tive a sorte de entrar em contato com outra cultura. Experiência incomparável, que nos proporciona, sobretudo nesta faixa de idade, o que se convencionou chamar “visão no espelho”, fenômeno em que, confrontado ao outro, o estrangeiro, percebemos a nós mesmos, numa dimensão diferente. Pude, graças a isto, começar desde cedo a desenvolver um olhar crítico sobre a sociedade em que vivia. É verdade que acabei cultivando certas crenças que me acarretaram alguns problemas, mas considero que, afinal, consegui, com este olhar crítico, chegar à juventude com maturidade e já ao entardecer da vida com uma suficiente sabedoria, que nossa educação brasileira pequeno-burguesa sonega aos filhos. Tive ainda a felicidade de encontrar um companheiro como Ricardo. Suas reflexões sobre nossa realidade, nossos longos bate-papos, permitiram um debate sobre tudo aquilo que me parecia perverso no país. E com “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, que li avidamente, como que coroando tudo que havia percebido e discutido, pude, digamos assim, sistematizar o que vinha pensando e debatendo até então.
Não foi novidade para mim, a triste afirmação do autor de que somos uma “sociedade” do “cada um por si”, mas lendo-o conheci o contexto histórico desta nossa triste realidade. Já há muito tempo, só para ilustrar para mim mesma, fico observando o que se passa ao meu redor e não sei se devo rir ou chorar. Aliás, acho que chorar é melhor, porque mostra que, afinal, não aprovo e não quero ser assim. Comecemos com a academia de ginástica que freqüento, onde pesos de quase cem quilos são invariavelmente deixados nos aparelhos para quem vier depois se virar como puder. Em anos de freqüentação, só encontrei uma única alma caridosa, que vendo que havia sido descortês, veio pedir-me desculpas e retirou os pesos. A partir de então ficamos amigos, e o considero um verdadeiro cavalheiro. E ainda há as conversas nos aparelhos, ou as alternâncias intermináveis entre amigos, que privatizam um espaço que é de todos, que pagam (a mesma quantia). Isto sem falar no suor, que não raras vezes inunda assentos, encostos e colchonetes, e que a gente é obrigada a secar e limpar com o detergente, que os instrutores colocam por todo lado. Uma amiga chegou a ficar perplexa porque eu, que pouco transpiro, limpei o aparelho ao deixá-lo. E tem também os ventiladores que, freqüentemente, metem na cara da gente, ou desligam como se nem existíssemos. Como sou atrevida, logo protesto, algumas vezes ouço desculpas, outras recebo uma cara séria, já meio ofendida. Mas não me dou por vencida e defendo sem temor meus direitos, doa a quem doer como diz Boris Casoy.
Tudo isto pode ser englobado numa palavra: DESLEIXO. Diz Sérgio Buarque de Holanda que esta é uma palavra que não tem correspondente em nenhuma outra língua. E, realmente, saindo do Brasil jamais encontrei alhures correspondente concreto deste nosso traço civilizacional. Desleixo na relação com os outros, desleixo na conservação de um patrimônio privado que serve a todos, e pelo qual todos pagam. Há o desleixo com o que é público, de imediato transformado em bem privado. Mas uma das coisas que mais me fascina são as calçadas, hoje, pelo menos na nossa região, infalivelmente, de pedras portuguesas. Como sou obrigada a olhar quase o tempo todo para baixo, evitando buracos perigosos, que já me fizeram torcer o tornozelo – sempre o esquerdo – pelo menos umas três vezes, fico observando o “desenho” que “enfeita” nossas perigosas calçadas. Há um desenho recorrente de um animal que penso pretende ser um cavalo marinho. Mas o de nossas calçadas tem uma espécie de asa, ou coisa parecida, que pode fazer pensar num dragão. Já procurei na Google imagens do bichinho e li alguma coisa sobre eles, já que gosto tanto dos animais, e acho que se forem cavalos marinhos devem ser machos, guardando no ventre os ovos, já que têm, ou tinham, uma barriga proeminente. Mas seja lá o que for, de cavalos marinhos há muito se transformaram em outra coisa. Um dia desses, dei-me ao trabalho de observar atentamente cada um desses finados animaizinhos. Constato, então – sem nenhum espanto-, que poucos, pouquíssimos sobraram. Num percurso de cerca de duzentos metros, há coisas interessantíssimas. A maioria perdeu o rabo e engordou incrivelmente no conserto que tentaram (?) fazer. O rabo juntou-se à barriga e o bicho ficou estranhíssimo, redondo e sem o rabinho revirado que o caracteriza. Outros perderam este membro, e o focinho característico, transformando-se em um bicho inidentificável. Há um, pobrezinho, que perdeu tudo isto e engordou tanto, que virou um saco sem forma definida. E há ainda uns dois ou três que foram cruelmente esquartejados. Deles resta alguma coisa parecida com a cabeça na beira da calçada, ou perto das edificações, o rabo, ou algo parecido, sempre em direção oposta, e, finalmente, um corpanzil, que restou inerte, como prova do homicídio doloso do DESLEIXO, bem no meio da calçada. E finalmente, outros foram volatizados, misturados às pedras claras.
