QUEM SOU EU

Sou professora de Francês, mas hoje minha principal atividade é escrever e ler, além de cuidar dos meus três vira-latas: Charmoso, Príncipe e Luther.



Gosto de fazer ginástica, sou vegetariana e adoro animais em geral, menos baratas.



Sinto especial prazer quando meus textos agradam aos meus leitores. Espero continuar produzindo e me comunicando com todos os meus amigos, neste maravilhoso universo da net.



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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

SUPERAÇÃO

Durante nossas férias em Natal, aproveitei meu tempo para, além de gozar das belezas do lugar, retomar com maior intensidade o prazer da leitura, que, no corre-corre diário, muitas vezes se torna difícil. E pude ler avidamente um dos mais belos livros que encontrei nos últimos tempos. O título pode causar até algum mal-estar, algum temor, e foi por isso que não quis dizê-lo logo. Chama-se “Anticâncer” e o autor é David Servan Schreiber, neuropsiquiatra francês, pesquisador radicado nos Estados Unidos, na Universidade de Pittsbourg. David é filho de um lendário político e jornalista francês, Jean-Jacques Servan Schreiber, herói da Resistência contra a ocupação nazista.
Conta David que um certo dia, tendo faltado um estudante que lhe serviria de “cobaia”, sob sugestão de seu colega de pesquisa, resolve substituir o faltoso, e, assim, de repente, através de uma ressonância magnética, descobre que tem um câncer no cérebro. Choque, estupefação, medo. David reluta em acreditar, mas exames posteriores confirmam. É então submetido a uma cirurgia, tratamento de quimio e radioterapia. E prossegue na sua vida normalmente, ao lado da fiel companheira russa. Leva vida normal e passa a clinicar, procurando compartilhar com seus pacientes a dor de nossa comum fragilidade. Já começa a considerar-se curado, quando, mais uma vez, o acaso, desta vez numa cerimônia indígena onde fora acompanhar uma paciente, fica sabendo, através de vidente, que o mal está de volta. Mas como pode ser possível se, há dois ou três meses, um exame lhe dissera que tudo ia bem? De qualquer forma, volta aos exames e constata que há uma reincidência no mesmo lugar, e do mesmo tipo. Mais uma vez, submete-se a todo aquele ritual curativo. Só que agora ele se pergunta se não haverá recursos ao redor e dentro de nós que nos ajudem a combater o mal.
Faz então um balanço de sua vida antes da descoberta do tumor e depois de terminado o primeiro tratamento, há cerca de dois anos. E constata que nada mudou. Ao contrário, sua rotina tornou-se tão agitada que mal tem tempo de alimentar-se, engolindo rapidamente um prato de “chili”, aquela deliciosa comida mexicana. Ao final deste segundo tratamento, pergunta ao seu oncologista como deve alimentar-se e recebe a resposta de que coma o que quiser. Mas será verdade? David é médico e sabe que médicos não conhecem nada de nutrição. Conta-nos, de modo didático, como se desenvolve um tumor canceroso, e a importância de um sistema imunológico fortalecido. E começa a pesquisar. Tudo. Pesquisa as propriedades dos alimentos, informa-se sobre pesquisas avançadas nesta área, procura relatos de pessoas que tiveram câncer, que se salvaram, ou viveram mais do que estava previsto pelos doutores. David não tem medo de, como médico, colocar em questão a sabedoria “inquestionável” de seus pares. Mostra-nos como debilitamos ou fortalecemos nosso sistema imunológico. Procura os recursos que Deus, ou a natureza generosa, coloca à nossa disposição. Ele fala de coisas simples, o que ingerimos todos os dias, mostra o quanto há de venenoso na nossa dieta de classe média em países desenvolvidos, ou nem tanto. Mostra que na Índia, em condições quase sub-humanas, há menos câncer. Mas por que será?
