QUEM SOU EU

Sou professora de Francês, mas hoje minha principal atividade é escrever e ler, além de cuidar dos meus três vira-latas: Charmoso, Príncipe e Luther.



Gosto de fazer ginástica, sou vegetariana e adoro animais em geral, menos baratas.



Sinto especial prazer quando meus textos agradam aos meus leitores. Espero continuar produzindo e me comunicando com todos os meus amigos, neste maravilhoso universo da net.



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sexta-feira, 10 de agosto de 2018


Os atos da vida
Imagine a vida como o teatro. Neste teatro cada um representa um papel. Escolhemos o que queremos, já que para isto temos o livre arbítrio ou, como diz Sartre, somos condenados à liberdade. E não podemos culpar ninguém por nossas escolhas, elas são nossas e de mais ninguém. Quando crianças, vivemos o primeiro ato, e aí somos preferencialmente coadjuvantes. Mas já começamos a escolher e tentar abrir caminho. No segundo ato, somos adolescentes e nossas escolhas já começam a refletir o que queremos. Na juventude, já nos tornamos adultos. Devemos saber o que queremos e sabemos que nossas escolhas são aquelas que nos permitirão chegar ao terceiro e derradeiro ato. E não há quarto.
Há alguns dias, uma amiga mandou-me uma foto que me remeteu ao passado.  Tirada há mais de cinqüenta ou sessenta anos, mostra, reunidos, na porta principal do colégio onde estudei, velhos rostos. Já havia esquecido aquelas pessoas. Ou pensava que havia esquecido, porque ao revê-las ali, olhando-me fixamente, senti um aperto no coração. Uma saudade.
E assim, comecei a relembrar o meu passado. Minha mais remota lembrança, está fixada em uma foto. Foi num remoto dia de minha vida, em que estava sentava numa espreguiçadeira, numa varanda que havia nos fundos de minha casa, no colo de meu pai. Eu ainda era um bebê. De repente, ele sumiu, vi-me sozinha, e comecei a gritar. Escondido, ele tomou a foto.  Guardo-a até hoje. Quando conto, muitas pessoas não acreditam, mas não me importo. Tenho certeza. Alguns meses depois, eu já andava, cadeiras haviam sido postas numa passagem externa da casa onde nasci, faziam faxina. Peguei a tampa de uma panela corri e, feliz, comecei a bater no assento de uma cadeira.  E há meu aniversário, de quatro anos. Lembro-me de minha  mãe me vestindo e penteando meus cabelos e me dizendo carinhosamente alguma coisa. Lembro e quase revivo este momento.  Tenho duas fotos minhas, neste dia inesquecível, sobre um móvel em minha sala. E o filme, onde apareço brincando com crianças que não sei mais por onde andam, nem se estão vivas. E a festa com um “lindo” bolo feito por minha irmã, Teresa, eu de pé sobre uma cadeira, observando cada uma das crianças antes de assoprar as velinhas. E alguns anos depois, no velho cinema Glória, no colo aconchegante de minha mãe, que não perdia um filme mexicano. Naquele tempo as crianças iam ao cinema à noite, para dormir. E quando minha mãe me ninava, ouvindo as novelas e  contando-me histórias de sua infância. Lembro-me de minha oração, de camisolinha, ajoelhada na cama, recitando com minha mãe – sempre ela- “Com Deus me deito, com Deus me levanto. Com a graça de Deus e do Espírito Santo. Menino Jesus na beira, São José no canto. Que a Virgem Maria me cubra com seu divino manto.” E aí eu desfiava um rosário de nomes queridos : “ Deus abençoe a mamãe, o papai, a vovó, ....” E o dia em que vendo meus irmãos, bem mais velhos do que eu ( Teresa onze anos e Sergio quatorze anos) indo para o colégio, coloquei uma capinha de neném – que se usava naquele tempo – peguei um merendeira velha e fui esperar o ônibus. O mais incrível é que cheguei a subir, sendo salva por uma vizinha que veio correndo e me pegou no colo. Eu devia ter menos  de quatro anos, pois mudei-me desta casa com esta idade.