Na praça onde moro, toda coberta das malfadadas pedras, vejo de vez em quando um grupo de operários “consertando” o buraco que a chuva causou. Felizmente não há figuras, que foram substituídas por horríveis remendos. Os desníveis – aliás, alguém conhece uma calçada nivelada no Brasil? - são perigosíssimos, e entre uma pedrinha e outra há quase um centímetro de distância. Os operários colocam displicentemente as pedras, batem com um martelo – não sei se é especial-, coçam a barriga e falam de futebol. O resultado final é horroroso, e perigoso. Como gosto de usar saltos altos, há trechos em que não me aventuro sozinha. Logo eu que já tenho experiência com as calçadas!
Para terminar, um pequeno relato. Há alguns dias, estava eu mostrando ao meu netinho de dois anos os coelhinhos em uma loja vizinha, havia chovido. De repente, uma água imunda cai no meu rosto e entra pela minha boca. Sorte que não foi nele! Sinto algo viscoso, nojento, entrando-me pela boca. Cuspo imediatamente, e repito a operação várias vezes. Corro para casa, escovo os dentes, passo desinfetante bucal. Mas antes de disparar para casa, olho para cima. A água goteja de vários buracos na marquise, onde deveria haver alguma iluminação. Arrancaram as luminárias, os fios estão à mostra, enrolados e enferrujados, gotejando, certeiramente nas cabeças dos passantes a imundice que se acumulou. Mas, afinal, somos uma “sociedade” do “cada um por si”, do “salve-se quem puder”! E não há porque se surpreender.
E uma pergunta que não posso calar: por que estamos tão revoltados com nossos políticos, que não são nada mais do que a mais clara e descarada expressão do país?
E foram eleitos por nós!
E uma notícia de última hora! O que vocês acham dos detectores de armas que há um tempão – não me lembro quanto – foram abandonados em um galpão, ou coisa parecida, justo no Rio de Janeiro? Foram encomendados para vigilância de nossas fronteiras e custaram milhões! Afinal quem será o responsável? Algum dia ficaremos sabendo? E alguém será punido? Ou ainda mais, teremos notícia do destino que tiveram? Afinal é o nosso dinheiro!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Lá se foi Mercedes...

Há alguns dias morreu Mercedes Sosa, musa de uma geração que sonhou com um mundo melhor. Mas este sonho já faz muito tempo! Longínquo tempo! Não direi, como Cazuza, que nossos heróis morreram de overdose. Nossos heróis morreram de velhice, de inanição, provocada pela nossa descrença. Morreram de morte lenta, nos nossos corações e mentes, levados pela nossa dolorosa queda no mundo real. Levamos um susto ao confrontar heróis que se transformavam em vilões. Ídolos que, de repente, caiam como aquela estátua de Lênin, na Praça Vermelha. Mas no meu coração, no entanto, guardo a voz forte, a figura linda de índia poderosa daquela mulher que cantava as coisas que gostaria de poder cantar. Puro encantamento, durante horas, enquanto a ouvia com amigos.
