quarta-feira, 26 de maio de 2010
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Cidadania
Resolvi divulgar minha defesa, já que, como cidadã que paga seus impostos e jamais cometeu ato delituoso, senti-me profundamente agredida. Na minha consciência de cidadania, tenho feito a defesa de minha comunidade, sem temor de expor minha cabeça, como no caso do abaixo-assinado que fiz correr pelo bairro. Naquela ocasião levei pessoalmente a moradores e comerciantes o texto por mim elaborado, em que denunciava a presença ostensiva de traficantes na pracinha, nas barbas do Posto Policial, aliciando crianças como “aviões” e chegando ao ponto de pesar a droga nas balanças de uma padaria. Recebi respostas interessantes, de gente medrosa, como a do tipo que me veio me falar no golpe de 64, no PT, fazendo a apologia deste partido. Respondi-lhe que não se tratava de uma questão político-partidária, mas sim da defesa de nossas crianças e de nós mesmos. Ele, evidentemente, recusou-se a assinar.
O ano era 1997. Tendo conseguido certo volume de assinaturas, enviei, através de pessoas que tinham acesso a estas autoridades, ao Prefeito de então – Tarcísio Delgado – e também ao Comandante da Polícia Militar e ao Delegado Chefe da Polícia Civil. Jamais recebi resposta de ninguém. Mas não temi expor minha cabeça. E me orgulho disso.
“Minha defesa”
Quero esclarecer, antes de tudo, que não há o que defender na minha conduta e que, como cidadã, sinto-me profundamente indignada com o constrangimento a que fui submetida. Estava eu em casa, no dia 28 de abril do corrente ano, quando, ao atender ao interfone, fui informada por alguém que se dizia Fiscal da Prefeitura –Sr. Carlos Roberto Mazola (conforme documento anexo) - e que me dizia que um documento meu havia sido achado no lixo, o que me deixou assustada e perplexa, já que sou pessoa extremamente cuidadosa. Desci então à garagem, onde havia pedido ao citado Fiscal que me esperasse, pois não tendo constatado falta de nenhum documento, pensei poder tratar-se de golpe para penetrar em minha casa. Assim, ao encontrá-lo, acompanhado de outro Fiscal, mostrou-me um pedaço de papel rasgado com meu nome e endereço. Expliquei-lhe tratar-se de um informe de uma ONG internacional – Action Aids – ( e não de um documento meu) que ajuda crianças carentes. E que meu nome e endereço estavam impressos por tratar-se de correspondência. Expliquei ainda que de fato eu o rasgara e jogara no LIXO SECO, tendo entregue ao catador Joaquim, todo material reciclável devidamente acondicionado em sacolas plásticas. E ainda mais, que meu lixo seco é lavado, quando se trata de quentinhas ou garrafas, que pertenço ao Green Peace, que, aliás, ele me pareceu desconhecer. Invoquei o testemunho do porteiro – Carlos Antônio - e expliquei-lhe que simplesmente o catador Joaquim, conhecido em todo bairro de São Mateus, havia deixado escapar, no monte de material reciclável que junta e organiza, aquele pedacinho de papel. Irredutível, agindo de forma totalmente irracional, o citado funcionário da Prefeitura de Juiz de Fora, lavrou o auto de infração. Sendo que assinala um “horário de flagrante”, o que jamais poderia fazer já que nem ele nem ninguém me viu jogar o pedaço de papel no chão, “sujando” a via pública.
Insurjo-me contra este ato autoritário, em que um funcionário do poder público constrange e tenta punir um cidadão, tratando-o arbitrariamente como autor de ato delituoso. E creio que atitudes como esta não só revoltam, mas ainda dão do governo municipal uma imagem de incompetência e autoritarismo.
Não tendo nada mais a acrescentar, termino aqui “minha defesa” sugerindo à Secretaria de Política Urbana que dê uma vistoria na Praça Jarbas de Lery Santos, onde sujeira, folhas secas e galhos podres se amontoam.
sábado, 1 de maio de 2010
“La cantatrice chauve” em Juiz de Fora
Durante alguns anos, na Universidade Federal de Juiz de Fora, tive em atividade um grupo de teatro em francês “Théâtre Gavroche”, ao qual mais tarde se incorporou minha colega Walquíria. E uma das peças que encenamos chamava-se “Scène à quatre”. Foi assim, durante as leituras e os ensaios, que pudemos conhecer o extraordinário Ionesco e divulgá-lo aos que vinham nos assistir.
Engène Ionesco (1909 – 1994) é um dramaturgo franco-romeno que expõe em sua obra a incomunicabilidade entre os homens, a irracionalidade e a fragilidade nas relações humanas. Foi, juntamente com Samuel Beckett, autor do extraordinário “En attendant Godot” (“Esperando Godot”), um dos criadores do “Teatro do absurdo”. Coube a estes geniais escritores tornar explícito o que nos ocorre diariamente, sem nos darmos conta. E uma de suas peças – “La cantatrice chauve” (“A cantora careca”), de 1950, é apresentada em Paris, no Théâtre de La Huchette, desde 1957. Conta-se que se inspirou num método de ensino de inglês, onde frases desconexas se amontoavam com o exclusivo fim de ensinar estruturas gramaticais. Aliás, lembro-me de meus primeiros anos de ensino de francês (é claro que em 1950 eu não podia ser professora de nada!), lá pelos anos 70, em que nos debatíamos ainda com textos totalmente incoerentes, dentro dos padrões ditos “estruturais” do ensino de línguas. No caso da “Cantatrice Chauve”, dois casais, uma empregada e um bombeiro, que não se sabe como veio parar na peça, debatem absurdos. Ou, como repetem seus personagens, “parler pour ne rien dire”.
Mas, afinal, não é minha intenção discorrer sobre a obra, de que, confesso, nem me lembrava mais. Retomei-a, assim como tudo que conheço de Ionesco, graças à Secretaria de Política Urbana da Prefeitura de Juiz de Fora, através da “Lei municipal 11.197/06 arts 9º. -1,10º. – I e II, 88, 105-I, 108 parágrafo 3º. Decreto Municipal 9117/07 arts. 11,21parágrafo 1º., 3º. e 7º. , 22-III parágrafo único”. Só de ler este amontoado de palavras desconexas, eu, cidadã comum, sinto-me ameaçada e imagino quantos crimes deva ter cometido sem saber. E o pior, qual será minha pena?
Mas vamos ver como começou este teatro ionesquiano. Eram três horas da tarde, eu estava me acomodando para ler “Os anos loucos – Paris na década de 1920”, que Ricardo me presenteou. Já havia começado e estava ansiosa para prosseguir. Tilinha, nossa cadelinha, já estava deitada ao meu lado na poltrona, e Charmoso, nosso vira-lata, deitadinho na sua almofada. O gato Boris havia chegado, dado uma olhadinha e chispado para nossa cama, seu lugar predileto. Eu estava colocando os óculos e pensando que às quatro horas iria passar um café e comer um pãozinho prensado, que acho delicioso. Enfim, anunciava-se uma tarde muito agradável. De repente, ouço o interfone – Quem será? Atendo e mantenho o seguinte diálogo:
- Boa tarde. Eu queria falar com dona Maria Lúcia Viana.
- Sou eu.