Já com cinco anos, lembro-me de minha manha, me jogando no chão , quando uma empregadinha não pode comprar pipoca para mim. Chamava-se Lurdes, e morreu logo depois, tísica. Minha avó estava muito doente e minha mãe não observava que Lurdes não estava bem. Até que uma vizinha a alertou. Tinha dezoito anos. E do dia em que minha avó morreu. Minha mãe havia ido servir-lhe o chá da tarde e encontrou-a morta. Teresa me contava uma história em outro cômodo, quando minha mãe irrompeu desesperada, chorando alto e dizendo “Mamãe morreu, mamãe morreu.” Lembro-me de mim, sentada no seu colo, chorando, enquanto ela se abraçava a mim, sempre em prantos. Lembro-me de que fomos dormir na casa de uma vizinha, Teresa e eu, e acordei cheia de xixi. Dei um pulo, e corri para a cama de minha irmã. Lembranças.
Naquela foto vejo pessoas de quem não me lembrava mais. Dona Maria Estela, que me alfabetizou e que não gostava de mim. Por qualquer bobagem punha-me de castigo no banheiro, que ficava dentro da sala de aula. Era um lugar escuro e úmido com alguma coisa que parecia um tacho escuro e carcomido. Não me lembro se havia vaso sanitário. Um dia, cheguei em casa e contei para minha mãe, que imediatamente foi ao colégio. Não sei o que aconteceu, mas nunca mais fui presa no banheiro tenebroso. Décadas depois, li no jornal o anúncio de sua morte. Lá está ela na foto , feiosa, meio mal-encarada, com um sorriso forçado. E havia sua irmã, dona Nilda, no segundo ano. Bonitona. Sempre achei que pintava os cabelos de uma cor meio ruiva. Ela sorri. E dona Ruth, acompanhada de seu marido Professor Romano, que encontrei mais tarde, quando já na adolescência voltei à cidade. Eu costumava ficar de castigo depois da aula, não me lembro quem me punha, dona Nilda ou dona Ruth, ou talvez as duas, e tinha que escrever dezenas de vezes: “ Não posso rir na aula.” , ou alguma banalidade semelhante. Anotavam a transgressão no diário, que eu sempre entregava à minha mãe, que assinava sem prestar atenção. Para ela eram besteiras. E vi dona Carolina , a Diretora, com seu corpo disforme, gordinho, de perninhas bem curtas. E tantas outras recordações destes meados do século passado.
Depois fui embora, passei algum tempo no Rio, onde meu pai, engenheiro militar, dava aula no IME. Eu odiava aquele ônibus que ia me  pegar na porta de casa. Afinal,  já era quase uma mocinha. Passado um ano, consegui convencê-lo a me deixar ir de bonde. Ia feliz , fazendo o percurso da Praia Vermelha ao Anglo- Americano, que ficava em Botafogo, onde hoje está um prédio da Petrobras. Era para mim um grito de liberdade, talvez o primeiro, repetido ao longo de minha vida. Algum tempo depois, meu pai anunciou que havia recebido uma bolsa para França. Mandou para Juiz de Fora a família, já que tinha que devolver a casa, enquanto tratava de tudo no Rio. Lembro-me vagamente de um passaporte. Eu tinha dez anos e não tinha idéia do que aquela experiência significaria em minha vida. Lá ficamos por um ano e, acho eu, dez meses. Mas esta experiência com uma cultura e língua diferentes, ainda tão jovem, conto depois.
Voltando ao Brasil, ficamos no Rio. Eu tinha 12 anos e estava na puberdade, com todos seus problemas. Mas havia coisas boas, como meus passeios com Teresa às quintas- feiras na Sears, de saudosa memória. Meu pai sempre nos dava algum dinheiro para um lanche e alguma comprinha a mais. Minha família era do Sul, mas ele preferia vir para Juiz de Fora nas férias. Era perto e barato. Alguns anos depois, viemos para Juiz de Fora, onde eu havia nascido. Minha mãe engravidara logo depois de sua chegada aqui, vindos do Rio. Meu pai tinha na época uma função já na sua área de engenharia. Era capitão, se não me engano. Belo homem , deixou muitas mulheres apaixonadas. Eu ainda não havia nascido. Naquela volta, eu estava entrando no  segundo ato de minha vida. Tinha 15 anos e vivi minha grande experiência do amor. Voltei para o Granbery, onde estudara a maior parte do primário.
