QUEM SOU EU

Sou professora de Francês, mas hoje minha principal atividade é escrever e ler, além de cuidar dos meus três vira-latas: Charmoso, Príncipe e Luther.



Gosto de fazer ginástica, sou vegetariana e adoro animais em geral, menos baratas.



Sinto especial prazer quando meus textos agradam aos meus leitores. Espero continuar produzindo e me comunicando com todos os meus amigos, neste maravilhoso universo da net.



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domingo, 10 de outubro de 2010

O Lula que nós amávamos




Vim de uma família esquerdista. Ou melhor , meu pai ,  como muitos  militares de sua época, acreditou nos ideais marxistas. E mais ainda, que tais ideais eram praticados, de fato, na União Soviética stalinista. Não creio que tenha sido grande sua participação na chamada Intentona Comunista de 1935, mas quando morreu Prestes, minha mãe, já confinada ao leito, disse-me, com naturalidade:” Eu o vi lá em casa quando ia (ou foi)  falar com Felippe.” Fiquei perplexa! Sei que, após o fracasso, talvez temendo problemas maiores, meu pai pensou até em abandonar a carreira, mas foi dissuadido por minha avó, e ,como era aluno brilhante, veio para o Rio cursar Engenharia de Telecomunicações.  Mais tarde,  tornou-se professor do que na época chamava-se Escola Técnica do Exército, e algum tempo depois IME – Instituto Militar de Engenharia. Mas, há muito tempo, Felippe já havia se desiludido de seus ideais de juventude, quando, pouco a pouco, tomou conhecimento do que era, realmente, o stalinismo. No entanto, jamais abandonou os ideais de justiça social e de igualdade. Tornou-se um sincero socialista. Durante o tempo em que moramos na França, interessei-me pela história da Revolução Francesa, e sempre tinha perguntas para ele, que lera muito do que se havia publicado até então. Certa vez, falou-me de sua admiração, na juventude, pelo revolucionário jacobino Saint-Just, temido membro do “Comité de Salut Public”, guilhotinado com todos os outros membros de seu grupo. Lembro-me que disse: “Eu admirei sua fé num ideal que considerava justo, sua coragem, sua honestidade, sua absoluta retidão.”
E foi assim que nos incutiu o ideal de justiça social, de respeito ao próximo e ao seu trabalho, de honestidade e retidão. E guardou estes ideais até o último dia em que ainda teve condições de discorrer sobre a realidade. E a ele sempre agradecerei estes princípios com que tenho procurado nortear minha vida, ainda que, na minha humanidade, algumas vezes eu possa ter resvalado. No meu idealismo exacerbado dos anos 70,  dizia-me que não confiasse tanto nos ideais democráticos dos que se engajavam na guerrilha, que eu considerava heróis, pois provavelmente queriam outra ditadura, pior do que aquela em que vivíamos. Como sincero socialista, tinha grande admiração por Brizola. Felizmente, não teve tempo de se decepcionar. No entanto, o lider do "socialismo moreno" continua vivo e admirável nas minhas crenças profundas. E um dia, ao encontrá-lo no Galeão, não pude deixar de ir cumprimentá-lo e falar-lhe de minha admiração.
Mas quando surgiu um partido chamado dos trabalhadores, fiquei surpreendida, imaginando o que poderia ser um partido formado por trabalhadores. Tolamente, não imaginei que tal partido era formado majoritariamente por intelectuais, engajados na luta contra a ditadura, um partido que pretendia destacar-se pelo amor a um ideal democrático, honestidade, retidão. Aqueles mesmos que fizeram o jovem Felippe admirar Saint-Just. Quando votei pela primeira vez em 1989, optei, evidentemente, por Brizola no primeiro turno. Mas no segundo, emocionada com a posição que havia alcançado um pobre retirante, um modesto operário, cheio de ideais que jamais haviam existido no país, lancei-me numa campanha pessoal.  Vinte e um anos mais jovem, passei de carro, bem devagar,  provocativamente, diante de um comitê colorido com um enorme adesivo “LULA”. Levei uma paulada no meio da cara (bem feito!). Na democracia, temos que respeitar outras opiniões, mas, seguramente, a reação da mulher que festejava a vitória do cafajeste foi a altura do dito cujo.
E durante anos continuei a votar em Lula. Em 2002, Teresa havia feito sua última sessão de quimioterapia, estava sem cabelo, debilitada pelas múltiplas sessões que fora obrigada a fazer. Poderia ser dispensada, mas fez questão de votar. Não votávamos no mesmo lugar e fui encontrá-la em casa, sorridente: ”Acho que desta vez, vamos”. E fomos. E naquele dia 1º. de janeiro de 2003, até mesmo Ricardo, anti-petista ferrenho, se emocionou ao ver o torneiro mecânico ovacionado pelo povo, recebendo a faixa de Presidente. Teresa e eu ríamos, nos abraçamos, e acho que até choramos . Era o Lula da paz e do amor, dos nobres ideais, da honestidade indiscutível.
Que pena que o mensalão não tenha estourado um pouquinho  mais tarde, depois daquele início de primavera, quando Teresa se foi. Como meu pai, ela não teria tido tempo de se decepcionar. E quanto! Na seguinte eleição, em 2007,  quanta sujeira havia sido exposta!  Hoje o que vemos é um autoritário, cuja voz mesmo mudou. Ao vê-lo falar da “Bolsa família” em 2000, revemos com saudades o “Lulinha paz e amor”. O de hoje, com a voz gutural, utilizando, aos berros, palavras tão impróprias para o cargo que ocupa, para defender a mesma Bolsa que condenava há dez anos, matou o primeiro.
Gostaria de guardar, no fundo do meu coração, aquele líder operário corajoso, que respondeu a um militar que lhe perguntara se era comunista: “SOU TORNEIRO MECÂNICO”. Que pena que este tenha morrido!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Para Teresa

