QUEM SOU EU

Sou professora de Francês, mas hoje minha principal atividade é escrever e ler, além de cuidar dos meus três vira-latas: Charmoso, Príncipe e Luther.



Gosto de fazer ginástica, sou vegetariana e adoro animais em geral, menos baratas.



Sinto especial prazer quando meus textos agradam aos meus leitores. Espero continuar produzindo e me comunicando com todos os meus amigos, neste maravilhoso universo da net.



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segunda-feira, 30 de outubro de 2023

 Uma criança brasileira em Paris.

No dia seguinte, trouxeram para nós um delicioso café da manhã , com um pãozinho em forma de meia-lua , que eu jamais havia visto. Fiquei maravilhada e de olho no de Teresa. A manteiga vinha em forma de caracol, mas não me lembro do resto. Acho que logo depois daquele primeiro dia, meu pai procurou alguma agência onde pudesse encontrar um apartamento. Só me lembro de um, em Ménilmontant , onde nasceu o grande compositor e cantor , Charles Trenet, eternizado  pela linda canção , que vou procurar e incorporar ao texto. Vi-o na televisão várias vezes, e suas músicas sempre me encantaram, como "Douce France" composta como um hino contra a ocupação nazista na França. 

Pois bem, um dia fomos todos , salvo meu irmão, que já maior não teve direito à ir conosco, tendo chegado cerca de dois meses depois, a este lindo bairro , com sua igrejinha.  Pois foi lá que me deparei com a casa mais linda que já havia visto.  A proprietária era uma senhora bem idosa, que usava um xale. As paredes , não me lembro se todas, eram forradas de seda grená .  E havia um piano!  Fiquei fascinada!! Imaginei-me sentada ali,  batucando nas teclas, provavelmente infernizando minha mãe. Afinal, eu era temporona, , inesperada, uma surpresa não muito bem vinda, mas extremamente mimada. Aliás, os tapas e beliscões  eram dadas por minha irmã, que, acho, tinha ciúmes. Mas, afinal, nada disto importa , o objetivo de meu pai era encontrar um lugar agradável, e perto de onde pudesse eu e Teresa pudéssemos estudar. Logo, a linda casa, com aquela velhinha de cabelos branquinhos, xale , certamente viúva, que era proprietária daquela romântica casa, certamente construída no século XIX, não preenchiam estes quesitos. 

Ficamos ainda algum tempo no hotel. Lembro-me do dia em que minha mãe me deu uns trocados para comprar um lanche numa espécie de "pâtisserie" que ficava a poucos metros do hotel. E até hoje consigo sentir o cheiro do lugar, Havia algumas pessoas que me atenderam e logo perguntaram : "Italienne" balancei negativamente a cabeça, sem saber  quê dizer, e lembro-me de uma das mulheres acariciar meu rosto infantil e dizer : "Mignonne". É interessante notar que sempre pensavam que éramos italianos e lembro-me de um dia em que raivosamente um francês disse: " Ces italiens !" Depois , nas múltiplas vezes que voltei à França , pensavam que eu era italiana.  "Prego signore" (desculpe-me minha amiga Regina, professora de italiano). E pasmem, muitos anos depois, estava em Roma com Teresa e italianos vieram nos pedir informações. 

Mas voltando a Paris, afinal, não sei como , acabamos indo morar naquela Avenue Mac-Mahon, que havíamos subido , extasiados com o monumental Arco do Triunfo. Era o número 10. O prédio, muitos anos depois descobri, havia sido construído em 1886, em plena Belle Époque. Havia um elevador hidráulico, que só subia. Era preciso puxar uma corda, e quanto mais força puséssemos , mais depressa subia. O apartamento ocupava um andar inteiro, com uma sala de jantar , uma sala intermediária e um grande salão com poltrona no estilo Luís XV . Havia três quartos , um banheiro e um local  que parecia uma pequena suite. E era ricamente decorado, com lareiras de mármore e portas espelhadas. Uma varanda circundava todo o apartamento e dela víamos logo acima o Arco e um pouco adiante a Tour  Eiffel. No primeiro andar, morava Monsieur Félix Hanfouet Boigny (?) , deputado da France d'Outre Mer, pela Costa do Marfim  -Côte d'Ivoire - . Notando que naquele tempo a França tinha colônias por toda parte. E incrível é que, muitos anos mais tarde, namorei um marfinês, um dos meus melhores namorados. Lembro-me de que na entrada do apartamento havia dois chifres de elefante, o quê  hoje me revoltaria imensamente. Minha mãe ficava perplexa ao ver entrarem nas festas,  mulheres louras com negros. É  verdade que o mundo dá muitas voltas....

No segundo andar, nunca descobri quem morava. No terceiro , uma família do Ceilão, atual Sri Lanka . As mulheres tinham uma marca na testa, andavam com sari e jamais levantavam a cabeça. No quarto , uma chilena, no quinto nós e no sexto outra família de militar. Meu pai logo tratou de me matricular na mesma escola  da filha do outro militar , mas não deu certo. Eu tinha que ir com a filha deles, Déa, que tinha chofer português a quem chamava de Manyel (à francesa) . Odiei tudo aquilo, e me recusei a continuar. Foi então que me meu pai me matriculou num Curso para crianças na Aliança Francesa, onde convivi com crianças do mundo inteiro. 

Mas o meu grande curso de francês foi feito nas ruas de Paris, onde fui tradutora de minha mãe. Eu conversava com as "vendeuses" , com os garçons , Traduzia o quê minha mãe queria dizer. Até à feira ia , às vezes com ela. Como era muito falante, fiquei fluente logo. Tinha uma colega tailandesa e fiquei sua amiga. E até  fui com Teresa almoçar em sua  casa. Assim como ela foi almoçar na minha, Tenho até hoje o seu endereço, escrito num pedaço de papel. 

E comprei outras bonecas, que dei há algum tempo para as crianças do Instituto Maria. E também um carrinho , e roupinhas que fazia como aqui. Só não andei de bicicleta nem pulei corda. Também lembro da sessão infantil às quintas -feiras , com desenhos e filmes do Gordo e do Magro. E do chocolate especial que comprava com os trocados que minha mãe me dava. 

Com a passagem de Bruno, perdi todo interesse em voltar a Paris. Sei que iniciei uma nova etapa, mas não sei quanto tempo durará. E espero , nestes anos que me restam, viver o melhor possível.