E vendo aquela velha foto revi aqueles anos dourados. A Sala das Moças, no comando de dona Cecília. Lá está ela na foto. Sempre austera. Um dia na semana tínhamos “trabalhos manuais” e dona Cecília nos ensinava coisas interessantes. Lá fiz não sei quantas blusas de tricô, que eu sabia desde criança. Fiz toalhas de vagonite ( alguém conhece?) Ficava na porta que dava para o pátio dos rapazes. Meu namorado fazia um sinal e eu escapava para encontrar-me com ele. As vezes dona Cecília me flagrava e fazia-me voltar. Sempre educadamente. Lembro-me que tinha o hábito de morder o lábio superior e sempre pensei que isso devia trazer algum prejuízo. Vi meu professor de música, Reinaldo, que uma vez por semana lutava para nos fazer cantar “Luar do Sertão” Éramos um bando desafinado, cada um indo para um lado. Tentava nos colocar em lugares estratégicos para a primeira e segunda voz. Embaralhávamos tudo, sentávamos errado. Linda alma aquela, homem infinitamente bondoso. E dona Zilda, professora de francês, que se encantou ao saber que eu havia morado na França e falava francês. Era vaidosa e bonitona. Falava bem o francês, que não sei onde aprendeu. Na foto, diferencia-se das demais, com blusa estampada e manga curta. E  Júlio Camargo, que nos ensinava geografia. Eu tinha uma coleção de Atlas que herdei de meus irmãos e outros que meu pai comprava. Professor Camargo era austero, e jamais ninguém ousou fazer qualquer tipo de algazarra em suas aulas. Mas todos  gostávamos dele. Lembro-me de meu amigo  Nilo Ayupe, que não chegou a vir tomar um lanche comigo, como havíamos combinado.  E tantos outros.
Quando entrei na Universidade, para cursar Letras, quando fiz meu concurso e meu tornei profissional, tudo mudou. Eu mudei. Fui para Porto Alegre fazer minha Pós-Graduação, vivi longe de minha família. Tive outros amores, dancei a noite inteira, cheguei em casa de manhã, tomei banho e fui para minha aula de semântica. Expulsei de casa meu namorado francês, ultra-esquerda, que me chamou de burguesa porque eu me pintava. Amei os Beatles, Elvis. Chorei quando ele morreu. Fui esquerda, meus amores todos eram escolhidos por suas ideologias. Voltei para minha cidade. Trabalhei, ganhei bolsas para a França.
E quando meu pai adoeceu, com gravíssima cardiopatia, trouxe-o para minha casa e cuidei dele até sua morte. Um ano depois, minha mãe quebrou o fêmur, deprimida nunca mais voltou a andar, até sua morte seis anos mais tarde . Eu já entrara no meu terceiro ato. A dor daquelas perdas , o sofrimento , haviam deixado suas marcas em mim. Um ano e meio depois, perdi meu irmão.  Nova dor, noites em claro sem poder compreender como ele pudera morrer tão repentinamente. E a facada final; a morte de minha irmã, Teresa, amiga, companheira, confidente. Acompanhei-a cada dia, sofri cada dia, sabendo que não havia esperança. Mas sempre há um fio de esperança. Teresa faleceu há 13 anos. Naquele dia, com aquela facada no coração, mergulhei no meu terceiro ato.
Sinto-me como  aquele menino, que descreve Mario de Andrade, que já tendo comido a maior parte de suas cerejas , vendo o cesto quase vazio, quer gozar o que resta até o último pedacinho. Hoje cada dia vivido é um presente de Deus. E como diz Gilbert Bécaud no seu maravilhoso “Et maintenant”:* “ Et puis un soir , dans mon miroir, je verrai bien la fin du chemin. Pas une fleur, et pas de pleurs au moment de l´adieu.” Já deixei por escrito o que desejo: sem velório, meu corpo será cremado, e somente estará presente minha família. Minhas cinzas serão lançadas ao vento e meu espírito poderá, melhor do que jamais, apreciar a beleza da criação do Senhor.
*E uma noite , em meu espelho, verei o fim do caminho. Nada de flores , nada de choro , no momento do adeus.”