Hoje, início de primavera, faz cinco anos que minha irmã morreu. E ainda sinto um desejo infinito de contar-lhe minhas dúvidas, ouvir sua voz calma, ver seu sorriso. Minha confidente, minha melhor amiga se foi. Tanta coisa vivemos juntas! Recebi o telefonema às seis e meia da manhã, e ouvi de minha sobrinha Antônia a terrível notícia. Na véspera, em uma ambulância, eu a havia acompanhado ao hospital, onde ela ficaria na UTI até que conseguisse (?) vencer a infecção que se alastrara por seu corpo desprovido defesas, devido à quimioterapia. Beijei-a pela última vez, ainda na esperança de que não fosse um adeus definitivo. Três anos e meio haviam decorrido desde aquela tarde em que, após uma cirurgia de sete horas, os médicos entraram no quarto, balançaram a cabeça, e cortaram minha esperança. Mas, durante três anos e meio, vivemos da melhor forma o que eu sabia que ainda restava. Tinha esperança. É ela que salva a gente. Mas meu coração ficava apertado quando a via fazer planos para dali a meses. Teresa estava certa de que havia vencido a doença. Então, a partir do momento em que se constatou a reincidência, as coisas se precipitaram. Um mês, nada mais. Sei que foi melhor assim, e cada dia agradeço a Deus.


Sou uma sobrevivente. Perdi meu pai de uma terrível cardiopatia. E Deus me deu forças para cuidá-lo. Perdi minha mãe, vítima de profunda depressão depois da partida de seu grande amor. Seis anos de sofrimento, confinada a uma cama, decidida a morrer, sem que a morte chegasse. E, mais uma vez, Deus me deu forças para acompanhá-la até o momento derradeiro. Chorei sua partida, mas consolei-me, pois sabia que era sua libertação, aquela que tanto esperava. Cuidei de meu irmão, com problemas psíquicos, e acompanhei-o até o dia de sua morte, um ano e meio depois de minha mãe. Grande dor, uma vida, uma inteligência superior, desperdiçadas. Olho suas fotos de criança, lindo, sorridente. Ninguém jamais imaginaria o que estava por acontecer na adolescência.

