QUEM SOU EU

Sou professora de Francês, mas hoje minha principal atividade é escrever e ler, além de cuidar dos meus três vira-latas: Charmoso, Príncipe e Luther.



Gosto de fazer ginástica, sou vegetariana e adoro animais em geral, menos baratas.



Sinto especial prazer quando meus textos agradam aos meus leitores. Espero continuar produzindo e me comunicando com todos os meus amigos, neste maravilhoso universo da net.



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segunda-feira, 24 de junho de 2024

 As grande amantes reais

Disse Napoleão: " O poder é o maior afrodisíaco". 

"De acordo com Demóstenes, o homem ateniense "tinha cortesãs por causa do prazer, concubinas no interesse da saúde  diária de nosso corpo e esposas para nos proporcionar uma prole legítima e serem fiéis guardiãs de nosso lar." Citação da Princesa Michael of Kent, autora do livro "As grandes amantes da História."  Sabe-se que na Grécia a mulher era restrita ao chamado "Gineceu" e sua função era tão somente procriar. Na Alta Idade Média, durante, por exemplo, a Dinastia Carolíngea, inaugurada por Pépin le Bref, pai de Carlos Magno, era normal enviar-se para um convento pelo resto de seus dias, alguma esposa que tivesse falhado em algum de seus deveres, como dar filhos machos ao Rei. O próprio Carlos Magno cometeu este horror.   Na dinastia anterior, dos Reis Merovíngios, o normal era importar Princesas nórdicas, muito valorizadas pela sua beleza. A dinastia seguinte, aquela dos Capetinos, tem início com Hugues Capet, no ano de 987. A ela pertencem os mais conhecidos Reis da França. Luís XVI, depois de destronado foi chamado pelos Jacobinos de Luís Capet, referindo-se à  dinastia à qual pertencia.   

É verdade que durante a maior parte da Idade Média, não houve amantes. O desprezo pelas mulheres, filhas de Eva que havido produzido o pecado original, era enorme. Somente podia salvar-se Maria, mãe de Jesus. No entanto, isto não regatava inteiramente o pecado original. Segundo os historiadores Georges Duby e Michelle Perrot, " a Idade Média pensou que a lepra podia ser contraída no decurso de uma relação com uma mulher menstruada, e alguns autores afirmam que a criança concebida nessas condições pode ser leprosa."  Amantes reais eram, portanto, raras durante um longo período da História da Europa.

 Mas voltando ao assunto propriamente dito, que pretendemos abordar, a verdade é que muitas amantes reais tiveram um grande objetivo de poder ao compartilhar a intimidade de um Rei, mas há também aquelas que  o fizeram por amor. É também verdade que se sua influência era maior do que a da Rainha, sua situação era de profunda ansiedade, pois a qualquer momento seu real amante poderia se enjoar dela e trocá-la por outra. Exemplo disso é Luís XIV, que teve muitas amantes, até apaixonar-se por Madame de Montespan, que era casada e já  tinha dois filhos. Com ela teve outros seis. Na verdade, Madame de Montespan, havia sido escolhida para ser acompanhante da Rainha Maria Teresa, Infanta da Espanha. Madame de Montespan era consciente do valor da beleza e  fazia massagear-se com finos cremes. Também era motivo de valorização da beleza, que a mulher tivesse barriga e muitas colocavam enchimentos! Faço esta observação para fazer notar o quanto mudam com o tempo os conceitos de beleza.    

É preciso levar em consideração que não era nenhum sentimento amoroso que movia estes casamentos reais, mas sim políticos. Luís XIV teve três amantes oficiais, Louise de la Vallière, com quem teve cinco filhos, dos quais apenas dois sobreviveram à infância. Mademoiselle de la Vallière acabou seus dias em um Convento, no ano de 1710. Quanto à Madame de Montespan, caiu em desgraça, acusada de bruxaria, ou coisa parecida. Sua última amante, ou Rainha Consorte, por um casamento secreto, uma vez que Maria Teresa já havia falecido, foi Madame de Maintenon, que havia sido chamada para ser preceptora dos filhos de Luís XIV com Madame de  Montespan. Ela já era viúva do poeta satírico, chamado Scarron. Proveniente do Protestantismo, tornou-se uma católica fanática. Não era bela, mas pode-se dizer que foi o grande amor do Rei. Morreu 4 anos depois dele.

Mas há uma que foi amante de um Rei, na Baixa Idade Média. Chamava se Agnès Sorel. Ainda muito jovem, apaixonou-se e entregou-se de corpo e alma a Carlos VII. Era  uma linda mulher, enquanto o Rei era horrendo e fraco. Seu reinado ocorreu durante a Guerra dos Cem anos, que opunha ingleses a franceses. E foi graças ao heroísmo de uma jovem camponesa, visionária,  chamada Jeanne D'Arc, padroeira da França, que seu país venceu a Inglaterra. Ainda assim, Carlos VII, não hesitou, por razões políticas, em entregá- la  aos ingleses, que a condenaram à fogueira. 

Agnés Sorel, era ambiciosa, gostava de belas roupas, e as mais caras joias. Inovou a  moda, descobrindo a sensualidade dos decotes, que expunham parte dos seios, o quê seria impensável antes. Esta é a razão pela qual nas pinturas, um de seus seios está sempre exposto. Engravidou várias vezes, mas não sei quantos sobreviveram. A humilhação pública de sua mãe, Marie d'Anjou,  leva o Delfim, futuro Luís XI, a detestá-la. Malgrado tudo isto, o casal real tem 13 filhos. Apaixonado, o Rei dá de presente a sua amante, um "manoir" (mansão), chamado "Beauté" , donde vem a denominação, justa, para a amante do Rei, de "Dame de la Beauté" . Um canal no Youtube, chamado "Secrets d' Histoire", mostra uma experiência notável. Há alguns anos, seu túmulo foi reaberto, e descoberto em uma urna, seu crâneo. Uma incrível reconstituição facial, com técnicas modernas e artistas, foi realizada. E como diz a comentarista: " Neste momento um milagre se produz, Agnès Sorel aparece sob os nossos olhos." E o rosto que se vê é de estonteante beleza. Perfeição de traços, colocaram-lhe olhos azuis, e cabelos louros, tal como descreviam seus contemporâneos. 

Grávida, ela viajou 4 dias para encontrar o Rei. Ao voltar, após uma gravidez e parto particularmente difíceis, ela dá à luz, e morre logo depois. Suspeita-se de que foi envenenada por Luís XI, filho de Carlos VII. Durante o período Jacobino, todos os túmulos reais foram profanados, inclusive o seu. A cabeça, destacada do corpo foi colocada dentro de um pote e coberta de terra. Passado o Terror, um religioso que havia que havia testemunhado a infâmia, retira o pote e o entrega a alguma autoridade. Não sei exatamente em que data, o pote e o resto de seus despojos foram finalmente levado a um túmulo de mármore negro, de onde foi retirado já nos anos 2000, para a reconstituição facial. 

Incrível história de uma mulher que muito amou e muito foi amada, que revolucionou a moda de seu tempo, que vestiu renda e usou tecidos bordados a ouro e joias as mais lindas.

Outra amante famosa foi Diane de Poitiers. Nascida em 1499, já no alvorecer da Renascença, com o mundo emergindo das trevas medievais. O homem agora se voltava para a beleza das artes, retomando valores esquecidos da Grécia e de Roma. Por esta razão é a chamada "Renascença". Neste alvorecer de uma nova era, a criança recebe o nome de Diana, em homenagem à deusa da caça e da lua. Desde cedo, mostrou-se uma criança excepcional, cuidando de sua higiene, levantando-se cedo para banhar-se nas águas frias de um riacho. Manteve ao longo da vida o hábito de exercícios e massagens, numa época em que ainda a formosura tinha vida curta. Ainda criança, órfã de mãe, foi criada por uma tia, que cuidou de seus estudos. Conta-se que aos sete anos era capaz de ler latim e aos nove, grego. Além disto, era linda, de pele alva e cabelos vermelho dourados. 

Quando conheceu Henrique II,  Diana já era viúva de Luís de Brezé, neto de Carlos VII e da bela Agnès Sorel. E tinha duas filhas. Quando se conheceram "Henrique tinha dezessete; Diane de Poitiers trinta e cinco. O jovem tímido de olhos escuros e apertados, com um esplêndido corpo de atleta debaixo dos trajes desalinhados, que jamais se esforçara para cultivar amigos, desenvolvia agora uma nova confiança e um comportamento apropriado à sua condição"(Princesa Michael of Kent). Henrique havia sido forçado a uma casamento político com Catarina de Médicis, sobrinha do famoso Lourenço de Médicis, o Magnifico, grande incentivador das artes que embelezam Florença. Catarina era uma mulher extremamente feia, e seu marido não sentia por ela nenhum amor ou desejo. Assim, durante cerca de doze anos, não gerou nenhum filho. Quando conheceu Diana, a paixão foi fulminante. Conta-se que Diana o excitava suficientemente para que ele pudesse manter relações com a esposa. Afinal, ela deu à luz a doze filhos. Mas, também entre os dois amantes  a paixão levava-os à loucura. Foi o mais belo dos Reis da França. De origem Capetina, mas de linhagem Valois, sendo seu pai Francisco I, o primeiro da dita linhagem. Henrique II deu a sua amante todo o esplendor que o poder pode dar. Vale lembrar o célebre castelo de Chenonceau na Vallé du Loire, que visitei há anos. Henrique mandou construir uma majestosa  ponte ligando o castelo á margem. Ali, Diana realizava festas monumentais. Há incrustados nos cantos do teto, dois croissants entrelaçados (croissants significando "crescente"). E o Rei se vestia de preto e branco, cores de sua amada.  