 

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

 Uma criança brasileira em Paris

Lembro-me do dia em que meu pai chegou em casa, exultante, e nos disse que íamos para a França. Ele era engenheiro militar , dava aulas no IME, e havia ganhado uma bolsa para Paris! O ano era 1956, não me lembro o mês. Eu tinha 10  anos e nenhuma noção do que fosse exatamente  este país. Um ano antes, havia vindo ao Brasil a atriz Martine Carol e seu marido, um diretor chamado Christian Jacques. Martine Carol se tornara famosa por haver sido a primeira mulher a expor os seios na tela . Era jovem, loura e linda , com corpo voluptuoso. Vi embevecida a entrevista , sem entender bulhufas e admirada em pensar que alguém pudesse se comunicar naquela língua! Isto cerca de um ano antes do anúncio de meu pai !
Quando fiquei sabendo que ia para a França, passei a brincar de cantora, pegava uma vassoura que fingia ser um  microfone, Inventava uma língua , e cantava uma melodia que me saia da cabeça  Mas antes de minhas "melodias" em língua desconhecida, eu gostava  de brincar de "moça" , o quê deixava minha irmã furiosa.  Punha seus saltos altos, brincos, passava batom, e andava pela casa, ou fingia que tomava chá com amigas. E ,evidentemente, além das bonecas, tão raras hoje em dia. Havia a Holandesinha, Susy, Débora,e um bebê , de cujo nome não me lembro mais , e que, provavelmente havia pertencido a  Teresa. Quando minha mãe me dava uns trocados , corria até uma loja onde vendiam retalhos e voltava para fazer novos vestidos. E também gostava de minha bicicleta. E de  pular corda, que levava para o colégio. E da merendeira que cheirava a coisa velha e que eu herdara de Teresa. Era dia de festa quando podia comprar um cone onde havia uma surpresa. Enfim, tudo muito singelo. Nunca consegui ganhar a casinha de bonecas com que sonhei tantos Natais, mas me sentia feliz com a mobilinha  de plástico rosa em que havia uma penteadeira, uma cama , e um armário. Havia também uma sala de madeira que eu reservava para as visitas. Armava tudo num canto de um cômodo vazio da casa.
Pois naquele dia, de 1956, tanta coisa que me fascinava devia ficar para trás ! Holandesinha, Susy , Débora e o bebê não poderiam ir comigo. Nem minha mobilinha de plástico, nem a da madeira, Nem minha bicicleta. Não me lembro se chorei, acho que fiquei alerta para a experiência que se abria diante de mim. Viajamos pela falecida Panair . Viagem longa , de não sei quanto tempo. Paramos em Dakar, capital do Senegal, e quando descemos do avião, tive a impressão de haver penetrado num forno. Negros vestidos a caráter, acho eu , nos esperavam e nos ofereciam água de côco bem gelada. Lembro-me de que no mesmo avião viajava Carmélia Alves, e seus músicos para uma turnê na Europa. E há pouco tempo atrás, vi no Youtube, um canal que trata das antigas cantoras do rádio. E lá estava ela, em boa forma. É claro que se tratava de uma gravação antiga. Havia outras também, de minha infância, como Carminha Mascarenhas. Mas, tudo isto ficou no passado, um passado bom, que gosto de recordar.
Na França, estavam nos esperando outros militares brasileiros. Eu era a única criança, já que fui filha temporona. O aeroporto era Orly, Charles de Gaulle ainda demoraria muito. Já haviam feito reserva em um hotel , justamente no 17e. arrondissement, onde viríamos a  morar. Ficamos em dois apartamentos diferentes e fiquei feliz com a banheira , onde poderia brincar de lanchonete, fazendo milk-shakes de espuma. Mas e depois?  Todos haviam voltado para casa, e nós estávamos com fome. Sem conhecer a cidade, meu pai se muniu de uma mapa e rumamos em direção aos Champs Elysées. Mas, antes de chegarmos lá, quero lembrar da garota francesa, mais ou menos de minha idade, que passou por nós conversando com alguém que devia ser sua mãe.  Fiquei extasiada!   Como era possível? Mas , ao mesmo tempo me convenci de que seria capaz de fazer o mesmo.
Subimos a Avenue Mac-Mahon, que foi Presidente da França no século XIX, e logo vimos aquele monumento imenso , todo iluminado, com a bandeira francesa tremulando do alto. Agarrada no braço de minha mãe, fizemos uma volta, passando por palacetes que rodeavam a monumental praça, nesta época chamada Place de  l'Etoile.  Enfim, após quatro avenidas penetramos naquela mil vezes iluminada, que parecia não ter fim. Não me lembro de minha reação após tantos anos, mas devo ter achado  estar noutro mundo.  Tantas vezes voltei lá, mas estou certa de que  jamais tornei a sentir aquele "frisson" daqueles meus  longínquos dez anos. Meu pai escolheu , ao acaso, um restaurante que me pareceu lindo e que nunca mais reencontrei . Comi um bife com um molho que meu pai disse ser de mostarda e manteiga, com fritas. Devo ter tomado Coca- Cola e alguma sobremesa "superbe ". Exaustos, voltamos para o hotel e dormimos......
O resto conto logo mais.  


sexta-feira, 20 de outubro de 2023

 Rumo à Bretanha  . Encontro com uma grande amiga.