- Sou da Fiscalização da Prefeitura e um documento seu foi achado no lixo.
Levo um susto imenso!
- Como? Um documento meu no lixo???!!!! (E já me imagino correndo de uma central burocrática para outra em busca de novos documentos. E o meu CPF, que vale mais do que minha vida? Por sorte, tenho identidade do Ministério do Exército, onde a burocracia é menor. Será? Tudo isto me passa pela cabeça enquanto corro desorientada em busca de minha bolsa – Onde a deixei? – E nestas horas, a gente nunca sabe onde deixou as coisas! Finalmente a encontro, busco a carteira onde guardo os documentos, verifico , torno a verificar. Está tudo ali. Mas então o que foi? Vem- me à mente, com terror, que talvez tenha deixado cair o meu DARF, aquele do monstruoso Imposto de Renda. Mas tenho certeza de que o guardei, lá em cima no armário. Tudo isto se passa num espaço de alguns poucos minutos. Volto correndo para o interfone e resolvo colocar a razão para funcionar)
- Olha, moço. Vou descer. Não estou entendendo. Espere-me na garagem.
- Por favor, traga um documento, preferencialmente o CPF.
Desço, imaginando alguma coisa ruim. Encontro, então, dois homens paramentados com coletes, tendo escrito nas costas em letras garrafais “FISCALIZAÇÃO – PREFEITURA DE JUIZ DE FORA”. O porteiro, meu amigo de muitos anos, sorri com o canto da boca, daquele jeito que só mineiro sabe fazer.
-Dona Lúcia, eu expliquei o que aconteceu, mas o homem não aceita.
Foi, então, que o absurdo me foi mostrado. O sujeito tinha nas mãos, entre outros papéis rasgados, um pedaço de um informe que recebo regularmente de uma entidade internacional de ajuda a crianças carentes para a qual contribuo. É evidente que deveriam colocar meu nome e endereço para que eu pudesse receber! Quando rasguei e joguei no LIXO SECO, ficaram intactos justamente este dois dados. E era este o “documento” meu que haviam achado no lixo!!!!! E eu estava sendo multada em “auto de infração” por sujar a rua!
Tentei esclarecer que sou uma disciplinada fanática, que meu lixo seco, é seco mesmo, que sirvo de motivo de chacota para toda a família, já que lavo quentinhas e garrafas, que acondiciono tudo caprichosamente, e entrego pessoalmente ao catador. Contei-lhe que carrego sempre sacolinhas de plástico – estou procurando as ecológicas – para recolher as fezes de meus cachorros, e que ensino isto aos meus netinhos, assim como o que se refere ao lixo seco. Que o catador, freguês meu há anos, havia deixado escapar aquele pedacinho de papel. Que faço parte do Green Peace (que ele nem deve saber o que é). Argumentei, tentei expor minhas ideais acerca de meus deveres de cidadã. Sugeri-lhe que desse a volta e olhasse a praça onde moro, onde a sujeira se acumula há vários dias. O bocó permaneceu intransigente, sempre me repetindo que eu havia violado uma lei municipal. Perplexa, abandonei toda argumentação, e só depois me lembrei de que, como não havia tido flagrante, já ninguém me vira “jogar o documento na rua”, “sujando-a”, eu não poderia ser indiciada. Afinal não é assim que age a justiça brasileira?
A descrição de minha infração é a seguinte:
“Por depositar lixo e/ou resíduo em via pública fora do horário estabelecido pelo DEMLURB”
Há ainda o local do flagrante (?), “no endereço acima citado, próximo à polícia, posto de polícia.” E também a data do “flagrante” e o “horário”. Mas como ele pode saber se ninguém me viu cometer o delito?
Abaixo ele assinalou entre outras opções “Fica ciente que deverá apresentar defesa (!!!) no prazo de 10 dias do recebimento deste ato.”
Assinei o documento – eu estava transtornada – e perguntei-lhe se deveria ser acompanhada de advogado. Negou. Mas meu advogado vai comigo. O mais engraçado é que o bocó que o acompanhava, também devidamente paramentado, segurava uma porção de talões de débito automático, todos amassados. Tive vontade de perguntar como iriam descobrir os autores do delito, mas já estava de saco cheio. Meu livro delicioso ficara aberto sobre a poltrona, meu cafezinho esvaiu-se naquele absurdo em que a Prefeitura de Juiz de Fora me afogou, minha tarde gostosa havia ido pelos ares. Antes de subir, já a caminho do elevador disse-lhe:
- E eu que votei nesse cara! Antes tivesse votada na opositora, colega minha de tantos anos, mas que é do PT! Bem feito para mim!
Subi, telefonei para Ricardo e combinamos um cafezinho no Shopping. Mostrei-lhe o documento. Estourou de rir “Justo você!”. E é isto que tenho ouvido de toda minha família desde aquele dia 28 de abril.
No dia seguinte encontrei Joaquim, o catador, contei-lhe a história. Atônito, comentou:
- E logo quem!
Mas, com a seriedade que a situação merece, o adverti:
- Olha, Joaquim, e se eu for presa, você vai comigo!
Ontem de manhã, quando voltava da ginástica, encontrei-o catando minuciosamente no chão tudo que encontrava. E havia até uma vassoura novinha.
O que me aconteceu expõe claramente o país patrimonialista, onde os “donos do poder” e seus acólitos consideram o cidadão simples objeto, cuja função é servir aos seus interesses.
Não sei qual será minha pena, mas quem sabe será semelhante à da bruxa que torturou a criancinha de dois anos? E ainda ontem , quando Ricardo voltava de seu passeio com Charmoso, Joaquim, aproximou-se e disse com convicção:
- Professor, está tudo errado! Tudo errado!
É verdade, Joaquim, você definiu bem o país: está tudo errado. E desde o princípio.
Pena que Ionesco e Beckett não estejam mais aqui!
sábado, 27 de março de 2010
La buena y la mala educacion
Nestes dias em que assisto ao fim de vida de uma mulher, lembrei-me do filme de Almodavar intitulado “La mala educacion”. A obra do espanhol só vem ao caso pelo título. Na verdade, Almodovar não é dos meus cineastas prediletos, mas tem o mérito de por a nu, sem escrúpulos, com absoluta “mala educacion”, tudo aquilo que a “boa sociedade” joga para baixo do tapete. E poucos têm a coragem de fazê-lo.
Mas, para começar, falemos um pouco do que poderia significar “La buena educacion”, que acho resultaria num filme muito interessante. Simone de Beauvoir já havia falado desta boa educação no seu livro “Mémoires d´une fille rangée”, onde conta sua vida e a educação que quiseram lhe impor. Conta sua infância, adolescência e o início de suas indagações, sua vida universitária, e a transformação definitiva ao encontrar Sartre. Trata-se de obra de uma grande intelectual, onde sua visão crítica do mundo que a cerca impressionou-me imensamente, assim como seu magistral “Le Deuxième Sexe”.
Estas obras me trouxeram muitas outras indagações, além das que já tinha, e novos conceitos que substituíram muitos dos que me haviam sido incutidos desde muito cedo. São as minhas metamorfoses, que fizeram de mim o que sou hoje. Mas, enfim, o que pretendo é fazer aqui algumas observações corriqueiras, ou talvez divagações, sobre aquilo de que não se falou: “La buena educacion”. E por que não também sobre a “mala”?