Aí, ficamos Teresa e eu, remanescentes. Até aquele dia de início de primavera, quando beijei seu rosto gelado, sentindo meu peito estraçalhado de dor. Foi então que me tornei uma sobrevivente. Mas sei que sou guerreira, que não nasci para me deixar vencer. E continuo amando a vida. Só não tenho mais com quem dividir minhas lembranças, tirar alguma dúvida sobre o passado.

Há quinze dias, Ricardo e eu nos separamos, após vinte e um anos de união. Fizemos aquilo que muita gente não tem coragem de fazer: recomeçar sobre novas bases. Como dizia Vinícius “O amor é eterno enquanto dure.”. Vivemos momentos de intensa felicidade, tivemos nossos arrufos, mas nossa vida foi muito boa. E antes que o amor que acabou se transformasse em hostilidade, dissemos adeus. Mas não me sinto só. Olho meu passado e me sinto orgulhosa de tudo que tive a coragem de enfrentar e fazer. Continuo minha ginástica diária, cuido-me, gosto de mim e por gostar de mim posso viver sozinha e feliz.

E viva a vida porque ela é um dom maravilhoso que Deus nos deu, e eu sei que jamais estarei solitária, porque o terei sempre ao meu lado.

sábado, 18 de setembro de 2010

“HUIS CLOS” no abismo

No rosto do mineiro estampado na capa da “Veja”, há um olhar vazio, como se olhasse para o nada. E olha. Olha para paredes úmidas, frias, escuras. Falta-lhe esperança? Não se pode dizer. Há um vazio que domina toda a foto. Mas o que espera ele, enterrado vivo, com um socorro incerto, a centenas de metros de profundidade? Ele e mais trinta e dois homens, isolados do mundo. Falta-lhes a claridade do sol, seu calor.  Falta-lhes oxigênio, o mínimo de conforto, mas, acima de tudo, falta-lhes liberdade. Este tesouro que nos permite determinar nosso destino, que nos faz humanos. Quanto desejo deve haver de dizer a uma mulher amada “Eu te amo”, de acariciar um filho, de abraçar o pai, mãe, um amigo, de lutar por um projeto. De pedir perdão.  
Ao ver aquele rosto, solitário, com mais trinta e dois, lembrei-me da peça de Jean-Paul Sartre, “Huis Clos”. Li-a várias vezes, mas na generosidade de emprestar livros, o perdi. No entanto, até hoje ainda está gravada na minha memória. Numa sala, são confinadas três pessoas, três mortos que acabam de chegar ao inferno: Inès, Estelle e Garcin. Neste inferno não há espelhos, nem janelas, a luz nunca se apaga.  Uma porta se abre e fecha à sucessiva entrada de cada morto. Até que se fecha definitivamente e eles se vêem confrontados uns com os outros. Não há fogo, nem tridente, nem diabo. Cada um deles finge não saber por que está lá, até que não resistem e contam a verdade. Inès é uma lésbica, que ajudou a matar o marido de uma prima, e matou-se em seguida levando ao suicídio a amante. Garcin é desertor, e foi fuzilado. Durante anos torturou a mulher com suas amantes. Inés matou o próprio filho, produto de um amor proibido. Não me lembro bem, mas acho que levou o amante ao suicídio. Olham-se o tempo todo já que não podem fechar os olhos, e acabam odiando-se. Estelle, vaidosa, quer se olhar em algum espelho, mas só lhe resta o espelho dos olhos de Inès, e ao olhá-la, sente sua culpa estampada nos olhos da outra. “O inferno são os outros”. Sartre fazia questão de assinalar que sua frase não significa que as relações humanas são tão dolorosas, mas que situações limite levam a este inferno. Mortos, nada podem mudar. Como os mineiros do abismo.
 Estelle, Inès, Garcin, precederam décadas aqueles mortos-vivos. Mas quantas vezes, vivos, não experimentamos situações, solitários com quem nos acompanha, engessados, abrindo mão de nossa liberdade?
O que será desses pobres homens, confinados a uma estreita sala, olhando-se uns aos outros, infinitamente, na semi-escuridão que os cerca? Já não se fala neles, os esquecemos como esquecemos tantas outras tragédias. Até um dia em que verão novamente a luz do sol, ou sucumbirão seja por razões físicas ou porque o inferno dos outros se tornou grande demais    