Quando sentei no banco do trem que me conduziria a Saint-Nazaire, cidade que teve importância estratégica durante a Segunda -Guerra , senti que , afinal, havia saído do Inferno. Ainda estava febril, minha garganta ainda doía , mas tinha certeza de que passaria . Resolvi, e não sei como consegui,   esquecer meus problemas no Brasil , e acho que até cochilei. De repente, percebi que estava sentado a meu lado, junto à janela , um senhorzinho, tipicamente francês. Parecia um camponês e contou-me que ia passar férias na "campagne"  onde tinha família . Começamos a conversar , já não lembro mais sobre o quê . Ficou assombrado ao saber que eu vinha de um país chamado Brasil. Não sei se jamais ouvira falar , ou se pensava que  era habitado por índios   ou alienígenas. Escrevi meu  nome e endereço, com letra de forma  em um pedaço de papel, e ,algum tempo depois,  recebi um bilhete seu. O hilário é que não entendendo bulhufas , ele xerografou, imprimiu o que eu havia escrito, colando como endereço. Guardei e depois vou procurar. 
No meio do caminho, tirou de uma sacola um sanduiche de presunto e uma garrafinha de vinho, ofereceu-me e compartilhamos aquela refeição com tudo que adoro. Algum tempo depois, o trem fez uma parada e ele desceu num  campo  cultivado. Lembro-me de seu vulto sumindo enquanto o trem se afastava. E sempre me pergunto se lhe passei gripe. Hoje, tantos anos depois, estou certa de quê já se foi, mas parece que era um homem feliz.
Enfim, cheguei à Estação de Saint- Nazaire. Pequena , quase vazia. Ali , encontrei um homem gentil, que me ajudou com a mala. Em seguida , rumei para BELC, centro de estudos , onde ficaria alojada durante cerca de 40 dias.  E aqui começa um dos mais belos períodos de minha vida. 
Eu já estava quase curada,  e  tinha grande curiosidade de reconhecer o lugar. Saímos um grupo de estudantes, de várias nacionalidades, todos professores de francês. E foi a primeira vez na vida que vi uma búlgara , assim como ela era a primeira vez que via uma sul- americana , uma brasileira. E daí nasceu uma amizade que dura há 34 anos. Eu em Juiz de Fora, ela em Sofia. Por vezes , nos falamos pelo telefone do Whatzapp. E tanta coisa aconteceu em nossas vidas desde então. Nossas mães , que estavam doente faleceram pouco depois. Perdi meu irmão, meu cunhado e minha inesquecível Teresa. E agora se foi Bruno, ao encontro dos que o antecederam. Svetla casou-se pela segunda vez, teve uma filha, divorciou novamente,  e continua em Sofia , de onde me manda sempre fotos. Trocamos fotos e mando-lhe músicas brasileiras. Ela esta feliz, passa férias na Itália ou na Espanha. Diz-me que o Comunismo é passado.
Mas em 1989, a   Bulgária era ainda um país que vivia sob o regime, aquele que não deu certo em lugar nenhum. Lembro-me de certos acontecimentos que me marcaram e mudaram. Svetla estava sempre acompanhada de outra , que ela me disse ser a esposa de um coronel. E interessante notar, que foi lá que conheci o homem mais gentil de minha vida, por quem me apaixonei quase imediatamente. Nunca mais soube dele, mas guardarei sua foto e sua imagem para sempre  no meu coração. Guy , francês, era "detaché" na Bulgária, e me explicou muita coisa, inclusive a  constante presença da esposa do militar ao lado de Svetla.  Era  sua função vigiá-la , para que nada denunciasse, e que jamais tivesse um comportamento "inadequado"! Não entendi quando lhe ofereci uma cassette de Gal Costa e ela recusou horrorizada. Guy riu quando lhe contei. Svetla teria graves problemas se chegasse em Sofia com uma cassette , em uma língua  desconhecida  e acabaria na Policia. 
Um dia fomos ao Supermercado, sem a vigia; Svetla queria comprar alguns presentinhos para as amigas. Eram barrinhas de chocolate, um bombom , uma barrinha  de cereal. Mas , por mais singelos que fossem os "presentes" , o dinheiro não dava. Meio desesperada, ela jogou no chão todas as moedas que tinha, sentou-se ao lado de seu acervo e tentava ver o que dava e o quê não dava. As  pessoas que passavam,  e que viviam em um país capitalista,  ficavam horrorizadas. Tentei dar-lhe algum dinheiro , que ela recusou, evidentemente por medo.  Houve um  "bal masqué"  , onde fui fantasiada não sei de quê ,mas que fez enorme sucesso. Entrei e saí sob aplausos, enfiada em uma fantasia que nem era minha, Tenho fotos e as vezes posto, como farei a seguir.  
Mas a acontecimento que mais me marcou ocorreu às vésperas do fim do curso. Havíamos recebido , ao chegar, uma sacola , onde colocaríamos os livros e cadernos. Daí, num belo dia, percebi que Svetla jogava dentro da sacola todo pão que não se comia. Lembrando que francês faz as refeições acompanhadas de pão.  Aquilo me intrigava,  pois o  pão francês fica duro como pau no dia seguinte, me lembrando o pão que vinha do  Exército que chegava todos dia em casa. Meu irmão brincava que poderia ser uma ótima arma. Um dia, me enchi de coragem e perguntei-lhe por quê guardava pão velho . E a resposta aterrorizante me desiludiu em definitivo daquilo em que, por tantos anos, eu havia acreditado. " Maria, vou ter que esperar bastante tempo em Orly , e quando sentir fome, molho o pão na água e como. " Pobre Svetla, que, para matar a fome,  seria obrigada a comer pão com água. No dia em que nos despedimos , dei-lhe uma nota de cem dólares, que estou certa que foi parar no lixo. 
Fico feliz quando a vejo na praia, tomando sol, se espreguiçando na neve, com roupas bonitas. Uma mulher bonita , como costumam ser as eslavas, que pode se cuidar. Uma mulher que na Pascoa Ortodoxa,  assa um cordeiro , e vai com a filha  a uma cerimônia na sua Igreja, ela que que dizia que o dia de Natal era, para seu povo, um dia como qualquer outro. 
Escrevi este texto porque fui "acusada" de ser da direita por achar ridícula para o Dia das Crianças a sugestão de uma foice e um martelo de plástico, com os dizeres "Feliz dia das crianças , camaradinhas." Sempre repito que sou da esquerda progressista , NÃO COMUNISTA. Mas minha amiga, que disse que sou da direita, fez questão de afirmar que , apesar disto , continua a ser minha amiga e gostar de mim. A recíproca é verdadeira.       

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

SVETLA HANTOVA, UN E VIE.

