QUEM SOU EU

Sou professora de Francês, mas hoje minha principal atividade é escrever e ler, além de cuidar dos meus três vira-latas: Charmoso, Príncipe e Luther.



Gosto de fazer ginástica, sou vegetariana e adoro animais em geral, menos baratas.



Sinto especial prazer quando meus textos agradam aos meus leitores. Espero continuar produzindo e me comunicando com todos os meus amigos, neste maravilhoso universo da net.



Seguidores

sábado, 1 de abril de 2017

Svetla: une vie

Svetla Hantova: une vie

Quando ela nasceu, o comunismo já havia se instalado na Bulgária. Durante toda sua infância, sua juventude, sua maturidade havia sentido o medo. Quando a conheci, jamais havia conhecido a liberdade. Roubaram-lhe o apartamento, assim como todos os bens da família. Naquela inesquecível estadia na Bretanha, devia regular comigo, quarenta e dois anos. Vou falar no passado, porque a ele me refiro. Minha amiga tinha belos olhos azuis, e cabelos louros, daqueles que se via antigamente, descoloridos com a própria água oxigenada. Tintura, cores a escolher? Nem pensar! Teria sido uma bela mulher, de corpo esguio e belo sorriso. Svetla fazia o possível para ser uma mulher cuidada como as outras. Seu cabelo ressecado, sua pele maltratada eram o retrato do realismo socialista. Éramos professoras universitárias, vindas de países, majoritariamente, ocidentais. Algumas mais velhas, outras mais jovens, algumas mais belas outras menos. Havia até algumas polonesas, nem tão vaidosas – pecado burguês, como dizia meu ex-companheiro Robert Ponge, que, num dia de mau humor, corri de casa – mas pareciam mais à vontade do que minha amiga.
Nunca conhecera nenhuma comemoração natalina, este era um dia como qualquer outro. Nem um só dia festivo, talvez somente para “comemorar” o dia de março de 1917, em que os bolcheviques tomaram definitivamente o poder, e um dia, em 1946, em que o comunismo se instalou na Bulgária. Jamais uma oração, somente feita em casa, escondida como ato criminoso: ópio do povo. Svetla nunca vira uma árvore de Natal, apesar de provir de família ortodoxa. Nascer, crescer, viver no medo só não é pior do que acontece com crianças sírias. Esta é a variável comum a todas! O MEDO! Estamos vendo, e já ouvimos falar do medo, no holocausto, no regime stalinista, no maoísta. Tudo provocado por ditadores! É preciso varrê-los da terra!
Tínhamos raros momentos a sós, seu guarda-costa as vezes lhe dava uma folga. Quem sabe se compadecesse? Afinal, Marguerita , bem mais velha, esposa de um coronel, havia conhecido outros tempos! Nestes momentos, Svetla contava, que o contrabando era freqüente no país. Mas o que se podia comprar com tão pouco dinheiro? Meias de seda, como ela dizia, xampus, um batom. E isto era o cúmulo do luxo! Produtos vindos da Grécia, onde ela imaginava haver de tudo. A Bulgária havia sido invadida pelos turcos e ficara sob domínio otomano durante quatrocentos anos. Foram séculos de sofrimento, com impostos altos e discriminação. Enfim, conseguiram a liberdade já no século XVIII. Mas, na realidade, o país jamais conheceu a paz e sempre houve sofrimento para o povo. Em 1946, finalmente, foi declarada a “República Popular do Bulgária”. Chervenkov Valko, instalou no país o stalinismo e seu sucessor, Todor Zhivkov, continuou na linha da União Soviética até a queda do comunismo. Svetla convidou-me a ir a Sofia e até hoje não descobri se deveria visitar a múmia de um ou de outro. Imagino que de Vlako, que eu entendia outra coisa.
Havia nas redondezas um hiper-marché , de cujo nome não me recordo mais. Eu adorava ir nos momentos de folga, saborear biscoitos que não encontrava aqui. Em geral, ia com Guy, e foi com ele, que morava em Sofia, como funcionário francês, que aprendi muita coisa sobre o país: a função de Marguerita, o terror de Svetla com a fita cassette de Gal Costa, a história do velho que, não tendo mais onde morar na casa da família, foi instalado numa cabana para ele construída no pátio, e a constante escassez de tudo. Tentei dar-lhe uma nota do Brasil , que imaginei seria uma recordação, mas ela recusou com determinação. Só anos depois, juntando os pedaços, verifiquei que uma simples nota de um país estrangeiro poderia trazer-lhe problemas. Pela própria Svetla fiquei sabendo que logo que se formava fila, entrava-se nela, certo de que alguma coisa estava ou logo estaria faltando. Contou-me da falta de papel higiênico e hoje, quando vejo o que acontece na Venezuela, penso nela.
Contou-me que o maior sonho de uma búlgara era casar com um europeu e sair do país. Anos mais tarde, recebi, em minha casa, o filho e a namorada de uma amiga sua que se casara com um francês, astrônomo no Chile. Era um rapaz simpático, bem francês, e que mal falava o búlgaro. Também contou-me que era divorciada, sem filhos, que tinha, como eu, uma mãe doente, que não sei com quem deixara, que tinha uma tia também doente (pelo que dizia Alzheimer), que se negava a se deixar lavar, e que a família a deixara sem lavar, o que já durava anos. Imaginei apartamentos escuros, sombrios, decadentes. Mostrou-me uma foto sombria de sua mãe, deitada, doente, e lembrei-me da minha, cheia de cuidadoras, numa casa arejada e clara, e um batalhão de médicos. E deveríamos ser, não fosse o regime, da mesma classe social!
Um dia, Svetla, juntou algum dinheiro e, no hiper-marché, comprou uma bermuda estampada com números. Chegou exultante com sua nova roupa e logo a estreou. Sentia-se super elegante. Sinto-me orgulhosa de não ter o hábito, tão comum entre as brasileiras, de reparar roupas. Mas aquele dia foi diferente. Reparei que vestia uma blusa preta e sua bermuda colorida. Não olhei os sapatos. Ah! Svetla que se contentava com tão pouco! Que tinha tão pouco!  
Um dia, resolveu comprar presentinhos para amigas na Bulgária. Fomos juntas e durante horas procuramos o que caberia no seu parco orçamento. Em dado momento, sentou-se no chão e começou a contar as moedinhas espalhadas, para espanto de todos os clientes. Pensei que jamais chegaríamos a um consenso e completei (estávamos sós) o que faltava. Um chocolatinho, um pacote pequeno de biscoitos, umas balinhas coloridas, etc. Saiu feliz da vida, imaginando a alegria das presenteadas.  Pouco antes do fim do curso, notei que, após o almoço e jantar, jogava dentro de uma sacola que nos haviam dado, seu pedaço de pão e o meu, que eu nunca comia. Fiquei intrigada, não podia imaginar o porquê. Um dia, afinal, criei coragem e perguntei-lhe porque guardava pão duro e velho. Lembro-me perfeitamente de sua resposta: “Maria, vou esperar o avião em Orly  durante horas. Assim molho o pão na água e posso comer.” Fiquei estarrecida, como era possível? No dia seguinte, pela manhã , ao se despedir de mim, abracei e dei-lhe uma nota de cem dólares. Hoje, imagino que tenha jogado fora ou dado a alguém.
Com a queda do regime, Svetla recuperou seus bens, segundo contou-me sua amiga, de cujo nome não me lembro mais. Casou-se novamente e tinha até um cachorrinho. Durante algum tempo nos correspondemos, mas a distância e o tempo nos afastou.
Cruel regime que, felizmente, acabou. O que resta está tão podre que logo despencará. Não posso morrer sem ver isto acontecer. E continuo afirmando:
“VERMELHO SÓ MEU BATOM”vie