Afinal, o que é uma “jeune fille rangée”, ou a mulher, neste caso não importa a idade, provida de “buena educacion” ? E aí sou obrigada a retomar velhos chavões, que mesmo que hajam desaparecido do vocabulário da maioria das pessoas, ainda fazem parte das crenças profundas de muita gente. E logo me vem à mente aquela mulher que, coitada, não foi escolhida (seguramente porque tem algum defeito), e por isso não se casou, e assim sendo deve morrer “moça”. Ao pensar nela, na “buena educacion” , vejo claramente aquela que jamais se “perdeu” , a pobrezinha a quem nenhum homem “fez mal” . E morreu virgem. E ao cogitar da “buena educacion” , não há como impedir que me venha à memória minhas colegas de Faculdade, sem nenhum projeto profissional, que disputavam o mais belo enxoval! Será que isto ainda existe? ...enxoval?
Uma mulher bem educada, jovem ou não, pouco importa, tem algumas regras a seguir, ainda que isto lhe custe a felicidade e a vida. A “buena educacion” , humilha, mata, destrói, corrompe. A “buena educacion” me faz pensar em mulheres traídas, que não quiseram tomar seu próprio rumo, porque isto lhes exigiria um esforço, e, talvez, um compromisso que não se sentiam capazes de assumir, ainda que o fossem. A “buena educacion” faz-me lembrar de uma eterna criança, prima de minha mãe, e seu marido, que, gravemente doente, adotou uma menininha para que cuidasse da mãe na velhice, sendo a própria considerada incapaz para fazê-lo. O trágico é que esta “menininha” foi a grande causadora de sua morte.
Ao pensar na “buena educacion” , lembrei-me de histórias de mulheres que desenvolveram doenças graves, e morreram, afogadas na infelicidade de casamentos mal-sucedidos e filhos egoístas. Mulheres que deram a vida e tão pouco receberam em troca. Mas jamais disseram um palavrão, nem tiveram a coragem de enxotar de casa gente que as atormentava. Afinal “mulheres educadas” não podem buscar a felicidade. Mulheres educadas afogam suas mágoas com outras mulheres educadas, e, sem queixas, deixam a vida levá-las. Mulheres vítimas da “buena educacion” passam pela vida sem cogitar delas próprias, são boas mães, boas esposas, sacos de pancadas para todos.
Desde bem jovem, comecei a colocar em questão esta “buena educacion” e a cogitar da “mala” . É verdade que tive sempre a consciência de que tudo dependia de minha independência econômica, o que conquistei graças ao meu esforço, e me orgulho disso. Não fiz alarde de meus conceitos, levei meus pais, já velhos, para temporadas em estações de águas, mas não adotei jamais os princípios de uma menina bem comportada.
Minha “mala educacion” me permitiu chutar a dicotomia "moça/mulher" , “livre/escrava” (Quantas vezes ouvi dizer que fulana era uma mulher livre?) , "casada/encalhada" , "perdida/achada(?)" , "mulher da vida/mulher da morte (!)" , e alguns outros de que não me lembro. Contou-me meu mastologista – sou do grupo de risco já que minha mãe teve câncer de mama- que a maioria das mulheres que opera de câncer, sofreu desilusão amorosa ou foi abandonada. Ao que retruquei que há também aquelas cujos maridos trazem para elas a doença. E alguém já ouviu falar de algum marido traído, ou abandonado, que tenha desenvolvido, pela mágoa, câncer de próstata? Maridos traídos ou abandonados – em geral por maus-tratos às mulheres – muitas vezes resolvem o problema na base do tiro na cabeça. Da mulher.
Minha “mala educacion” me fez ficar “encalhada” aos olhos das mulheres de “buena educacion” até bem tarde. Mas me permitiu cultivar paixões, efêmeras, mas saborosas, o que moças bem-educadas não puderam fazer. Minha “mala educacion” me permite ainda hoje usar roupas colantes ao fazer minha ginástica diária, apesar dos meus muitos anos vividos, almoçar em restaurante diferente de meu companheiro, já que sou vegetariana, viajar quando quiser, ter minhas próprias opiniões. E, acho eu, ajudou-me a encontrar o amor, de alguém que se cansara, bem mais tarde do que eu, de moças bem-comportadas. Minha “mala educacion” me tira do célebre “grupo de risco”, me faz livre, e feliz, porque, afinal, não há bem maior do que a liberdade. E isto meu ginecologista, que me apresenta números, não sabe. E sei que somente a vontade de Deus poderá determinar o que virá.
A mulher que vejo, com sincero pesar, viver seus últimos dias, viveu todos os outros com seu exemplar comportamento. Deixará saudades, muitas. Haverá muita dor. Mas será que valeu a pena não ter tido um dia, pelo menos, de “mala educacion” ?
Mas, para começar, falemos um pouco do que poderia significar “La buena educacion”, que acho resultaria num filme muito interessante. Simone de Beauvoir já havia falado desta boa educação no seu livro “Mémoires d´une fille rangée”, onde conta sua vida e a educação que quiseram lhe impor. Conta sua infância, adolescência e o início de suas indagações, sua vida universitária, e a transformação definitiva ao encontrar Sartre. Trata-se de obra de uma grande intelectual, onde sua visão crítica do mundo que a cerca impressionou-me imensamente, assim como seu magistral “Le Deuxième Sexe”.
Estas obras me trouxeram muitas outras indagações, além das que já tinha, e novos conceitos que substituíram muitos dos que me haviam sido incutidos desde muito cedo. São as minhas metamorfoses, que fizeram de mim o que sou hoje. Mas, enfim, o que pretendo é fazer aqui algumas observações corriqueiras, ou talvez divagações, sobre aquilo de que não se falou: “La buena educacion”. E por que não também sobre a “mala”?
Afinal, o que é uma “jeune fille rangée”, ou a mulher, neste caso não importa a idade, provida de “buena educacion” ? E aí sou obrigada a retomar velhos chavões, que mesmo que hajam desaparecido do vocabulário da maioria das pessoas, ainda fazem parte das crenças profundas de muita gente. E logo me vem à mente aquela mulher que, coitada, não foi escolhida (seguramente porque tem algum defeito), e por isso não se casou, e assim sendo deve morrer “moça”. Ao pensar nela, na “buena educacion” , vejo claramente aquela que jamais se “perdeu” , a pobrezinha a quem nenhum homem “fez mal” . E morreu virgem. E ao cogitar da “buena educacion” , não há como impedir que me venha à memória minhas colegas de Faculdade, sem nenhum projeto profissional, que disputavam o mais belo enxoval! Será que isto ainda existe? ...enxoval?
Uma mulher bem educada, jovem ou não, pouco importa, tem algumas regras a seguir, ainda que isto lhe custe a felicidade e a vida. A “buena educacion” , humilha, mata, destrói, corrompe. A “buena educacion” me faz pensar em mulheres traídas, que não quiseram tomar seu próprio rumo, porque isto lhes exigiria um esforço, e, talvez, um compromisso que não se sentiam capazes de assumir, ainda que o fossem. A “buena educacion” faz-me lembrar de uma eterna criança, prima de minha mãe, e seu marido, que, gravemente doente, adotou uma menininha para que cuidasse da mãe na velhice, sendo a própria considerada incapaz para fazê-lo. O trágico é que esta “menininha” foi a grande causadora de sua morte.