Henrique era fascinado pela chamada "justas", em que dois cavaleiros, munidos de lança, a cavalo um contra o outro, tentavam derrubar-se. Era um esporte de alto risco e conta-se que a Rainha, Diane e todos seus familiares haviam implorado para que não se expusesse. Naquele dia fatal, o Rei entra na arena com as cores de sua amante e seu emblema do crescente. Aos quase sessenta anos, Diane parecia tão radiosa quanto aos trinta. Os cavaleiros portavam  elmos com viseiras, mas, para terror de todos a lança do adversário penetra na viseira e perfura um dos olhos do Rei e parece que atingiu seu cérebro. A desolação é total. Catarina, a Rainha, manda decapitar quatro prisioneiros para que seus cérebros fossem estudados. Mas, evidentemente, de nada adianta, ele agoniza durante dez dias e acaba morrendo em meio a terríveis dores 

Enfim, chega a hora da vingança! Ela fora humilhada, muitas vezes era Diane que estava ao lado do Rei em solenidades  oficiais. Ao saber da morte de seu amado, ela havia pensado que seria presa. Mas Catarina era muito astuta para isto. Assim, despojo-a de bens, que lhe haviam sido dados por Henrique. Seus amigos se afastaram durante algum tempo com medo de represália de Catarina. Ao fim de cerca de dois anos, voltaram. Diane refugiou-se no "manoir" de Anet, onde vivera momentos de intenso amor. Os aldeões, passaram a amá-la . Para eles, retribuindo este amor, Diane construiu um pequeno hospital , além de lares para mães solteiras, órfãos, meninas  carentes e viúvas. 

Pouco antes de morrer, em decorrência de uma fratura em uma das pernas, Diane dividiu sua enorme fortuna entre suas duas filhas, com a condição que nenhuma se tornasse protestante. "Jamais um protestante receberá um rendimento de  Diane de Poitiers".

É bom lembrar que pouco antes Lutero havia divulgado seu libelo contra as indulgências vendidas pela Igreja Católica, ou seja, o Vaticano, e começavam as guerras religiosas.

Morreu no dia 25 de abril de 1566, justamente aos 66 anos. 

Seguindo a linha do tempo, falemos um pouco de Henrique IV, que  promulgou o Edito de Nantes, que permitia aos protestantes, sobretudo calvinistas, o direito a professar  sua fé. Este  documento colocou fim às guerras religiosas, com especial referência à  Noite de São Bartolomeu, ocorrida entre 23 e 24 de agosto de 1572. A Carlos IX, filho de Catarina e Henrique, seguiria Henrique III, homossexual, sempre acompanhado de amigos com seu perfil sexual, grupo chamado de "Henri et ses mignons". Henrique III não forneceu herdeiros ao trono e seu casamento com Louise de Lorraine, constituindo o que se chama "casamento branco" Mas, naquela fatídica noite de 23 de agosto, católicos foram convocados para eliminar os chamados Huguenotes (protestantes) e o sangue correu pelas ruas de Paris. Catarina de Médici, com seu instinto político resolve então unir um huguenote, Henrique de Navarra, a sua filha Margot. Há sobre esta Rainha um magnífico filme; "La Reine Margot", que assisti em Paris em 1993, ano de seu lançamento e que, já me antecipando, compartilhei um pequeno vídeo em meu Facebook. Este casamento, puramente político, é forçado a Marguerite de Valois. E o video postado mostra  a sua relutância em dizer o "sim" , até que um de seus irmãos, creio que Carlos IX, lhe dá um murro na nuca que é reconhecido como "sim". 

Morta toda a linhagem Valois, Henrique de Navarra, da mesma origem Capetina, mas da linhagem Bourbon, resolve converter-se, por razões políticas, ao catolicismo - "Paris vaut bien une messe" e é coroado Henrique IV. Há um livro de Alexandre Dumas, chamado " La Reine Margot", de quem vale a pena falar um dia. Como esquecer esta mulher bela e culta? Obrigada a abdicar de seu verdadeiro amor, o cavaleiro de la Molle. Há em Paris, no museu de cera, Grévin, uma bela cena sua , despedindo-se de seu verdadeiro amor. Aliás, tenho duas lembranças inesquecíveis deste museu. A  primeira, quando era criança e morava na França. Uma noite, fui com meu pai visitar este museu, e fiquei impressionadíssima. Jeanne D'Arc na cela, orando, antes de ser  levada à fogueira,  Maria Antonieta, já na Torre do Templo, sendo-lhe mostrada a cabeça decapitada de sua melhor amiga, Mademoiselle de Lamballe , o quê é fato histórico. Chegando em casa, ansiosa, contando para minha mãe o quê vira, desmaiei. Lembro-me de minha mãe amparando-me e de meu pai dizendo: "Sou um homem acabado". Aliás, ouvi-o dizer em outras ocasiões esta mesma frase. Hoje, adulta, estou certa de que lembrava-se de sua meia-irmã, Maria, morta aos doze anos de Peste Bubônica, também chamada de Peste Negra. Ele jamais esqueceu esta irmã, que dizia ser linda. O ano era 1922, e a peste. transmitida pela pulga de  ratos doentes se espalhou pelo país .Ou talvez  pelo mundo. Minha mãe perdeu amigas e até um admirador (na época ela tinha 14 anos). Um Presidente brasileiro, recém eleito também foi vitimado. Os mortos eram enterrados em caixões forrados de zinco, acho eu, e não podia haver velório. A outra ocasião, bem posterior, de meu velho amigo Grévin, foi em 1981, Estava fazendo um curso sobre o Palácio de Versalhes, e fui revisitar o Museu de tantas lembranças. Lá encontrei um rapaz que era vigia, acho eu, e que era refugiado do Afeganistão, invadido pelos soviéticos. Afinal, foram eles  que começaram tudo! Hoje me pergunto qual será sua posição, ou se estará vivo.

Henrique IV foi um político genial, mas seu apetite sexual era incomensurável. Dizia-se que tinha mais amantes do que os dias do ano. Posteriormente, apaixonou-se perdidamente por uma jovem de extraordinária beleza, chamada Gabrielle d' Estrées, que vinha de uma família de cortesãs, desde sua avó. Dizem que foi sob sua influência que o Rei assinou o Édito de Nantes, de importância vital para a paz entre católicos e protestantes. Chegou ao ponto de pedir ao Papa  a anulação de seu casamento com Maria de Médicis, sua segunda mulher. Pouco antes da anulação chegar, Gabrielle d'Estrées morre em consequência de um parto prematuro.

Com Maria de Médici, Henrique IV teve vários filhos, dentre os quais o Delfim , que viria a ser Luís III. Ao contrário do  pai, era tímido e não dado a amantes. Casou-se com Anne d'Autriche,  Infanta da Espanha. Conta-se que a Rainha era infiel e que durante anos tivera vários amantes. Há também no Museu Grévin uma cena em que a Rainha passa um bilhete a seu amante. Durante a menoridade de seu filho, futuro Luís XIV, foi Regente. Já Luís XIV, herdara do avô a devoção ao sexo. Mas dele já falei bastante. 

Jeanne-Antoinette Poisson nasceu em 29 de dezembro de 1721. Foi a primeira filha de uma casal firmemente ancorado na classe média. Com casamentos baseados em finalidades políticas, todas as esposas podiam ter amantes . Segundo seus mais gentis biógrafos, sua mãe teve pelo menos doze amantes, todos ricos e influentes. 

Quando o  Rei , Luís XV, tataraneto de Luís XIV, que durante sua longa vida e seu longo reinado, havia perdido todos seus descendentes mais próximos, lembrando que naqueles tempos a expectativa de vida era curta e o Rei era longevo. Chegado o momento do casamento de Luís XV, era preciso escolher uma noiva. O Rei da Polônia, Stanislas Leczinski , era um Rei que vivia sob o protetorado de potências , como a Suécia , tendo residência na cidade francesa de Estrasburgo, e tinha uma filha disponível. Era Maria Leczinka , sete anos mais velha do que o Rei e que nada tinha a ver com a corte fastuosa de Versalhes. A futura Rainha é descrita como" profundamente religiosa, modesta, despretensiosa, bondosa, sem graça e maçante."   Princesa Michael of Kent. E relutava em deixar a vida que levava para ser Rainha da França. Mas para espanto geral, aconteceu uma irresistível atração entre eles. Luís XV era um homem de família, que não se entediava com esta vida, ou melhor, que se entediava com as regras tolas da corte de Versalhes. No entanto, seguindo a tradição de seus predecessores mantinha sempre uma amante.  Seu sogro, o Rei Stanislas, dizia que as duas mulheres mais insípidas da Europa eram sua mulher e sua filha.  

Mas voltemos à futura Madame de Pompadour. Devido à negócios escusos, ou talvez como bode expiatório, Monsieur Poisson, tem que exilar-se na Alemanha. Conhecendo os maus hábitos da esposa, pede a duas cunhadas, freiras, que tomem sob sua custódia a pequena "Reinette" ( Rainhazinha)  e seu irmãozinho. Responsáveis por Jeanne-Antoinette, as freiras cuidaram de sua saúde, já que a criança era vítima de uma persistente bronquite, que com o correr dos anos, terminaria por levá-la. E também cuidaram de sua educação levando a ler clássicos e a escrever. Assim, aliada a beleza, a "petite Jeanne" deveria encontrar um marido que  valesse a  pena. Esta era a ideia de sua mãe. E assim, preparou-a para entrar no Grand Monde. E para isto não bastava ser linda, nem culta, nem tão inteligente, era preciso ser divertida, ambiciosa, saber distrair. E para isto, levou-a a aprender clavicordio (espécie de teclado) , a cantar, a recitar. 