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Bretanha inesquecível

Foi há muitos anos atrás, comemorava-se o bicentenário da Revolução Francesa. Eu havia ganhado uma bolsa por causa de um trabalho teatral, que desenvolvia com meus alunos. Era o “Théâtre Gavroche”. Gavroche é um moleque, personagem de “Os Miseráveis” de Victor Hugo, que morre durante a Revolução de 1830. O título me foi sugerido por minha sobrinha Ludmila, que se formava em francês, e havia terminado de ler o livro. Recebi a bolsa do Adido Cultural da França, Jean-Paul Rebaud, que se interessou pelo trabalho que eu desenvolvia. Incluía ida e volta, em avião da Air-France e ainda uma quantia em dólares.
Saí, deixando para trás muita coisa. Um ano após a morte de meu pai, minha mãe havia tornado-se cadeirante, depois de fraturar o fêmur de uma das pernas, e desenvolver uma depressão terrível. Negava-se a caminhar.  Como eu já trouxera meu pai para minha casa durante a sua fatal cardiopatia, Alice continuou comigo. Necessitava de cuidados permanentes, com um esquadrão de cuidadoras. Médicos, de todas as especialidades, estavam sempre por aqui. Tomava um mundo de remédios, dos quais eu me incumbia, mesmo trabalhando o dia inteiro. Vivia correndo de um lado para outro, subindo e descendo, da Universidade até em casa, de casa até a Universidade. Até hoje, depois de vinte e três anos de sua morte, ainda me persegue a sensação de estar atrasada, de não conseguir fazer tudo que tenho a fazer. Teresa, minha irmã, ficou incumbida de ministrar os remédios e supervisionar as cuidadoras. Era um batalhão de medicamentos, com hora certa. Fiz uma lista detalhada, batida a máquina, com os horários e cores diferentes. Inventamos um processo mnemônico, para que nada faltasse ou atrasasse. Espalhei em lugares estratégicos da casa. Teresa tinha sempre o seu na bolsa. À noite, meu sobrinho, Bertrand, vinha “dormir” aqui. Alice o chamava a noite toda, como fazia muitas vezes comigo. Para ajudá-lo, vinha minha amiga, Sônia Miranda, a quem serei eternamente grata. Nesta batalha de toda preparação, esqueci de comprar uma mala nova – a minha tinha as duas fechaduras estragadas – esqueci até de comer, e, enfraquecida, tive uma terrível laringite.
Antes de partir para a França, eu teria de ir a Belo Horizonte, onde se comemorava a Inconfidência Mineira, e eu devia apresentar meu trabalho com o teatro. Deixei minha mala aqui, e só levei o necessário.  Separei as roupas que deveria levar para a França e pedi a Teresa que fizesse minha mala na véspera. Foi então que ela constatou que as fechaduras funcionavam precariamente. Desespero, telefonema para mim com uma bela descompostura. Em Belo Horizonte, apesar da minha laringite, tudo correu bem e, afinal, embarquei em Confins, em direção ao Rio, para tomar o avião para Paris. Encontrei minha irmã ainda emburrada, com a mala toda amarrada, já que não tivera tempo de comprar outra. Mas, contei com a sorte.
Minha chegada a Paris foi um desastre, a mala abriu – felizmente não foi durante a viagem – e esparramou roupa pelo chão do aeroporto, era como um ventre aberto expondo suas vísceras. Não havia outra coisa a fazer; agachei-me e comecei a catar, tentando fechá-la. Logo surgiram algumas pessoas que me ajudavam, enquanto eu dizia automaticamente: “Merci” , “Merci”, “Merci”. Amarrei-a de qualquer jeito e prossegui. Bem numa outra ocasião conto o resto desta aventura em Paris, que merece ser contada. No dia seguinte, segui para a Bretanha, para um Centro de Estudos perto de Saint-Nazaire. E quase perdi o trem, que saia às nove horas e sete minutos EXATOS.
A viagem foi extremamente agradável, apesar de minha garganta ainda doer. Em minha cabine havia um só passageiro, um operário que ia passar férias no campo, na Bretanha. Era um homem simples, já entrado nos anos, que usava uma espécie de casquete. Contei-lhe que era brasileira, e ele olhou-me espantado. Pensava que fosse italiana. Já ouvira falar vagamente do Brasil... Compartilhou comigo seu lanche constituído de uma baguette, queijo e vinho, que bebemos na mesma garrafa. Escrevi numa folha de papel meu nome e endereço e lembro-me que, já no Brasil, recebi um cartão seu. Havia xerografado o que lhe deixei escrito e colado no envelope. Respondi, mandando um cartão da Avenida Atlântica. Depois não tive mais notícias. Ainda tenho guardado seu endereço, uma recordação pela qual tenho muito carinho. Desceu antes de mim e foi aproveitar suas férias de verão.