Ao pensar na “buena educacion” , lembrei-me de histórias de mulheres que desenvolveram doenças graves, e morreram, afogadas na infelicidade de casamentos mal-sucedidos e filhos egoístas. Mulheres que deram a vida e tão pouco receberam em troca. Mas jamais disseram um palavrão, nem tiveram a coragem de enxotar de casa gente que as atormentava. Afinal “mulheres educadas” não podem buscar a felicidade. Mulheres educadas afogam suas mágoas com outras mulheres educadas, e, sem queixas, deixam a vida levá-las. Mulheres vítimas da “buena educacion” passam pela vida sem cogitar delas próprias, são boas mães, boas esposas, sacos de pancadas para todos.
Desde bem jovem, comecei a colocar em questão esta “buena educacion” e a cogitar da “mala” . É verdade que tive sempre a consciência de que tudo dependia de minha independência econômica, o que conquistei graças ao meu esforço, e me orgulho disso. Não fiz alarde de meus conceitos, levei meus pais, já velhos, para temporadas em estações de águas, mas não adotei jamais os princípios de uma menina bem comportada.
Minha “mala educacion” me permitiu chutar a dicotomia "moça/mulher" , “livre/escrava” (Quantas vezes ouvi dizer que fulana era uma mulher livre?) , "casada/encalhada" , "perdida/achada(?)" , "mulher da vida/mulher da morte (!)" , e alguns outros de que não me lembro. Contou-me meu mastologista – sou do grupo de risco já que minha mãe teve câncer de mama- que a maioria das mulheres que opera de câncer, sofreu desilusão amorosa ou foi abandonada. Ao que retruquei que há também aquelas cujos maridos trazem para elas a doença. E alguém já ouviu falar de algum marido traído, ou abandonado, que tenha desenvolvido, pela mágoa, câncer de próstata? Maridos traídos ou abandonados – em geral por maus-tratos às mulheres – muitas vezes resolvem o problema na base do tiro na cabeça. Da mulher.
Minha “mala educacion” me fez ficar “encalhada” aos olhos das mulheres de “buena educacion” até bem tarde. Mas me permitiu cultivar paixões, efêmeras, mas saborosas, o que moças bem-educadas não puderam fazer. Minha “mala educacion” me permite ainda hoje usar roupas colantes ao fazer minha ginástica diária, apesar dos meus muitos anos vividos, almoçar em restaurante diferente de meu companheiro, já que sou vegetariana, viajar quando quiser, ter minhas próprias opiniões. E, acho eu, ajudou-me a encontrar o amor, de alguém que se cansara, bem mais tarde do que eu, de moças bem-comportadas. Minha “mala educacion” me tira do célebre “grupo de risco”, me faz livre, e feliz, porque, afinal, não há bem maior do que a liberdade. E isto meu ginecologista, que me apresenta números, não sabe. E sei que somente a vontade de Deus poderá determinar o que virá.
A mulher que vejo, com sincero pesar, viver seus últimos dias, viveu todos os outros com seu exemplar comportamento. Deixará saudades, muitas. Haverá muita dor. Mas será que valeu a pena não ter tido um dia, pelo menos, de “mala educacion” ?
quarta-feira, 17 de março de 2010
Pegadas do passado
“Eu sonhei que tu estavas tão linda.
Numa festa de raro esplendor.
Teu vestido de baile, lembro ainda
Era branco, todo branco, meu amor
.................................................."
Voltei ao meu passado mais remoto. A primeira imagem que me veio à mente foi de minha avó Joana. E logo surgiu minha mãe, a pequena luz da máquina de costura acessa, pedalando ao som do rádio. Quem sabe aquela mesma canção, na voz poderosa de Carlos Galhardo.
Estávamos, Ricardo e eu, jantando em Tiradentes, à luz de velas, comemorando um dos meus tantos e tantos anos vividos. De repente uma dupla de músicos, violão e bandolim, entrou, e então ouvi esta canção. E com ela abri o arquivo de minha história.
Minha história... Cheguei àquele momento da vida em que começamos a rememorar, a trazer de muito longe lembranças adormecidas, mas que, ainda que adormecidas, estarão para sempre conosco. Até o momento final. Não tenho ilusões de que meu futuro é infinitamente menor do que meu passado. E não poderia ser de outra forma. Tenho tantas histórias para contar! Sempre fui boa observadora, e ouvinte. Cheguei a escrever um livro sobre a história de minha família baseada exclusivamente no que ouvia, sobretudo de minha mãe. Tenho-o guardado. Nem sei quem o leu, mas isto pouco importa. O que importa é o prazer de contar, de falar de um mundo que não existe mais; pessoas, lugares, hábitos, dramas. Não sei se algum dia contarei, não mais “tudo que me contaram”, mas “tudo que vi e vivi”. Diz Ricardo que tenho o talento gaúcho do “contador de histórias”. E aí está meu amado Érico Veríssimo.
Naquela noite, de frente a meu companheiro de tantos anos, diante de uma taça de vinho, falei ...e falei. Foi como se a memória de meu computador natural se abrisse e despejasse no ar, ao som de minha voz, tantas histórias. Falei de gente que já havia esquecido há muito tempo, revivi sensações. Lembrei-me da rua escura, num bairro distante, onde minha família se instalara após a transferência de meu pai para a cidade. Era iluminada por escassos postes altos, de luz amarelada, e, nas noites quentes, a criançada se reunia para brincar. Quase não havia trânsito e livremente transitávamos de uma calçada para outra. E ao descrever a rua, que revia de forma tão clara na minha mente, lembrei-me da mulher paupérrima que vivia em um casebre nos fundos de uma velha casa, bem defronte à nossa. Achava-a feia, mal-cheirosa. Nesta época, eu não tinha mais do que quatro anos. Somente bem mais tarde soube de sua miserável vida de prostituta. Tinha olhos azuis, cabelos louros, seguramente oxigenados, dentes estragados. Morava com a mãe e uma filha. Pobre gente! Já devem ter morrido há muito tempo.
Depois, mudamo-nos para uma vila, onde moravam quase exclusivamente militares. Lembro-me de minhas amiguinhas, todas filhas de militares, mas só guardei o nome de duas: Evinha e Léa. Brincávamos de pique - esconde, nos enfurnando nas varandas das casas, todas em estilo anos quarenta. Ou então brincávamos de estátua, o que eu detestava, já que nunca conseguia imobilizar-me de repente. E me lembro do cruel plano de surra numa menininha, justo no dia em que chegamos de mudança. Era filha da amante de um major, cuja filha fazia parte do grupo. Fiquei estarrecida. Por que bater nela? Não me lembro o que disseram, mas subi para casa aos prantos. Lembro-me bem que meu irmão me perguntava se haviam me maltratado, mas eu não sabia responder. Como acabou a história? Não tenho a mínima idéia.