Em 1738, ela tinha dezessete  anos. Era alta, bem feita de corpo, cabelos castanhos dourados, rosto de oval perfeito e olhos que variavam entre o azul escuro e o violeta. Enfim, tinha tudo para entrar no Grand Monde. Este é também o ano em que o Rei se separa definidamente de sua entediosa mulher. Em 1739, aos dezoito anos,  Jeanne- Antoinette, casa-se com Le Normand d'Etioles, sobrinho do amante de sua mãe. Embora, não profundamente apaixonada, ela estava feliz. Naquele momento do século XVIII, chamado "Século das Luzes",  as mulheres da burguesia, e também  algumas da nobreza, encontravam lugar para dialogar com homens que deixariam sua marca para o futuro. Foi nestas residências da alta burguesia que se formaram os "Salons", onde Iluministas Franceses se reuniam e foi deles que partiram ideias que viriam, anos depois, a chamar a atenção da burguesia revolucionária.  E aqui podemos citar, Diderot, D'Alembert, Voltaire, Montesquieu e Rousseau, que a partir de certo momento se distanciou do grupo. Pretendiam a igualdade entre as pessoas, o fim do domínio da Igreja Católica, embora não fossem ateus, exceção feita a Diderot. Mas pretendiam também mudanças econômicas e sociais. Jeanne-Antoinette não era até então uma mulher de profunda cultura, mas com sua inteligência ágil, foi aprofundando seus conhecimentos, o quê lhe permitia  discutir qualquer assunto com homens do mais alto nível. Voltaire a chamava de "a divina Etioles", a visitava frequentemente e tornara-se seu amigo íntimo. 

Um ano após seu casamento, ela dá à luz  um menino , que morre um ano depois. Seu pesar é imenso! Mas no ano seguinte, nasce uma menina que chamou de Alexandrine, em homenagem a uma amiga. Não se sabe exatamente quando Luís XV conheceu e se interessou por sua futura amante. O que se sabe é que sua separação do marido foi mal recebida e que ele lhe escreveu uma carta pedindo a reconciliação. O que também fica claro é que Jeanne-Antoinette foi mal recebida na corte, acostumada a dividir a Humanidade em Nobres e Terceiro Estado, ou seja, não nobres. Consideravam-na uma burguesa fora de seu lugar. Por defender filósofos, como Diderot, ela foi lançada às chamas, mas conseguiu o seu intento. No auge de seu poder, sofre um duro golpe com a morte d sua filha Alexandrine de apenas nove anos. Esta burguesa, (e jamais poderiam imaginar que a Burguesia os destruiria) cria escola para crianças pobres, e  a Porcelaine de Vincennes. 

Em 1750, por razões ginecológicas, que não consegui descobrir, as relações  sexuais  terminam. Já antes, ela havia comentado em uma carta a seu irmão, que morava na Itália, seu pouco interesse pelo sexo, e que era por amor ao seu amado Rei, que ela suportava o contato sexual. Neste momento, ela passa de amante a conselheira do Rei.   Passaram os anos, com derrotas e vitórias. 

 Mas estes  anos,  arruinaram pouco a pouco sua saúde. Após vários abortos espontâneos,  a progressão de sua doença respiratória, seu corpo vai definhado. Também a higiene precária, a falta de sol em ambientes sombrios, tudo contribuiu deixá-la mas frágil. Torna-se esquelética, alimentando-se com o quê lhe prescreviam para restaurar sua saúde e sua vida sexual. E a respiração cada vez mais difícil. Nos seus últimos anos tinha constante dor de cabeça e febre. Só a morte a libertaria.

E ela chega em 15 de abril de 1764, em Versalhes, com a tuberculose. Seu corpo foi retirado coberto com um simples lençol. Ao saber de sua morte, o Rei retirou-se para seus aposentos. Dois dias depois, prestou à velha amante e amiga uma  derradeira homenagem, acompanhando de longe o cortejo fúnebre, que seguia sob uma chuva torrencial. Depois, com o rosto coberto de lágrimas disse a seus serviçais:" Foi a única homenagem que pude lhe prestar."

Ainda há muitas amantes de que poderia falar, mas estas foram a meu ver as mais interessantes. Algum dia, falarei de Teodora, Rainha de Bizâncio, que de prostituta no Hipódromo de Constantinopla, tornou-se Rainha. Mas para ela é preciso um texto inteiro.




    

quarta-feira, 15 de maio de 2024

 A Comuna de Paris - 1871

Se fizermos uma breve retrospectiva, desde o Antigo Regime, teremos, naquele 21 de janeiro de 1793, quando a cabeça decapitada de um Rei foi mostrada ao povo parisiense, que gritava: "VIVE LA RÉPUBLIQUE". Pois naquele dia simbólico, dava-se início ao que chamamos "Idade Contemporânea", ou para alguns "Idade Moderna", e uma  grande quantidade de acontecimentos que contribuíram para a formação da França atual:

- o Terror;

- o fim do poder Jacobino, com queda de Robespierre e do "Comitê de Salut Publique", e a execução de seus membros;  

- o Diretório, cobrindo o período de 4 anos, exercido pela burguesia girondina; 

- o Consulado - já na era napoleônica , de 1799 até 1804, quando Napoleão se proclama Imperador. Sobre a Coroação há um magnífico quadro do pintor David. Nele o Imperador aparece coroando sua mulher, Josefina, já havendo se coroado, enquanto o Papa, convidado para a cerimônia, assiste, envergonhado,  ao fundo.

Após a queda de Napoleão, há um período  chamado Restauração, em que ocorre a volta dos Bourbons, dois irmãos de Luís XVI, Luís XVIII e Carlos X, seu irmão mais jovem. E onde ficava nesta sucessão Luís XVII? Arrancado da mãe pelos jacobinos, morre na prisão de tuberculose, ainda criança. Necessário notar que, na Restauração, esta já era uma Monarquia Constitucional, como a Inglesa, as dos países nórdicos e também dos países baixos. 

Em 1830, ocorre uma revolução burguesa, que depõe Carlos X, tendo Luís XVIII já falecido. Esta revolução, ou talvez revolta, é cenário para o magnífico romance de Victor Hugo, "Os miseráveis". É neste cenário que aparece o moleque de rua chamado Gavroche, nome escolhido para meu teatro em francês, que me valeu uma inesquecível bolsa na linda Bretanha. Aliás, a sugestão do nome veio de minha sobrinha, Ludmila, que havia lido o romance e ficara encantada.
Após esta revolução, chega ao poder o Rei Luís Felipe, da família Orléans, filho de um certo Philippe d`Orléans, chamado Philippe Egalité. Desde o princípio, o denominado Philippe Egalité havia apoiado a Revolução Francesa, tendo votado pela execução de seu primo, Luís XVI,  e, sendo, afinal, executado pelos Jacobinos. Luís Felipe, chamado Rei Burguês, por suas ligações com a burguesia e com a nascente industrialização, comandada, evidentemente, pela burguesia. Em 1848, é publicado o Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels. É justamente em 1848, que ocorre o movimento, ou revolução , que depõe o Rei Burguês. Esta é uma revolução de cunho socialista. 

É neste cenário que surge a figura de Luís Napoleão Bonaparte. Aventureiro, que, para todos os efeitos, era filho de Luís, irmão caçula do Imperador, que o fizera Rei da Holanda e obrigara a casar-se com sua enteada Hortense de Beauharnais. Uma coisa é certa, Luís Napoleão, posteriormente Napoleão III era neto da Imperatriz Josefina, da mesma forma que nossa Imperatriz, Amélia, segunda esposa de Dom Pedro I, que era filha de outro enteado de Napoleão, Eugène de Beauharnais, a quem Napoleão dera o ducado  de Leuchtenberg.

Derrubada a monarquia orleanista, instala-se uma Assembleia Constituinte, e organiza-se uma eleição presidencial. Dentre os candidatos se apresenta-se o poeta romântico Lamartine e Luís Napoleão Bonaparte, cuja história já contei. Eleito, governa durante algum tempo até que, amparado no nome do tio, dá o golpe em 1852, tendo governado como Presidente eleito durante quatro anos. Victor Hugo, que  o havia apoiado como Presidente, renuncia a  seu mandato de Senador e exila-se nas ilhas britânicas Guernsey  e Jersey. Só voltando à França após a queda de Napoleão.

A guerra franco-prussiana e suas consequências

Assinado a rendição da França, na Galeria dos Espelhos no Palácio de Versalhes, testemunha de tantas histórias, elege-se uma Assembleia Constituinte e é elaborada uma nova Constituição. A primeira sendo aquela elaborada pelos deputados  Constituintes da Revolução de 1789. A segunda, rasgada pelo golpe de Luís Napoleão. Esta terceira Constituição, chamada República, recobre todo o período que vai da queda de Napoleão III até o início da segunda Guerra, com a invasão nazista da Polônia em 1939. Seguiu-se uma quarta, que ocorre desde o fim da guerra até 1958. Hoje a França vive a  Quinta Republica.