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A ESTONTEANTE E A REBOLANTE

Criei um novo blog
“hppt://wwwbelezaefundamental.blogspot.com/”,

onde pretendo falar de mulheres, e também de homens, que deixaram, ou deixarão, sua marca na história, por sua beleza e/ou inteligência.  Meu interesse, e todos aqueles que me conhecem já sabem de antemão, não é exaltar beldades. Beldades se esvaem quando não há mais nada que as marque.  Todos nós, feios, bonitos, estúpidos ou inteligentes, temos o nosso tempo, que o próprio tempo consome, e, como no filme “Gangues de Nova Iorque”, somos pouco a pouco engolidos pelo mato ou pelas torres. E desaparecemos logo que aqueles que nos conheceram também cumprem seu tempo.
Como introdução ao meu novo blog, onde coloquei a linda foto de Marylin Monroe nua, não poderia deixar de falar de um fenômeno que explodiu há cerca de cinqüenta anos: a democratizão da beleza, da elegância, dos embelezadores, do prêt-à-porter, fenômeno que considero importantíssimo, já que permite a todos nós conservar nossa auto-estima, ainda que a esquerda radical considere tudo isso ridículo, como achava meu antigo namorado Robert, que, aliás, tenho certeza, mudou seus conceitos. A este respeito, escrevi, em 2008, um texto: “Feios e fedorentos”. Falar da “Explosão da beleza” nos remete a um mundo onde todos nós podemos nos cuidar, e nos gostar. Mas também podemos ressaltar que no mundo contemporâneo temos acesso a um conhecimento que até bem pouco tempo era inaccessível aos que chamávamos de “excluídos”. Ainda não chegamos a todos, há muita miséria e ignorância, mas não resta dúvida que, pela evolução da tecnologia em qualquer setor, há muito mais gente “incluída”. E certamente não por obra do governo Lula.
Mas não é para falar mal deste governo, de minhas decepções, de meus sonhos perdidos, que escrevo hoje: quero falar de pornografia. Amigos, sentiram-se surpresos, constrangidos, ofendidos? Que pena! Vocês ainda não perceberam que basta abrir um jornal, uma revista, assistir a um telejornal, e lá está ela, esfregando na cara da gente despudor, mau-cheiro, feiúra, mau-hálito, e muito mais coisa que por uma questão de respeito não colocarei aqui.
Foi uma leitura desastrosa do cristianismo, durante a Idade Média, que colocou como pecado tudo que se refere ao corpo e ao prazer, que só foi retomado na Renascença. Lembro-me de que, quando trabalhava num grupo de estudos sobre a civilização francesa, lemos um livro fantástico “Le plaisir au Moyen Âge”. Já começa com São Paulo, que não admite o prazer, mas tem consciência que sem ele não poderá haver reprodução. Discute-se longamente, e hilariamente,  como se reproduzir sem pecado. Posteriormente, sem conseguir resolver o problema, aconselha-se ao casal a fazê-lo castamente, devendo a mulher, durante o ato sexual, recitar para seu parceiro orações que possam absolvê-los do pecado que estão cometendo.  Estupefaciente, não acham? E é interessante lembrar-se de um monge, Roger de Caen, que, em 1095, escreve: “Não ame nada que dê prazer aos sentidos, pois o que encanta a carne prejudica o espírito; as alegrias do mundo engendram sofrimentos eternos...” E Santo Estevão (morto em 1190) que, entrando para o sacerdócio, troca o riso, a alegria e a despreocupação pela angústia e tristeza. Troca igualmente suas vestimentas confortáveis por silício e o usa constantemente em contato direto com a carne. Somente se alimenta de pão e água regados por suas lágrimas, e durante o inverno, quando o gelo recobre os lagos, introduz-se na água até que seu corpo esteja totalmente enregelado. E há ainda outras crueldades praticadas contra si mesmo. Enfim, submete seu corpo a um total aniquilamento seja pelo frio ou pela fome. E em nome de Cristo! Quanto a queimar gente na fogueira... são hereges! Lendo tudo isto, tenho a convicção de que foi assim que desenvolvemos a vergonha do corpo, e, apesar de tantos séculos passados, aí estão as religiões, dando cobertura a esta anomalia.  Logo, como já disse, para muita gente é preciso fechar os olhos para a obra dos mestres da Renascença, e considerar a foto de Marilyn nua imoral (!) (Não me canso de repetir esta burrice)
Imoral é Fidel, aquele da Coréia do Norte, Armadinejad ( e olhe que não tenho especial simpatia pelo Estado de Israel), que executam os opositores. Imoral é Tarso Genro que entregou ao ditador os pugilistas cubanos que queriam uma vida melhor e nos mentiu que haviam partido porque estavam com saudades de casa. Imoral é Chavez,  e já me cansei de falar nisso. Imoral é Putin, que destruiu a cidade de Grosny, deixando na orfandade milhares de crianças, algumas das quais barbaramente estupradas por soldados russos. Sobre esta tragédia vi cenas chocantes no filme “Os órfãos de Grosny”.   Imoral é achar normal ser ladrão, como ouvi há alguns dias de uma pessoa que se diz ilustrada: “Roubar, todo mundo rouba.”  Imoral é ser Geddel Viera Lima, que utilizou na sua Bahia natal 67%  da verba destinada a socorrer vítimas de catástrofes, sendo que ao Estado só coube cerca de 10%.  E já podemos imaginar o que fez com o restante. E mais imoral ainda é o Presidente que não o demite, porque afinal Geddel é da base aliada e conta votos. 