E havia ainda tanta coisa a contar! Meu pavor dos “sujos”, que desfilavam no Carnaval, a cabeça coberta por uma fronha com dois buracos para os olhos e um para a boca. Acho que era assim, pois a única vez que vi um deles de perto, foi quando ele tocou meu ombro e, virando-me, vi aquele monstro medonho. Disparei aos gritos. Eu tinha cinco anos, mas disso me lembro bem. E dos beliscões de minha irmã, dez anos mais velha, quando eu ficava chateando seu namoro. Apaixonei-me por um de seus namorados, chamava-se José Félix, era gaúcho, como minha família, e lindo! Fiz até promessa quando ele propôs reatar o namoro, mas não deu. Fiquei penalizada. Como minha irmã podia ser tão burra!? E também me lembrei da moça loura, alta, que passava bem defronte à vila, na saída do colégio. Um dia deixou de passar, e então alguém me disse que havia morrido. Fiquei consternada! E também das festas de Cosme e Damião, quando a gente recebia um cornetinho feito de papel rosa, com balinhas dentro. E do meu horror à papinha que minha avó me obrigava a comer, feita de café com leite e pão picado, hábito da América espanhola, transplantado para a região da fronteira com a Argentina. Vi meu pai e minha mãe comerem isto a vida inteira. E sempre me causou o mesmo horror da infância. Lembrei-me de tanta coisa daquele passado tão remoto!
Hoje, aprendi a valorizar cada dia vivido, e dar graças por haver passado por muito sofrimento sem perder a alegria de viver. Compreendi a efemeridade de tudo e que de nada valem pequenas e mesquinhas vaidades, ainda que eu tenha a minha, mas que não é pequena nem mesquinha. Ouvindo naquela noite os dois músicos, que tocavam aquela velha canção, tive a certeza de que havia vencido. Sofrimentos, tive muitos, perdi minha família original, vi meu pai morrer cada dia, vítima de uma terrível cardiopatia, minha mãe sofrer durante seis anos,confinada à uma cama, minha irmã ser condenada pelo câncer, meu irmão morrer poucas horas depois de haver sido internado. Mas estou viva, lembrando aquele passado distante, diante do homem que amo, e brindando à vida.
Numa festa de raro esplendor.
Teu vestido de baile, lembro ainda
Era branco, todo branco, meu amor
.................................................."
Voltei ao meu passado mais remoto. A primeira imagem que me veio à mente foi de minha avó Joana. E logo surgiu minha mãe, a pequena luz da máquina de costura acessa, pedalando ao som do rádio. Quem sabe aquela mesma canção, na voz poderosa de Carlos Galhardo.
Estávamos, Ricardo e eu, jantando em Tiradentes, à luz de velas, comemorando um dos meus tantos e tantos anos vividos. De repente uma dupla de músicos, violão e bandolim, entrou, e então ouvi esta canção. E com ela abri o arquivo de minha história.
Minha história... Cheguei àquele momento da vida em que começamos a rememorar, a trazer de muito longe lembranças adormecidas, mas que, ainda que adormecidas, estarão para sempre conosco. Até o momento final. Não tenho ilusões de que meu futuro é infinitamente menor do que meu passado. E não poderia ser de outra forma. Tenho tantas histórias para contar! Sempre fui boa observadora, e ouvinte. Cheguei a escrever um livro sobre a história de minha família baseada exclusivamente no que ouvia, sobretudo de minha mãe. Tenho-o guardado. Nem sei quem o leu, mas isto pouco importa. O que importa é o prazer de contar, de falar de um mundo que não existe mais; pessoas, lugares, hábitos, dramas. Não sei se algum dia contarei, não mais “tudo que me contaram”, mas “tudo que vi e vivi”. Diz Ricardo que tenho o talento gaúcho do “contador de histórias”. E aí está meu amado Érico Veríssimo.
Naquela noite, de frente a meu companheiro de tantos anos, diante de uma taça de vinho, falei ...e falei. Foi como se a memória de meu computador natural se abrisse e despejasse no ar, ao som de minha voz, tantas histórias. Falei de gente que já havia esquecido há muito tempo, revivi sensações. Lembrei-me da rua escura, num bairro distante, onde minha família se instalara após a transferência de meu pai para a cidade. Era iluminada por escassos postes altos, de luz amarelada, e, nas noites quentes, a criançada se reunia para brincar. Quase não havia trânsito e livremente transitávamos de uma calçada para outra. E ao descrever a rua, que revia de forma tão clara na minha mente, lembrei-me da mulher paupérrima que vivia em um casebre nos fundos de uma velha casa, bem defronte à nossa. Achava-a feia, mal-cheirosa. Nesta época, eu não tinha mais do que quatro anos. Somente bem mais tarde soube de sua miserável vida de prostituta. Tinha olhos azuis, cabelos louros, seguramente oxigenados, dentes estragados. Morava com a mãe e uma filha. Pobre gente! Já devem ter morrido há muito tempo.
Depois, mudamo-nos para uma vila, onde moravam quase exclusivamente militares. Lembro-me de minhas amiguinhas, todas filhas de militares, mas só guardei o nome de duas: Evinha e Léa. Brincávamos de pique - esconde, nos enfurnando nas varandas das casas, todas em estilo anos quarenta. Ou então brincávamos de estátua, o que eu detestava, já que nunca conseguia imobilizar-me de repente. E me lembro do cruel plano de surra numa menininha, justo no dia em que chegamos de mudança. Era filha da amante de um major, cuja filha fazia parte do grupo. Fiquei estarrecida. Por que bater nela? Não me lembro o que disseram, mas subi para casa aos prantos. Lembro-me bem que meu irmão me perguntava se haviam me maltratado, mas eu não sabia responder. Como acabou a história? Não tenho a mínima idéia.
E havia ainda tanta coisa a contar! Meu pavor dos “sujos”, que desfilavam no Carnaval, a cabeça coberta por uma fronha com dois buracos para os olhos e um para a boca. Acho que era assim, pois a única vez que vi um deles de perto, foi quando ele tocou meu ombro e, virando-me, vi aquele monstro medonho. Disparei aos gritos. Eu tinha cinco anos, mas disso me lembro bem. E dos beliscões de minha irmã, dez anos mais velha, quando eu ficava chateando seu namoro. Apaixonei-me por um de seus namorados, chamava-se José Félix, era gaúcho, como minha família, e lindo! Fiz até promessa quando ele propôs reatar o namoro, mas não deu. Fiquei penalizada. Como minha irmã podia ser tão burra!? E também me lembrei da moça loura, alta, que passava bem defronte à vila, na saída do colégio. Um dia deixou de passar, e então alguém me disse que havia morrido. Fiquei consternada! E também das festas de Cosme e Damião, quando a gente recebia um cornetinho feito de papel rosa, com balinhas dentro. E do meu horror à papinha que minha avó me obrigava a comer, feita de café com leite e pão picado, hábito da América espanhola, transplantado para a região da fronteira com a Argentina. Vi meu pai e minha mãe comerem isto a vida inteira. E sempre me causou o mesmo horror da infância. Lembrei-me de tanta coisa daquele passado tão remoto!
