QUEM SOU EU

Sou professora de Francês, mas hoje minha principal atividade é escrever e ler, além de cuidar dos meus três vira-latas: Charmoso, Príncipe e Luther.



Gosto de fazer ginástica, sou vegetariana e adoro animais em geral, menos baratas.



Sinto especial prazer quando meus textos agradam aos meus leitores. Espero continuar produzindo e me comunicando com todos os meus amigos, neste maravilhoso universo da net.



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segunda-feira, 16 de outubro de 2023

SVETLA HANTOVA, UN E VIE.

1989, bicentenário da Revolução Francesa. E também comemoração da Inconfidência Mineira.
Estávamos em Belo Horizonte. A Primeira Dama Francesa, Danielle Mitterand, havia vindo. No Palácio  das Artes, ela e a Deputada Benedita da Silva, representante da mulher brasileira, faziam uma palestra. Eu havia ganhado uma bolsa para França, por haver criado um grupo de teatro em francês. E neste caso, haviamos até escrito o texto, o quê pareceu ao Adido Cultural extremamente original.  Consegui alojamento para todos meus "atores" e , se não me  engano, igualmente alimentação . E tenho imenso orgulho de  dizer que ali formei muita gente, que , posteriormente, se tornou profissional, como minha querida Cristina , que , passando em concurso do Exército  , e prosseguindo com Mestrado e Doutorado, formou oficiais que iam estudar em países de língua francesa , e é hoje oficial das Forças Armadas.  
Havia a greve do ano, como havia o Carnaval. Mas esta era uma bolsa especial, e eu não ia perdê-la  por causa de alguns malucos que achavam que conseguiriam derrubar o Governo, que neste  tempo já era Sarney. Dei aula em casa, escondida na Universidade, na casa  de alunos, e , finalmente, consegui completar  o calendário. Era uma bolsa especial, com direito a passagem pela AIR FRANCE, estadia em Paris numa casa de estudantes, e passagem para Bretanha, além de considerável soma em dinheiro. Minha mãe estava doente já há alguns anos e tive que fazer  imenso esforço moral para deixá-la. Teresa e Bertrand ficaram responsáveis por ela, além de um batalhão de acompanhantes. Escrevi a cores o nome dos remédios e para cada horário sublinhava com cores diferentes. Mandei plastificar , e minha irmã andava com ele sempre na bolsa, apreensiva de que pudesse haver se enganado. Bertrand vinha todas as noites tentar dormir. 
Quando saí do Brasil , já estava enfraquecida, minha garganta doía, e estava muito magra. Mas minha satisfação por haver conseguido a bolsa, e com um projeto tão original,  me devolvia as forças. A chegada em Paris foi terrível, minha mala, que na confusão da saída, eu havia esquecido de renovar, abriu e vi tudo derramado em pleno aeroporto Charles de Gaule. Eu havia passado a noite  com febre, e não consegui lugar dentre os não fumantes. Hoje, é proibido para todos passageiros.  Argentinos, sentados a meu lado, fumavam sem parar , apesar de meus reiterados pedidos . Aliás, meu sangue gaúcho sempre detestou  "los hermanos".  Afinal, me arrastando, consegui chegar a uma  "navette " , que me conduziu até Porte D'Orléans ( hoje conduz até a Opéra). Fazia um calor infernal ,  eu desci , arrastando minha mala , tentando pegar um taxi. Mas era próximo a 14 de julho , e o mundo havia descido em Paris. Exausta, sentei-me no meio fio e resolvi esperar por um milagre. Não sei quanto tempo depois ele aconteceu. Entrei , e um chofer gentil levou  sob minha recomendação , a mala ao carro.
Mas Paris é realmente uma cidade especial. Depois de esperar não sei quanto tempo, numa espécie de agência, me foi informado o endereço da rua Jean Calvin. O interessante é que nem o chofer conhecia este endereço. Fomos de um lado a outro da Rue Mouffetard , voltamos, e chegamos à conclusão de que esta rua não devia existir. Sinceramente, não sei como descobrimos que era uma rua dentro de um grande portal , como se fosse num prédio. Ou seja, uma rua dentro de uma prédio. Exausta, quase beijei o chofer . E entrei. deram-me uma chave , e eu deveria subir 5 andares, o quê é comum em Paris. Olhei para cima e tive a impressão de ver o Himalaia. Mas era preciso subir. Arrastei-me até lá e sentei exausta. E , de repente, ....lá se foi a chave. Sinceramente, não sei como, mas fui buscá-la. Fiquei com uma marroquina que estava fazendo o Doutorado , não me lembro em quê , em Paris. Quarto singular . No meio, havia uma pia enorme, que devia servir também para se lavar. Conheço bem os franceses. Mas eu queria tomar um banho , me refrescar, deixar a água cair sobre todo meu corpo, minha cabeça, que latejava. Peguei minha toalha e me dirigi para onde me indicaram estar o banheiro. havia uma fila, com muitos orientais . Olhei o quê devia ser o banheiro. Quem conhece Ouro Preto ou qualquer cidade histórica, já deve ter visto aqueles nichos, onde , no fundo se aloja um Santo. Naquele caso , os santos eram substituídos por pessoas, que se escondiam atras de cortinas se plástico , já meio sujas e  rasgadas. Quando chegou minha vez, subi aquele penosamente aquele  cadafalso ,  e tomei um banho , que me pareceu maravilhoso. Enrolada na toalha voltei para quarto. E abri a mala.
DESASTRE!!!Tudo despencou e caiu sobre papéis de minha companheira. Só ouvi " Mon Dieu"!!!!Tentei me desculpar e apanhar tudo, mas as coisas se misturavam. Fiquei meio embrutecida. A mulher me arrancava das mãos o quê era seu , papeis , provavelmente de sua Tese. Parei de pedir "pardon" e fiquei prostada em cima da cama, nua, o quê deve ter sido pior ainda para uma muçulmana. Depois , .....não me lembro. Só sei que não a deixei dormir, tossindo a noite inteira. Pela manhã , devo ter comido alguma coisa, mas estava atrasada. Tomei um taxi, que uma garota me indicou e arrastando minha mala , corri até a estação, não me lembro qual. Tomei o trem. todo meu corpo tremia, Até que me sentei. O resto conto depois. 

   

 
 