Em fevereiro de 1871, é eleita uma nova Assembleia Constituinte e é eleito Adolphe Thiers, orleanista,  ou seja conservador. Nesta altura, o Manifesto Comunista já havia sido publicado e  o povo ansiava por reformas. Com o governo republicano as coisas não haviam mudado e as condições de vida eram péssimas. Paris é essencialmente republicana e não suporta concessões ao inimigo prussiano. Deputados republicanos se revoltam, dentre eles destacando-se Victor Hugo, de volta à França, Louis Blanc, Léon Gambetta, alguns anos mais tarde assassinado, seguramente não por razões politicas, e até um operário, membro da  Internacional Socialista.  Sem esquecer Guiseppe Garibaldi, o eterno caçador de sonhos impossíveis. Como reencarnacionista, considero Ernesto Chê Guevara, uma possível reencarnação sua.  Estabelece-se, logo, um evidente divórcio entre maioria dos deputados e o governo. Com a ajuda dos prussianos, Paris é sitiada e o governo transfere-se para Versalhes, até hoje uma cidade extremamente conservadora. Em Paris, toda a chamada Rive Gauche adere ao movimento, e também a periferia pobre. Assim, dá  início a Comuna de Paris. O movimento congrega diferentes perfis ideológicos; trabalhadores, a pequena e média burguesia, professores, desempregados, e até alguns pintores impressionistas. Todos os monumentos que lembravam o poder foram destruídos, e até a célebre Colonne Vendôme, construída no Império Napoleônico, como símbolo de suas vitórias. Foi destruído o Palácio da Tulherias, que se encontrava-se próximo ao Louvre, e para onde havia sido transferida a família de Luís XVI, após deixar Versalhes por exigência popular. O "Hotel de Ville", onde se localizava a Prefeitura da cidade, obra de arte renascentista, foi incendiado. A Butte de Montmartre, naquela época pouco habitada, serve de observatório. Alí, foi construída mais tarde a "Cathédrale du Sacre Coeur", que um amigo francês chama de Igreja dos Reacionários, mas que foi realmente mandada construir após a destruição da Comuna, em agradecimento a Deus (e me pergunto se Deus terá alguma coisa a ver com isto).

O programa da Comuna fixava pontos que não haviam sido considerados pelos Revolucionários de 1789.  O ensino passa a ser público e obrigatório, a jornada de trabalho passa de 16 para 8 horas,  o salário dos professores é aumentado, o Governo é obrigado a pagar uma pensão às viúvas, lembrando que à época as mulheres não recebiam nenhuma formação, o direito ao divórcio. Quanto às mulheres, apesar de não haverem tido  ativa participação no movimento, muito lutaram,  como haviam sido fundamentais na Revolução de 1789. Dentre elas, a figura de Louise Michel, chamada "La vierge rouge de la Commune". Havia uma ativista russa , cujo nome me escapa, além de  outras.

Thiers, cansado deste Governo paralelo, pede auxílio ao Império Alemão, e juntos derrotam este grande movimento popular, que durou de 18 de março de 1871 a 28 de maio do mesmo ano, mas que deixou raízes. Louise Michel, uma de minhas heroínas, foi deportada, junto com outros "Communards" para as ilhas da Nova Caledônia. Aprendeu o idioma nativo, e retomou a sua função de professora. De invulgar inteligência e delicadeza de alma, aprendeu a apreciar a natureza nativa e conseguiu não ser infeliz. Morreu aos quarenta e três anos. 

Gosto de comparar o movimento "Communard" a uma semente que foi plantada e desapareceu. Mas este desaparecimento durou algum tempo, ao cabo do qual surgiu, pouco a pouco, uma maravilhosa e frondosa árvore, que nos encanta, abriga e assegura tanta coisa importante na vida de cada cidadão. 


      

domingo, 28 de abril de 2024

 A França de Vichy

Por uma artimanha do Chanceler prussiano Karl Bismark, Napoleão III perdeu  seu trono na década de 1870, com a guerra Franco Prussiana. Nesta derrota, a França perde dois de seus territórios (departamentos): Alsácia e Lorena. E Guilherme I é coroado Imperador. O armistício é assinado na Galeria dos Espelhos em Versalhes. Assim inicia-se a 3a. Republica, aquela da Belle Époque. Vencidos os franceses não se pode dizer que a animosidade tenha tido fim. E os prussianos pretendiam reunir um país com as chamadas raças "arianas". Para isto era necessário achar uma razão. E esta foi encontrada em Sarajevo, capital da Bósnia Herzegovina, quando um estudante matou o arquiduque Francisco Ferdinando da Áustria, herdeiro do Império Austro-Húngaro, ao qual estava anexado o país . Esta foi a principal desculpa para o começo da 1a. Guerra (1914-1918). 

Nesta 1a. guerra, a França foi vencedora. O Armistício foi assinado, e o festejado Tratado de Versalhes impondo à Alemanha pesada carga. Foi o início da República de Weimar. Ao ver ser assinada a Rendição alemã, o  Marechal Foch, francês, foi profético quando previu que este tratado, que arruinava a Alemanha e restituía à França os territórios da Alsácia e Lorena, não duraria mais do que vinte anos. Logo em 1938, Neville Chamberlain, secundado pelo Presidente do Conselho de Ministros da França, Edouard Daladier, entrega à cobiça de Hitler a região dos Sudetos na então Tchecoslováquia, hoje divida em dois países; Checo e Eslováquia. Esta região dos Sudetos, tinha 1/3 de sua população de origem alemã. E é claro que o povo alemão, faminto, que levava o dinheiro em sacolas, que acordava de madrugada para comprar o pão, que logo estaria mais caro, encontrou naquele desconhecido aventureiro  austríaco, que prometia fazer reviver a velha Alemanha,  um salvador da pátria. Não há povo que resista. E assim, pouco a pouco, Hitler foi conquistando a confiança da população.

A respeito deste desonroso tratado, Jean-Paul Sartre escreveu uma trilogia, "Os caminhos da Liberdade", sendo que um dos livros, chamado "Sursis", que herdei de meu pai, li há alguns anos. Em 1940 os países nórdicos já haviam sido invadidos pela máquina nazista, assim como os países baixos, sendo que a Bélgica faz fronteira com a França.  Em maio do mesmo ano, os alemães invadem a França e no dia 14 de julho do mesmo ano, data nacional da França, com a tomada da Bastilha, as tropas alemãs entram em Paris, para o desespero do povo. Há uma célebre foto de um homem que chora ao vê-las marchando sobre os Champs - Elysées , tendo ao fundo o Arco do Triunfo, que Napoleão mandara construir para comemorar suas vitórias. O próprio Hitler visitou Paris, e há uma  foto em que ele aparece , tendo ao fundo a Torre Eiffel, ladeado por dois nazistas, sendo um deles Albert Speer, seu arquiteto preferido, aquele que deveria ter sido condenado à morte no Tribunal de Nuremberg. 

A França é, então,  dividida em duas partes, ambas sob o cutelo nazista. O que chamavam a França de Vichy, já que seu comando se situava na cidade Vichy, tinha sob seu comando um senhor de 84 anos, herói da Batalha de Verdun, na 1a.Guerra. Seu nome: Philippe Pétain. Muitos políticos aceitaram esta submissão, outros pensaram em continuar a luta no norte  da África, na região do Magreb, que se compõe da Tunísia, Argélia e Marrocos. Mas, afinal, não funcionou.  Enfim, a Republica de Vichy , tornou-se um fantoche do Regime Nazista, sendo abolida a liberdade, os meios de comunicação censurados   e a propaganda contra judeus e comunistas era o quê se ouvia. O famoso lema que haviam instituído os revolucionários de 1789; "Liberté , fraternité, egalité"  foi substituído por "Trabalho, família e pátria".

Em Paris também a vida  continuava difícil, com toque de recolher  das 24 horas às 6 da manhã. Sem esquecer o desabastecimento, já que era necessário nutrir a máquina nazista, donde surgiu um imenso mercado negro e todas suas consequências. E, é evidente, os franceses foram  proibidos de deixar o país. Muitos habitantes de Paris fugiram para zonas rurais, onde havia menos nazistas e mais alimentos. Estima-se que a população de Paris diminuiu de de 3 milhões para 800.000. Em Vichy, os franceses eram obrigados a trabalhar na agricultura ou na indústria de guerra alemã. O responsável por isso era um certo Fritz Sauckel, condenado a morte no Tribunal de Nuremberg e suas últimas palavras foram de que sua condenação era injusta. Judeus e comunistas eram enviados a campos de concentração. Muitos políticos colaboraram e os que não colaboraram fugiram. Uma atriz,  muito popular na época, de pseudônimo Arlety, foi amante de um general alemão e justificava-se dizendo: "Mon cul m'appartient, mais mon coeur appartient à la France", (quem quiser traduza). Um dos mais asquerosos nazistas que atuaram na França ocupada foi Klaus Barbie, "o açougueiro de Lyon" responsável pela morte de um dos maiores historiadores de todos os tempos, Marc Bloch, que acho que era judeu e fez parte da Resistência. Dele tenho dois livros : "A sociedade feudal" e "Os Reis taumaturgos". Infelizmente, foi preso em 1944, praticamente no fim da invasão da França. Barbie também foi o responsável pela tortura e morte de Jean Moulin, em 1943, graças á denúncia de algum infiltrado Ao fim da guerra, Barbie conseguiu fugir, sendo recrutado pelos Estados Unidos (!) para serviço de inteligência contra os comunistas, possivelmente na época do marcatismo. Muitos anos depois, ajudou no golpe de Garcia Mesa, na Bolívia. Por fim, foi encontrado possivelmente pelo serviço de inteligência israelense -Mossad- , extraditado para a  França e condenado à morte. Morreu em 1991, de leucemia, enquanto aguardava que se cumprisse a pena. Jamais demonstrou qualquer arrependimento e havia no seu rosto, durante o julgamento, um certo ar de deboche. Resta o consolo de saber que se escapou durante tantos anos da justiça dos homens, certamente não escapou da Justiça de Deus. Quanto a Jean Moulin, grande herói nacional, há no Panteão, onde repousam os restos mortais de grande vultos da França, como  enciclopedistas, Jean-Jacques Rousseau, e o igualmente grande, Victor Hugo, uma homenagem especial a ele. Um colaboracionista chamado Paul Touvier, que reuniu judeus que deveriam ser enviados para os campos de concentração, ao final da guerra, passou anos se escondendo e parece que foi uma organização católica que o ajudou. Em 1994,  foi encontrado e condenado por crimes de guerra. Sua pena,  prisão perpétua.  Já muito velho morreu em 1996. 