Hoje, aprendi a valorizar cada dia vivido, e dar graças por haver passado por muito sofrimento sem perder a alegria de viver. Compreendi a efemeridade de tudo e que de nada valem pequenas e mesquinhas vaidades, ainda que eu tenha a minha, mas que não é pequena nem mesquinha. Ouvindo naquela noite os dois músicos, que tocavam aquela velha canção, tive a certeza de que havia vencido. Sofrimentos, tive muitos, perdi minha família original, vi meu pai morrer cada dia, vítima de uma terrível cardiopatia, minha mãe sofrer durante seis anos,confinada à uma cama, minha irmã ser condenada pelo câncer, meu irmão morrer poucas horas depois de haver sido internado. Mas estou viva, lembrando aquele passado distante, diante do homem que amo, e brindando à vida.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Mulheres apaixonadas
Sábado passado, havia um bloco de carnaval bem defronte à minha casa. A folia era animada com velhas músicas, aquelas que animaram os carnavais de nossa juventude e até de nossa infância. E, dentre muitas outras, ouvi repetidas vezes uma das mais lindas: “Bandeira branca”. Lembro-me de que era cantada por Dalva de Oliveira, e começa e se repete com a confissão da derrota de uma mulher apaixonada: “Bandeira branca, amor, não posso mais. Pela saudade que me invade, eu peço paz.” Foi composta em 1970, poucos anos antes da morte de Dalva. Não sei se a escolha da cantora foi proposital, mas pode-se pensar que sim. Há pouco tempo, vi pela televisão, como milhões de outros brasileiros, uma mini-série que contava a tumultuada vida amorosa de Dalva de Oliveira e Herivelto Martins. Parece que a história contada foi bastante fidedigna, já que teve a aprovação de Perry Ribeiro, filho de ambos, cantor muito popular no auge da Bossa Nova.
Mas, ao assistir à mini-série, e aos grandes conflitos vividos por uma mulher apaixonada e um homem que a considerava como propriedade sua, que a traía e mantinha, por razões de segurança, sobretudo profissional, o casamento e uma aparente vida familiar, não pude deixar de lembrar-me de muitas outras histórias de paixão, ódio, submissão e vingança. E a primeira a me vir à mente foi a de Diane, princesa de Gales. Dalva era filha de um carpinteiro, Diane de um conde. Uma morreu aos cinqüenta e cinco anos, a outra aos trinta e seis. Ambas acreditaram no amor. Estou certa de que Diane casou-se apaixonada, afinal o pretendente era um príncipe, e ela era muito jovem. Traídas, resolveram se vingar traindo. Diane foi escolha definida por necessidades da realeza britânica, e Dalva pela ambição de sucesso de seu parceiro. Traídas, falaram muito, queriam vingança. Colocaram em público suas vidas íntimas. Dalva e Diana, de origens tão diferentes, com vidas tão diferentes, tinham em comum um traço que desenhou seus destinos: foram mulheres apaixonadas. Vítimas da traição, se vingaram da mesma forma. E feriram-se ao tentar ferir seus homens. Não muito antes de morrer, numa entrevista Diane chocou o mundo. Ali, ela expunha sua vida, suas aventuras, e seu rancor. Há poucos dias, procurando informações na internet, vi uma entrevista de Dalva, feita pouco antes de sua morte, muito tempo depois da separação. Surpreendeu-me sua incontida mágoa.
Há, na literatura universal, obras magistrais acerca do domínio da paixão sobre mulheres. Basta lembrar Emma Bovary e Anna Karenina. Flaubert e Tolstoi, geniais escritores, conhecedores profundos da alma humana, souberam magnificamente descrever os conflitos que cercam a paixão e o adultério. Paixão e adultério, que, sob formas diferentes, ainda atormentam em nossos dias muitas mulheres. Anna de Assis, paradigma real das outras duas, também viveu uma paixão, que culminou não em uma, mas em várias tragédias sucessivas. Minha avó Joana, mãe de minha mãe, também viveu intensamente uma paixão. Por ela abandonou um lar estável e fugiu com o homem que a seduzira. Grávida, foi abandonada e trazida de volta, por um irmão, para a casa materna, para sempre desonrada. Nasceu minha mãe, Alice, registrada como “filha natural de pai desconhecido”. Também minha avó paterna, viúva aos vinte nove anos, com quatro filhos, apaixonou-se perdidamente por um ator português, que passava com uma Companhia pelo interior do Rio Grande do Sul. Por ele enfrentou tempestades. Mas a paixão terminou em separação e grande dor.
Mulheres apaixonadas sempre existirão. Mulheres que encaram a vida, em toda sua complexidade, como se tudo se resumisse à outra pessoa. E isto é diferente de amar. No amor, cultivamos projetos pessoais, falamos deles ao companheiro, e ele nos fala dos seus. Partilhamos. Somos indivíduos, encorajados a cultivar nossa identidade, nossa história, que não é, e não pode ser a do outro. Diz Simone de Beauvoir na sua magistral obra pioneira Le deuxième Sexe: “Tudo ainda encoraja a jovem a esperar do príncipe encantado sucesso e felicidade, ao invés de tentar ela própria a difícil e incerta conquista”. O livro foi publicado pela primeira vez nos fins dos anos quarenta, e provocou escândalo na sociedade francesa. Mas, ainda que haja coisas que hoje não mais aceitamos, ficou para nós, mulheres, a lição de que esta “difícil e incerta conquista”, que se chama “projeto”, é que dá sentido à nossa vida, e nos permite amar de verdade.
Lembro-me de meu desespero diante do progressivo abandono da vida que acometeu à minha mãe após a morte de meu pai. Logo eu, mulher que se orgulha de sua contemporaneidade, de sua independência, de seu amor maduro por um companheiro de muitos anos, onde direitos e deveres são igualmente partilhados. Como, então, entender que Alice desejasse tão ardentemente a morte, mergulhada durante seis anos numa cama, sofrendo constantemente a dor de sua perda. Até que, depois de muita luta, compreendi, e me conformei. E quando ela se foi, eu, que nunca me casei, nem havia usado aliança, pedi à médica que nos havia comunicado sua morte que me permitisse tirar de seu dedo aquele símbolo que a havia acompanhado desde seus quinze anos. Coloquei-o no meu, e falei-lhe, acariciando seu rosto, enquanto, emocionada, minha irmã chorava: “Adeus Alice, agora você está feliz ao lado dele.”
Mas, ao assistir à mini-série, e aos grandes conflitos vividos por uma mulher apaixonada e um homem que a considerava como propriedade sua, que a traía e mantinha, por razões de segurança, sobretudo profissional, o casamento e uma aparente vida familiar, não pude deixar de lembrar-me de muitas outras histórias de paixão, ódio, submissão e vingança. E a primeira a me vir à mente foi a de Diane, princesa de Gales. Dalva era filha de um carpinteiro, Diane de um conde. Uma morreu aos cinqüenta e cinco anos, a outra aos trinta e seis. Ambas acreditaram no amor. Estou certa de que Diane casou-se apaixonada, afinal o pretendente era um príncipe, e ela era muito jovem. Traídas, resolveram se vingar traindo. Diane foi escolha definida por necessidades da realeza britânica, e Dalva pela ambição de sucesso de seu parceiro. Traídas, falaram muito, queriam vingança. Colocaram em público suas vidas íntimas. Dalva e Diana, de origens tão diferentes, com vidas tão diferentes, tinham em comum um traço que desenhou seus destinos: foram mulheres apaixonadas. Vítimas da traição, se vingaram da mesma forma. E feriram-se ao tentar ferir seus homens. Não muito antes de morrer, numa entrevista Diane chocou o mundo. Ali, ela expunha sua vida, suas aventuras, e seu rancor. Há poucos dias, procurando informações na internet, vi uma entrevista de Dalva, feita pouco antes de sua morte, muito tempo depois da separação. Surpreendeu-me sua incontida mágoa.