segunda-feira, 2 de maio de 2022


SIMPLESMENTE MULHERES 



Em lembrança a meu inesquecível amigo Sílvio


Foi há muito tempo. Eu havia me afastado das aulas de francês por divergências com uma de minha colegas, que por ser a mais velha, liderava as demais. Eu havia acabado do chegar de meu pós-Graduação e Margarida Salomão queria fazer seu doutorado nos Estados Unidos. O Departamento de Letras Estrangeiras não queria dar-lhe licença e eu queria me afastar algum tempo da equipe de francês. Assim, eu resolvia meu problema e Margarida o seu.
Quando voltei ao curso de francês, fiquei pasma. Usava-se quadro de feltro , coisa do tempo de meu avô , e o método era totalmente ultrapassado. Resolvi, sem perguntar a ninguém, que daria um jeito. Fui Consulado Francês, onde consegui um novo método, áudio-visual , que se havia introduzido na época. Consegui que uma livraria da cidade comprasse exemplares . Com a ajuda de minha colega, Margarida, bolamos cartazes, que a editora da Universidade publicou. Meu monitor, que eu havia escolhido, já que não me lembro de haver tido monitor antes, Boni Iavo, marfinês, de língua francesa, me ajudou a distribuir pela Universidade. E a afluência foi enorme, maior do que esperávamos. Se houve resistência ? É claro! Uma de minhas colegas , totalmente dominada pela mais velha veio com certas argumentações, que desconheci. 
E o curso deslanchou, com melhor reputação do que outro de qualquer língua. Criei um teatro em francês, que um amigo e meu cunhado José Carlos me ajudaram a ensaiar. Ludmila escolheu ao acaso um nome , Gavroche, o moleque de rua, de "Os Miseráveis" de Victor Hugo ,que morre na Revolução de 1830. Logo depois, uma de minhas colegas criou um coral de músicas francesas , que persiste , e com o mesmo nome "Chorale Gavroche" . Com a equipe de francês e a de inglês, criamos o CELEM (Centro de Línguas Estrangeiras Modernas) e a cada semana apresentávamos uma exposição diferente. Lembro-me de uma que fiz , e que  obteve grande sucesso, sobre o Impressionismo, e minha amiga , Walquíria,  sobre o poeta Rimbaud. 
A peça, que apresentei no SEDIFRALE ( e nem me lembro mais o quê significava ) na comemoração do bi-centenário da Revolução Francesa e da Inconfidência  Mineira, a que estava presente a então Primeira-Dama da França , Michelle Mitterand, me rendeu uma  bolsa na Bretanha , onde conheci meus amigos búlgaros.  Meus " atores" dentre os quais estava Ludmila , ficaram em um hotel que alugou o Consulado da França. Enfim, aquela reacionária , que gostaria de uma Universidade sem alunos , aposentou-se. E ficamos livres de seus problemas.
Formamos muitos bilingues, como o Deputado Júlio Delgado, que se gaba de ser tradutor quando acompanha  ( ou acompanhava) um
grupo de parlamentares a países de língua francesa. Formamos uma grande amiga Cristina , que chamo de "minha menininha", hoje militar , que passou 1 ano na França , e  esteve no Haiti, minha sobrinha Ludmila, que ganhou uma bolsa na França por haver encantado com sua beleza o Adido Cultural,  que tinha em vista  um novo projeto de ensino de francês. O projeto não deu certo por ser o colégio escolhido excessivamente liberal e,  em decorrência,  tendo havido problemas de disciplina. Hoje, ela dá aulas de francês em Caxambu. E formamos Sílvio e seu namorado Sebastião. Tive uma aluna que morou na França , como Jeune-au pair, estudando e cuidando de crianças. 
Mas de todos eles , os que ficaram para sempre meus amigos íntimos foram Silvio e seu namorado , Sebastião, que , carinhosamente , chamávamos de Sebá. Silvio esteve presente nos momentos trágicos e infinitamente felizes de minha vida. Assim como Sebastião. Quando meu pai, altamente cardiopata, tinha crises e precisava tomar choques, ele muitas vezes me acompanhou. Durante os seis longos anos de agonia de minha mãe, ele esteve sempre a meu lado. Vinha lanchar comigo, conversar. E quando meu irmão morreu. E durante a doença de minha irmã! Vinha lanchar em sua casa todas as semanas. E quando meu cunhado se foi, lá estava ele. Finalmente, quando me tornei a remanescente foi com ele que me abracei e choramos juntos. Muito! Era minha única irmã! 
Mas também esteve  presente nos momentos de intensa alegria. Nos aniversários , nas festas de fim-de-ano que Teresa organizava em uma casa que ficou para Alice , no Condomínio Tiguera. Ele, seus pais e Sebastião. Na festa de celebração de Bodas de Ouro de seus pais , entrei na Igreja com Sebastião. Minha irmã já havia partido.
Por tudo isto, quando soube de sua morte, por intermédio de uma amiga, comecei a chorar convulsivamente e a rezar. Então era esta a razão de seu silêncio diante de minhas mensagens no Whatzapp? O quê lhe trazia tamanho sofrimento que, querendo escapar, resolveu colocar fim à própria vida? 
Minha dor foi incomensurável! E hoje , passados meses, ainda sinto uma opressão no peito. Os outros morreram no momento que Deus determinou. Em que seus cartões de validade tiveram fim. Mas ele o precipitou! Todas as noites oro por sua alma. Assim como oro por todos que já fizeram a passagem. Oro, porque acredito na bondade de Deus , porque sei que Ele é justo.

