QUEM SOU EU

Sou professora de Francês, mas hoje minha principal atividade é escrever e ler, além de cuidar dos meus três vira-latas: Charmoso, Príncipe e Luther.



Gosto de fazer ginástica, sou vegetariana e adoro animais em geral, menos baratas.



Sinto especial prazer quando meus textos agradam aos meus leitores. Espero continuar produzindo e me comunicando com todos os meus amigos, neste maravilhoso universo da net.



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terça-feira, 22 de junho de 2010

BELEZA É FUNDAMENTAL


Coloquei no novo blog “Beleza é fundamental”, uma foto que mostra uma das mais belas mulheres deste mundo, em geral habitado por gente feia. Linda, sensual, e com aquele ar ingênuo, de menina meio perdida no mundo mau. A foto foi tirada, creio eu, em 1947, quando ela tinha apenas vinte e um anos. Era uma moça pobre, filha de mãe esquizofrênica, abandonada pelo pai e criada num orfanato. Ao sair, dizem, foi adotada por uma família pobre, que, tendo se mudado de cidade, não pode levar consigo a mocinha. Em 1942, Norma Jean, seu nome verdadeiro, resolveu casar-se com seu namorado de algum tempo, por quem, parece, estava apaixonada e que a livraria do orfanato. Tendo o marido sido convocado em 1944, Norma Jean passou a trabalhar numa fabrica onde foi vista por um fotógrafo que percebeu o potencial incrível daquela mocinha e contratou-a para posar. Daí pra frente, com os cabelos louros, e já rebatizada Marilyn Monroe, teve que escolher entre a carreira e o casamento. Divorciou-se em 1946. Parece que foi no ano seguinte que posou para a foto que coloquei para ilustrar o blog e que, passados mais de sessenta anos, ainda é considerada uma das mais belas, senão a mais bela foto de nu feminino.

Marilyn, a menina pobre, bastarda, filha de mãe esquizofrênica, criada num orfanato, tornou-se a mulher mais famosa do século XX. Marilyn, que, quase cinqüenta anos após sua morte, ainda encanta, e faz sonhar. E provoca inveja em outras mulheres que sonham em ser tão lindas quanto ela. Marilyn, que morreu solitária , talvez tentando salvar-se, com a mão estendida em direção ao telefone.

Conto tudo isto, já que, parece, a beleza desta nudez singela, singela como a nudez exposta pelos mestres Renascentista, pareceu pornográfica (!) a gente que vive no século XXI (!), que já deve ter visto, ainda que seja de passagem, algum quadro dos grandes gênios. O que dizer, então, do David de Michelangelo, exibindo sua virilidade no seu órgão másculo exposto? E a arte grega? E a romana? Ora, para mim pouco importa o que digam alguns ou algumas invejosas e ignorantes. Marilyn, naquela foto, é a Venus de Boticelli, que emerge nua das águas, e que nunca, ninguém poderá apagar. Marilyn, deusa da beleza, que durante pouco anos, infelizmente, encantou o mundo, é a Venus do século XX, sem silicone, sem lipo, sem ginástica, sem photoshop. Esta mulher jamais poderá ser considerada pornográfica, e sua foto esplendorosa, mostrando toda sua nudez, para sempre ilustrará o que se quiser falar de beleza.

Para ela, escreveu este lindo poema, Ernesto Cardenal, poeta, religioso e revolucionário nicaragense

Oração para Marilyn Monroe


Senhor

recebe esta moça conhecida em toda a terra pelo nome de Marilyn Monroe
ainda que este não seja o seu nome verdadeiro
(mas Tu conheces o seu nome verdadeiro, o da pequena orfã).
violentada aos 9 anos,
a empregadinha de loja que quis se matar aos 16
e agora se apresenta diante de Ti sem nenhuma maquilagem
Sem seu Agente de Imprensa
Sem fotógrafos e sem assinar autógrafos
sozinha como um astronauta diante da noite espacial.
Ela sonhou quando menina que estava nua em uma igreja
(de acordo com a Time)
diante de uma multidão prostrada, com as cabeças no chão
e tinha que caminhar na ponta dos pés para não pisar nas cabeças.
Tu conheces nossos sonhos melhor que os psiquiatras.
Igreja, casa, cova, são a segurança do seio materno
mas também é mais que isso.

As cabeças são os admiradores, é claro
(a massa de cabeças na escuridão debaixo de um jorro de luz).
Porém o templo não são os estúdios da 20th Century Fox
que fizeram de Tua casa de oração um covil de ladrões.