Durante aquele agradável trajeto, que deve ter durado umas duas horas, esqueci-me da mala. Mas, chegando ao meu destino, a lembrança voltou-me, tragicamente, à memória, pois já havia sofrido, em Paris, por todo lugar onde passei com ela. Em Saint-Nazaire, a estação era pequena, quase vazia. Ao descer uma escada – nada de escada rolante -, justo aquela mala despencou e se abriu novamente. Imaginei como ficaria Teresa se visse a cena. Mas, no interior da França, tudo é diferente! Logo encontrei um senhor que me ajudou gentilmente a catar roupas e sapatos, que eu me lembre pela terceira vez desde que desci na França. E ainda procurou um taxi para mim. “Merci, monsieur.” E qualquer coisa a mais, de que não me lembro, mas que poderia ser “J´ai bien envie de vous embrasser”
E atravessando lindos campos cheios de girassóis, chegamos ao Centro de Estudos “Belc” que não me lembro mais o que significa. Eu ainda tinha dois problemas: a mala e a garganta. Naquela correria toda havia esquecido as duas. Entrei no prédio principal conforme me indicou o taxista... E foi lá, na França profunda, que passei alguns dos mais belos dias de minha vida. Fiquei curada da laringite e esqueci a mala. E também de toda angústia que havia deixado no Brasil. Nos diversos cursos, que tínhamos a escolher, quase todos os professores eram franceses, os alunos vinham do mundo inteiro.
Logo no primeiro dia, fomos passear até Saint-Marc-sur-mer, uma cidadezinha linda, como são todas aquelas do interior da França. Íamos falando em francês, cada qual com seu sotaque (e sem falsa modéstia, acho que a melhor pronúncia era a minha). Descobri que éramos um grupo formado por um espanhol, uma finlandesa, e uma búlgara. A finlandesa já havia vindo ao Brasil, e tinha uma camiseta com um papagaio. Já eu, nunca havia visto uma finlandesa. Mas, o maior espanto tive com a búlgara, ela jamais vira uma brasileira, e eu jamais vira uma búlgara. Desse espanto nasceu uma linda amizade.
Passávamos a manhã, a tarde e a noite em cursos e ateliers. Aos sábados e domingos tínhamos folga, íamos à praia em Saint-Marc, nadávamos, tomávamos sorvete Voltávamos encharcados. À noite, íamos à “caféteria”, onde dançávamos, inclusive uma fita de Gal Costa, que encantou a todos. Foi numa dessas ocasiões que conheci Guy Boucher, francês, professor na Bulgária. E tive que fazer grande esforço para não me apaixonar, o que sei foi recíproco. Tenho fotos suas que me fazem recordar, com imenso carinho, o homem mais gentil que conheci em minha vida. Mas tínhamos caminhos tão diferentes! Às vezes gazeteávamos, e foi assim que Guy me levou a Guérande, uma cidade medieval, onde íamos, freqüentemente, comer deliciosos crepes, especialidade da região. Foi neste período que comecei a me desencantar de minhas ilusões comunistas, típicas da juventude. Ao ver a pobreza de Svetla, ao vê-la sempre supervionada por Margueritta, esposa de um coronel, ao perceber seu medo. Propus-lhe dar de presente a fita cassette de Gal Costa, e, para meu espanto, ela recusou apavorada. Não entendi, e foi Guy quem me explicou: Ela teria sérios problemas com a polícia, já que sem entender nada, diriam que era propaganda anticomunista!
E também teve a festa a fantasia. Conforme me havia sido informado, desde o Brasil, eu deveria levar uma fantasia. E não tinha nada, a não ser as velhas fantasias, de húngara, cigana, colombina, dominó, etc, que minha mãe me vestia quando eu tinha 4 ou 5 anos, nem sei mais, e que ainda tenho guardadas como recordação. Minha amiga, Marlene, emprestou-me uma linda de sua filha Lilian. E foi assim, coberta de lantejoulas coloridas, com as pernas a mostra, cobertas somente por uma meia arrastão vermelha, e um magnífico adereço de plumas, que me apresentei, entre fantasias de televisão, Papai Noel, e de alguma coisa que até hoje não descobri o que seja.  Mas, afinal, sou brasileira! Em mim corre sangue português, negro, alemão, índio, cobra d´água, curupira, etc. Ninguém pode competir conosco. Sucesso total! Despertei paixões. Quiseram comprar minha fantasia, que nem era minha!
Mas como tudo na vida tem um fim, depois de um mês delicioso, mas de intenso trabalho, nos despedimos, sabendo que nunca mais voltaríamos a nos ver. Senti um aperto no coração. Mas ainda comprei uma mala nova em Saint-Nazaire e deixei a velha no alojamento. UFA! Passei ainda uns dez dias em Paris. Fui ao cinema, andei pelas ruas de minha infância, mas sentia saudades daqueles trinta dias. Anos depois voltei a Saint-Marc-sur-mer, o Centro de Estudos estava vazio. A cidade não tinha mais o encanto de outrora. Aos domingos, a feira, que tanto curtíamos, me pareceu sem graça. Mas as fotos me que passei para disquete, me fazem sempre lembrar aquele momento mágico, único em minha vida.
E ÚNICO porque foi MÁGICO!