Quando Paris é libertada pela chegada de tropas americanas, há grande comemoração. Hitler dera ordem para que a cidade fosse destruída, mas tal horror não foi cumprido. Charles de Gaule, o grande herói  da Resistência, que com suas comunicações pelo radio, havia durante toda a ocupação provocado o povo à resistência e à esperança, desfila pelos Champs-Elysées, ovacionado pelo povo. Justamente aquele avenida onde 4 anos antes, desfilaram tropas alemãs. 

Pétain, que havia fugido, volta à França, é julgado e condenado à prisão perpétua. Morreu em 1951. Outros colaboracionistas são condenados à morte, dentre eles o mais famoso, Pierre Laval, que havia inicialmente fugido para a Espanha de Francisco Franco, aquele que oferecera a cidade de Guernica para experiencia de bombas nazistas, e que foi destruída durante a guerra civil espanhola  Esta tragédia inspirou a  Pablo Picasso um célebre painel que leva o nome da cidade. Picasso exilou-se  na França e nunca mais voltou a seu país natal.  Posteriormente, Pierre Laval volta à França, é julgado e condenado à morte.

Ainda há muita coisa a contar, mas acho que por hoje chega. Espero haver sido clara. 

Mas antes de terminar, quero assinalar um fantástico filme autobiográfico, do diretor francês Louis Malle, "Adieu les enfants". Em 1944, ele vai estudar como interno em um colégio católico. Dentre seus colegas faz intensa amizade com um certo rapaz de sobrenome francês. Alguma coisa como Benoit, sobrenome muito comum na França. Um belo dia, descobre que o rapaz é judeu. E, ainda criança, católico praticante, horrorizado, o vê,  um dia tomar a hóstia. Não me lembro bem do filme que vi há muitos anos, mas parece que o rapaz foi denunciado por algum colega. Preso, é transportado para um campo de concentração , onde evidentemente morreu. Diz o diretor que este "souvenir d'enfance tragique", deveria ter sido seu primeiro filme. Mas por alguma razão, de quê não me lembro, ficou para mais tarde.


sexta-feira, 12 de abril de 2024

 Após a Guerra, a reconstrução

Na história da Humanidade, sempre se considerou o mais fraco inferior. Desde já há muitos anos, a Igreja Católica, que se diz cristã, sendo Cristo aquele que andava com ladrões, prostitutas, cobradores  de impostos,  e todos que tinham o dedo da sociedade apontado para si, que me nos deixou uma única oração : "O pai nosso" , ou seja, pai de TODOS, sem excluir ninguém, considerou normal a escravização de negros. Assim como os negros, judeus, não tinham pátria e se encontravam disseminados pela Europa. A teoria da tal raça ariana não tem nenhuma comprovação científica. Como explica Demétrio Magnoli no seu magnifico "Uma gota de sangue" (que só por esta magnífica obra já mereceria ser membro da Academia Brasileira de Letras), adeptos desta teoria da raça superior andaram pelo mundo buscando a raça que se enquadrasse aos princípios do tal arianismo, mas as características se sobrepunham. 
Judeus sempre foram acusados de tudo, até da Peste Negra. São Luís de França, que, pela força de sua posição, foi santificado, beato, que misturava água à comida para evitar o prazer da alimentação, mandou torturar, e matar na fogueira muitos "hereges". Muitos se convertiam ao Cristianismo, para evitar a morte. Sendo que Jesus nasceu judeu. Daí o termo "cristão novo". No nazismo, a fim de não degenerar a "raça", era proibido o casamento entre judeu e ariano. Também havia o principio da eugenia, em que pessoas com alguma deficiência física ou mental, deveriam ser eliminadas. Da mesma forma que os homossexuais. 
Grupos já simpáticos às ideias da chamada Social Democracia dos Trabalhadores Alemães, posteriormente Partido Nazista, atuavam durante a República de Weimar, que seguiu ao fim da Primeira Guerra. Para eles, os principais inimigos eram os judeus e os comunistas. Após haver lutado na 1a. Guerra, Hitler havia tentado a carreira de pintor, mas foi reprovado num exame na Escola de Arte de Viena, seu país natal. Depois da Guerra, viveu em imensa pobreza, sendo obrigado a viver de uma sopa comunitária e morando em um albergue, onde, conta-se dava migalhas de pão aos ratos.
Já na Alemanha, infiltra-se no pequeno partido DAP, de ideias já antissemitas. Torna-se líder do partido, escreve seu estatuto, (e é preciso notar que, além dos judeus, eram considerados inferiores os eslavos, o que acontecia desde os Reis Merovíngios, da primeira dinastia da França). Foi por esta época que se tornou proibido o casamento entre "arianos" e judeus, tendo havido assassinatos de miliares de alta patente, que não obedeceram às ordens. Em 1923, ocorre o Putsh de Munique, quando, indo com seus militantes para uma cervejaria, Hitler tenta dar o golpe, considerando que teria o apoio das Forças Armadas, o quê não aconteceu. Houve troca de tiros e cerca de 20 mortos. Entre os feridos, encontrava-se Hermann Goering, que fora herói na 1a. Guerra. Gravemente ferido, com dores atrozes, foi-lhe aplicada morfina. Conta-se que se viciou, mas não há provas. Quanto a Hitler, foi preso e condenado a 5 anos. Foi durante este período que escreveu "Minha luta", onde expõe suas ideias.
E então, pouco a  pouco, foi aumentando a perseguição aos judeus. Primeiro, perderam a cidadania, logo após foram proibidos de comerciar, e muitos eram comerciantes. E finalmente, ocorreu a terrível "Noite dos Cristais", em que todas suas lojas foram depredadas e Sinagogas incendiadas. É chamada "Noite dos Cristais" pela quantidade de vidro quebrado das vitrines. Em seguida foram identificados por cruz amarela , que devia ser presa á sua roupa.  E foram surgindo das trevas figuras como Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda, autor da célebre frase "Uma mentira a força de ser infinitamente repetida ganho foro de verdade." Ele nascera com um defeito na perna e era manco. Por esta razão, não havia sido aceito como soldado na Primeira Guerra, mas mentia e dizia que o defeito provinha de uma batalha na Guerra. Seu sonho era ser escritor e fracassara, apesar de uma sólida cultura literária. Como havia muitos editores judeus desenvolveu-lhes ódio mortal , considerando-os culpados de seu fracasso.
Em 1933, com os membros comunistas no Reischstag,  o Marechal Hindenbourg, herói na 1a. Guerra e Presidente da Republica de Weimar, decide convidar Hitler para ser seu Chanceler. Afinal, seu pequeno partido vinha crescendo. Logo depois, o Reichstag é, providencialmente, incendiado. O responsável teria sido um piromaníaco comunista holandês. É então que Hitler convence Hindenburg da necessidade de prender comunistas e todos os demais opositores. Seu poder era agora absoluto. Mas era preciso dar ordem ao governo. E assim, foi convencido de que os membros da SA, chamados "Camisas pardas", que antecederam os SS, eram um obstáculo, já que eram desorganizados e promoviam brigas. Em 1934, no que se chamou "A noite das longas facas" seus líderes foram presos e imediatamente fuzilados. Logo  depois, em 1934,  Hindenbourg morre e então Hitler realiza seu sonho ditatorial. 
Os campos de concentração, inicialmente construídos para comunistas, expandiram sua clientela com homossexuais, e judeus. Em 1941, com o bombardeio da base americana de Pearl Harbor, pelos japoneses, os Estados  Unidos entram na Guerra. A decisão americana, levou Hitler a decisão de eliminar  TODOS os judeus da Europa. Estima-se que seis milhões de judeus tenham sido eliminados.
Os soviéticos, que haviam atravessado toda Europa do Leste, com milhões de vidas perdidas, ao chegar em Berlim, tiveram autorização do comandante de fazer o quê quisessem. E as mulheres foram as maiores vítimas. Há tempos, li o relato de uma mulher que fora estuprada dezenas e dezenas de vezes, até que seu pai pedisse autorização para amamentar o filho. Certos de que o IIIo. Reichchegar chegara ao fim, temos que lembrar o caso tenebroso de Magda Goebells, esposa de Joseph Goebells. O casal tinha seis filhos, lindas crianças, todas com nome começado por H, em homenagem ao Fuhrer. Logo após o suicídio de Hitler, ela envenenou as crianças com capsulas de cianeto, alegando que o mundo não valeria a pena sem o Líder. Em seguida, ambos se suicidaram. 
Mas ainda tenho que lembrar Reinhard Heydrich, o "Açougueiro de Praga", responsável pelo extermínio de mais de 2 milhões de judeus. Vinha de uma família culta e católica. Era um homem instruído .que gostava  de música clássica. Em 1942, foi executado por dois agentes treinados pelos britânicos, um techo e um eslovaquo. Em represália à sua execução Hitler ordenou que não fossem poupados esforços para encontrar os assassinos. Eles acabaram se suicidando numa Igreja Ortodoxa, certos que não sairiam vivos. Pouco tempo depois, foi encontrada uma carta de amor suspeita, endereçada a um habitante de um vilarejo. Como castigo, todos os homens do vilarejo, que chamava-se Lidice, foram executados. As mulheres e crianças foram enviadas a um  Campo de Concentração, onde certamente morreram.
Ainda  há muito mais coisa para contar, mas o quê pesquisei me rendeu pesadelos, sobretudo neste momento em que meu luto ainda dói muito.
Mas de qualquer jeito, dou viva à  "Operação Antropoide" , que fez descer ao inferno, Reinhard Heydrich , este ser monstruoso.      

































































































