David fala-nos de nossa civilização estressante, onde todos devem chegar em primeiro lugar, ganhar mais dinheiro, ter mais bens materiais. Nos relatos dos que viveram, e dos que morreram, encontra lições belíssimas de vida, de amor, de paz interior. Fala-nos de coisas que já esquecemos e que até consideramos piegas: um afago, o contato físico do outro, o amor. Fala de pessoas a quem deram poucos meses de vida e que se curaram, ou viveram ainda muitos anos, em perfeita saúde. Recomenda-nos esta introspecção, que muito poucos cultivam, este momento consigo mesmo, que podemos chamar de meditação, presente em tantas culturas e que nós, ocidentais, salvo no caso dos místicos, abolimos de nossas vidas. Fala-nos de atividade física, que muita gente de minha geração, pobres de nós, considera sinônimo de ignorância, e o quanto ela contribui para o fortalecimento de nosso sistema imunológico.
Talvez para mim, o relato tenha sido excepcionalmente comovente, porque retoma minha própria vida, ou a história de uma parte de minha vida, a luta de toda a família ao recebermos a notícia do câncer de Teresa, minha irmã. Eu já havia perdido pai, mãe e irmão. Teresa e eu éramos tão unidas! Quando, após a cirurgia, recebi dos médicos a notícia de que ela tinha um câncer ovariano, já metastásico, senti o mundo desabar sobre mim. Com Alice, sua filha caçula, acompanhei-a durante as longas sessões de quimioterapia. Procurei esperança, mas nenhum médico jamais me disse nada que pudesse trazer uma réstia de luz. Procurei na Internet, fiz que tomasse xarope de babosa, que fizesse alguma atividade física. Mas se o xarope ela aceitou, a atividade física sempre rejeitou, não acreditando que isso pudesse lhe trazer algum benefício. Teresa sempre soube da gravidade de sua doença e resolveu viver da melhor maneira possível o que lhe restava. Gostava de festa, organizava aniversários e grandes confraternizações de fim de ano. Nunca deixou de comer o que gostava, ainda que eu, através de minhas pesquisas na Internet, houvesse feito algumas descobertas e procurasse convencê-la a evitar certas coisas e aproveitar outras. Mas, afinal, era a sua liberdade. Viveu seus últimos anos rodeada de amor, amor de todos que também sabiam que o tempo podia ser mais curto do que se imaginava. Dizia-me sempre que nada lhe havia ensinado tanto quanto esta proximidade da morte. Que se sentia muito mais feliz do que antes, que aprendera a valorizar todas as pequenas coisas da vida. E lamentava que não houvesse compreendido antes. Quando o câncer reincidiu, três anos e meio depois, contrariando os doutores, que lhe haviam dado poucos meses, ela sentiu que ia morrer.
Ao ler certos relatos, senti especial emoção, pois me reportaram à nossa última conversa, na antevéspera de sua morte. Telefonei-lhe para saber como estava. Atendeu-me chorando, disse-me que sentia muita dor e que estava sozinha, já que pouco antes se sentia bem, e sua filha havia saído para uma compra urgente. Fui vê-la, o coração aos pulos. Encontrei-a andando pela casa, apertando a barriga. Sem saber o que fazer, sugeri que tomasse Novalgina em gotas. Disse-lhe então que se deitasse, para conversarmos. Afaguei-lhe o rosto, segurei sua mão. Fiz com que sentisse minha presença, meu carinho. Logo a dor cedeu – com uma simples Novalgina - e comecei então a falar, de nós, de nossas vidas. Foi nossa última conversa, mas, sem dúvida, aquela em que mais falamos de nós mesmas. Hoje, passados mais de três anos, relembro trechos que me deixam realmente perplexa. Perguntei-lhe se havia sido feliz, e ela, tranqüila, disse-me que, balanço feito, havia sido bastante feliz. Falamos então, com incrível naturalidade, da inevitável morte. Lembro-me que mostrei o lindo rostinho de Mariana Ximenes na tela de televisão que havia ficado ligada e comentei que também ela, linda, jovem, saudável, chegaria ao seu dia final. Não havia angústia na nossa troca de idéias sobre nossas vidas e sobre a morte. Estávamos ambas em paz.
Teresa partiu dois dias depois. Acompanhei-a até a entrada da UTI, dei-lhe um beijo e disse-lhe que Santa Teresinha a protegeria. Foi a última vez que vi minha irmã viva. Como já disse alguma vez, sofri durante muito tempo por ter ela partido sozinha, numa fria UTI, mas hoje tenho a convicção de que todos que a precederam, pai, mãe, irmão, marido, estavam lá, ajudando-a a fazer a travessia.
David traz-nos relatos de sobrevivência, de superação, na vida e na morte. Superação na morte significa paz, a vitória sobre o medo do desconhecido. Estou certa de que, como muitos daqueles que partiram, cujas histórias são relatadas no livro, Teresa também partiu em paz.