Senhor
neste mundo contaminado de pecados e radioatividade
Tu não culparás apenas uma empregadinha de loja.
Que como toda empregadinha de loja sonhou ser estrela de cinema.
E o sonho foi realidade (mas como a realidade do technicolor).
Ela apenas representou de acordo com o script que lhe demos
--O de nossas próprias vidas-- E era um script absurdo.
Perdoa-lhe Senhor e nos perdoa
por nossa 20th Century
por esta Colossal Super Produção em que todos trabalhamos
Ela tinha fome de amor e oferecemos tranqüilizantes.
Pela tristeza de não sermos santos
recomendamos a Psicanálise.

Lembra-Te Senhor do seu crescente pavor da câmara
E seu ódio à maquilagem – insistindo em maquilar-se a cada cena –
e como se foi fazendo maior o horror
e maior a impontualidade nos estúdios.

Como toda empregadinha de loja
sonhou ser estrela de cinema.
E sua vida foi irreal quanto um sonho que um psiquiatra interpreta e arquiva.

Seus romances foram um beijo com os olhos fechados
que quando se abrem os olhos
descobrem-se embaixo de refletores
e os refletores se apagam.

E as duas paredes do quarto se desmontam (eram um set de cinema)
enquanto o Diretor se afasta com suas anotações
porque a cena já foi rodada.
Ou como uma viagem de iate, um beijo em Singapura, um baile no Rio
a recepção na mansão do Duque e da Duquesa de Windsor
vistas da sala do apartamento miserável.
O filme acabou sem o beijo final.
Acharam-na morta em sua cama com a mão ao telefone
E os detetives não souberam a quem ia chamar.
Foi
como alguém que discou o número da única voz amiga
e ouve apenas a voz de uma gravação dizendo: WRONG NUMBER
Ou como alguém que ferido pelos gangsters
estende a mão para um telefone desligado.
Senhor
quem quer que tenha sido a quem ela chamava
e não chamou (talvez ninguém
ou era Alguém cujo número não se encontra na Lista de Los Angeles)
atende Tu ao telefone.


quarta-feira, 16 de junho de 2010

Deus e o Diabo

“Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor. O Diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e amor com casamento.” 


“Será que todas estas moças estão se casando com imbecis?” O meu azar é que morávamos defronte a uma grande igreja, onde aos sábados os casamentos se sucediam, com lindas noivas, em lindos vestidos brancos, exibindo sua virgindade (que nesta época era pra valer). Nunca entramos num acordo meu pai e eu. Militar, engenheiro, gaúcho macho da fronteira, Felippe, jamais entendeu que um dos maiores beneficiados era ele mesmo. Tentei fazê-lo entender que amor e casamento não tinham nada a ver e que ao não ligar para este ato burocrático, eu o estava ajudando a fazer uma imensa economia, que poderia ser gasta em coisas mais interessantes, como uma viagem a Paris.

Afinal, eu era filha de um General, e, logo, meu casamento não poderia ser qualquer coisinha. Imagino que naquele tempo poderiam dizer que eu me casava grávida, coisa horrível, ou, menos horrível, que meu pai era um sovina. Vejamos então os gastos, sempre altos, para a patente de uma filha de General. Primeiro, havia o célebre enxoval, que, tenho certeza interessaria à maioria de minhas amigas da época, todas antenadas no “desencalhe”. Milhões de toalhinhas inúteis, toalhas, colchas, mantas, enfim um arsenal capaz de cobrir um batalhão. Quem sabe até me fosse cobrada uma exposição? E o vestido de noiva, que deveria ser lindo, como o das moças que me eram mostradas como modelos. E havia ainda a grinalda, o buquê, sapatos especiais. Sem esquecer o véu. E a ornamentação da igreja. E as roupinhas da daminha, que certamente seria Ludmila, minha sobrinha, que odiaria esta função e também, certamente, a roupinha. E haveria também a roupa da mãe da noiva, e a do pai. E se não houvesse festa, muita gente se consideraria ultrajada, e sairia falando cobras e lagartos. Se houvesse, idem. E como tínhamos, meu pai e eu, uma profunda incompatibilidade quanto aos meus pretendentes, este item sempre foi supérfluo.