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A BELEZA DE ENVELHECER

Acabei de ver um filme que falou-me ao coração. Falou de tudo que tenho sentido nestes anos, após os sessenta, quando a gente revê o passado. Penso nele e sinto saudades. Sei que este é o último ato, e quero vivê-lo o melhor possível . Quanto ao filme, não interessa a história, mas, em mim , provocou o imediato desejo de compartilhar tanta coisa, que vi, vivi, amei... Falar no passado, quando ele é tão maior do que o futuro, não é saudosismo, nem angústia da aproximação do check out. A música que encerra o filme me comoveu profundamente. Todos aqueles casais que dançavam, cabecinhas brancas , algumas mulheres tentando driblar o tempo, era uma das minhas preferidas aos quinze, dezesseis anos. 
Há tempo! Já a havia esquecido! Aqueles foram meus anos dourados, e, à medida que a gente vai envelhecendo, detalhes vão surgindo neste computador da memória, por mais longínquos que sejam. Pessoas que tiveram importância, lugares, desejos, sempre reprimidos... amores. Lembro de recantos que não existem mais, de sonhos que não pude realizar, mas realizei outros em que não pensava. As pessoas que então povoavam minha vida foram pouco a pouco desaparecendo, alguns morreram, outros não sei onde estão. Minha família original partiu, pai , mãe, irmão, irmã. Os rostos que hoje encontro no Natal, ou em outras reuniões familiares, são outros. Sinto saudades, mas, a cada partida, levantei a cabeça e pensei “É a vida, tenho que prosseguir”

Tenho contato com dois amigos, de muitos anos atrás, que me dizem que era a menina mais bonita do colégio. E que eram secretamente apaixonados por mim! Confesso que fiquei feliz. Mas minha grande paixão era outro. Já morto há muitos anos. E há também as lembranças mais antigas, o velocípede que ganhei de Natal, trocado mais tarde pela bicicleta. A corda em que era mestra, as brincadeiras na rua, a roda “... vamos brincar de roda?” Lembro-me da moça alta e loura, que via, todos os dias, descendo do colégio. Destacava-se das outras pela altura e pelo cabelo loiríssimo. Ainda não havia resolvido se queria ser como ela ou como Teresa, minha irmã, que admirava muito, apesar de seus beliscões. Um dia sumiu, e fiquei sabendo que havia morrido. Naquela época não tinha idéia do fosse a morte , sabia que nunca mais a veria, e considerei, simplesmente, que ela havia ido embora. Alguns meses antes, havia morrido minha avó Joana, que morava conosco. Lembro-me de minha mãe aos prantos, comigo sentada no colo, eu chorava também... A noite fui com Teresa dormir na casa de uma vizinha. Acordei toda molhada, envergonhada pulei na cama de minha irmã e agarrei-me a ela.  
Mais tarde os “arrasta-pés”, onde dançávamos aquela linda música do final do filme, de cujo nome esqueci-me, e a orquestra de Ray Connif. Usava saltos bem altos, bico fino, impraticável hoje. Aos quatorze anos pintei meu cabelo de vermelho, aos dezesseis de louro platinado. Hoje vejo que tive pais bastante liberais. Era paquerada, mas sempre permaneci fiel ao meu primeiro amor, aquele que abriu caminho para outros. Não danço mais, nem pulo corda. Durante anos andei na minha bicicleta, até que, desviando de um buraco, fui atropelada. Fiquei com medo. Troquei meus exercícios, a bicicleta, a musculação, pelo pilates. Continuo com o vício de pintar os cabelos, agora para esconder os brancos. Minhas roupas mudaram de estilo. Há anos, vivo só, com meus três vira-latas. Gosto desta liberdade. Tenho que tomar remédio para dormir e antidepressivo. Herdei de minha mãe uma depressão endógena que me acompanha há anos. Mas, pela manhã, logo que acordo, peço coragem a DEUS, em que acredito firmemente, e levanto-me às cinco e meia para dar conta de todas minhas tarefas.
Olho duas fotos antigas. Minha mãe e minha tia Aracy, sua irmã por parte de mãe. Minha mãe devia ter cerca de quatorze anos e minha tia cerca de dezessete. Morreu pouco tempo depois de tirar a foto. Provavelmente, suicidou-se; já havia tentado uma vez. Conservou-se na memória dos que a conheceram linda, com sua coroa de flores, o rosto ligeiramente inclinado, um chale, talvez, que lhe deixa nu um dos ombros. Minha mãe, vê-se, é uma garota adolescente. Apesar da puberdade, tem um rosto mais sensual, lábios muito grossos, e traços menos requintados. Ambas são bonitas, cada qual no seu tipo. Minha tia não pode ter seu grande amor, que, aliás, morreu pouco depois dela, não teve filhos, não viu a família nascer e crescer. Ficou na sua solidão, linda e jovem. Para sempre. Minha mãe morreu aos oitenta e dois anos, encontrou seu amor, casou-se, teve filhos, netos. Engordou, seus cabelos ficaram grisalhos, sua pele mudou. Aos setenta e seis anos, desistiu da vida. Havia perdido seu amor, seu companheiro de tantos e tantos anos! Durante anos desesperei-me ao vê-la assim. Logo eu, mulher independente, com uma trajetória de vida de amores e desamores. Como compreendê-la? Mas no dia em que se foi, senti que se libertava, rezei por ela e me conformei. Afinal, apesar de todos os revezes da vida, minha  mãe viveu plenamente aquilo que projetara para ela. A velhice ao lado do companheiro, que envelheceu com ela, com os filhos e netos, foi feliz. Pouco importa seus cabelos grisalhos, sua pele já enrugando, o quanto havia engordado.  
 Hoje, aos setenta anos, cuido mais de mim, acumulo uma bagagem de conhecimento da vida e cultural que utilizei na formação de muita gente. Sempre gostei de ler, prazer que devo a meu irmão. Mas, agora, tenho que usar óculos. Confesso que a maior parte do que vivi foi bom. Coloquei-me na prioridade e quero continuar a ser feliz. Sei que o tempo passa célere, e aprendi a gozar cada dia. Não abro mão do que me dá prazer. Como disse um dia Mario de Andrade, meu cesto de cerejas já está bem vazio, mas pouco importa. Dizer que a vida é sopro é um lugar comum, mas verdadeiro. Mas ainda espero escrever ainda muitos textos, ler muitos livros, assistir muitos filmes. E conseguir vencer as batalhas , até a final!
Para informação, o filme chama-se “45” com Charlotte Ramplay e Tom Courtenay.  