Para finalizar, David está vivo, quinze anos após sua reincidência, quando lhe deram alguns poucos meses de vida.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Pavane pour une infante défunte

“Infante” é princesa espanhola. Pavane uma dança de movimento lento. Maurice Ravel compôs a obra em 1899, para a princesa de Polignac, na verdade uma judia americana, casada com o conde Edmond de Polignac, da mais antiga nobreza francesa. O título da obra, na verdade, não tem nada a ver com a morte de uma criança. Ravel explicou, tendo tal título causado certa perplexidade, que se tratava simplesmente de uma licença poética. É uma linda, e profundamente melancólica, composição, digna do gênio do grande compositor impressionista.
Lembrei-me dela ao ver a foto do rostinho sorridente de Luana Eger, de três anos, a primeira vítima da tragédia de Santa Catarina. Luana, ao contrário da princesa de Polignac, morreu no alvorecer da vida. E pertencia a uma família pobre, seu pai é um simples comerciário, e, como todas as outras vidas que conhecemos ceifadas ainda na aurora, logo será esquecida, salvo por sua família. Luana é o símbolo desse absurdo com que nos deparamos a cada dia, da morte, da dor, da destruição. Crianças como Luana morrem soterradas, assassinadas, seviciadas. Crianças que são vítimas de alguma força perversa da natureza ou dos homens. Talvez de ambos.
Vi outros rostos infantis, sorridentes, como o da linda Luana. Todos agora mortos. Vi pais, mães, avós, expondo sua dor, tentando entender o porquê de tanto sofrimento. Mas como entender? Lembro-me de “La peste” de Albert Camus, em que, de repente, a cidade de Oran, no norte da África, é invadida por ratos que aparecem mortos aos montes. Mas logo desaparecem, dando lugar à morte de homens, mulheres, crianças. Lembro-me de certo Doutor Rieux, médico herói, tentando salvar vidas. E também de sua revolta diante do sofrimento, maior ainda quando a vítima é uma criança. E da incapacidade do padre em explicar tanta dor de inocentes. E lembrei-me, então, de minha tia Maria, e de tantas outras Marias, personagens reais, vítimas do mesmo mal daquelas do romance de Camus: a peste bubônica. Em Porto Alegre, dos anos vinte, ratos infestavam a cidade imunda, governada por outros ratos, e arrastavam-se doentes, antes que a morte começasse a ceifar vidas humanas. Ignorância, perversidade? Possivelmente ambas. Um dia, meu tio Alfredo vendo um rato que se arrastava pela sala, observa, numa premunição: “Este rato está doente. E isto pode ser grave!”. Mas ninguém presta atenção. Afinal, ratos infestam casas, de todas as classes sociais. Até que a morte chegou para os humanos, e levou Maria, e também sua melhor amiga, e vizinhos, adultos e crianças.
Não importa se o mal veio dos homens ou da natureza ultrajada, enfurecida, justa ou injustamente. O que importa é que a vida vai nos falando, cada vez mais severamente, que nossos limites humanos são infinitamente estreitos. Se a juventude nos faz crer em nossa imortalidade, os anos nos trazem a cruel consciência de tudo que não podemos. E podemos tão pouco! O absurdo de que nos fala Camus, em toda sua obra, tragicamente faz parte da vida. Luana, Isabela, os dois irmãos seviciados, assassinados, esquartejados, queimados, pelo pai, pela madrasta, pela vizinha covarde, pelos médicos omissos, pela Conselheira Tutelar, por todos nós, de quem já nem lembramos mais, os namorados adolescentes, também já quase totalmente esquecidos, Maria, sua melhor amiga, todos que não puderam prosseguir sua caminhada, nos trazem a dolorosa convicção de nossa intrínseca incapacidade em vencer o sofrimento e a morte. Ou, quem sabe, nossa insensibilidade, se a dor e a morte forem do outro. E o absurdo do sofrimento que conduz à morte surge de todos os lados, e dele ninguém pode escapar. Surge da natureza, dos homens, de um deus vingativo, do demônio.
Camus, em obras anteriores, nos dizia que somente no suicídio, ato supremo de rebeldia, poderíamos afrontar este Deus, no qual ele não cria, que nos atormenta com o absurdo da vida. No entanto, em “La Peste” resgata o amor como a única arma de que dispomos para este desafio. E ainda relembra, por intermédio do doutor Rieux, que o sofrimento “havia confrontado os homens ao absurdo de suas existências e à precariedade da condição humana.”