E pasmem, Felippe odiava todas estas solenidades, e só se casara no civil. E ainda por cima, era agnóstico, ou ateu, não sei bem. Meu pai, pena, foi vítima do “politicamente correto”, em que uma moça deve casar. Como diz Simone de Beauvoir, no seu inigualável “Segundo sexo”, as mulheres casadas gozam de maior prestígio do que as solteiras. Ele sabia disso e talvez temesse me deixar trilhar meu próprio caminho, como eu pretendia fazer, e fiz. O livro foi escrito em 1947, mas ainda hoje persiste na cabeça de muita gente esta crença profunda, que, por ser crença, é quase inextirpável.

Rompi, e espero haver rompido, de fato, com todo tipo de preconceito. Orgulho-me em dizer que tinha um bisavô mulato, uma avó cabrocha, que não sou casada, e pretendo nunca me casar, mas que vivo com o homem que escolhi livremente. E que temos uma relação absoluta igualitária, onde dividimos deveres, despesas e, evidentemente, prazeres. Que tenho queridos amigos homossexuais. Meu último rompimento com o que não me diz respeito aconteceu quando perdi minha única irmã, último membro de minha família original. Com meus sobrinhos, decidimos que não havia necessidade de “missa de sétimo dia”. Reunimos amigos, alguns deles religiosos, falamos do que significa esta dolorosa separação, a morte, que nos aguarda a todos. Li um texto em sua homenagem, onde falava de minha dor e saudade. Mas também rimos nos lembrando de bons momentos vividos juntos, e até fizemos um lanche preparado por suas filhas e noras. Porque eu sabia que Teresa estava bem, e está. Talvez conosco naquele momento, também recordando. Porque tenho fé. Fé que me segurou nos momentos de dor por que todos nós passamos e que me dará forças até o final.

Mas sem religião. Nem casamento.
A frase acima é de Machado de Assis, mas disse-me um amigo que se inspirou em Shakespeare.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Cidadania

Resolvi divulgar minha defesa, já que, como cidadã que paga seus impostos e jamais cometeu ato delituoso, senti-me profundamente agredida. Na minha consciência de cidadania, tenho feito a defesa de minha comunidade, sem temor de expor minha cabeça, como no caso do abaixo-assinado que fiz correr pelo bairro. Naquela ocasião levei pessoalmente a moradores e comerciantes o texto por mim elaborado, em que denunciava a presença ostensiva de traficantes na pracinha, nas barbas do Posto Policial, aliciando crianças como “aviões” e chegando ao ponto de pesar a droga nas balanças de uma padaria. Recebi respostas interessantes, de gente medrosa, como a do tipo que me veio me falar no golpe de 64, no PT, fazendo a apologia deste partido. Respondi-lhe que não se tratava de uma questão político-partidária, mas sim da defesa de nossas crianças e de nós mesmos. Ele, evidentemente, recusou-se a assinar. 
O ano era 1997. Tendo conseguido certo volume de assinaturas, enviei, através de pessoas que tinham acesso a estas autoridades, ao Prefeito de então – Tarcísio Delgado – e também ao Comandante da Polícia Militar e ao Delegado Chefe da Polícia Civil. Jamais recebi resposta de ninguém. Mas não temi expor minha cabeça. E me orgulho disso.

“Minha defesa”

Quero esclarecer, antes de tudo, que não há o que defender na minha conduta e que, como cidadã, sinto-me profundamente indignada com o constrangimento a que fui submetida. Estava eu em casa, no dia 28 de abril do corrente ano, quando, ao atender ao interfone, fui informada por alguém que se dizia Fiscal da Prefeitura –Sr. Carlos Roberto Mazola (conforme documento anexo) - e que me dizia que um documento meu havia sido achado no lixo, o que me deixou assustada e perplexa, já que sou pessoa extremamente cuidadosa. Desci então à garagem, onde havia pedido ao citado Fiscal que me esperasse, pois não tendo constatado falta de nenhum documento, pensei poder tratar-se de golpe para penetrar em minha casa. Assim, ao encontrá-lo, acompanhado de outro Fiscal, mostrou-me um pedaço de papel rasgado com meu nome e endereço. Expliquei-lhe tratar-se de um informe de uma ONG internacional – Action Aids – ( e não de um documento meu) que ajuda crianças carentes. E que meu nome e endereço estavam impressos por tratar-se de correspondência. Expliquei ainda que de fato eu o rasgara e jogara no LIXO SECO, tendo entregue ao catador Joaquim, todo material reciclável devidamente acondicionado em sacolas plásticas. E ainda mais, que meu lixo seco é lavado, quando se trata de quentinhas ou garrafas, que pertenço ao Green Peace, que, aliás, ele me pareceu desconhecer. Invoquei o testemunho do porteiro – Carlos Antônio - e expliquei-lhe que simplesmente o catador Joaquim, conhecido em todo bairro de São Mateus, havia deixado escapar, no monte de material reciclável que junta e organiza, aquele pedacinho de papel. Irredutível, agindo de forma totalmente irracional, o citado funcionário da Prefeitura de Juiz de Fora, lavrou o auto de infração. Sendo que assinala um “horário de flagrante”, o que jamais poderia fazer já que nem ele nem ninguém me viu jogar o pedaço de papel no chão, “sujando” a via pública. 
Insurjo-me contra este ato autoritário, em que um funcionário do poder público constrange e tenta punir um cidadão, tratando-o arbitrariamente como autor de ato delituoso. E creio que atitudes como esta não só revoltam, mas ainda dão do governo municipal uma imagem de incompetência e autoritarismo. 
Não tendo nada mais a acrescentar, termino aqui “minha defesa” sugerindo à Secretaria de Política Urbana que dê uma vistoria na Praça Jarbas de Lery Santos, onde sujeira, folhas secas e galhos podres se amontoam. 