domingo, 19 de maio de 2019

Douce France


Saudades de um tempo que não volta mais! Meus dez anos! Um dia, meu pai chegou em casa e disse rindo para minha mãe : “ Alice, vamos para a França!” Não me lembro do que pensei na hora, mas depois refleti que deveria deixar no Brasil meus amiguinhos, minha bicicleta, minhas brincadeiras de criança. Partia para um país desconhecido, diferente, cuja língua eu nem sequer balbuciava. Para mim, e acho que para toda a família, esta era uma mudança total. Tiramos os passaportes, meu pai tratou com amigos o que deixaria aqui, arrumamos as malas e fomos embora.
 E depois de uma longa viagem de avião, pela extinta Panair, com escalas em Recife e Dakar, onde senti, ao descer as escadas do avião, um calor que parecia derreter minhas pernas, chegamos a Paris, onde outros militares, em estudos, nos esperavam com as famílias. Eu me sentia estranha! Não conhecia ninguém! Não me lembro do que se passou depois, mas, de repente, eu estava lá, tão longe do Brasil!
Lembro-me de nosso primeiro dia em Paris, com meu pai, minha mãe e minha irmã, que já tinha 21 anos. Meu irmão havia ficado no Rio, e deveria chegar logo depois. Na cidade desconhecida, eu via as pessoas passarem falando aquela língua estranha. Tudo me parecia estranho! Uma menina, mais ou menos de minha idade, passou por nós conversando com uma mulher que devia ser sua mãe. Depois fomos jantar em um restaurante bonito, não sei onde, e meu pai, que já falava bastante bem o francês, fez o pedido de bife com batatas fritas e certo molho, que achei delicioso. Depois, fomos para um hotel que os outros militares brasileiros haviam reservado para nós. Lá o que eu mais gostava era do delicioso café da manhã, que nos serviam no apartamento. Pela primeira vez, comi um croissant! E a geléia! A manteiga que vinha como uma conchinha! Ainda hoje, tantos anos transcorridos, sinto o odor do hotel, do café da manhã, do shampoo em travesseiro que minha mãe comprava no Prisunic , bem perto do hotel. Uma noite, meu pai havia saído, e minha mãe meu deu algum dinheiro (tarefa complicada) para comprar sanduíche de patê numa “charcuterie” ao lado do hotel. Foi alguns dias depois de nossa chegada e eu não falava nada de francês. Tentei me fazer entender, mas foi difícil. Acharam-me engraçadinha, afagaram o meu rosto, e me disseram “mignonne”, “italienne”. Por fim, consegui mostrar o que queria e fui embora feliz com meu sanduíche. Aliás, sempre nos consideraram italianos, e lembro-me de um francês que nos viu e disse raivosamente: “Ces italiens!”
Logo depois começou nossa peregrinação por um lugar para alugar. Não me lembro bem do quanto percorremos, mas um ficou para sempre marcado em minha memória; uma linda casa em Ménilmontant. Lá nasceu o grande chansonnier, Charles Trenet, que ofereceu ao lugar a sempre lembrada “Ménilmontant”, e também a inesquecível Edith Piaf. Naquele tempo, este “quartier” era um lugar quase bucólico, com sua igrejinha, suas velhas casas e prédios bem diferentes dos que havia perto do hotel.  Uma tarde, fomos ver uma casa para alugar, que meu pai havia descoberto. A proprietária era uma senhora bem idosa, cabelos branquinhos, penteados em um coque. A casa pareceu-me deliciosa. As paredes eram recobertas de papel florido e numa sala principal havia seda estampada com rosas, se não me engano. Ainda posso sentir o contato de minhas mãos com a seda. Havia um piano, e me imaginei tocando, fingindo que sabia, como fiz mais tarde na casa de uma amiguinha, filha de outro militar. Torci para que meu pai alugasse, mas, afinal, minha torcida não deu certo e fomos morar na Avenue Mac-Mahon, uma das doze avenidas da Place de l´Étoile, hoje Place Charles de Gaule, um lugar bem mais “burguês”. Nosso prédio, soube em uma de minhas viagens à França, foi construído em 1896, ou seja,  em plena era do Art Nouveau, apesar de obedecer aos padrões haussemanianos (de Haussemann, o grande urbanista que transformou o Paris medieval quase no que é hoje). No prédio, não me lembro de haver franceses. No primeiro andar morava Monsieur Félix Houfouet Boigny, deputado da France d`Outre Mer, ou seja, de uma das colônias na África. Depois da independência, foi eterno Presidente da Costa do Marfim. No hall de seu apartamento havia chifres de elefante, indicando sua origem africana. Havia festas constantemente, e negros chegavam com mulheres louras, o que surpreendia minha mãe. Como poderia ela imaginar que, muitos anos mais tarde, eu namoraria um marfinês?
 No segundo, acho que vivia uma família francesa, mas nunca os vi. No terceiro havia uma família vinda do Ceilão, atual Sri Lanka. As mulheres usavam o célebre sari, e tinham no meio da testa um objeto que descobri chamar-se “bindi”. Nunca vi nenhum homem. Mulheres silenciosas que abaixavam a cabeça quando eu as encontrava nas escadas. No quarto andar, morava uma chilena. Conversou comigo uma vez. Também jamais vi sua família e sempre supus que morasse só. No quinto andar, éramos nós e, no sexto, outra família de militar brasileiro, Dirceu Nogueira, que foi ministro no governo Geisel.
O apartamento ocupava todo o andar, enorme, com uma sala de jantar, seguida de uma sala de leitura, e um grande salão redondo com móveis no estilo Luís XV. Havia lareiras de mármore com espelhos que iam até o texto. Tudo adornado com sancas, florões e lustres de cristal. À direita do hall de entrada, havia um painel de vidro com flores bem ao estilo Art-Nouveau. Arte que prevaleceu pelo mundo ocidental de 1890 a 1920. Toda aquela antiguidade dava-me medo e sempre imaginava que os fantasmas dos que ali moraram me seguiam. O elevador hidráulico era da época da construção. Só subia e tínhamos que descer pelas escadas. Quando subia, um longo tubo emergia do solo. O elevador era todo espelhado e havia uma corda grossa que devia ser puxada. Conforme a força que se usava, ia mais lento ou mais “rápido”.
Em 1981, eu estava em Versailles, fazendo um curso sobre o palácio, e indo um dia a Paris, resolvi fazer uma visita ao prédio. As portas estavam sempre fechadas e toda comunicação era feita por interfone. Sem ter para quem interfonar, fiquei à espreita. Quando a porta se abriu para passagem de alguém, cumprimentei-o e entrei. E voltei no tempo. A única coisa que havia mudado era o elevador, substituído por outro, moderno e sem graça. Bati na “loge” do concierge e conversei bastante com ele. Fiquei sabendo que no prédio não havia mais famílias. Ficaria muito caro. “Nosso” apartamento abrigava uma firma de contabilidade. E havia uma clínica “Kinesthésiste”, uma espécie de fisioterapia. Tirei fotos de tudo, inclusive dele. O velho, a quem eu dera, em lágrimas, François, meu peixinho, pois devia voltar ao Brasil, já havia falecido há anos. Em 94, com minha irmã, voltei ao prédio. Não havia mais concierge, subimos as escadas e batemos na porta do quinto andar. Uma mulher atendeu, expliquei-lhe que havia morado ali quando criança, que éramos brasileiros. Os móveis da sala de jantar haviam desaparecido. Havia movimento de muitas pessoas. Não nos deixou entrar como era de esperar, já que estávamos em Paris. Mas pedi-lhe que me deixasse ver o “panneau” art-nouveau, o que ela permitiu, comentando a sua beleza. Descemos meio decepcionadas, mas, enfim, havíamos conseguido, coisa quase impossível; resgatar um pedacinho do passado.
Assim que chegamos, meu pai inquietou-se; era preciso que se encontrasse alguma escola para mim. Teresa, minha irmã, já havia concluído o secundário, mas eu havia abandonado o primário. A princípio, fui matriculada na mesma escola que a filha do coronel Dirceu, Déa. Durou pouco e meu pai resolveu me colocar num curso para crianças na Aliança Francesa. Ótima idéia! Tinha como colegas crianças de várias nacionalidades: americano, húngaro, chinês, mexicano, coreano. As meninas eram, Rosa, uma espanhola, que estudava balé na “Opéra” e Piabgrum Fuangrabil (?) , tailandesa , de quem me tornei amiga, Fui com Teresa almoçar em sua casa e comemos comida tailandesa. E ela veio à minha casa, para um belo almoço brasileiro, que minha mãe preparou com todo seu talento culinário. Nossa professora, Madame Benoît, escolhia, uma vez por mês, um de nós para falar de seu país. E adorávamos. Faziam perguntas, que nos esforçávamos por responder. Afinal, éramos crianças, ainda pré-adolescentes! Mas todos nós já falavam francês fluente. Como foi provado pelo neurolinguista, Eric Lenneberg, a criança tem mais facilidade de aprender uma língua, sobretudo se interage com outras pessoas, em ambiente natural. E durante toda a estadia de um ano e dez meses, fui  intérprete oficial de minha mãe.
Aos domingos, eu, meu pai, minha mãe e minha irmã íamos passear nos arredores de Paris, ou meu pai me levava aos museus. Meu irmão tinha outros programas. Foi assim que me apaixonei pela Antiguidade e sonhei em ser arqueóloga. Fui a espetáculos inesquecíveis, visitei castelos medievais e percorri salões sombrios, onde, há centenas e centenas de anos, tanta gente viveu. E também outros de outras épocas. Tive a sorte de ter um pai cultivado, e um irmão, também intensamente interessado em cultura.  Lembranças destes velhos tempos me vêm à mente, coisas que havia esquecido, o sanduíche de “jambon”, o “cornet” de fritas, a fila do vinho que minha mãe freqüentava diariamente, e que meu pai, rindo, filmou. A mulher que me achava engraçadinha – “mignonne” – no Prisunic, onde minha mãe me mandava comprar alguma coisa, minha primeira máquina de fotografia, que ainda guardo com carinho, já bem velhinha. Revendo o filme “Ballon Rouge”, revejo a Paris de minha infância, tão diferente da Paris de hoje!  
Tenho em casa muitos filmes 8ml e slides. Depois de intensa busca, consegui um aparelho de projeção de 8ml (já que o antigo só serve de lembrança), e por vezes revejo os velhos filmes. Sinto saudades de minha infância e de todos os que partiram. Foram-se todos! Mas assim é a vida, uns partem e outros chegam. E Paris vai continuar no meu coração, com as castanhas cozidas na brasa de Marius, emigrante grego, a perspectiva do Arco do Triunfo e da Torre Eiffel que eu via da minha sacada, com François nadando feliz em uma das pias do banheiro. Com tudo de bom que só a “insouciance” da infância e uma experiência como esta proporcionam.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018