1989, bicentenário da Revolução Francesa. E também comemoração da Inconfidência Mineira.
Estávamos em Belo Horizonte. A Primeira Dama Francesa, Danielle Mitterand, havia vindo. No Palácio  das Artes, ela e a Deputada Benedita da Silva, representante da mulher brasileira, faziam uma palestra. Eu havia ganhado uma bolsa para França, por haver criado um grupo de teatro em francês. E neste caso, haviamos até escrito o texto, o quê pareceu ao Adido Cultural extremamente original.  Consegui alojamento para todos meus "atores" e , se não me  engano, igualmente alimentação . E tenho imenso orgulho de  dizer que ali formei muita gente, que , posteriormente, se tornou profissional, como minha querida Cristina , que , passando em concurso do Exército  , e prosseguindo com Mestrado e Doutorado, formou oficiais que iam estudar em países de língua francesa , e é hoje oficial das Forças Armadas.  
Havia a greve do ano, como havia o Carnaval. Mas esta era uma bolsa especial, e eu não ia perdê-la  por causa de alguns malucos que achavam que conseguiriam derrubar o Governo, que neste  tempo já era Sarney. Dei aula em casa, escondida na Universidade, na casa  de alunos, e , finalmente, consegui completar  o calendário. Era uma bolsa especial, com direito a passagem pela AIR FRANCE, estadia em Paris numa casa de estudantes, e passagem para Bretanha, além de considerável soma em dinheiro. Minha mãe estava doente já há alguns anos e tive que fazer  imenso esforço moral para deixá-la. Teresa e Bertrand ficaram responsáveis por ela, além de um batalhão de acompanhantes. Escrevi a cores o nome dos remédios e para cada horário sublinhava com cores diferentes. Mandei plastificar , e minha irmã andava com ele sempre na bolsa, apreensiva de que pudesse haver se enganado. Bertrand vinha todas as noites tentar dormir. 
Quando saí do Brasil , já estava enfraquecida, minha garganta doía, e estava muito magra. Mas minha satisfação por haver conseguido a bolsa, e com um projeto tão original,  me devolvia as forças. A chegada em Paris foi terrível, minha mala, que na confusão da saída, eu havia esquecido de renovar, abriu e vi tudo derramado em pleno aeroporto Charles de Gaule. Eu havia passado a noite  com febre, e não consegui lugar dentre os não fumantes. Hoje, é proibido para todos passageiros.  Argentinos, sentados a meu lado, fumavam sem parar , apesar de meus reiterados pedidos . Aliás, meu sangue gaúcho sempre detestou  "los hermanos".  Afinal, me arrastando, consegui chegar a uma  "navette " , que me conduziu até Porte D'Orléans ( hoje conduz até a Opéra). Fazia um calor infernal ,  eu desci , arrastando minha mala , tentando pegar um taxi. Mas era próximo a 14 de julho , e o mundo havia descido em Paris. Exausta, sentei-me no meio fio e resolvi esperar por um milagre. Não sei quanto tempo depois ele aconteceu. Entrei , e um chofer gentil levou  sob minha recomendação , a mala ao carro.
Mas Paris é realmente uma cidade especial. Depois de esperar não sei quanto tempo, numa espécie de agência, me foi informado o endereço da rua Jean Calvin. O interessante é que nem o chofer conhecia este endereço. Fomos de um lado a outro da Rue Mouffetard , voltamos, e chegamos à conclusão de que esta rua não devia existir. Sinceramente, não sei como descobrimos que era uma rua dentro de um grande portal , como se fosse num prédio. Ou seja, uma rua dentro de uma prédio. Exausta, quase beijei o chofer . E entrei. deram-me uma chave , e eu deveria subir 5 andares, o quê é comum em Paris. Olhei para cima e tive a impressão de ver o Himalaia. Mas era preciso subir. Arrastei-me até lá e sentei exausta. E , de repente, ....lá se foi a chave. Sinceramente, não sei como, mas fui buscá-la. Fiquei com uma marroquina que estava fazendo o Doutorado , não me lembro em quê , em Paris. Quarto singular . No meio, havia uma pia enorme, que devia servir também para se lavar. Conheço bem os franceses. Mas eu queria tomar um banho , me refrescar, deixar a água cair sobre todo meu corpo, minha cabeça, que latejava. Peguei minha toalha e me dirigi para onde me indicaram estar o banheiro. havia uma fila, com muitos orientais . Olhei o quê devia ser o banheiro. Quem conhece Ouro Preto ou qualquer cidade histórica, já deve ter visto aqueles nichos, onde , no fundo se aloja um Santo. Naquele caso , os santos eram substituídos por pessoas, que se escondiam atras de cortinas se plástico , já meio sujas e  rasgadas. Quando chegou minha vez, subi aquele penosamente aquele  cadafalso ,  e tomei um banho , que me pareceu maravilhoso. Enrolada na toalha voltei para quarto. E abri a mala.
DESASTRE!!!Tudo despencou e caiu sobre papéis de minha companheira. Só ouvi " Mon Dieu"!!!!Tentei me desculpar e apanhar tudo, mas as coisas se misturavam. Fiquei meio embrutecida. A mulher me arrancava das mãos o quê era seu , papeis , provavelmente de sua Tese. Parei de pedir "pardon" e fiquei prostada em cima da cama, nua, o quê deve ter sido pior ainda para uma muçulmana. Depois , .....não me lembro. Só sei que não a deixei dormir, tossindo a noite inteira. Pela manhã , devo ter comido alguma coisa, mas estava atrasada. Tomei um taxi, que uma garota me indicou e arrastando minha mala , corri até a estação, não me lembro qual. Tomei o trem. todo meu corpo tremia, Até que me sentei. O resto conto depois. 

   

 
 