sexta-feira, 2 de setembro de 2016


Há anos, escrevi um texto intitulado " CITOYENS, CAMARADAS, E COMPANHEIROS" . Meu companheiro de então sugeriu-me de publicá-lo no PORTAL DEFESA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA. Perdi-o no meu blog, o que lamento muito. Convido-os de lerem, pois foi um dos meus melhores trabalhos.
Não consegui passá-lo para meu blog .
Basta clicar o link abaixo.



http://www.ecsbdefesa.com.br/fts/Citoyens.pdf

sábado, 30 de abril de 2016

Saint-Just, o Anjo Exterminador

Quando meu pai foi estudar na França, eu tinha dez anos. Mas apesar de haver sido uma oportunidade extraordinária, foi a princípio muito difícil. É duro para uma criança abandonar os amigos, o colégio, a bicicleta. Além de hábitos alimentares tão diferentes! Mas, acima de tudo, aquele mundo, cuja língua eu não entendia, me parecia hostil. Mas sempre fui muito adaptável, e alugado o apartamento e começando meu contato com crianças francesas, tudo voltou ao normal. E voltei a ser como antes. E sempre agradecerei a meu pai a oportunidade impar de entrar, ainda tão jovem, em contato com outra cultura. Felippe era um homem cultivado, professor no Instituto Militar de Engenharia e fez questão de que esta oportunidade fosse definitiva em minha vida.
Foi visitando o Louvre que me apaixonei pela Antiguidade e, durante muitos anos, sonhei em ser arqueóloga. Sonho que, infelizmente, não pude realizar. Visitei Versalhes várias vezes, percorri seus salões, desci e subi suas escadarias suntuosas. Muitos anos mais tarde, já adulta, fiz um curso sobre o palácio e descobri espaços recônditos, e desconhecidos dos visitantes, como o pequeno teatro de Maria Antonieta, todo decorado em “papier mâché”, aquela mistura de papel, água e cola com que se faziam bebês. Júlio, um esses bebês, o preferido de minha irmã, Teresa, foi motivo de nossa primeira briga, quando, ainda bem pequena, arranquei sua cabeça. Queria me bater, mas minha mãe não deixou e acho que lhe comprou outro. Pois o pequenino teatro, primor de bom gosto rococó, era o espaço onde a Rainha ensaiava textos com alguns cortesãos e cortesãs. Contava a professora que por vezes o Rei Luís XVI ia vê-la ensaiar. Depois, voltei algumas vezes, mas nunca mais consegui reencontrá-lo.
Visitei a Conciergerie, onde a Rainha, passou seus últimos dias, depois dos meses passados na prisão do Templo. Foi da prisão do Templo, antigo monastério Templário, já destruído, que Luís XVI, agora Luís Capet, devido à sua dinastia, foi levado à guilhotina. Algum tempo depois, seqüestraram o filho da “viúva Capet”, que, apesar de suas súplicas, foi entregue a um “citoyen” sapateiro, e que ela nunca mais voltou a ver. Maria Antonieta, como diz Stefan Zweig na sua biografia, era uma mulher comum, sem nada que a distinguisse de milhões de outros seres humanos. Diz ele : “ O trágico não resulta somente dos traços extraordinários de um ser....mas da desproporção existente entre um homem e seu destino. Manifesta-se quando um ser superior, um herói, um gênio , entra em conflito com o mundo que o rodeia, demais hostil, demais estreito para a tarefa que o mundo o destinou, como Napoleão sufocando no minúsculo quadrado de Santa-Helena ou Beethoven aprisionado em sua surdez......Mas o trágico existe também quando uma natureza mediana, e mesmo fraca, é ligada a um destino extraordinário” Sem a Revolução esta princesa insignificante teria vivido e morrido dentro dos mesmos padrões de tantas outras que a antecederam! Como rainha teria homenagens especiais em sua morte, e não seria mais do que uma lápide, já meio apagada, como tantas “Marie-Adelaïde e Adelaïde-Marie, as Anna-Cathérine e Cathérine-Anna” Maria-Antonieta é um dos mais belos exemplos deste heroísmo involuntário”
Estes tempos de minha infância, me levaram a este mundo, e me disseram que a rainha era tão somente uma mártir. Li sua biografia de um membro da Academia Francesa,  Pierre de Nolhac, e chorei. Mais recentemente, além de Stefan Zweig, li uma biografia de Simone Bertière , onde é mostrado o papel que lhe havia destinado sua mãe, Maria Teresa da Áustria, e que não cumpriu e, aliás, nem se interessou. Hoje, levo dela uma imagem bem mais realista, ainda que me comova o que conta Zweig, quase ao final do livro ”A multidão é dispersa. Leva-se em uma carroça o corpo da supliciada, a cabeça entre as pernas. Alguns guardas vigiam a guilhotina. Mas ninguém se preocupa com o sangue que lentamente penetra na terra, o lugar está novamente deserto.”
Nos meus tempos de juventude, vivendo sob uma ditadura, tudo me parecia diferente. Amei os “citoyens”, os “camaradas” e os “companheiros”. Sobre este tema, aliás, escrevi um texto que Ricardo, meu companheiro na época, publicou num blog que tinha na Universidade, e que desde então sumiu do meu, onde publiquei primeiramente. Hoje, já com muitos e muitos anos vividos, não tenho mais paixões e procuro usar a razão para viver.