Não haverá “Pavane” para Luana, nem para os garotos supliciados, nem para Isabela, nem para Maria, nem para sua amiguinha, mas para todos nós, que ainda cultivamos a esperança, haverá sempre a possibilidade de exercer o amor, o verdadeiro, aquele expandido, que recobre toda criação, de que falava Dom Helder Câmara.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A manchete errada
O título não é meu. Roubei-o de Demétrio Magnoli, extraordinário sociólogo da USP. Ilustra um artigo publicado no Globo, logo antes da eleição de Obama. Magnoli chama a atenção para a importância da eleição de Obama, mas não por ser negro. Assinala que, ao contrário de Jesse Jackson, Obama jamais se apresentou como negro, mas como americano, filho de um negro queniano e de uma branca americana. Tem uma irmã, filha de sua mãe com um indonésio, e que é casada com um chinês. Obama tem parentes na África, que comemoraram, com danças típicas, sua vitória. É cidadão do mundo, que supera até as chamadas fronteiras nacionais. Obama significa o pós-racial, o pós-radical nacional, Obama é o pós-moderno.
Dizem que o século XIX só acabou com o fim da Primeira Guerra. Encanta-me pensar que Obama, com sua bela figura pós-racial, nos introduz, afinal, no Terceiro Milênio. E uma vez derrubado o muro que dividia o mundo em dois, Obama significa o pós-ideológico, onde não cabe nenhum sectarismo. Com ele, não dá para pensar em passado, não dá para ser anti-semita, não dá para fanatismos nacionalistas ou religiosos. Tudo isso nos parece ridículo e, ainda mais, odioso. Com ele, recriamos força para brigar contra qualquer preconceito, como sua mãe, que pertencia àquela geração nascida durante ou logo após a Segunda Guerra, e que, nos anos 60 e 70, começou a dizer não ao que estava estabelecido. Obama é o ressurgimento vivo, jovem e belo, de um velho sonho. Temos vencido muitos preconceitos, mas ainda há muita coisa a fazer. Mas, se Obama representa nossa definitiva entrada no século XXI, cotas raciais representam a volta ao passado. Cotas raciais dividem, quando o que se espera é a união, cotas raciais empurram para debaixo do tapete o grande problema do ensino público e promovem a estagnação do país. E tenho certeza de que, no futuro, vamos ter um novo tipo de preconceito, contra o profissional negro, suspeito de pertencer às cotas e de ter tido, portanto, sua trajetória facilitada. E os movimentos negros, que procuram estimular ao máximo a segregação? Mas é politicamente correto defender cotas e movimentos negros, seja a que custo for.
Lembro-me de meus primórdios como professora de francês. Tínhamos, então, a impossível tarefa de transformar nossos alunos, e nós mesmos, em franceses. Pronúncia perfeita, entonação, e até gestualidade! Durante cerca de duas horas, tentávamos em vão uma tarefa, já de cara, impossível. No pós-colonialismo, encontramos o justo objetivo, somos brasileiros, espanhóis, ingleses, chineses, que falam, ou aprendem uma outra língua. Somos para sempre nós mesmos, seja onde for e em qualquer circunstância. Estamos impregnados de nossa cultura, e sem ela não somos A nem B. E não importa, ou não deve importar, se somos brancos, negros, bonitos, feios, homo ou heteros, se somos dotados ou não. Se somos jovens ou não. Neste novo milênio, nossa luta deve ser contra QUALQUER tipo de discriminação. E ele, na verdade, só poderá ser novo se nos despojarmos de nossas velhas e fedorentas mazelas. Nós que vivemos aqueles anos de chumbo, que chutamos o balde, que abrimos portas fechadas, que penetramos em quartos escuros e proibidos. Nós, mulheres, que repudiamos o machismo, o casamento como profissão, a maternidade como único projeto de vida, a servidão feminina, que durante séculos nos humilhou. Vamos partir deste pós-racial e reiniciar, ao lado dos mais jovens, a luta que iniciamos na nossa juventude e que agora, como num belo despertar, nos parece fascinante, como naqueles velhos tempos. Ainda que estejamos certos de que a vitória jamais será definitiva, que sempre haverá muita coisa a combater.
E afinal, quem sabe, nós, contemporâneos dos velhos sonhos de um mundo mais justo, poderemos dizer que valeu a pena, e que não sonhamos o sonho errado ou impossível.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Candidata a amásia de Chavez.