O que acharam da dança do elefante – Angela Guadagnin-, festejando a absolvição de um mensaleiro? Pura pornografia, felizmente punida pelos eleitores.

terça-feira, 22 de junho de 2010

BELEZA É FUNDAMENTAL


Coloquei no novo blog “Beleza é fundamental”, uma foto que mostra uma das mais belas mulheres deste mundo, em geral habitado por gente feia. Linda, sensual, e com aquele ar ingênuo, de menina meio perdida no mundo mau. A foto foi tirada, creio eu, em 1947, quando ela tinha apenas vinte e um anos. Era uma moça pobre, filha de mãe esquizofrênica, abandonada pelo pai e criada num orfanato. Ao sair, dizem, foi adotada por uma família pobre, que, tendo se mudado de cidade, não pode levar consigo a mocinha. Em 1942, Norma Jean, seu nome verdadeiro, resolveu casar-se com seu namorado de algum tempo, por quem, parece, estava apaixonada e que a livraria do orfanato. Tendo o marido sido convocado em 1944, Norma Jean passou a trabalhar numa fabrica onde foi vista por um fotógrafo que percebeu o potencial incrível daquela mocinha e contratou-a para posar. Daí pra frente, com os cabelos louros, e já rebatizada Marilyn Monroe, teve que escolher entre a carreira e o casamento. Divorciou-se em 1946. Parece que foi no ano seguinte que posou para a foto que coloquei para ilustrar o blog e que, passados mais de sessenta anos, ainda é considerada uma das mais belas, senão a mais bela foto de nu feminino.

Marilyn, a menina pobre, bastarda, filha de mãe esquizofrênica, criada num orfanato, tornou-se a mulher mais famosa do século XX. Marilyn, que, quase cinqüenta anos após sua morte, ainda encanta, e faz sonhar. E provoca inveja em outras mulheres que sonham em ser tão lindas quanto ela. Marilyn, que morreu solitária , talvez tentando salvar-se, com a mão estendida em direção ao telefone.