sexta-feira, 29 de março de 2024

 Os anos 40. Destruição e reconstrução

"Mais do que qualquer outra década do século, os anos quarenta se compõem de duas partes diametralmente opostas. Até 1945, tudo foi guerra e destruição. A reconstrução do pós-guerra que se segue foi uma obra admirável" Nick Yapp

Mas, estamos falando do esforço de recompor tudo aquilo que o horror nazista havia destruído. Na verdade, neste fantástico esforço, havia falta de alimentos, de vestimentas, de casas, as pessoas haviam perdido tudo. E ainda a luz era escassa. Segundo alguns relatos, comia-se o que se encontrava, desde cavalos até ratos, como sucedâneo de proteína. Foi, sem dúvida uma época de heroísmo e de brutalidade, de coragem e de covardia (covardia não só durante a guerra). Foi neste pós-guerra que o mundo veio a conhecer o Holocausto, a "solução final", que visava a exterminação de todo um povo coisa, jamais vista na História da Humanidade. Foi aí que se criou a palavra "genocidio". Mas ainda havia coisa por vir, a Bomba atômica, que, a mando do Presidente americano, Harry Truman, reduziu a cinza duas cidades japonesas - Hiroshima e  Nagasaki. E foi o momento do nascimento da Guerra Fria, que dividiu o mundo em dois, sendo o Leste, intitulado pelo Primeiro Ministro Inglês,  Winston Churchill, a "cortina de ferro".

Por outro lado, havia um mundo que renascia. A moda, desaparecida nos anos de Guerra, sobretudo por falta de material, que fora substituído preferencialmente pela sarja, renascia com costureiros como Jacques Fath, prematuramente  falecido em 1954, Christian Dior e Pierre Balmain. E o mundo conheceu tecidos como nylon, hoje fora de moda. Na literatura, o mundo leu o trágico diário de Anne Frank, a menina judia holandesa, que durante anos viveu com sua família escondida no sótão de  uma casa, até ser denunciada, transportada para um campo de concentração, onde morreu com toda sua família. O escritor inglês , Georges Orwell, lançava obras memoráveis como "A Revolução dos Bichos", que li há muitos anos e não me lembro mais. "1984", fantástico e inesquecível  romance, cujo fundo é um libelo contra ditaduras. Este  li e reli várias vezes. É interessante que o escreveu em 1948, o quê é o contrário de 1984. Suas perspectivas eram sombrias.  E  Gandhi, ainda vivo , responde o quê pensava da "civilização ocidental": "Penso que seria uma ótima ideia." Ele, que vivia  sob o domínio inglês e que experimentaria na própria carne a barbárie desta dita civilização.

Glenn Miller e toda sua orquestra desaparecem numa viagem de avião sobre o Oceano Pacifico, em 1942. Sua finalidade era distrair tropas americanas. Lembro-me de um filme que vi quando criança, chamado "Músicas e Lágrimas", que relembra este trágico acontecimento. Os atores são James Steward e June Allyson. Na França, é descoberta, por quatro garotos, a caverna de Lascaux, considerada obra prima da arte rupestre. Alguns a chamam a "Catedral gótica de Lascaux". Evidentemente, hoje interditada ao público.

E quanto ao povo alemão, francês, inglês, dos países nórdicos, e dos países baixos? Sem esquecer os russos! Lembrando que entre oficiais, civis, mulheres, velhos e crianças, somam a monstruosa quantidade de 20 milhões de russos! E estes, que perderam tudo na aventura nazista? E os judeus, que sobreviveram, sem família, sem esperança de futuro, depois do quê haviam passado? Muitos eram rejeitados em seus próprios países de origem, onde disputavam os raros empregos. Sem ter para onde ir, muitos optaram pelos Estados Unidos, que não saíra falido da Guerra. A princípio, ainda atordoados pelo  que acabara de acontecer, os alemães não tinham noção da real proporção da monstruosidade nazista. Mulheres transportando seus haveres em carros de bebê, ou nas costas. E foi nestas condições, há quase 80 anos, que no Palácio de Nuremberg, onde Hitler tantas vezes comemorara seu triunfo, que se reuniram os lideres das potências vencedoras: Estados Unidos, Inglaterra, Rússia e França. O objetivo do Tribunal era não somente condenar os carrascos, mas também mostrar ao povo alemão o quê havia de fato acontecido durante aqueles anos. Aos alemães foram mostrados os objetos de ouro roubado dos judeus, alianças, anéis e até dentes. A grande finalidade do Tribunal era,  além de punir, mostrar a morte definitiva da Alemanha nazista. 

Entre 20 de abril de 1945 e 1o. de outubro de 1946, foram julgados os principais lideres do nazismo, como Joachim Von Ribbentrop, Herman Goering, General Wilhem Keitel, que assinara a rendição total da Alemanha, General Alfred Jodl, Alfred Rosenberg, Rudolf Hess, entre outros. Aos criminosos foram mostrados filmes dos campos de concentração, com os prisioneiros esquálidos, montes de cadáveres esqueléticos, amontoados em valas.  As cenas eram tão horrendas que muitos deles tiravam o microfone de tradução simultânea (que fora criada e ensinada para o Tribunal), ou desviavam o olhar. Muitas conferências já haviam sido realizadas, ainda durante a vida de Roosevelt (falecido em 1945), para que fosse resolvido o que fazer após a evidente queda do nazismo. Após o julgamento, condenado a forca Hermann Goering, escapou, cometendo suicídio, com uma capsula de cianeto, que lhe fora misteriosamente passada. Martim Bormann, foi  condenado a revelia, já que havia fugido. Mas não conseguiu. Seus restos mortais foram encontrados, algum tempo depois, perto do Bunker, onde Hitler se escondera com outras figuras proeminentes do nazismo, e se suicidara com sua amante, Eva Braun. Interessante notar que contraíram matrimônio poucas horas antes do suicídio, ela com uma capsula de cianureto, ele com um tiro na têmpora. Heinrich Himmler, comandante das SS - tropa de elite no governo nazista - homem de confiança de Hitler, no momento da prisão, também cometeu suicídio, engolindo uma capsula de cianureto. Ao todo, foram condenados a forca 10 carrascos nazistas, três à prisão perpétua. Entre estes estava Rudolf Hess. Décadas depois, muito velho e sozinho na prisão de Spandau, acabou por suicidar-se, o quê é contestado por seu filho, com quem conviveu  somente um ano, que afirma que seu pai foi assassinado pelos britânicos receosos de que revelasse segredos. Albert Speer, arquiteto de Hitler,  Ministro dos armamentos de 1942 até o fim da Guerra, e também  responsável pelo trabalho escravo de prisioneiros para produção de armamentos , estava presente no Tribunal. Ali, mostrou alto nível intelectual e não  procurou fugir à sua culpa.  No entanto, sua condenação a somente vinte anos provocou revolta, sobretudo na França onde muitos membros da Resistência foram explorados, assassinados ou torturados por sua ordem. Tenho um livro seu, que herdei de meu pai, intitulado "Por dentro do IIIo. Reich - A derrocada" Além deste, publicou outros, e ganhou muito dinheiro. Certa vez, já em liberdade, tentou entrar na Inglaterra, mas foi impedido. No dia seguinte, foi mandadode volta para a Alemanha. Seu filho, também arquiteto, Albert Speer Jr. não se preocupou com o nome, e se tornou um dos maiores arquitetos do país, acumulando prêmios e deixando para trás o repugnante  passado de seu pai. Morreu em 2017. O filho de Joseph Mengele, chamado "O Anjo da Morte" nasceu um ano antes da fuga de seu pai. Chamava-se Rolf e, pelo que se sabia, não  lhe tinha nenhum afeto. E nem podia! Correspondia-se com o pai, que usava nome falso. Em 1977, resolveu conhecê-lo. Convencido de que ainda mantinha os ideais nazistas, Rolf voltou para a Alemanha e viveu uma vida tranquila, no ramo da farmácia. Nunca mais teve qualquer contato com o pai, que morreu de um infarto fulminante na praia Atibaia.  Hans Frank, o "carniceiro da Polônia", executado em Nuremberg, teve um filho, Nikolas. Este tornou-se jornalista e escritor. Não negava a vergonha que tinha de sua ancestralidade, chegando a escrever um livro em que não poupava sua mãe, sobre a qual escreveu um livro "Minha mãe alemã".  E o mais impressionate, o filho de Martin Borman, braço direito de Hitler, chamado Adolf, talvez em homenagem ao Furer. Adolf, quando adolescente participou dos grupos hitleristas. Após a derrota, fugiu. Dizem que foi adotado por uma família italiana. Convertido ao catolicismo, tornou-se padre foi morar no Congo, onde dizem rezava todas as noites pelas vítimas do Holocausto. 