Os atos da vida
Imagine a vida como o teatro. Neste teatro cada um representa um papel. Escolhemos o que queremos, já que para isto temos o livre arbítrio ou, como diz Sartre, somos condenados à liberdade. E não podemos culpar ninguém por nossas escolhas, elas são nossas e de mais ninguém. Quando crianças, vivemos o primeiro ato, e aí somos preferencialmente coadjuvantes. Mas já começamos a escolher e tentar abrir caminho. No segundo ato, somos adolescentes e nossas escolhas já começam a refletir o que queremos. Na juventude, já nos tornamos adultos. Devemos saber o que queremos e sabemos que nossas escolhas são aquelas que nos permitirão chegar ao terceiro e derradeiro ato. E não há quarto.
Há alguns dias, uma amiga mandou-me uma foto que me remeteu ao passado.  Tirada há mais de cinqüenta ou sessenta anos, mostra, reunidos, na porta principal do colégio onde estudei, velhos rostos. Já havia esquecido aquelas pessoas. Ou pensava que havia esquecido, porque ao revê-las ali, olhando-me fixamente, senti um aperto no coração. Uma saudade.
E assim, comecei a relembrar o meu passado. Minha mais remota lembrança, está fixada em uma foto. Foi num remoto dia de minha vida, em que estava sentava numa espreguiçadeira, numa varanda que havia nos fundos de minha casa, no colo de meu pai. Eu ainda era um bebê. De repente, ele sumiu, vi-me sozinha, e comecei a gritar. Escondido, ele tomou a foto.  Guardo-a até hoje. Quando conto, muitas pessoas não acreditam, mas não me importo. Tenho certeza. Alguns meses depois, eu já andava, cadeiras haviam sido postas numa passagem externa da casa onde nasci, faziam faxina. Peguei a tampa de uma panela corri e, feliz, comecei a bater no assento de uma cadeira.  E há meu aniversário, de quatro anos. Lembro-me de minha  mãe me vestindo e penteando meus cabelos e me dizendo carinhosamente alguma coisa. Lembro e quase revivo este momento.  Tenho duas fotos minhas, neste dia inesquecível, sobre um móvel em minha sala. E o filme, onde apareço brincando com crianças que não sei mais por onde andam, nem se estão vivas. E a festa com um “lindo” bolo feito por minha irmã, Teresa, eu de pé sobre uma cadeira, observando cada uma das crianças antes de assoprar as velinhas. E alguns anos depois, no velho cinema Glória, no colo aconchegante de minha mãe, que não perdia um filme mexicano. Naquele tempo as crianças iam ao cinema à noite, para dormir. E quando minha mãe me ninava, ouvindo as novelas e  contando-me histórias de sua infância. Lembro-me de minha oração, de camisolinha, ajoelhada na cama, recitando com minha mãe – sempre ela- “Com Deus me deito, com Deus me levanto. Com a graça de Deus e do Espírito Santo. Menino Jesus na beira, São José no canto. Que a Virgem Maria me cubra com seu divino manto.” E aí eu desfiava um rosário de nomes queridos : “ Deus abençoe a mamãe, o papai, a vovó, ....” E o dia em que vendo meus irmãos, bem mais velhos do que eu ( Teresa onze anos e Sergio quatorze anos) indo para o colégio, coloquei uma capinha de neném – que se usava naquele tempo – peguei um merendeira velha e fui esperar o ônibus. O mais incrível é que cheguei a subir, sendo salva por uma vizinha que veio correndo e me pegou no colo. Eu devia ter menos  de quatro anos, pois mudei-me desta casa com esta idade.
Já com cinco anos, lembro-me de minha manha, me jogando no chão , quando uma empregadinha não pode comprar pipoca para mim. Chamava-se Lurdes, e morreu logo depois, tísica. Minha avó estava muito doente e minha mãe não observava que Lurdes não estava bem. Até que uma vizinha a alertou. Tinha dezoito anos. E do dia em que minha avó morreu. Minha mãe havia ido servir-lhe o chá da tarde e encontrou-a morta. Teresa me contava uma história em outro cômodo, quando minha mãe irrompeu desesperada, chorando alto e dizendo “Mamãe morreu, mamãe morreu.” Lembro-me de mim, sentada no seu colo, chorando, enquanto ela se abraçava a mim, sempre em prantos. Lembro-me de que fomos dormir na casa de uma vizinha, Teresa e eu, e acordei cheia de xixi. Dei um pulo, e corri para a cama de minha irmã. Lembranças.
Naquela foto vejo pessoas de quem não me lembrava mais. Dona Maria Estela, que me alfabetizou e que não gostava de mim. Por qualquer bobagem punha-me de castigo no banheiro, que ficava dentro da sala de aula. Era um lugar escuro e úmido com alguma coisa que parecia um tacho escuro e carcomido. Não me lembro se havia vaso sanitário. Um dia, cheguei em casa e contei para minha mãe, que imediatamente foi ao colégio. Não sei o que aconteceu, mas nunca mais fui presa no banheiro tenebroso. Décadas depois, li no jornal o anúncio de sua morte. Lá está ela na foto , feiosa, meio mal-encarada, com um sorriso forçado. E havia sua irmã, dona Nilda, no segundo ano. Bonitona. Sempre achei que pintava os cabelos de uma cor meio ruiva. Ela sorri. E dona Ruth, acompanhada de seu marido Professor Romano, que encontrei mais tarde, quando já na adolescência voltei à cidade. Eu costumava ficar de castigo depois da aula, não me lembro quem me punha, dona Nilda ou dona Ruth, ou talvez as duas, e tinha que escrever dezenas de vezes: “ Não posso rir na aula.” , ou alguma banalidade semelhante. Anotavam a transgressão no diário, que eu sempre entregava à minha mãe, que assinava sem prestar atenção. Para ela eram besteiras. E vi dona Carolina , a Diretora, com seu corpo disforme, gordinho, de perninhas bem curtas. E tantas outras recordações destes meados do século passado.
Depois fui embora, passei algum tempo no Rio, onde meu pai, engenheiro militar, dava aula no IME. Eu odiava aquele ônibus que ia me  pegar na porta de casa. Afinal,  já era quase uma mocinha. Passado um ano, consegui convencê-lo a me deixar ir de bonde. Ia feliz , fazendo o percurso da Praia Vermelha ao Anglo- Americano, que ficava em Botafogo, onde hoje está um prédio da Petrobras. Era para mim um grito de liberdade, talvez o primeiro, repetido ao longo de minha vida. Algum tempo depois, meu pai anunciou que havia recebido uma bolsa para França. Mandou para Juiz de Fora a família, já que tinha que devolver a casa, enquanto tratava de tudo no Rio. Lembro-me vagamente de um passaporte. Eu tinha dez anos e não tinha idéia do que aquela experiência significaria em minha vida. Lá ficamos por um ano e, acho eu, dez meses. Mas esta experiência com uma cultura e língua diferentes, ainda tão jovem, conto depois.
Voltando ao Brasil, ficamos no Rio. Eu tinha 12 anos e estava na puberdade, com todos seus problemas. Mas havia coisas boas, como meus passeios com Teresa às quintas- feiras na Sears, de saudosa memória. Meu pai sempre nos dava algum dinheiro para um lanche e alguma comprinha a mais. Minha família era do Sul, mas ele preferia vir para Juiz de Fora nas férias. Era perto e barato. Alguns anos depois, viemos para Juiz de Fora, onde eu havia nascido. Minha mãe engravidara logo depois de sua chegada aqui, vindos do Rio. Meu pai tinha na época uma função já na sua área de engenharia. Era capitão, se não me engano. Belo homem , deixou muitas mulheres apaixonadas. Eu ainda não havia nascido. Naquela volta, eu estava entrando no  segundo ato de minha vida. Tinha 15 anos e vivi minha grande experiência do amor. Voltei para o Granbery, onde estudara a maior parte do primário.
E vendo aquela velha foto revi aqueles anos dourados. A Sala das Moças, no comando de dona Cecília. Lá está ela na foto. Sempre austera. Um dia na semana tínhamos “trabalhos manuais” e dona Cecília nos ensinava coisas interessantes. Lá fiz não sei quantas blusas de tricô, que eu sabia desde criança. Fiz toalhas de vagonite ( alguém conhece?) Ficava na porta que dava para o pátio dos rapazes. Meu namorado fazia um sinal e eu escapava para encontrar-me com ele. As vezes dona Cecília me flagrava e fazia-me voltar. Sempre educadamente. Lembro-me que tinha o hábito de morder o lábio superior e sempre pensei que isso devia trazer algum prejuízo. Vi meu professor de música, Reinaldo, que uma vez por semana lutava para nos fazer cantar “Luar do Sertão” Éramos um bando desafinado, cada um indo para um lado. Tentava nos colocar em lugares estratégicos para a primeira e segunda voz. Embaralhávamos tudo, sentávamos errado. Linda alma aquela, homem infinitamente bondoso. E dona Zilda, professora de francês, que se encantou ao saber que eu havia morado na França e falava francês. Era vaidosa e bonitona. Falava bem o francês, que não sei onde aprendeu. Na foto, diferencia-se das demais, com blusa estampada e manga curta. E  Júlio Camargo, que nos ensinava geografia. Eu tinha uma coleção de Atlas que herdei de meus irmãos e outros que meu pai comprava. Professor Camargo era austero, e jamais ninguém ousou fazer qualquer tipo de algazarra em suas aulas. Mas todos  gostávamos dele. Lembro-me de meu amigo  Nilo Ayupe, que não chegou a vir tomar um lanche comigo, como havíamos combinado.  E tantos outros.
Quando entrei na Universidade, para cursar Letras, quando fiz meu concurso e meu tornei profissional, tudo mudou. Eu mudei. Fui para Porto Alegre fazer minha Pós-Graduação, vivi longe de minha família. Tive outros amores, dancei a noite inteira, cheguei em casa de manhã, tomei banho e fui para minha aula de semântica. Expulsei de casa meu namorado francês, ultra-esquerda, que me chamou de burguesa porque eu me pintava. Amei os Beatles, Elvis. Chorei quando ele morreu. Fui esquerda, meus amores todos eram escolhidos por suas ideologias. Voltei para minha cidade. Trabalhei, ganhei bolsas para a França.
E quando meu pai adoeceu, com gravíssima cardiopatia, trouxe-o para minha casa e cuidei dele até sua morte. Um ano depois, minha mãe quebrou o fêmur, deprimida nunca mais voltou a andar, até sua morte seis anos mais tarde . Eu já entrara no meu terceiro ato. A dor daquelas perdas , o sofrimento , haviam deixado suas marcas em mim. Um ano e meio depois, perdi meu irmão.  Nova dor, noites em claro sem poder compreender como ele pudera morrer tão repentinamente. E a facada final; a morte de minha irmã, Teresa, amiga, companheira, confidente. Acompanhei-a cada dia, sofri cada dia, sabendo que não havia esperança. Mas sempre há um fio de esperança. Teresa faleceu há 13 anos. Naquele dia, com aquela facada no coração, mergulhei no meu terceiro ato.
Sinto-me como  aquele menino, que descreve Mario de Andrade, que já tendo comido a maior parte de suas cerejas , vendo o cesto quase vazio, quer gozar o que resta até o último pedacinho. Hoje cada dia vivido é um presente de Deus. E como diz Gilbert Bécaud no seu maravilhoso “Et maintenant”:* “ Et puis un soir , dans mon miroir, je verrai bien la fin du chemin. Pas une fleur, et pas de pleurs au moment de l´adieu.” Já deixei por escrito o que desejo: sem velório, meu corpo será cremado, e somente estará presente minha família. Minhas cinzas serão lançadas ao vento e meu espírito poderá, melhor do que jamais, apreciar a beleza da criação do Senhor.
*E uma noite , em meu espelho, verei o fim do caminho. Nada de flores , nada de choro , no momento do adeus.”