sábado, 1 de maio de 2010

“La cantatrice chauve” em Juiz de Fora

Durante alguns anos, na Universidade Federal de Juiz de Fora, tive em atividade um grupo de teatro em francês “Théâtre Gavroche”, ao qual mais tarde se incorporou minha colega Walquíria. E uma das peças que encenamos chamava-se “Scène à quatre”. Foi assim, durante as leituras e os ensaios, que pudemos conhecer o extraordinário Ionesco e divulgá-lo aos que vinham nos assistir.

Engène Ionesco (1909 – 1994) é um dramaturgo franco-romeno que expõe em sua obra a incomunicabilidade entre os homens, a irracionalidade e a fragilidade nas relações humanas. Foi, juntamente com Samuel Beckett, autor do extraordinário “En attendant Godot” (“Esperando Godot”), um dos criadores do “Teatro do absurdo”. Coube a estes geniais escritores tornar explícito o que nos ocorre diariamente, sem nos darmos conta. E uma de suas peças – “La cantatrice chauve” (“A cantora careca”), de 1950, é apresentada em Paris, no Théâtre de La Huchette, desde 1957. Conta-se que se inspirou num método de ensino de inglês, onde frases desconexas se amontoavam com o exclusivo fim de ensinar estruturas gramaticais. Aliás, lembro-me de meus primeiros anos de ensino de francês (é claro que em 1950 eu não podia ser professora de nada!), lá pelos anos 70, em que nos debatíamos ainda com textos totalmente incoerentes, dentro dos padrões ditos “estruturais” do ensino de línguas. No caso da “Cantatrice Chauve”, dois casais, uma empregada e um bombeiro, que não se sabe como veio parar na peça, debatem absurdos. Ou, como repetem seus personagens, “parler pour ne rien dire”.

Mas, afinal, não é minha intenção discorrer sobre a obra, de que, confesso, nem me lembrava mais. Retomei-a, assim como tudo que conheço de Ionesco, graças à Secretaria de Política Urbana da Prefeitura de Juiz de Fora, através da “Lei municipal 11.197/06 arts 9º. -1,10º. – I e II, 88, 105-I, 108 parágrafo 3º. Decreto Municipal 9117/07 arts. 11,21parágrafo 1º., 3º. e 7º. , 22-III parágrafo único”. Só de ler este amontoado de palavras desconexas, eu, cidadã comum, sinto-me ameaçada e imagino quantos crimes deva ter cometido sem saber. E o pior, qual será minha pena?
Mas vamos ver como começou este teatro ionesquiano. Eram três horas da tarde, eu estava me acomodando para ler “Os anos loucos – Paris na década de 1920”, que Ricardo me presenteou. Já havia começado e estava ansiosa para prosseguir. Tilinha, nossa cadelinha, já estava deitada ao meu lado na poltrona, e Charmoso, nosso vira-lata, deitadinho na sua almofada. O gato Boris havia chegado, dado uma olhadinha e chispado para nossa cama, seu lugar predileto. Eu estava colocando os óculos e pensando que às quatro horas iria passar um café e comer um pãozinho prensado, que acho delicioso. Enfim, anunciava-se uma tarde muito agradável. De repente, ouço o interfone – Quem será? Atendo e mantenho o seguinte diálogo:


- Boa tarde. Eu queria falar com dona Maria Lúcia Viana.
- Sou eu.
- Sou da Fiscalização da Prefeitura e um documento seu foi achado no lixo.
Levo um susto imenso!
- Como? Um documento meu no lixo???!!!! (E já me imagino correndo de uma central burocrática para outra em busca de novos documentos. E o meu CPF, que vale mais do que minha vida? Por sorte, tenho identidade do Ministério do Exército, onde a burocracia é menor. Será? Tudo isto me passa pela cabeça enquanto corro desorientada em busca de minha bolsa – Onde a deixei? – E nestas horas, a gente nunca sabe onde deixou as coisas! Finalmente a encontro, busco a carteira onde guardo os documentos, verifico , torno a verificar. Está tudo ali. Mas então o que foi? Vem- me à mente, com terror, que talvez tenha deixado cair o meu DARF, aquele do monstruoso Imposto de Renda. Mas tenho certeza de que o guardei, lá em cima no armário. Tudo isto se passa num espaço de alguns poucos minutos. Volto correndo para o interfone e resolvo colocar a razão para funcionar)



- Olha, moço. Vou descer. Não estou entendendo. Espere-me na garagem.
- Por favor, traga um documento, preferencialmente o CPF. 

Desço, imaginando alguma coisa ruim. Encontro, então, dois homens paramentados com coletes, tendo escrito nas costas em letras garrafais “FISCALIZAÇÃO – PREFEITURA DE JUIZ DE FORA”. O porteiro, meu amigo de muitos anos, sorri com o canto da boca, daquele jeito que só mineiro sabe fazer.

-Dona Lúcia, eu expliquei o que aconteceu, mas o homem não aceita.
Foi, então, que o absurdo me foi mostrado. O sujeito tinha nas mãos, entre outros papéis rasgados, um pedaço de um informe que recebo regularmente de uma entidade internacional de ajuda a crianças carentes para a qual contribuo. É evidente que deveriam colocar meu nome e endereço para que eu pudesse receber! Quando rasguei e joguei no LIXO SECO, ficaram intactos justamente este dois dados. E era este o “documento” meu que haviam achado no lixo!!!!! E eu estava sendo multada em “auto de infração” por sujar a rua!

Tentei esclarecer que sou uma disciplinada fanática, que meu lixo seco, é seco mesmo, que sirvo de motivo de chacota para toda a família, já que lavo quentinhas e garrafas, que acondiciono tudo caprichosamente, e entrego pessoalmente ao catador. Contei-lhe que carrego sempre sacolinhas de plástico – estou procurando as ecológicas – para recolher as fezes de meus cachorros, e que ensino isto aos meus netinhos, assim como o que se refere ao lixo seco. Que o catador, freguês meu há anos, havia deixado escapar aquele pedacinho de papel. Que faço parte do Green Peace (que ele nem deve saber o que é). Argumentei, tentei expor minhas ideais acerca de meus deveres de cidadã. Sugeri-lhe que desse a volta e olhasse a praça onde moro, onde a sujeira se acumula há vários dias. O bocó permaneceu intransigente, sempre me repetindo que eu havia violado uma lei municipal. Perplexa, abandonei toda argumentação, e só depois me lembrei de que, como não havia tido flagrante, já ninguém me vira “jogar o documento na rua”, “sujando-a”, eu não poderia ser indiciada. Afinal não é assim que age a justiça brasileira?

A descrição de minha infração é a seguinte:

Por depositar lixo e/ou resíduo em via pública fora do horário estabelecido pelo DEMLURB” 
Há ainda o local do flagrante (?), “no endereço acima citado, próximo à polícia, posto de polícia.” E também a data do “flagrante” e o “horário”. Mas como ele pode saber se ninguém me viu cometer o delito? 

Abaixo ele assinalou entre outras opções “Fica ciente que deverá apresentar defesa (!!!) no prazo de 10 dias do recebimento deste ato.”

Assinei o documento – eu estava transtornada – e perguntei-lhe se deveria ser acompanhada de advogado. Negou. Mas meu advogado vai comigo. O mais engraçado é que o bocó que o acompanhava, também devidamente paramentado, segurava uma porção de talões de débito automático, todos amassados. Tive vontade de perguntar como iriam descobrir os autores do delito, mas já estava de saco cheio. Meu livro delicioso ficara aberto sobre a poltrona, meu cafezinho esvaiu-se naquele absurdo em que a Prefeitura de Juiz de Fora me afogou, minha tarde gostosa havia ido pelos ares. Antes de subir, já a caminho do elevador disse-lhe:

- E eu que votei nesse cara! Antes tivesse votada na opositora, colega minha de tantos anos, mas que é do PT! Bem feito para mim!