segunda-feira, 2 de maio de 2022


SIMPLESMENTE MULHERES 



Em lembrança a meu inesquecível amigo Sílvio


Foi há muito tempo. Eu havia me afastado das aulas de francês por divergências com uma de minha colegas, que por ser a mais velha, liderava as demais. Eu havia acabado do chegar de meu pós-Graduação e Margarida Salomão queria fazer seu doutorado nos Estados Unidos. O Departamento de Letras Estrangeiras não queria dar-lhe licença e eu queria me afastar algum tempo da equipe de francês. Assim, eu resolvia meu problema e Margarida o seu.
Quando voltei ao curso de francês, fiquei pasma. Usava-se quadro de feltro , coisa do tempo de meu avô , e o método era totalmente ultrapassado. Resolvi, sem perguntar a ninguém, que daria um jeito. Fui Consulado Francês, onde consegui um novo método, áudio-visual , que se havia introduzido na época. Consegui que uma livraria da cidade comprasse exemplares . Com a ajuda de minha colega, Margarida, bolamos cartazes, que a editora da Universidade publicou. Meu monitor, que eu havia escolhido, já que não me lembro de haver tido monitor antes, Boni Iavo, marfinês, de língua francesa, me ajudou a distribuir pela Universidade. E a afluência foi enorme, maior do que esperávamos. Se houve resistência ? É claro! Uma de minhas colegas , totalmente dominada pela mais velha veio com certas argumentações, que desconheci. 
E o curso deslanchou, com melhor reputação do que outro de qualquer língua. Criei um teatro em francês, que um amigo e meu cunhado José Carlos me ajudaram a ensaiar. Ludmila escolheu ao acaso um nome , Gavroche, o moleque de rua, de "Os Miseráveis" de Victor Hugo ,que morre na Revolução de 1830. Logo depois, uma de minhas colegas criou um coral de músicas francesas , que persiste , e com o mesmo nome "Chorale Gavroche" . Com a equipe de francês e a de inglês, criamos o CELEM (Centro de Línguas Estrangeiras Modernas) e a cada semana apresentávamos uma exposição diferente. Lembro-me de uma que fiz , e que  obteve grande sucesso, sobre o Impressionismo, e minha amiga , Walquíria,  sobre o poeta Rimbaud. 
A peça, que apresentei no SEDIFRALE ( e nem me lembro mais o quê significava ) na comemoração do bi-centenário da Revolução Francesa e da Inconfidência  Mineira, a que estava presente a então Primeira-Dama da França , Michelle Mitterand, me rendeu uma  bolsa na Bretanha , onde conheci meus amigos búlgaros.  Meus " atores" dentre os quais estava Ludmila , ficaram em um hotel que alugou o Consulado da França. Enfim, aquela reacionária , que gostaria de uma Universidade sem alunos , aposentou-se. E ficamos livres de seus problemas.
Formamos muitos bilingues, como o Deputado Júlio Delgado, que se gaba de ser tradutor quando acompanha  ( ou acompanhava) um
grupo de parlamentares a países de língua francesa. Formamos uma grande amiga Cristina , que chamo de "minha menininha", hoje militar , que passou 1 ano na França , e  esteve no Haiti, minha sobrinha Ludmila, que ganhou uma bolsa na França por haver encantado com sua beleza o Adido Cultural,  que tinha em vista  um novo projeto de ensino de francês. O projeto não deu certo por ser o colégio escolhido excessivamente liberal e,  em decorrência,  tendo havido problemas de disciplina. Hoje, ela dá aulas de francês em Caxambu. E formamos Sílvio e seu namorado Sebastião. Tive uma aluna que morou na França , como Jeune-au pair, estudando e cuidando de crianças. 
Mas de todos eles , os que ficaram para sempre meus amigos íntimos foram Silvio e seu namorado , Sebastião, que , carinhosamente , chamávamos de Sebá. Silvio esteve presente nos momentos trágicos e infinitamente felizes de minha vida. Assim como Sebastião. Quando meu pai, altamente cardiopata, tinha crises e precisava tomar choques, ele muitas vezes me acompanhou. Durante os seis longos anos de agonia de minha mãe, ele esteve sempre a meu lado. Vinha lanchar comigo, conversar. E quando meu irmão morreu. E durante a doença de minha irmã! Vinha lanchar em sua casa todas as semanas. E quando meu cunhado se foi, lá estava ele. Finalmente, quando me tornei a remanescente foi com ele que me abracei e choramos juntos. Muito! Era minha única irmã! 
Mas também esteve  presente nos momentos de intensa alegria. Nos aniversários , nas festas de fim-de-ano que Teresa organizava em uma casa que ficou para Alice , no Condomínio Tiguera. Ele, seus pais e Sebastião. Na festa de celebração de Bodas de Ouro de seus pais , entrei na Igreja com Sebastião. Minha irmã já havia partido.
Por tudo isto, quando soube de sua morte, por intermédio de uma amiga, comecei a chorar convulsivamente e a rezar. Então era esta a razão de seu silêncio diante de minhas mensagens no Whatzapp? O quê lhe trazia tamanho sofrimento que, querendo escapar, resolveu colocar fim à própria vida? 
Minha dor foi incomensurável! E hoje , passados meses, ainda sinto uma opressão no peito. Os outros morreram no momento que Deus determinou. Em que seus cartões de validade tiveram fim. Mas ele o precipitou! Todas as noites oro por sua alma. Assim como oro por todos que já fizeram a passagem. Oro, porque acredito na bondade de Deus , porque sei que Ele é justo.