segunda-feira, 30 de abril de 2018

HÁ CINQUENTA ANOS: A revolução que não aconteceu


HÁ CINQUENTA ANOS: A Revolução que não aconteceu
Como era o mundo há cinqüenta anos? Estávamos divididos entre dois impérios: o Soviético e o Capitalista.  Estes dois impérios haviam se formado a partir da Segunda guerra  como frente de combate ao Nazismo. Num erro estratégico brutal, através da operação Barbarrossa, a Alemanha invade a Rússia, comandada pelo camarada Stalin, pouco depois o Japão, que juntamente com a Itália e Alemanha fazia parte do chamado Eixo, bombardeia a base naval americana de Pearl Harbour, obrigando os Estados Unidos, governado por Franklin Roosevelt, a igualmente atacar a Alemanha.
Terminada a Guerra, com a derrota  nazista, e seus parceiros, formam-se dois grupos ideologicamente opostos, divididos pelo que Churchill , Primeiro Ministro inglês,  chamou de “cortina de ferro”.  Em 1948, o Partido Comunista Chinês toma o poder. E assim viveu o mundo entre capitalismo e comunismo. Desde 1945 até a queda do muro de Berlim, em 1990.  Mas durante estes 45 anos o mundo deu voltas ( ou como diria o francês  “ Le monde a bougé”). Várias guerras deram origem a regimes de orientação comunista como a da Coréia do norte, do Vietnam, do Camboja. Entretanto, excetuando a Coréia do Norte , os regimes chamados de extrema esquerda foram desaparecendo. Hoje, somente restam China e seu comunismo capitalista, a miserável Coréia do Norte, Cuba, igualmente miserável, e o bolivarianismo, na infeliz Venezuela.
Naquele ano de 1968, o mundo começou a mexer-se de forma mais expressiva. Vários acontecimentos determinaram este pipocar, de um lado e de outro. Já em 1956, lembro-me que morava na França, tinha 10 anos e assistia pela televisão, a revolta na Hungria,  talvez o primeiro movimento de insurreição contra o comunismo. A princípio foram estudantes que invadiram uma estação – evidentemente estatal – querendo transmitir suas reivindicações. Apesar de brutalmente contidos, com mortes, o movimento que buscava mudanças espalhou-se pela cidade. Forças do Pacto de Varsóvia, que reunia a União Soviética e todos os países do Leste (fundado na cidade de Varsóvia , em1955, e extinto em 1991)  sufocaram o movimento, que se extinguiu em definitivo em janeiro de 1957. Pedia-se liberdade, democracia, como se pedia também em países do mundo capitalista, dominados por Batistas, Trujillos,  Somozas, Duvaliers ( Papa Doc) , respectivamente ditadores de Cuba, República Dominicana, Nicaragua e  Haiti, além de outros que não conheço. Todos protegidos pelos Estados Unidos e enriquecidos às custas do empobrecimento do povo. E sem esquecer Alfredo Stroessner, crudelíssimo ditador do Paraguay, durante dezenas de anos. Deu abrigo ao nazista Joseph Mengele, médico-monstro, cujas proezas incluíam, entre outras, amarrar as pernas de mulheres em trabalho de parto. Morreu de forma misteriosa, se não me engano no Brasil, assim como seu protetor, Stroessner.
Em 1959, o primeiro movimento “libertador”, liderado pelos guerrilheiros de Sierra Maestra, instala o comunismo na ilha. Em 1964, ocorre o golpe militar no Brasil, com prisões,  tanques  nas ruas, foragidos políticos, gente torturada e assassinada. Quem viveu estes anos, sabe bem o que é realmente um “golpe”. Na verdade, poucos eram os países democráticos no chamado “mundo livre”. Sou da geração que assistiu a tudo isso, que se horrorizou, que teve medo. E ao tomarmos conhecimento de tudo o que acontecia, muitos de nós optou pelo lado oposto. Viramos “comunistas”.
Em 1967, morre Chê, e torna-se nosso grande herói, vítima do capitalismo, no qual vivíamos confortavelmente. E é interessante notar que foi naquele ano, e no seguinte, que surgem no Brasil os primeiros sinais da frustrada guerrilha, que tantas vidas jovens levou. Movimentos insurrecionais surgem em regiões afastadas mas também nas cidades. Houve seqüestros, de Embaixadores sendo o mais famoso o do Embaixador americano. E ainda a inesquecível  luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos e o brutal assassinato de Martin Luther King, o maior líder negro, orgulho da raça. Seu assassino cumpriu  prisão perpétua até sua morte em 1998.  O assassinato de Robert Kennedy, que também provoca grande comoção no mundo. Havia um movimento de revolta por um mundo melhor, fosse de que cor, ou ideologia, fosse.
Também do outro lado do mundo, do outro lado daquela “cortina de ferro” surgia o movimento de liberação chamada “ Primavera de Praga”.  O dirigente do Partido  Comunista Tcheco Alexander Dubcek procura dar ao povo maior liberdade , introduzindo Reformas importantes e sobretudo uma nova Constituição. A incrível experiência da Liberdade, inspira o escritor Milan Kundera a escrever o mais famoso de seus livros “ A insustentável leveza do ser”. Mas Praga é invadida pelos tanques do Pacto de Varsóvia, e a esperança de LIBERDADE  acaba tendo muitos intelectuais fugindo, como o próprio Kundera , que exilou-se na França, onde recebeu cidadania francesa.
Ora, neste ano de 1968, sobre o qual Zuenir Ventura escreveu o livro “1968, o ano que não acabou”, no qual se refere especialmente ao Brasil, e que ainda não li, há coisa demais acontecendo. Fazendo uma breve retrospectiva, lembremo-nos que até 1958, vigorava na França a IVa Republica, instituída após a Segunda Guerra, e que não funcionou.  E Charles de Gaulle era, indubitavelmente, um herói nacional. Exilou-se na Inglaterra, quando da invasão nazista, de onde liberou “La France Libre”, com uma emissão de rádio que os franceses ouviam às escondidas. Voltando à França, o general de Gaulle, funda seu partido e reúne forças para promover a V Repubica . Ou seja, a V Constituição. Eleito em 1958, reelegeu-se até 1965. Mas sua atuação autoritária, ainda que tenha sido extremamente positiva para uma França, há poucos anos saída de uma guerra e de uma invasão, desagradava a estudantes e operários, estes comumente comunistas.