Mas, afinal, a razão do texto não é Maria Antonieta, nem eu. Quero falar de uma figura que empolgou minha juventude revolucionária: Saint-Just. Releio “Souvenirs pieux” de  Marguerite Youcenar, escritora franco-belga. É uma auto-biografia onde ela faz uma bela retrospectiva de sua existência, desde a gravidez da mãe, Fernande, morta logo após o parto. Penetra fundo no seu passado e de sua família. Vai a tempos medievais e volta à sua juventude. Perde-se nas brumas do passado e fala de si mesma. Falando de sua juventude, diz ela “Como muitos franceses e francesas de minha geração, tive, ainda bem jovem um culto por Saint-Just. Passei muitos momentos no Museu Carnavalet ( museu da cidade de Paris), contemplando o retrato do Anjo Exterminador.....” O Anjo Exterminador é Louis-Antoine-Léon de Saint-Just. E continua, “Este belo rosto enquadrado de cachos flutuantes, este pescoço feminino, envolvido como que pudicamente numa echarpe de fino tecido eram elementos importantes na minha admiração pelo violento amigo de Robespierre. Mais tarde, mudei: a admiração cedeu lugar a uma trágica piedade por este homem consumido antes de chegar realizar-se.” Ao ler o que diz de Saint-Just, chamou-me especialmente a atenção o que me disse alguma vez, ou várias, meu pai acerca de sua admiração de juventude pelo mesmo herói. E o fato de ambos haverem nascido no mesmo ano, 1903. O que levaria aquelas duas pessoas, separadas pela distância e pela cultura, a partilhar a mesma admiração? A mim parece que foram os ideais de liberdade, ainda que Saint-Just tenha ido ao extremo do Terror. Para meu pai, como muitos militares de sua geração, seduzido na juventude pelos ideais comunistas, e, ainda que desiludido devido às barbáries stalinistas, mas para sempre ligado à esquerda, era esse idealismo sem limites que o levava a esta admiração. Meu pai, que apesar de suas idéias, chegou ao ponto mais alto de sua carreira, graças, à sua inteligência.
No processo do rei, os argumentos secos e ásperos de Saint-Just muito influíram na condenação do rei. E diz Marguerite Youcenar : “....ele empurra para o cesto a cabeça dos Girondinos (burgueses ricos que se empenhavam por uma monarquia parlamentar, como a inglesa), as dos Dantonistas ( ou Indulgents que queriam o fim do Terror) , as dos Hébertistas”  , liderados por Jacques Hébert, facção ultra-revolucionária jacobina. Também seu amigo de anos passados, Camille Desmoulins, extraordinário panfletista, do grupo dos Indulgentes. E mais trágico, no dia seguinte às execuções de Hébert -25 de março de 1794,  e de Camille Desmoulins – 5 de abril de 1794,  suas viúvas foram igualmente guilhotinadas, acusadas de complô contra o governo. Durante o processo de Maria Antonieta, agora denominada “veuve Capet”, o execrável Hébert, que não sei se fazia parte dos jurados, lançou-lhe a terrível blasfêmia de que mantinha relações sexuais com o filho, ao que a “veuve Capet” retrucou indignada a célebre frase : “J´en appelle à toutes les mères de France!” ( Peço justiça a todas as mães de França). Terrível blasfêmia, proferida por um demente, contra uma mulher sem armas de defesa, que deixou revoltados mesmos os mais empedernidos revolucionários. Pois após um jantar, ainda durante o processo, relembrando esta e outras nojentas acusações dirigidas a ela, diz Saint–Just, sem escrúpulos: “... servirão para melhorar a moral pública”. Para fundar esta sociedade ideal, dizia  um amigo, estaria pronto a “sacrificar cem mil cabeças, incluindo a sua.” Este homem, obcecado por uma idéia, levou a tal ponto seu ideal que acabou por matá-lo.
Mas todos já estavam saturados do Terror, e assim, num súbito ataque, deputados moderados golpearam de morte o temido “Comitê de Salut Public”, chefiado por Robespierre. Invadida a sala onde estavam, tiros foram disparados atingindo o rosto de Robespierre que teve o maxilar quebrado. Deitado sobre a mesa onde tantas mortes haviam sido decididas, o “Incorruptível” gemia de dor. O sangue jorrava e vários dentes foram arrancados aos pedaços. Um dos membros, Philippe Le Bas, suicida-se, Couthon,  paralítico tenta esconder-se, mas não consegue. Seguem-se trinta e seis horas de agonia. Afinal, sem julgamento, somente confirmando seus nomes, foram conduzidos à guilhotina.” Aos vinte e seis anos, elegante, apesar de trinta e seis horas de agonia, impecável no seu fraque e suas calças cinza claro, mas sinistramente despojado de suas longas mechas e suas argolas, o belo pescoço desnudo, despojado do fino lenço branco, ele espera estoicamente sua vez na guilhotina, entre Couthon, o paralítico, e seu herói  da mandíbula quebrada, Robespierre. “
Danton tinha a seu lado todo grande capital internacional, que reagiria. Banqueiros foram decapitados, numa espiral de loucura, mas a vingança viria célere. Pela “force de choses”, este elemento mais forte do que a razão, Robespierre, ao sentenciar à morte Danton, sabia que assinava sua própria sentença. E como é dito no filme “Danton” de Andrzej Wajda, ele previu ao passar pelo prédio onde morava Robespierre, a caminho do cadafalso: “Dans trois mois, tu me suivras, et ton corps pourrira à côté du mien.”
  