domingo, 19 de maio de 2019

Douce France


Saudades de um tempo que não volta mais! Meus dez anos! Um dia, meu pai chegou em casa e disse rindo para minha mãe : “ Alice, vamos para a França!” Não me lembro do que pensei na hora, mas depois refleti que deveria deixar no Brasil meus amiguinhos, minha bicicleta, minhas brincadeiras de criança. Partia para um país desconhecido, diferente, cuja língua eu nem sequer balbuciava. Para mim, e acho que para toda a família, esta era uma mudança total. Tiramos os passaportes, meu pai tratou com amigos o que deixaria aqui, arrumamos as malas e fomos embora.
 E depois de uma longa viagem de avião, pela extinta Panair, com escalas em Recife e Dakar, onde senti, ao descer as escadas do avião, um calor que parecia derreter minhas pernas, chegamos a Paris, onde outros militares, em estudos, nos esperavam com as famílias. Eu me sentia estranha! Não conhecia ninguém! Não me lembro do que se passou depois, mas, de repente, eu estava lá, tão longe do Brasil!
Lembro-me de nosso primeiro dia em Paris, com meu pai, minha mãe e minha irmã, que já tinha 21 anos. Meu irmão havia ficado no Rio, e deveria chegar logo depois. Na cidade desconhecida, eu via as pessoas passarem falando aquela língua estranha. Tudo me parecia estranho! Uma menina, mais ou menos de minha idade, passou por nós conversando com uma mulher que devia ser sua mãe. Depois fomos jantar em um restaurante bonito, não sei onde, e meu pai, que já falava bastante bem o francês, fez o pedido de bife com batatas fritas e certo molho, que achei delicioso. Depois, fomos para um hotel que os outros militares brasileiros haviam reservado para nós. Lá o que eu mais gostava era do delicioso café da manhã, que nos serviam no apartamento. Pela primeira vez, comi um croissant! E a geléia! A manteiga que vinha como uma conchinha! Ainda hoje, tantos anos transcorridos, sinto o odor do hotel, do café da manhã, do shampoo em travesseiro que minha mãe comprava no Prisunic , bem perto do hotel. Uma noite, meu pai havia saído, e minha mãe meu deu algum dinheiro (tarefa complicada) para comprar sanduíche de patê numa “charcuterie” ao lado do hotel. Foi alguns dias depois de nossa chegada e eu não falava nada de francês. Tentei me fazer entender, mas foi difícil. Acharam-me engraçadinha, afagaram o meu rosto, e me disseram “mignonne”, “italienne”. Por fim, consegui mostrar o que queria e fui embora feliz com meu sanduíche. Aliás, sempre nos consideraram italianos, e lembro-me de um francês que nos viu e disse raivosamente: “Ces italiens!”
Logo depois começou nossa peregrinação por um lugar para alugar. Não me lembro bem do quanto percorremos, mas um ficou para sempre marcado em minha memória; uma linda casa em Ménilmontant. Lá nasceu o grande chansonnier, Charles Trenet, que ofereceu ao lugar a sempre lembrada “Ménilmontant”, e também a inesquecível Edith Piaf. Naquele tempo, este “quartier” era um lugar quase bucólico, com sua igrejinha, suas velhas casas e prédios bem diferentes dos que havia perto do hotel.  Uma tarde, fomos ver uma casa para alugar, que meu pai havia descoberto. A proprietária era uma senhora bem idosa, cabelos branquinhos, penteados em um coque. A casa pareceu-me deliciosa. As paredes eram recobertas de papel florido e numa sala principal havia seda estampada com rosas, se não me engano. Ainda posso sentir o contato de minhas mãos com a seda. Havia um piano, e me imaginei tocando, fingindo que sabia, como fiz mais tarde na casa de uma amiguinha, filha de outro militar. Torci para que meu pai alugasse, mas, afinal, minha torcida não deu certo e fomos morar na Avenue Mac-Mahon, uma das doze avenidas da Place de l´Étoile, hoje Place Charles de Gaule, um lugar bem mais “burguês”. Nosso prédio, soube em uma de minhas viagens à França, foi construído em 1896, ou seja,  em plena era do Art Nouveau, apesar de obedecer aos padrões haussemanianos (de Haussemann, o grande urbanista que transformou o Paris medieval quase no que é hoje). No prédio, não me lembro de haver franceses. No primeiro andar morava Monsieur Félix Houfouet Boigny, deputado da France d`Outre Mer, ou seja, de uma das colônias na África. Depois da independência, foi eterno Presidente da Costa do Marfim. No hall de seu apartamento havia chifres de elefante, indicando sua origem africana. Havia festas constantemente, e negros chegavam com mulheres louras, o que surpreendia minha mãe. Como poderia ela imaginar que, muitos anos mais tarde, eu namoraria um marfinês?
 No segundo, acho que vivia uma família francesa, mas nunca os vi. No terceiro havia uma família vinda do Ceilão, atual Sri Lanka. As mulheres usavam o célebre sari, e tinham no meio da testa um objeto que descobri chamar-se “bindi”. Nunca vi nenhum homem. Mulheres silenciosas que abaixavam a cabeça quando eu as encontrava nas escadas. No quarto andar, morava uma chilena. Conversou comigo uma vez. Também jamais vi sua família e sempre supus que morasse só. No quinto andar, éramos nós e, no sexto, outra família de militar brasileiro, Dirceu Nogueira, que foi ministro no governo Geisel.
O apartamento ocupava todo o andar, enorme, com uma sala de jantar, seguida de uma sala de leitura, e um grande salão redondo com móveis no estilo Luís XV. Havia lareiras de mármore com espelhos que iam até o texto. Tudo adornado com sancas, florões e lustres de cristal. À direita do hall de entrada, havia um painel de vidro com flores bem ao estilo Art-Nouveau. Arte que prevaleceu pelo mundo ocidental de 1890 a 1920. Toda aquela antiguidade dava-me medo e sempre imaginava que os fantasmas dos que ali moraram me seguiam. O elevador hidráulico era da época da construção. Só subia e tínhamos que descer pelas escadas. Quando subia, um longo tubo emergia do solo. O elevador era todo espelhado e havia uma corda grossa que devia ser puxada. Conforme a força que se usava, ia mais lento ou mais “rápido”.
Em 1981, eu estava em Versailles, fazendo um curso sobre o palácio, e indo um dia a Paris, resolvi fazer uma visita ao prédio. As portas estavam sempre fechadas e toda comunicação era feita por interfone. Sem ter para quem interfonar, fiquei à espreita. Quando a porta se abriu para passagem de alguém, cumprimentei-o e entrei. E voltei no tempo. A única coisa que havia mudado era o elevador, substituído por outro, moderno e sem graça. Bati na “loge” do concierge e conversei bastante com ele. Fiquei sabendo que no prédio não havia mais famílias. Ficaria muito caro. “Nosso” apartamento abrigava uma firma de contabilidade. E havia uma clínica “Kinesthésiste”, uma espécie de fisioterapia. Tirei fotos de tudo, inclusive dele. O velho, a quem eu dera, em lágrimas, François, meu peixinho, pois devia voltar ao Brasil, já havia falecido há anos. Em 94, com minha irmã, voltei ao prédio. Não havia mais concierge, subimos as escadas e batemos na porta do quinto andar. Uma mulher atendeu, expliquei-lhe que havia morado ali quando criança, que éramos brasileiros. Os móveis da sala de jantar haviam desaparecido. Havia movimento de muitas pessoas. Não nos deixou entrar como era de esperar, já que estávamos em Paris. Mas pedi-lhe que me deixasse ver o “panneau” art-nouveau, o que ela permitiu, comentando a sua beleza. Descemos meio decepcionadas, mas, enfim, havíamos conseguido, coisa quase impossível; resgatar um pedacinho do passado.
Assim que chegamos, meu pai inquietou-se; era preciso que se encontrasse alguma escola para mim. Teresa, minha irmã, já havia concluído o secundário, mas eu havia abandonado o primário. A princípio, fui matriculada na mesma escola que a filha do coronel Dirceu, Déa. Durou pouco e meu pai resolveu me colocar num curso para crianças na Aliança Francesa. Ótima idéia! Tinha como colegas crianças de várias nacionalidades: americano, húngaro, chinês, mexicano, coreano. As meninas eram, Rosa, uma espanhola, que estudava balé na “Opéra” e Piabgrum Fuangrabil (?) , tailandesa , de quem me tornei amiga, Fui com Teresa almoçar em sua casa e comemos comida tailandesa. E ela veio à minha casa, para um belo almoço brasileiro, que minha mãe preparou com todo seu talento culinário. Nossa professora, Madame Benoît, escolhia, uma vez por mês, um de nós para falar de seu país. E adorávamos. Faziam perguntas, que nos esforçávamos por responder. Afinal, éramos crianças, ainda pré-adolescentes! Mas todos nós já falavam francês fluente. Como foi provado pelo neurolinguista, Eric Lenneberg, a criança tem mais facilidade de aprender uma língua, sobretudo se interage com outras pessoas, em ambiente natural. E durante toda a estadia de um ano e dez meses, fui  intérprete oficial de minha mãe.
Aos domingos, eu, meu pai, minha mãe e minha irmã íamos passear nos arredores de Paris, ou meu pai me levava aos museus. Meu irmão tinha outros programas. Foi assim que me apaixonei pela Antiguidade e sonhei em ser arqueóloga. Fui a espetáculos inesquecíveis, visitei castelos medievais e percorri salões sombrios, onde, há centenas e centenas de anos, tanta gente viveu. E também outros de outras épocas. Tive a sorte de ter um pai cultivado, e um irmão, também intensamente interessado em cultura.  Lembranças destes velhos tempos me vêm à mente, coisas que havia esquecido, o sanduíche de “jambon”, o “cornet” de fritas, a fila do vinho que minha mãe freqüentava diariamente, e que meu pai, rindo, filmou. A mulher que me achava engraçadinha – “mignonne” – no Prisunic, onde minha mãe me mandava comprar alguma coisa, minha primeira máquina de fotografia, que ainda guardo com carinho, já bem velhinha. Revendo o filme “Ballon Rouge”, revejo a Paris de minha infância, tão diferente da Paris de hoje!  
Tenho em casa muitos filmes 8ml e slides. Depois de intensa busca, consegui um aparelho de projeção de 8ml (já que o antigo só serve de lembrança), e por vezes revejo os velhos filmes. Sinto saudades de minha infância e de todos os que partiram. Foram-se todos! Mas assim é a vida, uns partem e outros chegam. E Paris vai continuar no meu coração, com as castanhas cozidas na brasa de Marius, emigrante grego, a perspectiva do Arco do Triunfo e da Torre Eiffel que eu via da minha sacada, com François nadando feliz em uma das pias do banheiro. Com tudo de bom que só a “insouciance” da infância e uma experiência como esta proporcionam.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018