Subi, telefonei para Ricardo e combinamos um cafezinho no Shopping. Mostrei-lhe o documento. Estourou de rir “Justo você!”. E é isto que tenho ouvido de toda minha família desde aquele dia 28 de abril.
No dia seguinte encontrei Joaquim, o catador, contei-lhe a história. Atônito, comentou:

- E logo quem!
Mas, com a seriedade que a situação merece, o adverti:

- Olha, Joaquim, e se eu for presa, você vai comigo!

Ontem de manhã, quando voltava da ginástica, encontrei-o catando minuciosamente no chão tudo que encontrava. E havia até uma vassoura novinha.

O que me aconteceu expõe claramente o país patrimonialista, onde os “donos do poder” e seus acólitos consideram o cidadão simples objeto, cuja função é servir aos seus interesses.

Não sei qual será minha pena, mas quem sabe será semelhante à da bruxa que torturou a criancinha de dois anos? E ainda ontem , quando Ricardo voltava de seu passeio com Charmoso, Joaquim, aproximou-se e disse com convicção:

- Professor, está tudo errado! Tudo errado!

É verdade, Joaquim, você definiu bem o país: está tudo errado. E desde o princípio.

Pena que Ionesco e Beckett não estejam mais aqui!

sábado, 27 de março de 2010

La buena y la mala educacion

Nestes dias em que assisto ao fim de vida de uma mulher, lembrei-me do filme de Almodavar intitulado “La mala educacion”. A obra do espanhol só vem ao caso pelo título. Na verdade, Almodovar não é dos meus cineastas prediletos, mas tem o mérito de por a nu, sem escrúpulos, com absoluta “mala educacion”, tudo aquilo que a “boa sociedade” joga para baixo do tapete. E poucos têm a coragem de fazê-lo.

Mas, para começar, falemos um pouco do que poderia significar “La buena educacion”, que acho resultaria num filme muito interessante. Simone de Beauvoir já havia falado desta boa educação no seu livro “Mémoires d´une fille rangée”, onde conta sua vida e a educação que quiseram lhe impor. Conta sua infância, adolescência e o início de suas indagações, sua vida universitária, e a transformação definitiva ao encontrar Sartre. Trata-se de obra de uma grande intelectual, onde sua visão crítica do mundo que a cerca impressionou-me imensamente, assim como seu magistral “Le Deuxième Sexe”.
Estas obras me trouxeram muitas outras indagações, além das que já tinha, e novos conceitos que substituíram muitos dos que me haviam sido incutidos desde muito cedo. São as minhas metamorfoses, que fizeram de mim o que sou hoje. Mas, enfim, o que pretendo é fazer aqui algumas observações corriqueiras, ou talvez divagações, sobre aquilo de que não se falou: “La buena educacion”. E por que não também sobre a “mala”?

Afinal, o que é uma “jeune fille rangée”, ou a mulher, neste caso não importa a idade, provida de “buena educacion” ? E aí sou obrigada a retomar velhos chavões, que mesmo que hajam desaparecido do vocabulário da maioria das pessoas, ainda fazem parte das crenças profundas de muita gente. E logo me vem à mente aquela mulher que, coitada, não foi escolhida (seguramente porque tem algum defeito), e por isso não se casou, e assim sendo deve morrer “moça”. Ao pensar nela, na “buena educacion” , vejo claramente aquela que jamais se “perdeu” , a pobrezinha a quem nenhum homem “fez mal” . E morreu virgem. E ao cogitar da “buena educacion” , não há como impedir que me venha à memória minhas colegas de Faculdade, sem nenhum projeto profissional, que disputavam o mais belo enxoval! Será que isto ainda existe? ...enxoval?

Uma mulher bem educada, jovem ou não, pouco importa, tem algumas regras a seguir, ainda que isto lhe custe a felicidade e a vida. A “buena educacion” , humilha, mata, destrói, corrompe. A “buena educacion” me faz pensar em mulheres traídas, que não quiseram tomar seu próprio rumo, porque isto lhes exigiria um esforço, e, talvez, um compromisso que não se sentiam capazes de assumir, ainda que o fossem. A “buena educacion” faz-me lembrar de uma eterna criança, prima de minha mãe, e seu marido, que, gravemente doente, adotou uma menininha para que cuidasse da mãe na velhice, sendo a própria considerada incapaz para fazê-lo. O trágico é que esta “menininha” foi a grande causadora de sua morte.