Há, na literatura universal, obras magistrais acerca do domínio da paixão sobre mulheres. Basta lembrar Emma Bovary e Anna Karenina. Flaubert e Tolstoi, geniais escritores, conhecedores profundos da alma humana, souberam magnificamente descrever os conflitos que cercam a paixão e o adultério. Paixão e adultério, que, sob formas diferentes, ainda atormentam em nossos dias muitas mulheres. Anna de Assis, paradigma real das outras duas, também viveu uma paixão, que culminou não em uma, mas em várias tragédias sucessivas. Minha avó Joana, mãe de minha mãe, também viveu intensamente uma paixão. Por ela abandonou um lar estável e fugiu com o homem que a seduzira. Grávida, foi abandonada e trazida de volta, por um irmão, para a casa materna, para sempre desonrada. Nasceu minha mãe, Alice, registrada como “filha natural de pai desconhecido”. Também minha avó paterna, viúva aos vinte nove anos, com quatro filhos, apaixonou-se perdidamente por um ator português, que passava com uma Companhia pelo interior do Rio Grande do Sul. Por ele enfrentou tempestades. Mas a paixão terminou em separação e grande dor.
Mulheres apaixonadas sempre existirão. Mulheres que encaram a vida, em toda sua complexidade, como se tudo se resumisse à outra pessoa. E isto é diferente de amar. No amor, cultivamos projetos pessoais, falamos deles ao companheiro, e ele nos fala dos seus. Partilhamos. Somos indivíduos, encorajados a cultivar nossa identidade, nossa história, que não é, e não pode ser a do outro. Diz Simone de Beauvoir na sua magistral obra pioneira Le deuxième Sexe: “Tudo ainda encoraja a jovem a esperar do príncipe encantado sucesso e felicidade, ao invés de tentar ela própria a difícil e incerta conquista”. O livro foi publicado pela primeira vez nos fins dos anos quarenta, e provocou escândalo na sociedade francesa. Mas, ainda que haja coisas que hoje não mais aceitamos, ficou para nós, mulheres, a lição de que esta “difícil e incerta conquista”, que se chama “projeto”, é que dá sentido à nossa vida, e nos permite amar de verdade.
Lembro-me de meu desespero diante do progressivo abandono da vida que acometeu à minha mãe após a morte de meu pai. Logo eu, mulher que se orgulha de sua contemporaneidade, de sua independência, de seu amor maduro por um companheiro de muitos anos, onde direitos e deveres são igualmente partilhados. Como, então, entender que Alice desejasse tão ardentemente a morte, mergulhada durante seis anos numa cama, sofrendo constantemente a dor de sua perda. Até que, depois de muita luta, compreendi, e me conformei. E quando ela se foi, eu, que nunca me casei, nem havia usado aliança, pedi à médica que nos havia comunicado sua morte que me permitisse tirar de seu dedo aquele símbolo que a havia acompanhado desde seus quinze anos. Coloquei-o no meu, e falei-lhe, acariciando seu rosto, enquanto, emocionada, minha irmã chorava: “Adeus Alice, agora você está feliz ao lado dele.”
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
“Os Farsantes”
O título, tomei-o de um livro de Graham Greene, escritor, se não me engano, escocês. Li-o quando era bem jovem e fiquei impressionada. Anos depois o vi na tela, com Peter Ustinov e Elizabeth Taylor. Não me lembro bem do enredo, mas trata-se da vida tumultuada de alguns americanos, comerciantes e diplomatas, que vivem no Haiti. Mas, se esqueci detalhes do enredo, ficou-me na lembrança, desde a leitura do livro, a imagem do país miserável, governado por um ditador sanguinário – será que há algum que não seja? – e sua polícia política, formada pelos “Tontons macoutes”, cuja crueldade deixou-me pasma. E olhem que eu também vivia sob uma ditadura! O ditador chamava-se François Duvalier, “carinhosamente” chamado de Papa Doc. Aliás, Stalin também era chamado de “paizinho”.
No seu magnífico livro “Uma gota de sangue – história do pensamento racial”, Demétrio Magnoli, conta as origens do Haiti, que surgiu da maior de todas as revoltas de escravos. Teve como líder um certo François-Dominique Toussaint Louverture , nome que vi na fachada semi destruída do prédio do aeroporto de Porto Príncipe. Toussaint, de escravo analfabeto, tornou-se homem instruído, ávido leitor do iluministas. Em 1801, convocou uma Assembléia Constitucional que proclamava a “igualdade entre os homens e proibia distinções derivadas da cor da pele.” Dizia o artigo 5º. da Constituição: “Nenhuma outra distinção existe senão aquelas de virtudes e talentos, nem qualquer superioridade senão a garantida pela lei no exercício de um cargo público.” Concluindo que: “A lei é a mesma para todos, quer ela puna ou proteja.” Seu governo durou menos de um ano e, por desgostar a Napoleão, foi vencido pelas tropas francesas e levado para França, onde maus tratos o levaram à morte por pneumonia. Outro general tomou o poder no Haiti, Dessalines, que derrotou as tropas francesas. “O Haiti tornou-se a segunda nação soberana nas Américas, e a única no mundo emanada de uma revolução de escravos.” Dessalines determinava no artigo 14 da Constituição que “os haitianos devem ser, de agora em diante, designados pelo nome genérico de negros.” Tornou-se Imperador , mas foi assassinado algum tempo depois. E desde então o Haiti tornou-se uma sucessão de tiranias, até desembocar, em 1957, em Papa Doc. Médico, cujo “reinado” durou quatorze anos, e só teve fim com sua morte. Foi sucedido por seu filho Baby Doc, cujo perfil moral é o mesmo do pai. Sua ditadura teve fim em 1985, e, tendo sido generosamente acolhido pela França, desfruta, ou desfrutou – dizem que está falido - das delícias de uma mansão perto de Cannes.
No Haiti reinaram dezenas de tiranos, que empobreceram cada vez mais a população, enriquecendo-se e à uma elite corrupta que os seguia. Rafael Leonidas Trujillo fez o mesmo na vizinha República Dominicana. Acumulou imensa fortuna à custa da miséria de seu povo, e governava o país como sua fazenda particular. Era tão ordinário que dele dizia certo secretário de Estado americano: “É um filho-da-puta, mas é nosso filho-da-puta.” Foi assassinado em 1961, e seus assassinos foram cruelmente perseguidos, assim como suas famílias. Este “filho-da-puta” inspirou a Vargas Lhosa um magnífico livro, “A Festa do Bode”. Sucedeu-o seu filho Ramfis, assassino nato, que cometeu crueldades que se comparam às dos nazistas. Nadando na roubalheira, entre um assassinato e outro, especializou-se em comprar mundanas, que também eram atrizes como Kim Novak, Zsa Zsa Gabor, e muitas outras. Não sei quando foi apeado do poder, mas já morreu há muitos anos.E também havia Anastácio Somoza, ditador da Nicarágua, assassinado no Paraguay pelos Montoneros, com tiros de bazuca, nos anos oitenta.