Os atos da vida
Imagine a vida como o teatro. Neste teatro cada um representa um papel. Escolhemos o que queremos, já que para isto temos o livre arbítrio ou, como diz Sartre, somos condenados à liberdade. E não podemos culpar ninguém por nossas escolhas, elas são nossas e de mais ninguém. Quando crianças, vivemos o primeiro ato, e aí somos preferencialmente coadjuvantes. Mas já começamos a escolher e tentar abrir caminho. No segundo ato, somos adolescentes e nossas escolhas já começam a refletir o que queremos. Na juventude, já nos tornamos adultos. Devemos saber o que queremos e sabemos que nossas escolhas são aquelas que nos permitirão chegar ao terceiro e derradeiro ato. E não há quarto.
Há alguns dias, uma amiga mandou-me uma foto que me remeteu ao passado.  Tirada há mais de cinqüenta ou sessenta anos, mostra, reunidos, na porta principal do colégio onde estudei, velhos rostos. Já havia esquecido aquelas pessoas. Ou pensava que havia esquecido, porque ao revê-las ali, olhando-me fixamente, senti um aperto no coração. Uma saudade.
E assim, comecei a relembrar o meu passado. Minha mais remota lembrança, está fixada em uma foto. Foi num remoto dia de minha vida, em que estava sentava numa espreguiçadeira, numa varanda que havia nos fundos de minha casa, no colo de meu pai. Eu ainda era um bebê. De repente, ele sumiu, vi-me sozinha, e comecei a gritar. Escondido, ele tomou a foto.  Guardo-a até hoje. Quando conto, muitas pessoas não acreditam, mas não me importo. Tenho certeza. Alguns meses depois, eu já andava, cadeiras haviam sido postas numa passagem externa da casa onde nasci, faziam faxina. Peguei a tampa de uma panela corri e, feliz, comecei a bater no assento de uma cadeira.  E há meu aniversário, de quatro anos. Lembro-me de minha  mãe me vestindo e penteando meus cabelos e me dizendo carinhosamente alguma coisa. Lembro e quase revivo este momento.  Tenho duas fotos minhas, neste dia inesquecível, sobre um móvel em minha sala. E o filme, onde apareço brincando com crianças que não sei mais por onde andam, nem se estão vivas. E a festa com um “lindo” bolo feito por minha irmã, Teresa, eu de pé sobre uma cadeira, observando cada uma das crianças antes de assoprar as velinhas. E alguns anos depois, no velho cinema Glória, no colo aconchegante de minha mãe, que não perdia um filme mexicano. Naquele tempo as crianças iam ao cinema à noite, para dormir. E quando minha mãe me ninava, ouvindo as novelas e  contando-me histórias de sua infância. Lembro-me de minha oração, de camisolinha, ajoelhada na cama, recitando com minha mãe – sempre ela- “Com Deus me deito, com Deus me levanto. Com a graça de Deus e do Espírito Santo. Menino Jesus na beira, São José no canto. Que a Virgem Maria me cubra com seu divino manto.” E aí eu desfiava um rosário de nomes queridos : “ Deus abençoe a mamãe, o papai, a vovó, ....” E o dia em que vendo meus irmãos, bem mais velhos do que eu ( Teresa onze anos e Sergio quatorze anos) indo para o colégio, coloquei uma capinha de neném – que se usava naquele tempo – peguei um merendeira velha e fui esperar o ônibus. O mais incrível é que cheguei a subir, sendo salva por uma vizinha que veio correndo e me pegou no colo. Eu devia ter menos  de quatro anos, pois mudei-me desta casa com esta idade.
Já com cinco anos, lembro-me de minha manha, me jogando no chão , quando uma empregadinha não pode comprar pipoca para mim. Chamava-se Lurdes, e morreu logo depois, tísica. Minha avó estava muito doente e minha mãe não observava que Lurdes não estava bem. Até que uma vizinha a alertou. Tinha dezoito anos. E do dia em que minha avó morreu. Minha mãe havia ido servir-lhe o chá da tarde e encontrou-a morta. Teresa me contava uma história em outro cômodo, quando minha mãe irrompeu desesperada, chorando alto e dizendo “Mamãe morreu, mamãe morreu.” Lembro-me de mim, sentada no seu colo, chorando, enquanto ela se abraçava a mim, sempre em prantos. Lembro-me de que fomos dormir na casa de uma vizinha, Teresa e eu, e acordei cheia de xixi. Dei um pulo, e corri para a cama de minha irmã. Lembranças.
Naquela foto vejo pessoas de quem não me lembrava mais. Dona Maria Estela, que me alfabetizou e que não gostava de mim. Por qualquer bobagem punha-me de castigo no banheiro, que ficava dentro da sala de aula. Era um lugar escuro e úmido com alguma coisa que parecia um tacho escuro e carcomido. Não me lembro se havia vaso sanitário. Um dia, cheguei em casa e contei para minha mãe, que imediatamente foi ao colégio. Não sei o que aconteceu, mas nunca mais fui presa no banheiro tenebroso. Décadas depois, li no jornal o anúncio de sua morte. Lá está ela na foto , feiosa, meio mal-encarada, com um sorriso forçado. E havia sua irmã, dona Nilda, no segundo ano. Bonitona. Sempre achei que pintava os cabelos de uma cor meio ruiva. Ela sorri. E dona Ruth, acompanhada de seu marido Professor Romano, que encontrei mais tarde, quando já na adolescência voltei à cidade. Eu costumava ficar de castigo depois da aula, não me lembro quem me punha, dona Nilda ou dona Ruth, ou talvez as duas, e tinha que escrever dezenas de vezes: “ Não posso rir na aula.” , ou alguma banalidade semelhante. Anotavam a transgressão no diário, que eu sempre entregava à minha mãe, que assinava sem prestar atenção. Para ela eram besteiras. E vi dona Carolina , a Diretora, com seu corpo disforme, gordinho, de perninhas bem curtas. E tantas outras recordações destes meados do século passado.