Conto tudo isto, já que, parece, a beleza desta nudez singela, singela como a nudez exposta pelos mestres Renascentista, pareceu pornográfica (!) a gente que vive no século XXI (!), que já deve ter visto, ainda que seja de passagem, algum quadro dos grandes gênios. O que dizer, então, do David de Michelangelo, exibindo sua virilidade no seu órgão másculo exposto? E a arte grega? E a romana? Ora, para mim pouco importa o que digam alguns ou algumas invejosas e ignorantes. Marilyn, naquela foto, é a Venus de Boticelli, que emerge nua das águas, e que nunca, ninguém poderá apagar. Marilyn, deusa da beleza, que durante pouco anos, infelizmente, encantou o mundo, é a Venus do século XX, sem silicone, sem lipo, sem ginástica, sem photoshop. Esta mulher jamais poderá ser considerada pornográfica, e sua foto esplendorosa, mostrando toda sua nudez, para sempre ilustrará o que se quiser falar de beleza.

Para ela, escreveu este lindo poema, Ernesto Cardenal, poeta, religioso e revolucionário nicaragense

Oração para Marilyn Monroe


Senhor

recebe esta moça conhecida em toda a terra pelo nome de Marilyn Monroe
ainda que este não seja o seu nome verdadeiro
(mas Tu conheces o seu nome verdadeiro, o da pequena orfã).
violentada aos 9 anos,
a empregadinha de loja que quis se matar aos 16
e agora se apresenta diante de Ti sem nenhuma maquilagem
Sem seu Agente de Imprensa
Sem fotógrafos e sem assinar autógrafos
sozinha como um astronauta diante da noite espacial.
Ela sonhou quando menina que estava nua em uma igreja
(de acordo com a Time)
diante de uma multidão prostrada, com as cabeças no chão
e tinha que caminhar na ponta dos pés para não pisar nas cabeças.
Tu conheces nossos sonhos melhor que os psiquiatras.
Igreja, casa, cova, são a segurança do seio materno
mas também é mais que isso.

As cabeças são os admiradores, é claro
(a massa de cabeças na escuridão debaixo de um jorro de luz).
Porém o templo não são os estúdios da 20th Century Fox
que fizeram de Tua casa de oração um covil de ladrões.

Senhor
neste mundo contaminado de pecados e radioatividade
Tu não culparás apenas uma empregadinha de loja.
Que como toda empregadinha de loja sonhou ser estrela de cinema.
E o sonho foi realidade (mas como a realidade do technicolor).
Ela apenas representou de acordo com o script que lhe demos
--O de nossas próprias vidas-- E era um script absurdo.
Perdoa-lhe Senhor e nos perdoa
por nossa 20th Century
por esta Colossal Super Produção em que todos trabalhamos
Ela tinha fome de amor e oferecemos tranqüilizantes.
Pela tristeza de não sermos santos
recomendamos a Psicanálise.

Lembra-Te Senhor do seu crescente pavor da câmara
E seu ódio à maquilagem – insistindo em maquilar-se a cada cena –
e como se foi fazendo maior o horror
e maior a impontualidade nos estúdios.

Como toda empregadinha de loja
sonhou ser estrela de cinema.
E sua vida foi irreal quanto um sonho que um psiquiatra interpreta e arquiva.

Seus romances foram um beijo com os olhos fechados
que quando se abrem os olhos
descobrem-se embaixo de refletores
e os refletores se apagam.

E as duas paredes do quarto se desmontam (eram um set de cinema)
enquanto o Diretor se afasta com suas anotações
porque a cena já foi rodada.
Ou como uma viagem de iate, um beijo em Singapura, um baile no Rio
a recepção na mansão do Duque e da Duquesa de Windsor
vistas da sala do apartamento miserável.
O filme acabou sem o beijo final.
Acharam-na morta em sua cama com a mão ao telefone
E os detetives não souberam a quem ia chamar.
Foi
como alguém que discou o número da única voz amiga
e ouve apenas a voz de uma gravação dizendo: WRONG NUMBER
Ou como alguém que ferido pelos gangsters
estende a mão para um telefone desligado.
Senhor
quem quer que tenha sido a quem ela chamava
e não chamou (talvez ninguém
ou era Alguém cujo número não se encontra na Lista de Los Angeles)
atende Tu ao telefone.


quarta-feira, 16 de junho de 2010

Deus e o Diabo

“Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor. O Diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e amor com casamento.” 