Saint-Just, O Anjo Exterminador

Quando meu pai foi estudar na França, eu tinha dez anos. Mas apesar de haver sido uma oportunidade extraordinária, foi a princípio muito difícil. É duro para uma criança abandonar os amigos, o colégio, a bicicleta. Além de hábitos alimentares tão diferentes! Mas, acima de tudo, aquele mundo, cuja língua eu não entendia, me parecia hostil. Mas sempre fui muito adaptável, e alugado o apartamento e começando meu contato com crianças francesas, tudo voltou ao normal. E voltei a ser como antes. E sempre agradecerei a meu pai a oportunidade impar de entrar, ainda tão jovem, em contato com outra cultura. Felippe era um homem cultivado, professor no Instituto Militar de Engenharia e fez questão de que esta oportunidade fosse definitiva em minha vida.
Foi visitando o Louvre que me apaixonei pela Antiguidade e, durante muitos anos, sonhei em ser arqueóloga. Sonho que, infelizmente, não pude realizar. Visitei Versalhes várias vezes, percorri seus salões, desci e subi suas escadarias suntuosas. Muitos anos mais tarde, já adulta, fiz um curso sobre o palácio e descobri espaços recônditos, e desconhecidos dos visitantes, como o pequeno teatro de Maria Antonieta, todo decorado em “papier mâché”, aquela mistura de papel, água e cola com que se faziam bebês. Júlio, um esses bebês, o preferido de minha irmã, Teresa, foi motivo de nossa primeira briga, quando, ainda bem pequena, arranquei sua cabeça. Queria me bater, mas minha mãe não deixou e acho que lhe comprou outro. Pois o pequenino teatro, primor de bom gosto rococó, era o espaço onde a Rainha ensaiava textos com alguns cortesãos e cortesãs. Contava a professora que por vezes o Rei Luís XVI ia vê-la ensaiar. Depois, voltei algumas vezes, mas nunca mais consegui reencontrá-lo.
Visitei a Conciergerie, onde a Rainha, passou seus últimos dias, depois dos meses passados na prisão do Templo. Foi da prisão do Templo, antigo monastério Templário, já destruído, que Luís XVI, agora Luís Capet, devido à sua dinastia, foi levado à guilhotina. Algum tempo depois, seqüestraram o filho da “viúva Capet”, que, apesar de suas súplicas, foi entregue a um “citoyen” sapateiro, e que ela nunca mais voltou a ver. Maria Antonieta, como diz Stefan Zweig na sua biografia, era uma mulher comum, sem nada que a distinguisse de milhões de outros seres humanos. Diz ele : “ O trágico não resulta somente dos traços extraordinários de um ser....mas da desproporção existente entre um homem e seu destino. Manifesta-se quando um ser superior, um herói, um gênio , entra em conflito com o mundo que o rodeia, demais hostil, demais estreito para a tarefa que o mundo o destinou, como Napoleão sufocando no minúsculo quadrado de Santa-Helena ou Beethoven aprisionado em sua surdez......Mas o trágico existe também quando uma natureza mediana, e mesmo fraca, é ligada a um destino extraordinário” Sem a Revolução esta princesa insignificante teria vivido e morrido dentro dos mesmos padrões de tantas outras que a antecederam! Como rainha teria homenagens especiais em sua morte, e não seria mais do que uma lápide, já meio apagada, como tantas “Marie-Adelaïde e Adelaïde-Marie, as Anna-Cathérine e Cathérine-Anna” ...Maria-Antonieta é um dos mais belos exemplos deste heroísmo involuntário”
Estes tempos de minha infância, me levaram a este mundo, e me disseram que a rainha era tão somente uma mártir. Li sua biografia de um membro da Academia Francesa,  Pierre de Nolhac, e chorei. Mais recentemente, além de Stefan Zweig, li uma biografia de Simone Bertière , onde é mostrado o papel que lhe havia destinado sua mãe, Maria Teresa da Áustria, e que não cumpriu e, aliás, nem se interessou. Hoje, levo dela uma imagem bem mais realista, ainda que me comova o que conta Zweig, quase ao final do livro ”A multidão é dispersa. Leva-se em uma carroça o corpo da supliciada, a cabeça entre as pernas. Alguns guardas vigiam a guilhotina. Mas ninguém se preocupa com o sangue que lentamente penetra na terra, o lugar está novamente deserto.”
Nos meus tempos de juventude, vivendo sob uma ditadura, tudo me parecia diferente. Amei os “citoyens”, os “camaradas” e os “companheiros”. Sobre este tema, aliás, escrevi um texto que Ricardo, meu companheiro na época, publicou num blog que tinha na Universidade, e que desde então sumiu do meu, onde publiquei primeiramente. Hoje, já com muitos e muitos anos vividos, não tenho mais paixões e procuro usar a razão para viver.