Bem , ainda há tanto a falar desta Guerra e do horror jamais visto!  Em um só texto não há espaço para tanto. Segurei na próxima semana. Até lá!    

segunda-feira, 18 de março de 2024

 Os Anos Loucos

Os chamados "Anos Loucos" são aqueles que seguiram a 1a. Grande Guerra. Foram loucos, como a vida, repletos de coisas boas e péssimas. As mulheres se libertaram dos espartilhos e das longas cabeleiras. Cabelos curtos, calças compridas, cigarros. Depois dos horrores desta Guerra, todos sabiam que nada mais seria como antes. Ela deixara profundas cicatrizes. Muitos soldados voltavam desfigurados, mutilados, com graves  problemas psicológicos . E foi em 1917 ou 18 que ocorreram os primeiros casos da pandemia chamada "gripe espanhola", e se espalhou rapidamente pelo mundo através de uma mutação do vírus "influenza". Não se sabe onde surgiu, mas, certamente, não na Espanha. O nome "gripe espanhola" veio da grande divulgação dada pela imprensa espanhola. Calcula-se que mais de 500 milhões de pessoas sucumbiram. Há alguns anos, vi uma foto  terrível, nos Estados Unidos, de crianças abandonadas  na varanda de casa. Toda a família havia morrido. Uma cunhada de meu pai, esposa de seu irmão mais velho, faleceu e deixou órfã uma criança de dois anos, que foi criada por minha avó. No Brasil, morreram figuras importantes como o recém reeleito Presidente Rodrigues Alves. Foi por esta época que começaram a despontar nomes como Hitler, Mussolini, Stalin, Hiroito. Mas o mundo ainda não sabia o que viriam a  significar. 

Mas como não se podia prever nada, o melhor era viver este presente que parecia tão radioso. Surgem figuras importantes, como Coco Chanel, que reinventa a moda, o genial compositor russo, Igor Strawinsky, refugiado, e ,futuramente, um dos inúmeros amantes de Chanel. Surge o Ballet Russo, sob a direção de Serge Daighlev, e  com a icônica figura de Nijinsky, considerado o maior bailarino todos os tempos. Foi em 1921, ou 22,  que  Nijinsky, com coreografia creio de Daighlev, dança no Thèâtre de l'Elysée a genial obra de Debussy, "Prélude à l'après midi d'un faune", inspirado  no poema simbolista de Stéphane de Mallarmé. A peça não pode ser apresentada inteiramente, por causa da vaia dos espectadores, que não haviam entendido nada da coreografia inovadora. Foi uma época também marcada pela morte da bailarina americana Isadora Duncan, enforcada por sua echarpe, que se enrolara nas rodas de seu carro. 

Na música popular, surgem dois compositores genais; George Gershwin e Irving Berlin. E na ciência, Einstein, recebe o Prêmio Nobel de física e Alexander Fleming descobre a penicilina. E na arqueologia, Howard Carter e Lord Carnarvon, abrem a tumba de Toutankhamon, que ali repousava há milhares de anos. Foi nas minhas constantes visitas ao Louvre quando criança, a que me levava meu pai, que me apaixonei pela Arqueologia e sonhei, desde minha infância até a idade adulta, em ser arqueóloga, da mesma forma que meu irmão sonhava em ser paleontólogo. Em 1927, o piloto americano, Charles Lindenberg, atravessa sem escala o Oceano Atlântico.

Para as mulheres, era a libertação. De agora em diante, podiam, dirigir carros, fumar em público, dançar, movendo o corpo como quisessem. O trabalho feminino, que já fora admitido desde  a guerra, por falta de mão de obra masculina, torna-se  frequente e, afinal, significa uma libertação da mulher do macho protetor. E muitas passaram a frequentar Universidades e a se qualificar profissionalmente.

No cinema, Chaplin, Stan Laurel e Oliver Hard, a notar que Stan Laurel foi para os Estados Unidos na trupe de Chaplin. E havia também Harold Loyd e Buster Keaton. Todos eles fizeram a alegria de minha mãe e de minha tia Aracy. E só para lembrar, muitos e muitos anos depois, eu não podia ver as deliciosas comédias do Gordo e do Magro, sem chorar. Eu morava em Paris e nas tardes de quinta feira (ou seria quarta?), em que, sem ter aula, eu podia assistir a sessão infantil. Minha mãe sempre me dava um trocado para comprar meu chocolate preferido. Naquele momento, de dor, faziam-me crer que eu JAMAIS voltaria a andar normalmente! Felizmente, isto já passou! E estou andando normalmente, ainda que tenha medo das calçadas! Mas voltando para os anos 20, foi o momento do surgimento do Surrealismo e do Dadaismo, que pretendiam desconstruir  a linguagem. 

Grandes grandes escritores americanos escolheram Paris para viver,  sendo, Ernest Hemingway, o mais apaixonado pela cidade. Disse ele "Se você, quando jovem, teve a sorte de viver em Paris, então a lembrança o acompanhará pelo resto da vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa ambulante." Eu tive esta experiência na infância, e esta lembrança me acompanha até hoje. Infelizmente, hoje, Paris não é mais a mesma. Muita coisa desapareceu, coisas fantásticas, como Les Halles Centrales, construído por Napoleão III, e que inspirou a Emile Zola o fabuloso "Le ventre de Paris". A destruição ocorreu sobretudo durante  o nefasto governo de Georges Pompidou, político corrupto e megalomaníaco. Hoje no lugar de Les Halles , há um certo Centre Georges Pompidou. Vice de De Gaule, chegou ao poder pela morte do titular. Certa vez, fui ver uma exposição que tratava do "Inicio de tudo",  e, logo na entrada, havia uma pintura, não me lembro de quem, que mostrava uma enorme vagina. Achei a ideia inteligente. Aliás, a única coisa que achei especial, nas poucas vezes que fui lá. 

No Brasil, 1922, marca a Semana de Arte Moderna, com a intenção de fugir dos paradigmas europeus e marcar nossa brasilidade. Vale lembrar Mário de Andrade, Anita Malfatti, Oswald de Andrade. Já na Alemanha vencida, assinado o Tratado de Versalhes, com todas suas exigências,  instalou-se a maior inflação da História. Um livro de Eric Maria Remarque, chamado "Obelisco Negro",  retrata esta miserabilidade do povo alemão. Pessoas acordavam de madrugada para comprar pão, pois uma hora depois estaria mais caro. As notas serviam para cobrir as paredes. É aí que surge o Expressionismo alemão, que retrata através do monstruoso esta catástrofe da chamada República de Weimer.  O filme "Nosferatu" mostra bem este movimento. Ainda por volta de 1923 ou 24, surge, como salvador da pátria, o "Nacional Socialismo", mais tarde rebatizado por Hitler como "Partido Nazista".

1938- Tratado de Munique, em que parte da Tchecoslováquia, região dos Sudetos, é dada de presente a Hitler, já Ditador, com a morte de Hindenburg.  Responsáveis: o Presidente do Conselho de Ministros da França,  Edouard Daladier e o chanceler da Inglaterra Neville Chamberlain, para sempre marcados na História como covardes. Há sobre este triste evento um livro de Jean-Paul Sartre, escrito na época, mas creio que publicado posteriormente, chamado "Sursis", que, impressionada, li há anos, e que faz parte de uma trilogia chamada "Os caminhos da liberdade". O segundo livro tenho, e também li: "Com a morte na alma". O terceiro, não conheço, "A idade da razão". Creio que todos publicados após a 2a. Guerra, lembrado que a França foi invadida em 1940  e permanecendo invadida até 1944.    

1939- Os Nazistas invadem a Polônia. ...O resto já conhecemos. 

A verdade é que os ANOS LOUCOS terminaram tragicamente.

Para conhecer, de maneira genial, o que foram estes anos, aconselho " Meia-noite em Paris" , do sempre surpreendente Wood Allen.   



segunda-feira, 4 de março de 2024

 O Terror e os " sans culottes"

Minha relação com a Revolução Francesa vem de muitos anos. Desde os meus 10 ou 11 anos, quando morava na França, mas precisamente em Paris, e fui assistir, com minha mãe e minha irmã, um filme intitulado "Marie Antoniette". Fazia o papel da Rainha , a lindíssima Michele Morgan e um ator irlandês , Richard Todd, o  de Axel de Fersen, Embaixador da Suécia, que parece ter sido o grande amor da Rainha. A verdade é que ele se preocupava com o futuro da Família Real, tendo sido o preparador da célebre fuga interceptada na cidade de Varennes. Apaixonei-me por ele, quando num baile de máscaras, se conhecem, ele massageando o pé que a Rainha havia torcido, ajoelhado diante dela. De repente, ambos tiram  as máscaras e mostram seus belíssimos olhos azuis! Que emoção! Coup de foudre! Em 1989, durante a comemoração do bicentenário da Revolução e da Inconfidência, o assisti novamente, em Belo Horizonte. E a mulher adulta, vivida, com tantas experiências, sentiu emoção semelhante à da criança de 10 ou 11 anos!