Depois fui embora, passei algum tempo no Rio, onde meu pai, engenheiro militar, dava aula no IME. Eu odiava aquele ônibus que ia me  pegar na porta de casa. Afinal,  já era quase uma mocinha. Passado um ano, consegui convencê-lo a me deixar ir de bonde. Ia feliz , fazendo o percurso da Praia Vermelha ao Anglo- Americano, que ficava em Botafogo, onde hoje está um prédio da Petrobras. Era para mim um grito de liberdade, talvez o primeiro, repetido ao longo de minha vida. Algum tempo depois, meu pai anunciou que havia recebido uma bolsa para França. Mandou para Juiz de Fora a família, já que tinha que devolver a casa, enquanto tratava de tudo no Rio. Lembro-me vagamente de um passaporte. Eu tinha dez anos e não tinha idéia do que aquela experiência significaria em minha vida. Lá ficamos por um ano e, acho eu, dez meses. Mas esta experiência com uma cultura e língua diferentes, ainda tão jovem, conto depois.
Voltando ao Brasil, ficamos no Rio. Eu tinha 12 anos e estava na puberdade, com todos seus problemas. Mas havia coisas boas, como meus passeios com Teresa às quintas- feiras na Sears, de saudosa memória. Meu pai sempre nos dava algum dinheiro para um lanche e alguma comprinha a mais. Minha família era do Sul, mas ele preferia vir para Juiz de Fora nas férias. Era perto e barato. Alguns anos depois, viemos para Juiz de Fora, onde eu havia nascido. Minha mãe engravidara logo depois de sua chegada aqui, vindos do Rio. Meu pai tinha na época uma função já na sua área de engenharia. Era capitão, se não me engano. Belo homem , deixou muitas mulheres apaixonadas. Eu ainda não havia nascido. Naquela volta, eu estava entrando no  segundo ato de minha vida. Tinha 15 anos e vivi minha grande experiência do amor. Voltei para o Granbery, onde estudara a maior parte do primário.
E vendo aquela velha foto revi aqueles anos dourados. A Sala das Moças, no comando de dona Cecília. Lá está ela na foto. Sempre austera. Um dia na semana tínhamos “trabalhos manuais” e dona Cecília nos ensinava coisas interessantes. Lá fiz não sei quantas blusas de tricô, que eu sabia desde criança. Fiz toalhas de vagonite ( alguém conhece?) Ficava na porta que dava para o pátio dos rapazes. Meu namorado fazia um sinal e eu escapava para encontrar-me com ele. As vezes dona Cecília me flagrava e fazia-me voltar. Sempre educadamente. Lembro-me que tinha o hábito de morder o lábio superior e sempre pensei que isso devia trazer algum prejuízo. Vi meu professor de música, Reinaldo, que uma vez por semana lutava para nos fazer cantar “Luar do Sertão” Éramos um bando desafinado, cada um indo para um lado. Tentava nos colocar em lugares estratégicos para a primeira e segunda voz. Embaralhávamos tudo, sentávamos errado. Linda alma aquela, homem infinitamente bondoso. E dona Zilda, professora de francês, que se encantou ao saber que eu havia morado na França e falava francês. Era vaidosa e bonitona. Falava bem o francês, que não sei onde aprendeu. Na foto, diferencia-se das demais, com blusa estampada e manga curta. E  Júlio Camargo, que nos ensinava geografia. Eu tinha uma coleção de Atlas que herdei de meus irmãos e outros que meu pai comprava. Professor Camargo era austero, e jamais ninguém ousou fazer qualquer tipo de algazarra em suas aulas. Mas todos  gostávamos dele. Lembro-me de meu amigo  Nilo Ayupe, que não chegou a vir tomar um lanche comigo, como havíamos combinado.  E tantos outros.
Quando entrei na Universidade, para cursar Letras, quando fiz meu concurso e meu tornei profissional, tudo mudou. Eu mudei. Fui para Porto Alegre fazer minha Pós-Graduação, vivi longe de minha família. Tive outros amores, dancei a noite inteira, cheguei em casa de manhã, tomei banho e fui para minha aula de semântica. Expulsei de casa meu namorado francês, ultra-esquerda, que me chamou de burguesa porque eu me pintava. Amei os Beatles, Elvis. Chorei quando ele morreu. Fui esquerda, meus amores todos eram escolhidos por suas ideologias. Voltei para minha cidade. Trabalhei, ganhei bolsas para a França.
E quando meu pai adoeceu, com gravíssima cardiopatia, trouxe-o para minha casa e cuidei dele até sua morte. Um ano depois, minha mãe quebrou o fêmur, deprimida nunca mais voltou a andar, até sua morte seis anos mais tarde . Eu já entrara no meu terceiro ato. A dor daquelas perdas , o sofrimento , haviam deixado suas marcas em mim. Um ano e meio depois, perdi meu irmão.  Nova dor, noites em claro sem poder compreender como ele pudera morrer tão repentinamente. E a facada final; a morte de minha irmã, Teresa, amiga, companheira, confidente. Acompanhei-a cada dia, sofri cada dia, sabendo que não havia esperança. Mas sempre há um fio de esperança. Teresa faleceu há 13 anos. Naquele dia, com aquela facada no coração, mergulhei no meu terceiro ato.
Sinto-me como  aquele menino, que descreve Mario de Andrade, que já tendo comido a maior parte de suas cerejas , vendo o cesto quase vazio, quer gozar o que resta até o último pedacinho. Hoje cada dia vivido é um presente de Deus. E como diz Gilbert Bécaud no seu maravilhoso “Et maintenant”:* “ Et puis un soir , dans mon miroir, je verrai bien la fin du chemin. Pas une fleur, et pas de pleurs au moment de l´adieu.” Já deixei por escrito o que desejo: sem velório, meu corpo será cremado, e somente estará presente minha família. Minhas cinzas serão lançadas ao vento e meu espírito poderá, melhor do que jamais, apreciar a beleza da criação do Senhor.
*E uma noite , em meu espelho, verei o fim do caminho. Nada de flores , nada de choro , no momento do adeus.”