Naquele tempo, quando acreditávamos nestes sonhos, Fidel, com sua incontestável sedução, nos parecia uma figura messiânica, a imagem do Cristo-Chê nos embalava e nos dizia que ele, afinal, morrera por uma causa nobre, e as imagens que nos chegavam de Lênin, meio borradas, discursando com gestos dramáticos para uma classe operária que se libertava da secular opressão, nos empolgava. Éramos jovens, e o que seria da juventude se não sonhasse? No Brasil, surgia o movimento dos sem-terra, escravos da gleba, reivindicando o que lhes fora furtado, um pedaço de chão, onde pudessem fazer mais do que deixar apodrecer a carcaça maltratada, como diz o poema de João Cabral. Vivíamos sob uma ditadura, nojenta, como hoje sei que são todas as ditaduras. Mas nós víamos o mundo de forma maniqueísta, dividido em direita e esquerda, em oprimidos e opressores. E tínhamos uma esperança, a de que aquela ditadura, como, aliás, acontece com todas, um dia apodrecesse.
Naquele tempo, Lula e sua turma de metalúrgicos não era conhecida, poucos sabiam de sua existência. Nem se sonhava com um partido de trabalhadores. Mas quando ele surgiu, consideramos um grande avanço. E poderia ter sido! Acreditamos na sua singela honestidade, como acreditamos no movimento dos sem-terra, na Teologia da Libertação, nas pastorais. E pouco a pouco, como a ditadura, tudo aquilo foi apodrecendo. Lula, cuja eleição aplaudimos, mesmo que muitos de nós não acreditasse mais nos velhos sonhos, mas acreditando na sua sinceridade, mostrou-se um populista barato, capaz de qualquer coisa para manter o poder para seu grupo. O movimento dos sem-terra transformou-se em um movimento marginal, para o qual não existem limites, que age à margem da lei, acobertado pelo governo, que, por baixo dos panos, passa milhões aos seus chefes. E onde foi parar a Teologia da Libertação? O que vemos são Betos e Boffs, para a maioria de nós, totalmente desacreditados. E Pastorais, como a indigenista, estimulando os índios à rebeldia sem nenhuma responsabilidade quanto a seu futuro? Todos estes cooperaram para que gente como Ronaldo Caiado e Kátia Abreu, merecessem o nosso apoio, ou melhor, o apoio de gente que, como eu, já não vê o mundo em preto e branco. Gente que já passada nos anos, abandonou os sixties, e se considera já velha para ilusões perdidas.
Gostaria de poder dizer que meus heróis não morreram, que sempre viverão nos meus sonhos. Mas dos meus sonhos, daqueles de outrora, surgiu gente como Chávez, Corrêa, Morales, os Kirchner, ou aquele da Coréia do Norte, cujo nome não interessa. Quando vejo cenas como a da destruição das plantações de laranjas, sem que tenha havido qualquer punição, quando ouço Boff dizer, respondendo a um jornalista, que o fim do comunismo significou o fim das esperanças para os “excluídos”, quando vejo gente como o assassino Battisti ser defendido pelo Ministro da JUSTIÇA (!), sinto que aquilo com que toda uma geração sonhou apodreceu. Quando vejo tudo que se passa à minha frente, sinto medo do que poderá vir. E se isso significa ser da direita, confesso que me converti, mudei de lado.
Mas daquele lado, lá de longe, do meu passado, restou a voz forte e quente de Mercedes Sosa, inesquecível musa, em quem sentíamos o calor de um coração sincero.
Saudades da inocência, dos sonhos antigos, da juventude. Saudades de Mercedes.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A vida...”Sei lá!”

Gostaria de ter a inspiração de Vinícius de Morais para poder falar de forma tão linda de nossa fragilidade, de nossa finitude, enfim da vida. Vida que ganhamos e perdemos, perdidos na solidão de nossa individualidade.