Mas, afinal, a razão do texto não é Maria Antonieta, nem eu. Quero falar de uma figura que empolgou minha juventude revolucionária: Saint-Just. Releio “Souvenirs pieux” de  Marguerite Youcenar, escritora franco-belga. É uma auto-biografia onde ela faz uma bela retrospectiva de sua existência, desde a gravidez da mãe, Fernande, morta logo após o parto. Penetra fundo no seu passado e de sua família. Vai a tempos medievais e volta à sua juventude. Perde-se nas brumas do passado e fala de si mesma. Falando de sua juventude, diz ela “Como muitos franceses e francesas de minha geração, tive, ainda bem jovem um culto por Saint-Just. Passei muitos momentos no Museu Carnavalet ( museu da cidade de Paris), contemplando o retrato do Anjo Exterminador.....” O Anjo Exterminador é Louis-Antoine-Léon de Saint-Just. E continua, “Este belo rosto enquadrado de cachos flutuantes, este pescoço feminino, envolvido como que pudicamente numa echarpe de fino tecido eram elementos importantes na minha admiração pelo violento amigo de Robespierre. Mais tarde, mudei: a admiração cedeu lugar a uma trágica piedade por este homem consumido antes de chegar realizar-se.” Ao ler o que diz de Saint-Just, chamou-me especialmente a atenção o que me disse alguma vez, ou várias, meu pai acerca de sua admiração de juventude pelo mesmo herói. E o fato de ambos haverem nascido no mesmo ano, 1903. O que levaria aquelas duas pessoas, separadas pela distância e pela cultura, a partilhar a mesma admiração? A mim parece que foram os ideais de liberdade, ainda que Saint-Just tenha ido ao extremo do Terror. Para meu pai, como muitos militares de sua geração, seduzido na juventude pelos ideais comunistas, e, ainda que desiludido devido às barbáries stalinistas, mas para sempre ligado à esquerda, era esse idealismo sem limites que o levava a esta admiração. Meu pai, que apesar de suas idéias, chegou ao ponto mais alto de sua carreira, graças, à sua inteligência.
No processo do rei, os argumentos secos e ásperos de Saint-Just muito influíram na condenação do rei. E diz Marguerite Youcenar : “....ele empurra para o cesto a cabeça dos Girondinos (burgueses ricos que se empenhavam por uma monarquia parlamentar, como a inglesa), as dos Dantonistas ( ou Indulgents que queriam o fim do Terror) , as dos Hébertistas”  , liderados por Jacques Hébert, facção ultra-revolucionária jacobina. Também seu amigo de anos passados, Camille Desmoulins, extraordinário panfletista, do grupo dos Indulgentes. E mais trágico, no dia seguinte às execuções de Hébert -25 de março de 1794,  e de Camille Desmoulins – 5 de abril de 1794,  suas viúvas foram igualmente guilhotinadas, acusadas de complô contra o governo. Durante o processo de Maria Antonieta, agora denominada “veuve Capet”, o execrável Hébert, que não sei se fazia parte dos jurados, lançou-lhe a terrível blasfêmia de que mantinha relações sexuais com o filho, ao que a “veuve Capet” retrucou indignada a célebre frase : “J´en appelle à toutes les mères de France!” ( Peço justiça a todas as mães de França). Terrível blasfêmia, proferida por um demente, contra uma mulher sem armas de defesa, que deixou revoltados mesmos os mais empedernidos revolucionários. Pois após um jantar, ainda durante o processo, relembrando esta e outras nojentas acusações dirigidas a ela, diz Saint–Just, sem escrúpulos: “... servirão para melhorar a moral pública”. Para fundar esta sociedade ideal, dizia a um amigo, estaria pronto a “sacrificar cem mil cabeças, incluindo a sua.” Este homem, obcecado por uma idéia, levou a tal ponto seu ideal que acabou por matá-lo.
Mas todos já estavam saturados do Terror, e assim, num súbito ataque, deputados moderados golpearam de morte o temido “Comitê de Salut Public”, chefiado por Robespierre. Invadida a sala onde estavam, tiros foram disparados atingindo o rosto de Robespierre que teve o maxilar quebrado. Deitado sobre a mesa onde tantas mortes haviam sido decididas, o “Incorruptível” gemia de dor. O sangue jorrava e vários dentes foram arrancados aos pedaços. Um dos membros, Philippe Le Bas, suicida-se, Couthon,  paralítico tenta esconder-se, mas não consegue. Seguem-se trinta e seis horas de agonia. Afinal, sem julgamento, somente confirmando seu nome, foram conduzidos à guilhotina.” Aos vinte e seis anos, elegante, apesar de trinta e seis horas de agonia, impecável no seu fraque e suas calças cinza claro, mas sinistramente despojado de suas longas mechas e suas argolas, o belo pescoço desnudo, despojado do fino lenço branco, ele espera estoicamente sua vez na guilhotina, entre Couthon, o paralítico, e seu herói  da mandíbula quebrada, Robespierre. “
Danton tinha a seu lado todo grande capital internacional, que reagiria. Banqueiros foram decapitados, numa espiral de loucura, mas a vingança viria célere. Pela “force de choses”, este elemento mais forte do que a razão, Robespierre, ao sentenciar à morte Danton, sabia que assinava sua própria sentença. E como é dito no filme “Danton” de Andrzej Wajda, ele previu ao passar pelo prédio onde morava Robespierre, a caminho do cadafalso: “Dans trois mois, tu me suivras, et ton corps pourrira à côté du mien.”