Foi então, em meio a este mundo conturbado que ocorre um incidente talvez banal de uma revolta localizada,  mas que teria grande repercussão. Não se pode localizar exatamente o momento em que surgiu a idéia de revolucionar a França. O Mundo brigava, americanos lutavam contra vietcongs, tchecos eram massacrados, africanos lutavam por suas liberdades. Um pequeno incidente na Universidade de Nanterre –Paris X – desencadeia uma reação desproporcional. Na inauguração de uma piscina,  comparece o Ministro  da Juventude e dos esportes,  há uma discussão entre ele e um estudante ruivo de origem alemã e judaica, Daniel Cohn-Bendit, que torna-se líder do movimento reivindicatório . O Ministro é vaiado pelos estudantes , o que deixa bem claro o descontentamento.  Não consta que Daniel pertencesse a algum partido político, mas pensava que era necessário movimentar a França , diante de um mundo em ebulição. Greves de estudantes e operários obrigam De Gaulle a tomar providências policiais.  Após o envolvimento da polícia , com prisões, a revolta concentra-se  no Quartier Latin . Dali se expandiu por toda a França. Houve barricadas em várias cidades, o movimento , ao que parece pretendia trazer de volta a célebre Comuna de 1871, que pretendia instituir o primeiro governo proletário no mundo. À Revolta de 1968, unem-se intelectuais como Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, Jean-Luc Goddard, e François Truffaut, entre outros. O Partido Comunista Francês, sob a direção de Georges Marchais, toma posição contrária, como havia acontecido no Brasil, com a posição de Luís Carlos Prestes contrária à guerrilha.  Num dia memorável, o grande poeta surrealista, Louis Aragon, já bem velho,  tenta falar aos estudantes. Membro do Partido Comunista, é estrondosamente vaiado. Vergonha para os que o vaiavam, Louis Aragon, tinha uma história de luta e era um símbolo da cultura francesa. Finalmente, concedem-lhe a palavra. Esta manifestação de intolerância já marca o começo do fim do movimento. Finalmente, operários, obedecendo às grandes  Centrais Sindicais, ligadas ao Partido Comunista, voltam às fábricas . O movimento enfraquece até sua extinção. Sem o prometida Revolução.  
Ao todo o movimento rebelde dura de maio a julho. Em 1969,  De Gaulle propõe um referendum  para regionalização do Senado , mas não consegue vitória. Em seguida, renuncia.
Morre em 1970, O próximo Presidente da  França  é Valéry Giscard D´Estaing.  De direita. 




sábado, 13 de janeiro de 2018

Temps de dire adieu



Ma mère est morte un certain vintg-six février, il y a déjà longtemps. On nous avait averti que son temps serait court. Pendant six ans, j´avais lutté contre son désenchantement de la vie. Elle avait fait une chutte et fracturé le  fêmur. Et puis, elle n´a plus jamais marché.  Elle se refusait à marcher, elle refusait la vie, toujours adossée à son lit. Les médecins venaient et revenaient. Toujours de nouveaux médicaments, surtout des antidépressifs, et des psychiatres, qui se renouvelaient sans cesse. Ce furent des années de souffrance, surtout pour nous deux, puisque le reste de la famille pouvait vivre sa propre vie. Et j´ai eu la force de lutter pour ne pas succomber. Il me restait toujours l´espoir , qui le sait, qu´ elle reviendrait à la vie. Mais sa perte était sans retour, elle avait perdu son amour et plus rien ne l´intéressait. La mère que j´avais connue toute ma vie, qui m´avait fait dodo dans la vieille chaise balançoire en écoutant les feuilletons à la radio, qui m´avait raconté des histoires de son enfance, qui avait arraché avec un fil chacune de mes dents de lait, que je conserve jusqu´aujour´hui,  qui me soulageait quand je me blessait, qui avait pleuré le jour où je suis partie pour compléter mes études, cette mère était déjà morte six ans avant que son coeur ne s´arretât.

Mais cette force divine, qui vient pour celui qui sait la voir , a illuminé mon chemin et m´a fait dresser la tête. C´est cette force  qui est dans le mystère de la vie et de la mort, dans le solei qui brille et nous illumine, et que mes petits chiens recherchent pour se chauffer. Cette force qu´ils ressentent, et que beaucoup d´êtres humains ne sont pas capables de percevoir. C´est elle, que ,chaque matin,  je ressentais sur ma peau, ayant passé une nuit blanche ou non.  Et j`ai mené ma mission jusqu`à la fin.

Le jour ou ma mère est morte, je l´ai emmenée à l´hôpital, dans mon auto,  agonisante , assise à côté de moi. Je savais  que c´était la fin. Je suis arrivée em  klaxonnant. On l´a immédiatement  menée,  je ne sais pas où. Mais avant qu´on ne  la menât, j´ai enlevé  l´alliance de son doigt. L´alliance que mon père avait mis dans sa main droite, à quatorze ans, et qui m´accompagne chaque jour de ma vie.  Ma soeur et moi, nous sommes restées dans le hall,  attendant  ce qui arriverait ou était déjà arrivé.  Et quand je suis sortie de l´hôpital, après la fatale nouvelle, j´ai regardé le ciel et j´ai vu, confondus à mes  larmes, des amas de nuages , qui s´amoncelaient comme des enfants qui jouaient . J´ ai rappellé une vieille histoire qu´elle me racontait toujours , des successives Coralies,  toujours habillées  en blanc et qui mouraient encore enfants. Ça s´était passé dans son adolescence. Prise d´une conviction divine,  j´ai ressenti que Dieu m´envoyait un message.  Qui le sait?  Peut-être c´étaient elles qui était venues la prendre.