Ao pensar na “buena educacion” , lembrei-me de histórias de mulheres que desenvolveram doenças graves, e morreram, afogadas na infelicidade de casamentos mal-sucedidos e filhos egoístas. Mulheres que deram a vida e tão pouco receberam em troca. Mas jamais disseram um palavrão, nem tiveram a coragem de enxotar de casa gente que as atormentava. Afinal “mulheres educadas” não podem buscar a felicidade. Mulheres educadas afogam suas mágoas com outras mulheres educadas, e, sem queixas, deixam a vida levá-las. Mulheres vítimas da “buena educacion” passam pela vida sem cogitar delas próprias, são boas mães, boas esposas, sacos de pancadas para todos.

Desde bem jovem, comecei a colocar em questão esta “buena educacion” e a cogitar da “mala” . É verdade que tive sempre a consciência de que tudo dependia de minha independência econômica, o que conquistei graças ao meu esforço, e me orgulho disso. Não fiz alarde de meus conceitos, levei meus pais, já velhos, para temporadas em estações de águas, mas não adotei jamais os princípios de uma menina bem comportada.
Minha “mala educacion” me permitiu chutar a dicotomia "moça/mulher" , “livre/escrava” (Quantas vezes ouvi dizer que fulana era uma mulher livre?) , "casada/encalhada" , "perdida/achada(?)" , "mulher da vida/mulher da morte (!)" , e alguns outros de que não me lembro. Contou-me meu mastologista – sou do grupo de risco já que minha mãe teve câncer de mama- que a maioria das mulheres que opera de câncer, sofreu desilusão amorosa ou foi abandonada. Ao que retruquei que há também aquelas cujos maridos trazem para elas a doença. E alguém já ouviu falar de algum marido traído, ou abandonado, que tenha desenvolvido, pela mágoa, câncer de próstata? Maridos traídos ou abandonados – em geral por maus-tratos às mulheres – muitas vezes resolvem o problema na base do tiro na cabeça. Da mulher.

Minha “mala educacion” me fez ficar “encalhada” aos olhos das mulheres de “buena educacion” até bem tarde. Mas me permitiu cultivar paixões, efêmeras, mas saborosas, o que moças bem-educadas não puderam fazer. Minha “mala educacion” me permite ainda hoje usar roupas colantes ao fazer minha ginástica diária, apesar dos meus muitos anos vividos, almoçar em restaurante diferente de meu companheiro, já que sou vegetariana, viajar quando quiser, ter minhas próprias opiniões. E, acho eu, ajudou-me a encontrar o amor, de alguém que se cansara, bem mais tarde do que eu, de moças bem-comportadas. Minha “mala educacion” me tira do célebre “grupo de risco”, me faz livre, e feliz, porque, afinal, não há bem maior do que a liberdade. E isto meu ginecologista, que me apresenta números, não sabe. E sei que somente a vontade de Deus poderá determinar o que virá.

A mulher que vejo, com sincero pesar, viver seus últimos dias, viveu todos os outros com seu exemplar comportamento. Deixará saudades, muitas. Haverá muita dor. Mas será que valeu a pena não ter tido um dia, pelo menos, de “mala educacion” ?

quarta-feira, 17 de março de 2010

Pegadas do passado

“Eu sonhei que tu estavas tão linda.
Numa festa de raro esplendor.
Teu vestido de baile, lembro ainda
Era branco, todo branco, meu amor
.................................................."

Voltei ao meu passado mais remoto. A primeira imagem que me veio à mente foi de minha avó Joana. E logo surgiu minha mãe, a pequena luz da máquina de costura acessa, pedalando ao som do rádio. Quem sabe aquela mesma canção, na voz poderosa de Carlos Galhardo.

Estávamos, Ricardo e eu, jantando em Tiradentes, à luz de velas, comemorando um dos meus tantos e tantos anos vividos. De repente uma dupla de músicos, violão e bandolim, entrou, e então ouvi esta canção. E com ela abri o arquivo de minha história.

Minha história... Cheguei àquele momento da vida em que começamos a rememorar, a trazer de muito longe lembranças adormecidas, mas que, ainda que adormecidas, estarão para sempre conosco. Até o momento final. Não tenho ilusões de que meu futuro é infinitamente menor do que meu passado. E não poderia ser de outra forma. Tenho tantas histórias para contar! Sempre fui boa observadora, e ouvinte. Cheguei a escrever um livro sobre a história de minha família baseada exclusivamente no que ouvia, sobretudo de minha mãe. Tenho-o guardado. Nem sei quem o leu, mas isto pouco importa. O que importa é o prazer de contar, de falar de um mundo que não existe mais; pessoas, lugares, hábitos, dramas. Não sei se algum dia contarei, não mais “tudo que me contaram”, mas “tudo que vi e vivi”. Diz Ricardo que tenho o talento gaúcho do “contador de histórias”. E aí está meu amado Érico Veríssimo.