“Será que todas estas moças estão se casando com imbecis?” O meu azar é que morávamos defronte a uma grande igreja, onde aos sábados os casamentos se sucediam, com lindas noivas, em lindos vestidos brancos, exibindo sua virgindade (que nesta época era pra valer). Nunca entramos num acordo meu pai e eu. Militar, engenheiro, gaúcho macho da fronteira, Felippe, jamais entendeu que um dos maiores beneficiados era ele mesmo. Tentei fazê-lo entender que amor e casamento não tinham nada a ver e que ao não ligar para este ato burocrático, eu o estava ajudando a fazer uma imensa economia, que poderia ser gasta em coisas mais interessantes, como uma viagem a Paris.

Afinal, eu era filha de um General, e, logo, meu casamento não poderia ser qualquer coisinha. Imagino que naquele tempo poderiam dizer que eu me casava grávida, coisa horrível, ou, menos horrível, que meu pai era um sovina. Vejamos então os gastos, sempre altos, para a patente de uma filha de General. Primeiro, havia o célebre enxoval, que, tenho certeza interessaria à maioria de minhas amigas da época, todas antenadas no “desencalhe”. Milhões de toalhinhas inúteis, toalhas, colchas, mantas, enfim um arsenal capaz de cobrir um batalhão. Quem sabe até me fosse cobrada uma exposição? E o vestido de noiva, que deveria ser lindo, como o das moças que me eram mostradas como modelos. E havia ainda a grinalda, o buquê, sapatos especiais. Sem esquecer o véu. E a ornamentação da igreja. E as roupinhas da daminha, que certamente seria Ludmila, minha sobrinha, que odiaria esta função e também, certamente, a roupinha. E haveria também a roupa da mãe da noiva, e a do pai. E se não houvesse festa, muita gente se consideraria ultrajada, e sairia falando cobras e lagartos. Se houvesse, idem. E como tínhamos, meu pai e eu, uma profunda incompatibilidade quanto aos meus pretendentes, este item sempre foi supérfluo.

E pasmem, Felippe odiava todas estas solenidades, e só se casara no civil. E ainda por cima, era agnóstico, ou ateu, não sei bem. Meu pai, pena, foi vítima do “politicamente correto”, em que uma moça deve casar. Como diz Simone de Beauvoir, no seu inigualável “Segundo sexo”, as mulheres casadas gozam de maior prestígio do que as solteiras. Ele sabia disso e talvez temesse me deixar trilhar meu próprio caminho, como eu pretendia fazer, e fiz. O livro foi escrito em 1947, mas ainda hoje persiste na cabeça de muita gente esta crença profunda, que, por ser crença, é quase inextirpável.

Rompi, e espero haver rompido, de fato, com todo tipo de preconceito. Orgulho-me em dizer que tinha um bisavô mulato, uma avó cabrocha, que não sou casada, e pretendo nunca me casar, mas que vivo com o homem que escolhi livremente. E que temos uma relação absoluta igualitária, onde dividimos deveres, despesas e, evidentemente, prazeres. Que tenho queridos amigos homossexuais. Meu último rompimento com o que não me diz respeito aconteceu quando perdi minha única irmã, último membro de minha família original. Com meus sobrinhos, decidimos que não havia necessidade de “missa de sétimo dia”. Reunimos amigos, alguns deles religiosos, falamos do que significa esta dolorosa separação, a morte, que nos aguarda a todos. Li um texto em sua homenagem, onde falava de minha dor e saudade. Mas também rimos nos lembrando de bons momentos vividos juntos, e até fizemos um lanche preparado por suas filhas e noras. Porque eu sabia que Teresa estava bem, e está. Talvez conosco naquele momento, também recordando. Porque tenho fé. Fé que me segurou nos momentos de dor por que todos nós passamos e que me dará forças até o final.

Mas sem religião. Nem casamento.
A frase acima é de Machado de Assis, mas disse-me um amigo que se inspirou em Shakespeare.

quarta-feira, 26 de maio de 2010