Há algum tempo, vi uma entrevista da ex-mulher de Hugo Chavez. É uma mulher madura, bonita, tanto que foi rainha de beleza na Venezuela. Não compreendo como conseguiu casar-se com Chavez, aquela figura pornográfica – não vou ficar repetindo o que acho dele, porque acaba ficando chato. Mas o interessante é que a ex-mulher o odeia quase tanto quanto eu. Talvez até mais, já que compartilhou a vida com ele. E faz-lhe aberta campanha oposicionista.
Mas, afinal, quem serviria para mulher, ou amante, de um tipo tão asqueroso? Isto despertou minha curiosidade. Procurei nos jornais, nas páginas de política, onde abunda gente nojenta, ou nas policiais, procurei nas desclassificadas que andam por todo lado, em prédios de classe média, ou de luxo. Olhei para todos os lados, observei atentamente. É verdade que ainda não procurei nos sites pornôs, ou nos filmes de mesmo teor da SKY. Mas, afinal, estas são profissionais, e podem até, apesar da profissão meio duvidosa, ser pessoas de bem. Porque acho que para ser amante do indigitado, a mulher tem de ser desclassificada como ele, ofender nossos ouvidos, emitindo afrontas a todas pessoas de bem, debochando de nossos valores fundamentais, mentindo ostensivamente, enganando. Tem que ser uma mulher proibida para menores “e maiores” de 60 anos. Olhei, procurei e não vi. Ou melhor, vi, ouvi, já comentei, mas ela me escapou, não entendo porque.
Mas como sou perseverante, continuei atenta, certa de que algum dia encontraria, assim por acaso, a candidata ideal. E foi à noite, descansando depois de um dia de trabalho –casa, bicharada, cozinha e ainda minha vida intelectual, que compartilho atualmente com uma tal de Mme. de Staël - , que descobri, durante a propaganda eleitoral para Prefeitura de São Paulo, minha candidata, ou melhor a candidata ideal para Chavez. É nossa velha amiga Martinha, aquela mesma que, depois do desastre que matou quase 400 pessoas, dos congestionamentos monstruosos dos aeroportos, onde pessoas desmaiavam, choravam, se agrediam mutuamente, exaustas por esperas de intermináveis, aquela Martinha, membro da mais pura “zelite” paulista, aquela Martinha que nos sugeriu o inesquecível “relaxar e gozar”.
Perplexa, ouvi mais ou menos o seguinte: “Você conhece Kassab? Sabe se é casado, se tem filhos....?” Francamente, não me lembro do resto, mas devia ser tão imundo quanto aquelas primeiras perguntas. Se ouvisse aquilo vindo de alguma campanha da “Tradição, família e propriedade”, já me sentiria ultrajada. Mas partindo da Martinha! Martinha, aquela que sempre “defendeu” as chamadas minorias sexuais. Logo ela, que sempre fingiu ser a defensora dos que têm opção sexual pelo mesmo sexo. E que têm direito a isso! Estava desmascarado seu fingimento, a estratégia que usou, cinicamente, durante anos, para fazer-se conhecida e chegar a Prefeita da maior cidade do Brasil! Finalmente, desmascarada! E afinal, o que temos a ver com as opções sexuais de nossos governantes? Ou seja, para ela vale TUDO para vencer as eleições, até renegar seu “passado?”.
Para refrescar a memória de gente como Martinha, que espero não seja nenhum de meus leitores, gostaria de lembrar alguns exemplos que iluminam a história da humanidade. Eram homossexuais guerreiros como Alexandre da Macedônia, Ricardo Coração de Leão, e alguns outros de que não me lembro agora. E artistas geniais como Leonardo da Vinci, Michelangelo, Caravaggio, e outros cuja história pessoal desconheço. E há, por outro lado, gente como Hitler, cuja sexualidade é meio discutível, mas que possivelmente não era gay, sendo provavelmente um misógino. Mas não se discute a masculinidade de Mussolini. Sua amante, Clara Petacci, 29 anos mais jovem do que ele, era uma linda jovem da alta sociedade italiana, que foi executada e pendurada pelos pés à exposição pública junto ao amante. As fotos dos dois mortos são impressionantes! Mao deve ter tido amantes, mas provavelmente todas feiosas, como convinha ao regime que presidia com mão de ferro. Stalin teve várias mulheres, sendo que uma delas suicidou-se. Será que não foi por causa dele? Pol Pot, aquele do Camboja, tenho certeza, também não era homossexual.
Então, Martinha, defensora dos milhões de homossexuais, que, por este país afora, sofrem, ainda, discriminações e agressões, não confunda as coisas. Se Kassab for gay ou machão, isto é problema DELE. Quanto a você, acho que deve abandonar aquele marido, que parece não lhe dar muita bola – dizem as más-línguas que o interesse do tal fulano era só o de ganhar espaço e intermediar a compra do “Aerolula”, o que lhe rendeu uma fortuna com dinheiro nosso – e procurar um macho à sua altura.
E não conheço ninguém mais digno de você do que Chavez.
E só para terminar. Nesta campanha do vale-tudo, Lula, num dos seus ataques histéricos de estupidez, denunciou preconceito contra a Martinha. Evidentemente, por parte da “zelite” machista. Vale lembrar, como lembrou um pequeno editorial do Globo, que Martinha nasceu “Schmidt de Vasconcellos” e permanece “Matarazzo Suplicy!”
É pouco?