Naquela noite, de frente a meu companheiro de tantos anos, diante de uma taça de vinho, falei ...e falei. Foi como se a memória de meu computador natural se abrisse e despejasse no ar, ao som de minha voz, tantas histórias. Falei de gente que já havia esquecido há muito tempo, revivi sensações. Lembrei-me da rua escura, num bairro distante, onde minha família se instalara após a transferência de meu pai para a cidade. Era iluminada por escassos postes altos, de luz amarelada, e, nas noites quentes, a criançada se reunia para brincar. Quase não havia trânsito e livremente transitávamos de uma calçada para outra. E ao descrever a rua, que revia de forma tão clara na minha mente, lembrei-me da mulher paupérrima que vivia em um casebre nos fundos de uma velha casa, bem defronte à nossa. Achava-a feia, mal-cheirosa. Nesta época, eu não tinha mais do que quatro anos. Somente bem mais tarde soube de sua miserável vida de prostituta. Tinha olhos azuis, cabelos louros, seguramente oxigenados, dentes estragados. Morava com a mãe e uma filha. Pobre gente! Já devem ter morrido há muito tempo.

Depois, mudamo-nos para uma vila, onde moravam quase exclusivamente militares. Lembro-me de minhas amiguinhas, todas filhas de militares, mas só guardei o nome de duas: Evinha e Léa. Brincávamos de pique - esconde, nos enfurnando nas varandas das casas, todas em estilo anos quarenta. Ou então brincávamos de estátua, o que eu detestava, já que nunca conseguia imobilizar-me de repente. E me lembro do cruel plano de surra numa menininha, justo no dia em que chegamos de mudança. Era filha da amante de um major, cuja filha fazia parte do grupo. Fiquei estarrecida. Por que bater nela? Não me lembro o que disseram, mas subi para casa aos prantos. Lembro-me bem que meu irmão me perguntava se haviam me maltratado, mas eu não sabia responder. Como acabou a história? Não tenho a mínima idéia.

E havia ainda tanta coisa a contar! Meu pavor dos “sujos”, que desfilavam no Carnaval, a cabeça coberta por uma fronha com dois buracos para os olhos e um para a boca. Acho que era assim, pois a única vez que vi um deles de perto, foi quando ele tocou meu ombro e, virando-me, vi aquele monstro medonho. Disparei aos gritos. Eu tinha cinco anos, mas disso me lembro bem. E dos beliscões de minha irmã, dez anos mais velha, quando eu ficava chateando seu namoro. Apaixonei-me por um de seus namorados, chamava-se José Félix, era gaúcho, como minha família, e lindo! Fiz até promessa quando ele propôs reatar o namoro, mas não deu. Fiquei penalizada. Como minha irmã podia ser tão burra!? E também me lembrei da moça loura, alta, que passava bem defronte à vila, na saída do colégio. Um dia deixou de passar, e então alguém me disse que havia morrido. Fiquei consternada! E também das festas de Cosme e Damião, quando a gente recebia um cornetinho feito de papel rosa, com balinhas dentro. E do meu horror à papinha que minha avó me obrigava a comer, feita de café com leite e pão picado, hábito da América espanhola, transplantado para a região da fronteira com a Argentina. Vi meu pai e minha mãe comerem isto a vida inteira. E sempre me causou o mesmo horror da infância. Lembrei-me de tanta coisa daquele passado tão remoto!

Hoje, aprendi a valorizar cada dia vivido, e dar graças por haver passado por muito sofrimento sem perder a alegria de viver. Compreendi a efemeridade de tudo e que de nada valem pequenas e mesquinhas vaidades, ainda que eu tenha a minha, mas que não é pequena nem mesquinha. Ouvindo naquela noite os dois músicos, que tocavam aquela velha canção, tive a certeza de que havia vencido. Sofrimentos, tive muitos, perdi minha família original, vi meu pai morrer cada dia, vítima de uma terrível cardiopatia, minha mãe sofrer durante seis anos,confinada à uma cama, minha irmã ser condenada pelo câncer, meu irmão morrer poucas horas depois de haver sido internado. Mas estou viva, lembrando aquele passado distante, diante do homem que amo, e brindando à vida.