Realmente, amigo poeta, “a gente mal nasce e começa a morrer”. Mas há tanto a fazer entre este começo e o fim que desponta desde então! Há perdas, dolorosas, mas também há ganhos. E é preciso saber que “depois da chegada vem sempre a partida, porque não há nada sem separação” Perdi Felipe e Alice, mas ganhei Bertrand e Luíza. Lindos, já despontando para o que desejam no futuro: ela estilista de moda, ele... ainda em dúvida. E quando Sérgio se foi, no espaço de poucas horas, alguns dias depois de eu haver chegado de uma deliciosa viagem! Achei que a vida havia me passado uma rasteira! É verdade, amigo poeta, que “a gente nem sabe que males se apronta, fazendo de conta, fingindo esquecer.” Teresa e eu perplexas diante desta tão súbita separação. Mas então ganhamos Felipe, um outro, de olhos enormes, expressão doce, amoroso. Perdemos Sérgio, e ganhamos Felipe. É a vida, que nos ensina que “nada renasce antes que se acabe e o sol que desponta tem que anoitecer”.
E assim ficamos nós duas, Teresa e eu, unidas mais do que nunca. E a gente, como todo mundo, fingia esquecer que ainda viriam outras separações. E então, num dia ensolarado de maio, dizemos adeus a Zé Carlos. Teresa, viúva, os filhos, eu, amigos. Diz o poeta que a vida é uma grande ilusão. Na juventude nos iludimos com uma eterna juventude, na maturidade escondemos de nós mesmos nossa finitude, tão presente por todas as perdas que já sofremos. E não adianta querer brigar, “a vida tem sempre razão.” Mas foi depois de todas estas separações que ganhamos João, com carinha de gaiato, agora já despontando para paixões: “Mãe, acho que estou apaixonado!” João que quando abraça, com todo amor que guarda no peito, quase nos derruba.
E foi então que a vida nos levou Teresa. Digo a vida porque vida e morte se complementam, mas a gente sempre finge esquecer. Dor em todos nós, dor tão grande que quase não cabia no peito, que parecia querer explodir. E quem disse que esta dor não dói fisicamente? Mas a vida tem sempre razão: não pode haver chegada sem a partida. Mas foi então, quando começávamos a nos consolar, que Deus nos deu Miguel. Um ano e dez meses, capaz de cantar todo “Parabéns prá você”, e que conta que vovó Teresa foi para o céu e virou uma estrelinha. E indaga, e conta histórias. Lindo!
Viemos Sérgio, Teresa e eu, como ganhos depois de perdas. E também vieram Bruno, Ludmila, Bertrand e Alice. Um dia, nós também seremos perdas, e haverá outros ganhos. Mas, acima de tudo, para viver esta experiência extraordinária que Deus nos dá é preciso amá-la, experimentar a paixão de estar vivo.
Eu tive tantas perdas e tantos ganhos! Já há muito tempo aprendi isto que diz o poeta. E acho que a vida, apesar de tudo, tem sido generosa comigo. Além de todos estes ganhos, tenho um só meu, Ricardo, que me acompanha e compartilha comigo esta paixão da vida.
Há exatamente quatro anos, às seis horas da manhã, recebi a notícia de que Teresa havia falecido. E até hoje, há momentos que tenho o impulso de telefonar-lhe, chamá-la para juntas tomarmos um cafezinho, fazer confidências.
E sei que será assim até o fim. Mas, afinal, não há amor sem separação.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O Império do efêmero ou A Geração sem idade

Ambos os títulos, copiei-os: o primeiro de um fantástico livro de Gilles Lipovetsky, o outro da reportagem de capa da revista “Veja” de algumas semanas atrás. Gilles Lipovetsky é daquela turma dos “nouveaux philosophes”, como Bernard Lévy, que despontaram nos anos sessenta e teorizaram sobre os grandes movimentos de renovação dos sixties. Como o próprio Lévy, e alguns outros, Lipovetsky, cansou-se da carrancuda dialética marxista e trocou Marx por Tocqueville, tornando-se um liberal. Tem livros que derrubam mitos há muitos estabelecidos, como “La troisième femme” ou “Le crépuscule du devoir”.