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Preto, branco e colorido.

- Ah! ...
Minha amiga estava perplexa, boquiaberta, com o que eu acabara de lhe dizer. Minha amiga não é uma boboca qualquer. É uma mulher inteligente, engajada nos movimentos sociais, engajada de fato, tanto que abandonou o PT há muito tempo, antes mesmo de grande parte dos que acreditavam nele. Abandonou quando descobriu que era tudo mentira, e o que ela fazia, dedicando aos excluídos os mais jovens anos de sua vida, era pra valer. Minha amiga cuidou de prostitutas, viveu entre elas, cuidou dos presidiários, não viveu entre eles, mas deu o melhor de si para que pudessem recomeçar. Foi quando trabalhava com presidiários, que conheceu seu marido, ele também dedicado a causas humanitárias. Casaram-se, tiveram dois filhos. Ele morreu. Ela foi sua companheira fiel, dedicada, até o momento final.
- Ah!...
Esta surpresa vinha do que eu lhe contava. E a mim não parecia nada de extraordinário. Contei-lhe que, quando Ricardo e eu decidimos viver juntos, eu já havia tido uma longa história de efêmeras paixões, contei-lhe que nunca havia ligado para virgindade, e que minha vida de mulher adulta e experiente era muito mais antiga do que ela poderia imaginar. Lembrei-lhe que Ricardo já havia sido casado, que saíra do casamento por estar apaixonado por outra mulher, que não era eu, que antes de me conhecer também tivera grandes e efêmeras paixões. Contei-lhe que falávamos de nossos passados, com suas paixões e decepções, naturalmente. Contei-lhe que tínhamos uma história pregressa, que não podíamos, nem queríamos apagar, que fazia parte de nós e que se o fizéssemos teríamos apagado parte de nós mesmos. Contei-lhe que temos o princípio fundamental, quase religioso, de respeitar mutuamente nossa individualidade, o que significa que não somos um só corpo e uma só alma. Contei-lhe que cada um de nós tem seu projeto pessoal, em que o outro não se intromete, mas procura ajudar, como bom companheiro.
E mais ainda, contei-lhe que a meus pais, que amei sinceramente, não foi permitido determinar nada em minha vida adulta. Que tínhamos, apesar de alguma resistência deles, sobretudo de minha mãe, uma relação em que não se colocava a “experiência” e “sabedoria” dos mais velhos. Escutei-os e aceitei somente na medida em que eu própria concordava. Contei-lhe que não fui hipócrita, ocultando-lhes a parte de minha vida que poderia desagrada-los, ou chocá-los. Contei-lhe que tive grandes embates com eles, mas que fui eu que pude encarregar-me, no final de suas vidas, deles próprios e dos grandes problemas que tínhamos em casa. E isto porque eu já havia vivido muito!
Falhei-lhe, enfim, de um mundo que não é preto e branco. Falhei-lhe de um mundo onde não posso ser classificada como “mulher da vida”, nem como “mulher da morte”, como me lembrou Ricardo. Sou uma mulher livre, que não gosta de instituições, que ama sinceramente seu companheiro, e a si mesma. Repito que desde bem cedo repudiei aquele sermão do casamento de um só corpo e uma só alma. Que sempre tive consciência de minha responsabilidade diante da vida e que me classifico como “colorida”, de variadas cores, como o arco-íris, que tanto admiramos.
Como disse Soeur Emmanuelle, religiosa francesa, que convivia com no Cairo com os pobres de religião muçulmana, amar dá à vida uma belíssima coloração. Cativante.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Dostoievsky, Alice e o papa-hóstia.