Papa doc, Baby Doc, Rafael Trujillo, Ramfis, Somoza, e tantos outros, são produto do patrimonialismo, que confunde o público com o privado – fenômeno que nós brasileiros conhecemos bem – e da Guerra fria. Guerra fria, que, como todas as guerras, não coloca nenhum princípio moral, o que deixou claro aquele secretário de Estado americano ao referir-se a Trujillo. E é preciso que a gente não se esqueça que do outro lado também valia tudo.
Na América Latina sempre fomos vítimas de ditadores. Há uma extensa literatura que fala deles, na Venezuela, no Equador, na Argentina, na Bolívia. No Brasil, vivemos vinte anos sob uma ditadura, mas nossos pais já haviam amargado outra, a do Estado Novo. Hoje passados tantos anos, quando pensávamos nos ver livres de qualquer ditadura, seja de direita ou esquerda, vemos surgir um AI6, aquele dos “Direitos humanos”, um Chavez, um Correa, um Morales, e para substituir Somoza, um Ortega, que de tão insignificante pensei que havia morrido. E não podemos esquecer de Zelaya, candidato a filhote de Chavez, gentilmente abrigado em nossa embaixada, que virou uma espécie de cortiço. Vemos assassinos serem considerados heróis, e por gente de um governo que se diz democrático (“Afinal, diz Tarso Genro – Ministro da Justiça – ele (Battisti) matou por uma causa!” Mas, então, Bin Laden também mata por uma causa!). O que queremos hoje é que não exista mais gente miserável como os haitianos, que haja democracia, liberdade, que cada um seja respeitado como ser humano.
E que, ainda que vítimas de uma catástrofe natural, os haitianos, assim como todos os outros povos do mundo, nunca mais sejam vítimas dos tiranos, que os fizeram permanecer nas trevas da ignorância, tornando-os mais e mais miseráveis. Que gente como Papa Doc e Trujillo, sempre imundos e corruptos, e também os candidatos a sê-lo, sejam definitivamente varridos da História da Humanidade, e que essa raça cósmica que forma o gênero humano possa ser feliz neste espaço de tempo que temos por aqui, e que chamamos de VIDA.
Dádiva de Deus.
No seu magnífico livro “Uma gota de sangue – história do pensamento racial”, Demétrio Magnoli, conta as origens do Haiti, que surgiu da maior de todas as revoltas de escravos. Teve como líder um certo François-Dominique Toussaint Louverture , nome que vi na fachada semi destruída do prédio do aeroporto de Porto Príncipe. Toussaint, de escravo analfabeto, tornou-se homem instruído, ávido leitor do iluministas. Em 1801, convocou uma Assembléia Constitucional que proclamava a “igualdade entre os homens e proibia distinções derivadas da cor da pele.” Dizia o artigo 5º. da Constituição: “Nenhuma outra distinção existe senão aquelas de virtudes e talentos, nem qualquer superioridade senão a garantida pela lei no exercício de um cargo público.” Concluindo que: “A lei é a mesma para todos, quer ela puna ou proteja.” Seu governo durou menos de um ano e, por desgostar a Napoleão, foi vencido pelas tropas francesas e levado para França, onde maus tratos o levaram à morte por pneumonia. Outro general tomou o poder no Haiti, Dessalines, que derrotou as tropas francesas. “O Haiti tornou-se a segunda nação soberana nas Américas, e a única no mundo emanada de uma revolução de escravos.” Dessalines determinava no artigo 14 da Constituição que “os haitianos devem ser, de agora em diante, designados pelo nome genérico de negros.” Tornou-se Imperador , mas foi assassinado algum tempo depois. E desde então o Haiti tornou-se uma sucessão de tiranias, até desembocar, em 1957, em Papa Doc. Médico, cujo “reinado” durou quatorze anos, e só teve fim com sua morte. Foi sucedido por seu filho Baby Doc, cujo perfil moral é o mesmo do pai. Sua ditadura teve fim em 1985, e, tendo sido generosamente acolhido pela França, desfruta, ou desfrutou – dizem que está falido - das delícias de uma mansão perto de Cannes.
No Haiti reinaram dezenas de tiranos, que empobreceram cada vez mais a população, enriquecendo-se e à uma elite corrupta que os seguia. Rafael Leonidas Trujillo fez o mesmo na vizinha República Dominicana. Acumulou imensa fortuna à custa da miséria de seu povo, e governava o país como sua fazenda particular. Era tão ordinário que dele dizia certo secretário de Estado americano: “É um filho-da-puta, mas é nosso filho-da-puta.” Foi assassinado em 1961, e seus assassinos foram cruelmente perseguidos, assim como suas famílias. Este “filho-da-puta” inspirou a Vargas Lhosa um magnífico livro, “A Festa do Bode”. Sucedeu-o seu filho Ramfis, assassino nato, que cometeu crueldades que se comparam às dos nazistas. Nadando na roubalheira, entre um assassinato e outro, especializou-se em comprar mundanas, que também eram atrizes como Kim Novak, Zsa Zsa Gabor, e muitas outras. Não sei quando foi apeado do poder, mas já morreu há muitos anos.E também havia Anastácio Somoza, ditador da Nicarágua, assassinado no Paraguay pelos Montoneros, com tiros de bazuca, nos anos oitenta.
Papa doc, Baby Doc, Rafael Trujillo, Ramfis, Somoza, e tantos outros, são produto do patrimonialismo, que confunde o público com o privado – fenômeno que nós brasileiros conhecemos bem – e da Guerra fria. Guerra fria, que, como todas as guerras, não coloca nenhum princípio moral, o que deixou claro aquele secretário de Estado americano ao referir-se a Trujillo. E é preciso que a gente não se esqueça que do outro lado também valia tudo.
Na América Latina sempre fomos vítimas de ditadores. Há uma extensa literatura que fala deles, na Venezuela, no Equador, na Argentina, na Bolívia. No Brasil, vivemos vinte anos sob uma ditadura, mas nossos pais já haviam amargado outra, a do Estado Novo. Hoje passados tantos anos, quando pensávamos nos ver livres de qualquer ditadura, seja de direita ou esquerda, vemos surgir um AI6, aquele dos “Direitos humanos”, um Chavez, um Correa, um Morales, e para substituir Somoza, um Ortega, que de tão insignificante pensei que havia morrido. E não podemos esquecer de Zelaya, candidato a filhote de Chavez, gentilmente abrigado em nossa embaixada, que virou uma espécie de cortiço. Vemos assassinos serem considerados heróis, e por gente de um governo que se diz democrático (“Afinal, diz Tarso Genro – Ministro da Justiça – ele (Battisti) matou por uma causa!” Mas, então, Bin Laden também mata por uma causa!). O que queremos hoje é que não exista mais gente miserável como os haitianos, que haja democracia, liberdade, que cada um seja respeitado como ser humano.
E que, ainda que vítimas de uma catástrofe natural, os haitianos, assim como todos os outros povos do mundo, nunca mais sejam vítimas dos tiranos, que os fizeram permanecer nas trevas da ignorância, tornando-os mais e mais miseráveis. Que gente como Papa Doc e Trujillo, sempre imundos e corruptos, e também os candidatos a sê-lo, sejam definitivamente varridos da História da Humanidade, e que essa raça cósmica que forma o gênero humano possa ser feliz neste espaço de tempo que temos por aqui, e que chamamos de VIDA.
Dádiva de Deus.
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