Em “L´Empire de l´éphémère – La mode et son destin dans les sociétés modernes”, ele fala da evolução da moda na história e sua importância na sociedade moderna. Fala do “prêt-à-porter”, e da democratização da estética. Gilles Lipovetsky fala daquilo que não fica bem intelectuais falarem. Não tem medo. Põe em dúvida o que se estabeleceu como único motivo de reflexão, nossas eternas cogitações, que como diz certa propaganda da televisão, produz perguntas e não respostas. Quer falar do efêmero, ou seja, da própria vida, com sua celeridade, que torna tudo passageiro, nossa juventude, nossa beleza, nossa saúde. Afinal, senhores intelectuais, o quê não é efêmero? No efêmero da moda, e da beleza em geral, se oculta um universo que podemos desvendar e assim compreender melhor nossa trajetória no mundo. E diz ele logo no início da apresentação: “A questão da moda não faz furor no mundo intelectual. O fenômeno precisa ser sublinhado: no momento mesmo em que a moda não cessa de acelerar sua legislação fugidia, de invadir novas esferas, de arrebatar em sua órbita todas as camadas sociais, todos os grupos de idade, deixa impassíveis aqueles que têm vocação para elucidar as forças e o funcionamento das sociedades modernas.”
O que me levou a retomar o livro, já lido há algum tempo, é justamente a sua pertinência neste início de século, em que a moda, onde se insere a beleza, ou vice-versa, ocupa, sem medo ou falso pudor, seu lugar em nossa sociedade. Queremos todos a beleza, a elegância, o máximo prolongamento da juventude. Nós todos, homens, mulheres, jovens, maduros, velhos. Vejo na academia de ginástica, que freqüento diariamente, a democrática convivência de homens e mulheres de todas as faixas etárias, todos ajustados em suas malhas, sem distinção de indumentária, sem complexos. Mulheres maduras, e muito maduras, como eu, usam as mesmas peças que as jovens. Cuidamos de nossos corpos como um valioso patrimônio, afinal o único que temos de fato. Vejo num canal de TV por assinatura uma pletora de programas dedicados à beleza, à moda, à juventude: “10 anos mais jovem”, “Esquadrão da moda”, “Timm Gun”, “Mude meu look”, “Glamour e.... (?)” são tantos que já me perdi. Uma dessas tardes, resolvi passar todos em revista, e durante horas estive embevecida com a moda, a beleza, a juventude. E saibam que havia acabado de ler “Le ventre de Paris” de Zola. Ou seja, não fiquei burra por curtir aquele desfile do que chamam de supérfluo, efêmero. Ou fútil. Imagino um mundo sem isso e acho que deve ser prá lá de entediante. E o sucesso é tamanho que já há similar em canal aberto, aqui no Brasil. E sem esquecer que neste momento, em São Paulo, tem lugar o maior salão especializado em produtos de beleza da América do Sul.
Pertencemos, Ricardo e eu, àquela geração que, como Lipovetsky, sonhou com um mundo socialista, o único, críamos nós, capaz de gerar justiça social. Hoje, passados tantos anos, nada temos a lamentar, vivemos intensamente o nosso momento, acreditamos nele do fundo de nossos jovens corações. Hoje, já no crepúsculo, ainda cremos firmemente na justiça social, e esperamos por ela, mas também sabemos que já migraram para a História os sixties, Woodstock, a imagem do Cristo-Chê. Nossa geração é aquela que aparece na reportagem da “Veja”, a que vive intensamente a vida, sem culpa, porque sabe o quanto ela é efêmera. Vejo uma foto de minha mãe, mais jovem do que sou hoje, e me causa lástima. Pobres mulheres, como minha Alice, voltadas exclusivamente para o lar e os filhos, gordas, tímidas, eternamente submetidas a um macho comandante. Vejo minha mãe aos quarenta e oito anos, parece minha avó, hoje. Gostaria de poder inscrevê-la num “10 anos mais jovem”, vê-la rejuvenescida, exuberante. Linda e sensual como foi na juventude.
Confesso que já utilizei e continuarei utilizando todos os recursos que a moderna ciência e tecnologia colocam à disposição de mulheres vaidosas. Que sempre sentirei imenso prazer em discorrer sobre o efêmero, ou seja, sobre a própria vida, mas que jamais renunciarei às minhas leituras, minhas indagações, e meu amor a toda criação de Deus. Como me ensinou minha mãe.
E afinal, confesso que adoro esta minha futilidade e não poderia viver sem ela.