Puis, la funéraire,  mais il y avait quelques minutes  elle était encore vivante ! Ou, alors,  ce n´était qu´une impression? Je suis rentrée, épuisée.  Dans la salle sombre et silencieuse , j´ai ressenti mon corps courber. Et  j´ai prié pour  Celui que je savais être là. Je suis sortie dans le balcon et  la vie a pénetré  en moi. Pendant ces années de souffrance , j´avais appris a percevoir Dieu.  J ´ai  parcouru  le couloir en allumant les lumières,  et d´un coup , je suis entrée dans sa chambre.  Le vieux fauteuil, où on l´ asseyait  était là . Je m´y suis assise . En bas, le petit coussin pour les pieds.  J´ai fermé les yeux et des milliers de souvenirs de ma première enfance  me sont venus à la mémoire. C´était comme un carroussel de mon passé, le plus lointain, qui tournait  dans ma tête épuisée. Des rues mal illuminées où des enfants jouaient la marelle, des fêtes de juin, froid, le jour où je me suis coupé le menton, et les  Soeurs de Saint Vicent-de-Paul, avec leurs énomes chapeaux , glissant dans les couloirs. Soudain, j´ai ouvert les yeux et ,sur la petite table, j´ai vu ses médicaments,  que je laissais toujours organisés dans un petit pot. Alors, des larmes ont coulé sur mon visage. Mais je ressentais une grande paix. J´ai décidé de prendre un bain, et j´ai laissé l´eau couler sur ma tête et mon corps. Eau, vie! J´ai respiré profondément, remplissant d´air mes poumons. La vie!  J´avais compris, finalement! Comme l´eau qui avait rafraîchi mon corps, il y avait une sécheresse interne. J´étais assoiffée! Sur mon corps mouillé, j´ai mis une chemise et j´ai pris le téléphone pour avertir quelques amis et familiers à Porto Alegre.

Et il y aurait encore les funérailles ! Des amis ou ceux  qui venaient par devoir! Je devrai voir son corps mort, inerte, ses belles mains,  qui avaient crée tant de belles choses, croisées sur la poitrine. Je baiserais son visage gelé. Et  il fallait encore avertir mon frère! Je ne rappelle plus comment j´ai fait. Mais je me rappelle l´avoir  emmené en  auto  au cimetière. Il ne disait rien, mais je savais qu´il souffrait énormement.  Mon amie, Many, est arrivée peu après  et m´a  emmenée pour me reposer un peu dans une chambre. J´étais profondément abbatue! Pourtant, quelque chose au-dedans de moi, m´assurait qu´elle , finalement , était heureuse! Soudain, un énorme cafard , près de ma tête, m´a fait faire un saut, retournant dans la grande salle.

Alors, j´ai décidé d´aller chez moi. J´avais besoin de quelques documents. Le jour commençait à pointer. Many, mon  amie dans le bonheur ou le malheur, m´a préparée  une bouille que j´ai engloutie  automatiquement. Alors, j´ai regardé le soleil qui commençait a avaler la nuit et j´ai ressenti bien au-dedans de moi-même que toute cette beauté des couleurs du jour qui se levait était une preuve de l´existence de Dieu. Ainsi que la lune qui avait illuminé ma triste nuit.  Et cete splendeur m´ assurait que tout venait de Lui. Je le savais!

Aujourd´hui, après tant d´années  écoulées, je répète  Fernando Pessoa “ Accorde-moi de l´âme pour te servir et de l´âme pour t´aimer. Accorde –moi l´ acuité pour te voir toujours dans le ciel et la terre.” Et c´est cela que j´ai ressenti,  à sa vue , morte , rigide , dans ce cercueil . Je savais , et ce ciel resplendiscent, m´a paru un signe.  J´ai vu mon amie Sônia, assise sur un banc, à côté de mon frère, lui tenant caressement la main. Ils sont restés là longtemps, jusqu´à ce que mon pauvre  frère , que je perdrait un an et demi plus tard, eut le courage de voir sa mère morte.

Alice a été ensevelie quand le soleil se couchait déjà derrière les montagnes. Mon coeur rebondissait dans ma poitrine, je n´ai pas voulu continuer. Mère, ta rencontre avec moi est finie, comme tout finit dans la vie. Et  parodiant Fernando Pessoa;  accorde –lui que son âme puisse paraître devant toi , comme un fils qui retourne à son foyer. Mère, le sol qui sert de lit à tes dépouilles et de tous ceux que j´ai aimés et perdus, n´est jamais fréquenté  par moi. Là où tu es, et tous les autres , n´est pas la terre sèche et aride. Ta demeure est  au-delà  de moi et de tous ceux qui iront après. La demeure de mon  corps , consommé par la crémation, devra être le chemin du vent. Mes cendres trouveront le chemin le plus élevé , qui puisse presque toucher le ciel. Lá haut, je verai toute ton oeuvre , Seigneur, et pourrai plus que jamais m´émerveiller de toute ta beauté.


“Seigneur , protège-moi , appuie-moi. Accorde-moi que je me remette à toi. Seigneur , libère-moi de moi.”