“Deves amar tudo o que Deus criou,
tanto o universo como o ínfimo grão de areia.
Amar a folha pequenina como também cada raio de sol.
Os animais e as plantas. Se amares todas as coisas,
atingirás o mistério divino que nelas habita e assim,
dia a dia, tua capacidade de perceber a verdade aumentará,
e a tua consciência se abrirá a um amor que abrange tudo.”
O texto não é meu. Quem me dera! É de Dostoievsky. Mas sinto-me feliz em poder dizer que é assim que sinto a presença de Deus. E duvido que haja uma verdadeira crença no sagrado que não atente para toda a criação do Criador. Quando falo com amor nos animais, quando admiro a natureza, quando olho uma florzinha, quando reparo nas estrelas, quando o perfume das flores me encanta, sinto a presença do Criador.
Foi com minha mãe que aprendi a amar a Deus desta forma. Minha mãe, que nunca ia à igreja, não comungava, não confessava. Que jamais se preocupou com Primeira Comunhão dos filhos. Nem sei se meu irmão foi batizado. Nunca ouvi falar em madrinha ou padrinho seus. No entanto, foi com esta mulher, aparentemente descrente, que aprendi a apreender Deus em toda criatura. Foi com ela que aprendi a respeitar as pessoas, fossem elas quem fossem, sem jamais discriminá-las. Talvez porque ela própria tenha sido discriminada pela sua condição de “filha natural”. Foi com ela que aprendi a amar animais e natureza, respeitando-os e rebelando-me, sem temor, contra os que não o fazem. Foi minha Alice, alheia a qualquer religião, mas profundamente imbuída da consciência da presença de Deus, que me ensinou a emocionar-me com o que diz Dostoievsky.
Certa vez, ouvi da mãe, papa-hostia, de um sujeito, também papa-hostia, que o tal fulano havia matado o gato de “estimação” da família com um ponta-pé. Motivo: supunha-se que uma certa criança houvesse se assustado com o bichano. E contava com naturalidade! Quanta maldade, quanta covardia! Imediatamente, tive a certeza que toda aquela religiosidade era falsa. Estávamos num jantar em casa de amigos comuns. Perplexa, retruquei alguma coisa, se fosse dizer o que sentia iria provocar indignação, não contra o perverso, mas contra mim. Mas deveria ter expressado meu sentimento de revolta, e desprezo. Certamente, ficaria melhor, pelo menos comigo mesma.
É por isso que digo, obrigada, mãe. Pela tua capacidade de amar, pelo teu efetivo amor a Deus. E tenho certeza de que conquistaste, lá onde estás agora, a plena capacidade de perceber a VERDADE. O mistério divino que não vemos, que se esconde por trás do que vemos, e que somente alguns são capazes de perceber.
É por isso, mãe, que tua lembrança terá sempre para mim o suave perfume das flores que tanto amavas.

Quanto a mim, me pergunto: será que não fui parceira do Demônio, não expressando o que sentia de fato diante da maldade que me contava, com tanta naturalidade, a beata?

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Possuídos II

No meu último artigo, aconteceu algo estranho. Sempre tive muito cuidado com a correção, coerência e coesão textual. Pois desta vez, relendo-o no dia seguinte, constatei muitas gralhas, incorreções na utilização de termos, repetições. Estranho!
Tenho uma hipótese, o Demônio se sentiu atingido e resolveu se vingar. Bateu com o rabo no teclado, fechou meus olhos, deixou-me insensível para algo que para mim sempre constitui um trabalho, além de intelectual, profundamente artesanal. E tudo isso sem que eu percebesse minimamente. Só não conseguiu me calar.
Não o temo, sei que ele não tem como me vencer.
E se querem lutar contra ele, por favor, divulguem aquela denúncia do suplício do filhotinho de cachorro. Lembrem-se de que, para o Demônio, gente, bicho, adulto ou criança, é tudo objeto de cobiça.
Não façam como aqueles médicos que se calaram diante das crianças barbaramente surradas. Ou como a Conselheira Tutelar que mandou de volta para casa – ou para a morte - as duas crianças. Eles também são parceiros de Demônio.