Desde aquele longínquo dia de minha infância, já fui monarquista, jacobina, dependendo do momento de minha vida e de minhas ideias. Hoje, faço uma consideração mais racional deste fantástico movimento de massas, o primeiro da História da mundo, e me coloco em situação diferente. Depois, das reações adversas do Clero e da Nobreza, o chamado Terceiro Estado (Thiers Etat) abandona os Estados Gerais e passa a se denominar Assembleia Nacional Constituinte, e seus membros deputados. Para impedir a reunião, Luís XVI manda fechar o local onde deveriam se reunir, mas eles se reúnem em outra sala e juram não se separar até que tenha havido a elaboração de uma Constituição. 

Mas estes deputados também divergem. Pertencem todos ao Terceiro Estado, mas há os ricos burgueses, chamados Girondinos, e que, em sua maioria, representavam a Gironda, uma região situada no sudoeste da França,  que pretendem uma Monarquia Constitucional e os Jacobinos, radicais que pretendem o final da monarquia. Girondinos tomam assento à direita e Jacobinos, nome tomado de um café, antigo convento, por eles frequentado, à esquerda, donde veio a dominação direita e esquerda.  Aliás, a notar que o último Monarca absolutista foi o Tzar Nicolau II, cujo reinado teve fim em 1918, sendo toda a família dizimada. A notar igualmente que este é o segundo movimento de massas, e que cerca de um século e meio separam estes dois marcos, que mudaram a História do mundo, sendo que o legado de um deles já desapareceu. Foi, portanto, da Revolução Francesa o mais importante legado. A Declaração dos Direitos Humanos e do Cidadão, direitos válidos em qualquer tempo e em qualquer país. Artigo primeiro : "Todos os  homens  nascem  livres e iguais em direito. As destinações sociais só pode fundamentar-se na utilidade  comum..." Esta Declaração teve inspiração na Guerra de Independência Americana, nas ideias Iluministas, e sobretudo no filósofo inglês John Locke  que falava dos Direitos Naturais, aqueles que já nascem com o indivíduo. Esta Declaração tem inspirado todas as demais, inclusive a de 1948, no Pós-Guerra. No entanto, esta notável Declaração colocava de lado as mulheres e a escravatura nas colônias. A escravatura mexia nos interesses dos ricos burgueses, geralmente Girondinos, proprietários de terras nas colônias. Quanto às mulheres, que haviam participado ativamente da deposição do Rei, que haviam marchado de Paris até Versalhes, obrigando a família real a exilar-se no Palácio das Tulherias (posteriormente incendiado pela Comuna de Paris no século XIX), foram esquecidas. Eram quase todas vendedoras de peixes nos mercados de Paris. Este "esquecimento" mostra a importância que estes revolucionários davam às mulheres. 

É aí que surge, e não podemos esquecê-la, a atriz, dramaturga, jornalista e ativista, Olympe de Gouges, uma das mais notáveis feministas de todos os tempos, pois pagou com a vida sua audácia. Em 1791, publica a "Declaração dos direitos dos Direitos da Mulher e da Cidadã " , contrapondo-se à Declaração anterior que falava nos Direitos dos Homens e dos Cidadãos. Reivindicava também uma educação de qualidade para as mulheres.  Segundo consta, chegou a mandar uma cópia à Rainha Maria Antonieta. Além disto, foi uma ardente defensora do fim da escravidão. Mas, por incrível que pareça, Olympe pareceu revolucionária demais para os próprios revolucionários, era preciso que as coisas fossem postas nos seus devidos lugares. Aliás, é bom lembrar não haver na Assembleia Constituinte nenhuma mulher. EGALITÉ, LIBERTÉ, FRATERNITÉ, afinal não era para todos. Olympe subiu ao cadafalso no dia 3 de novembro de 1793 Ao subir, ela teria dito: "Se uma mulher tem direito de subir ao cadafalso , deve também ter o direito de subir à tribuna." 

Voltando um pouco no tempo, não se pode esquecer o mês de setembro de 1792, marcado por uma série de  execuções sumárias nas prisões de Paris. Nobres, homens, mulheres, criminosos comuns, todos foram alcançados pela fúria dos  chamados "sans culottes". Uma das melhores amigas de Maria Antonieta, a Princesa de Lamballe, que estava numa das prisões invadidas, teve seu corpo dilacerado e profanado, e sua cabeça enfiada numa estaca. Os revoltosos dirigiram-se, então, até a Prisão do Templo, onde estava presa a família real, e mostraram, por uma janela, a cabeça decepada da mulher. Consta que Maria Antonieta desmaiou, outros dizem que se encontrava em outro aposento. Também, alguns historiadores afirmam que o massacre foi comandado por Georges Danton, que terminou seus dias na guilhotina, condenado por seu antigo amigo Maximilien Robespierre. 

O Terror       

Em 1793, o poder  está com os Jacobinos com o apoio dos chamados "sans culottes", ou seja, aqueles que não usavam os calções da  monarquia.  Cerca de 40 mil pessoas são executadas, em curto período, sendo a maioria  de deputados Girondinos. Há também ricos burgueses e nobres. É o quê o grande estudioso Albert Soboul, chama de Despotismo da Liberdade. Só para assinalar, conheci, sem querer seu túmulo, simples, no Cemitério de Père Lachaise. onde também estão os despojos de Chopin, Alfred de Musset, e de meu querido amigo Hippolyte Léon Denizard Rivall, conhecido como Alan Kardec, por ter sido em outra encarnação um druida gaulês.

Mas, enfim, o quê nos interessa agora, é esta época sombria, em que cabeças de inimigos e amigos rolaram. Segundo diz um de seus maiores biógrafos, o esloveno Slovoj Zozek:"A imagem que se formou de Robespierre - um dos principais ideólogos da Revolução Francesa- é a de um homem polido que escondia uma cruel e gélida determinação. Todos concordam, contudo que ele foi um político integro e se dedicou totalmente à causa da Revolução."  Justamente por isso, era chamado L'incorruptible. É interessante notar que a princípio, teria sido contra a pena de morte. Vivia, absolutamente, de acordo com as suas convicções. Ao contrário de Danton, que havia se envolvido em negócios escusos. Danton, advogado brilhante, seguramente mais inteligente do que Robespierre. Preso por conspiração, tornou-se quase impossível julgá-lo. Fouquier-Tinville, advogado incumbido de condenar não sabe mais o quê fazer. Assinalando que, uma vez tomado o poder, Fouquier-Tinville foi mandado para a guilhotina pelos Girondinos.

Durante o Terror,  hospitais, escolas, tudo era esvaziado para receber novos presos, ou novos condenados. A lista esta lida na véspera. Cortou-se toda comunicação com o mundo exterior. O famigerado "Comitê de Salut Publique" ultrapassou qualquer limite. Somente Robespierre tinha real noção do que poderia acontecer. E seus embates com os radicais eram frequentes. Banqueiros como os irmãos Frey foram mandados para a guilhotina, o quê era muito perigoso. A própria execução de Danton, poderia levar contra eles o grande capital da época. Danton, o jornalista Camille Desmoulin, Hérault de Sechelles, Philippeaux (um humilde "sans culotte"),   Basire, todos deputados, são condenados à guilhotina. Todos fazem parte do grupo chamado de "Indulgentes", aqueles que sabiam que era necessário acabar com a carnificina. A carroça que os conduz à guilhotina é povoada por pessoas que mal se conhecem , que cultivam ideias muitas vezes diferentes. Mas todas acusadas de querer destruir a Convenção e restabelecer a Monarquia. No momento em que passa diante da residência de Robespierre, Danton grita com sua voz tonitruante : "Robespierre tu me seguirás!" Ele sabia o que dizia, da mesma forma que Robespierre também o sabia.     

E exatamente três meses depois, durante a madrugada, a sala do Comitê de Salut publique é invadida por tropas ordenadas por Girondinos, ou deputados exaustos dos intermináveis banhos de sangue. Alguns tentam escapar, um se joga pela janela, e Robespierre tenta o suicídio, atingindo o maxilar. Sangra intensamente, e ,segundo os guardas, urra de dor. Ao amanhecer, todos são levados à guilhotina. Alguns são deputados, dentre eles destaca-se o belo jovem , Saint-Just, deputado, talvez, o mais fanático. Um retrato seu no Museu Carnavalet, da cidade de Paris, mostra um belo rosto quase juvenil. Durante o trajeto, a multidão se acumula e janelas e sacadas são alugadas para o espetáculo. A perseguição aos seguidores prossegue durante vários dias.

E assim, termina o Terror, ao qual segue o chamado Diretório, seguido do Consulado, tendo como Consul um genial jovem militar, nascido na Córsega. Até que se faz Imperador, ele próprio coroando-se, e à  sua esposa, Josefina, deixando para trás o Papa. Sobe ao trono Napoleão I.

Interessante notar que me lembro de meu pai dizer que Saint-Just havia sido seu ídolo de juventude. E lendo a escritora  belgo-americana,  Margherite Youcenar, em um livro que muito me impressionou, chamado "Souvenirs Pieux", ela diz a mesma coisa. Margherite e meu pai nasceram no mesmo ano, e às vezes me pergunto se esta geração não terá amado seu idealismo, ainda que fanático, mas sincero.

Sem resposta!!!