sábado, 9 de dezembro de 2017

LES HORIZONTALES

Século XIX ,  século XX. Depois de tantos acontecimentos, enfim , chegamos ao novo século. Na França, nestes cem anos, que  parecem ter fim, ao menos cronologicamente, foram tantos os acontecimentos! Dois golpes, duas revoluções, uma guerra contra a Prússia, uma França vencida, duas perdas territoriais, uma revolta em Paris, denominada Comuna. Enfim, destruídos os rebeldes, chega-se à Terceira República. Paris se engalana. É a Belle Epoque. Numa sociedade, ainda distante de qualquer resquício de igualdade, uma parte da população sente que a vida é para ser gozada. Não se poderia imaginar o que se preparava neste século recém-nascido.  Mas até a Primeira Guerra, as delícias deste mundo de artistas, música, das comédias de Feydeau,  das deliciosas operetas de Offenbach, do Moulin Rouge, do Impressionismo, tudo continuou existindo.
Prazer, jóias, amores ilícitos, cortesãs. Elas eram muitas, mas três se destacavam. Eram as mais belas, mais inteligentes, mais artistas. Começaram no famoso “Folies Bergère”, em pequenas cenas,  belas figurantes. Mas este não era seu objetivo. La Belle Otero, Liane de Pougy, Emilienne d´Alençon. Tinham origens diferentes. Caroline Otero, cujo verdadeiro nome era Agustina Del Carmen Otero Iglesias, nasceu na Espanha, de família duvidosa, com muitos filhos , cada um de um pai diferente. Com a morte do marido e a completa ruína da família, sua mãe se prostitue para manter a prole.  Isto até casar com um certo fulano que logo passa a detestar sua enteada, Agustina. Mas, na promiscuidade em que viviam, durante  uma festa na aldeia, a menina é violentada por um sapateiro. Ela tem apenas onze anos. Sua vida daí em diante torna-se um vendaval de homens e de um proxeneta. Aos treze anos, com seu amante ela aprende a dançar o flamengo, e a desenvolver certa habilidade teatral.  Descoberta como menor , ela é encaminhada para sua mãe, que a expulsa. Volta à vida de prostituição, até que, grávida, é obrigada a abortar, o que a torna estéril. Encontra um segundo amante, que também a explora e a leva a cabarés , onde exerce suas habilidades de dançarina, e também a explorar seu charme. Somente algum tempo depois, um rico banqueiro compra sua liberdade, ensina-lhe boas maneiras, e a leva para fora da Espanha. Mais tarde, já conhecida, ela estréia em pequenas cenas nas grandes salas de espetáculo de Paris, como Moulin Rouge, Folies Bergères, e Cirque d´éte, este último já desaparecido. Mas sua grande paixão é o jogo. E nele depositou milhões, dados por amantes: Reis,  Príncipes, Duques , milionários que freqüentavam esta Paris em ebulição.
Liane de Pougy, já tinha origem totalmente diferente. Era francesa, de uma família de militares. Anne-Marie Chassaigne , seu verdadeiro nome, recebeu fina educação junto às Irmãs “ Fidèles Compagnes de Jésus”, e desde cedo seu temperamento libertário se fez sentir. Mas, foi junto às Irmãs que ela aprendeu o savoir-faire e a cultura que mais tarde lhe serviram de base. Aos dezessete anos, ela se casa  com um militar, e pouco tempo mais tarde dá à luz um filho,  que se tornará um dos pioneiros da aviação na Primeira Guerra e morrerá aos vinte e sete anos. Com o marido fora, Anne-Marie arruma um amante, causa de uma bala que recebeu nas nádegas. Ela foge, e aproveita para se divorciar. Diz seu biógrafo, Jean Chalon, : “ A beleza , quando é pródiga em prazeres, pode ser uma chave abrindo muitas portas, inclusive as da imprensa”  Ela estabelece relações com os chefes de importantes órgãos da imprensa, como Gil Blas, hebdomadário, com sabor profano, e até o severo “Le Figaro”. Seu nome é presença nas rodas sociais e intelectuais. Ela aprende dança, e escreve. Seus amantes são ricos, poderosos, e pagam qualquer preço por uma noite, ou por somente vê-la nua, em todo seu esplendor. Liga-se de amizade com Sarah Bernard, que a aconselha a não tentar o teatro, por sua falta de vocação, conselho que ela desconhece. Faz amizade com Proust, que incentiva seu talento literário.
Uma certa noite, é chamada às pressas por seu amigo e admirador, Henri Meilhac, autor teatral e membro  da Academia Francesa de Letras. Dizia-lhe que se fizesse muito bela e elegante. Sem entender, Liane foi encontrar seu amigo e assustou-se, quando,  ao entrar no salão, viu levantar-se toda a platéia e a orquestra tocar um hino triunfal. Somente no dia seguinte, soube, pelos jornais, que substituira  a rainha da Suécia, impedida de ir na última hora.  É assim esta mulher que faz de seu corpo seu comércio, mas que não se esquece de sua capacidade intelectual. Como diz seu biografo ela nunca deixa de mostrar, a quem a visita em  sua mansão,  seu majestoso leito de seda e plumas como seu “ganha pão”. Ela havia descoberto que o leito pode ser explorado de várias maneiras. E fortunas se dissolvem em suas mãos, jóias, dinheiro, e tudo que tem valor...
Emilienne d`Alençon , ou Emilie André,  nasceu em Paris, filha de uma “concierge” ( espécie de faxineira de um edifício, onde mora com a família, profissão praticamente desaparecida).  O pseudônimo lhe foi sugerido pela prostituta Laure de Chiffreville, que lhe prevê um futuro brilhante, devido à sua beleza e graça. Ela se introduz no Cirque d`Été , no Maxim´s . O grande incentivador de sua carreira foi o jovem duque Jacques d`Uzès, que, perdidamente apaixonado, pretendia fazer dela uma dama, que posteriormente esposaria. Mas esta não é a intenção de Emilie ou Emilienne, e tampouco da família do duque. Assim, enviam-no para o Congo, onde ele morre. Aí, então, a jovem futura cocotte, faz sua carreira. Por ela se apaixonam Leopoldo II da Bélgica, o futuro rei Eduardo VII e o Kaiser Guilherme II. Com Liane de Pougy, ambas com tendências lésbicas, estabelece um romance, que dá a Gil Blas a ocasião da seguinte piada: haveria um casamento e em pouco tempo nasceria um bebê.
Por causa de suas origens populares, é apelidada de “Gavroche feminina” ( moleque de rua do romance de Victor Hugo, “Les Misérables”, que acaba morrendo na revolução de 1830), no entanto, é uma mulher inteligente e talentosa. Apaixonada pela literatura, ela escreve uma coleção de poesias com o título “Sous le masque” , bem indicativo de sua própria vida. Bela mulher, e fotografando muito bem, ela usa esta estratégia para melhor marcar sua imagem. A descrição que dela faz um cronista é de uma irresistível mistura de inocência e sensualidade. Seu nariz arrebitado e audacioso, sua boca que ao mesmo tempo faz beicinho e convida ao beijo. Mas esta “Gavroche feminina” arruinou  muitos condes, duques, barões, milionários interditados pelas famílias.
E afinal, chega a Grande Guerra, e termina a Belle Epoque. As cocottes famosas já não são tão jovens e sedutoras. Liane de Pougy dá vazão às suas tendências lesbianas. Torna-se amante de uma jovem americana, Natalie Clifford Barney. Ela é bela, rica, poderosa. Desde que sabe amar, ela  ama as mulheres. Certa vez, acompanhando seu pai à Casa Branca, ela encanta-se  pela Primeira Dama e diz claramente: “ Ah ! Senhora Presidente, se pudesse continuar a presidir a  Casa Branca com não importa qual presidente!”  Constrangimento geral. Na França, procura Liane enviando-lhe um buquê de rosas. E então começa o romance mais ardente da vida das duas. Mas como tudo passa, o amor acaba, e resta uma profunda amizade. Em 1899, ressurge vida de Liane de Pougy seu filho Marc Pourpre, com doze anos, que ela havia quase esquecido. Levado pelos avós, conheceu aquela mulher que diziam ser sua mãe e cuja foto se espalhava por toda Paris. Liane o recebe, mas não consegue estabelecer com ele o amor maternal. Interna-o no melhor colégio de Paris, provê todas suas necessidades, oferece-lhe belas férias, e manda-lhe declarações de amor maternal.
Em 1910, finalmente, ela encontra seu príncipe, de verdade. Casa-se com o Príncipe romeno Georges Ghika , para grande furor da família do noivo.  A Grande Guerra aproxima-se. Em 1914, morre seu filho Marc, um pioneiro da aviação. Mas, estranhamente, mesmo antes de saber de sua morte, Liane cai em desespero. Contorce-se , tem  um tremor por todo corpo, prostra-se no chão. Seu desespero mostra que a mãe dentro dela não havia morrido. Ela havia implorado para que não fosse, mas ele queria, achava ser seu dever como francês,  reconquistar a Alsácia e Lorena. Ao saber de sua morte, a mãe cai em estado vegetativo, seu coma é quase fatal. Anoxérica, passa a  pesar quarenta e dois quilos.  Á sua cabeceira está  seu marido e sua ex-amante americana , Natalie Barney. Mais tarde ela dirá: “ Aprendi a maternidade na dor”
Em 1945, morre seu marido e ela resolve se recolher a um convento.  Morre em santidade em 1950. Como diz seu biógrafo: “Liane de Pougy, cortesã, princesa e santa.”
Belo Otero, passados os anos de apogeu, recolhe-se à sua mansão em Nice. Na mesa de jogo perde toda sua fortuna. Em 1960, sem recursos, encontra um amigo que lhe aluga um quarto, onde esquenta sua refeição. Conta-se que, à noite, via-se nos becos de Nice, uma velhinha que procurava comida no lixo. Morre em 1965.
Emilienne d´Alençon morre em 1945. Ela está falida e endividada.  Seu dinheiro fora gasto com as amantes, e seu corpo e seu espírito estão destruídos pelo ópio. Casou-se duas vezes com jokeys ingleses. Divorciou-se do primeiro e perdeu o segundo na Grande Guerra. Gasta pelo tempo, pelas drogas, pela miséria , foi-se.
Estas mulheres viveram um mundo de esplendor que terminaria na Grande Guerra. Neste novo mundo que surgia não havia lugar para elas. Todas viveram também os horrores da Segunda Guerra. No “entre-deux-guerres” , pensou-se que a vida retomaria seu rumo, mas a Primeira ainda não acabara. Ela recomeçou em 1938, quando, de joelhos, Daladier e Chamberlain, lideres da França e da Inglaterra ,entregaram, parte da Tchecoslováquia a Hitler. Daí em diante, o mundo jamais tornaria a ter paz.  

LES HORIZONTALES