segunda-feira, 30 de abril de 2018

HÁ CINQUENTA ANOS: A revolução que não aconteceu


HÁ CINQUENTA ANOS: A Revolução que não aconteceu
Como era o mundo há cinqüenta anos? Estávamos divididos entre dois impérios: o Soviético e o Capitalista.  Estes dois impérios haviam se formado a partir da Segunda guerra  como frente de combate ao Nazismo. Num erro estratégico brutal, através da operação Barbarrossa, a Alemanha invade a Rússia, comandada pelo camarada Stalin, pouco depois o Japão, que juntamente com a Itália e Alemanha fazia parte do chamado Eixo, bombardeia a base naval americana de Pearl Harbour, obrigando os Estados Unidos, governado por Franklin Roosevelt, a igualmente atacar a Alemanha.
Terminada a Guerra, com a derrota  nazista, e seus parceiros, formam-se dois grupos ideologicamente opostos, divididos pelo que Churchill , Primeiro Ministro inglês,  chamou de “cortina de ferro”.  Em 1948, o Partido Comunista Chinês toma o poder. E assim viveu o mundo entre capitalismo e comunismo. Desde 1945 até a queda do muro de Berlim, em 1990.  Mas durante estes 45 anos o mundo deu voltas ( ou como diria o francês  “ Le monde a bougé”). Várias guerras deram origem a regimes de orientação comunista como a da Coréia do norte, do Vietnam, do Camboja. Entretanto, excetuando a Coréia do Norte , os regimes chamados de extrema esquerda foram desaparecendo. Hoje, somente restam China e seu comunismo capitalista, a miserável Coréia do Norte, Cuba, igualmente miserável, e o bolivarianismo, na infeliz Venezuela.
Naquele ano de 1968, o mundo começou a mexer-se de forma mais expressiva. Vários acontecimentos determinaram este pipocar, de um lado e de outro. Já em 1956, lembro-me que morava na França, tinha 10 anos e assistia pela televisão, a revolta na Hungria,  talvez o primeiro movimento de insurreição contra o comunismo. A princípio foram estudantes que invadiram uma estação – evidentemente estatal – querendo transmitir suas reivindicações. Apesar de brutalmente contidos, com mortes, o movimento que buscava mudanças espalhou-se pela cidade. Forças do Pacto de Varsóvia, que reunia a União Soviética e todos os países do Leste (fundado na cidade de Varsóvia , em1955, e extinto em 1991)  sufocaram o movimento, que se extinguiu em definitivo em janeiro de 1957. Pedia-se liberdade, democracia, como se pedia também em países do mundo capitalista, dominados por Batistas, Trujillos,  Somozas, Duvaliers ( Papa Doc) , respectivamente ditadores de Cuba, República Dominicana, Nicaragua e  Haiti, além de outros que não conheço. Todos protegidos pelos Estados Unidos e enriquecidos às custas do empobrecimento do povo. E sem esquecer Alfredo Stroessner, crudelíssimo ditador do Paraguay, durante dezenas de anos. Deu abrigo ao nazista Joseph Mengele, médico-monstro, cujas proezas incluíam, entre outras, amarrar as pernas de mulheres em trabalho de parto. Morreu de forma misteriosa, se não me engano no Brasil, assim como seu protetor, Stroessner.
Em 1959, o primeiro movimento “libertador”, liderado pelos guerrilheiros de Sierra Maestra, instala o comunismo na ilha. Em 1964, ocorre o golpe militar no Brasil, com prisões,  tanques  nas ruas, foragidos políticos, gente torturada e assassinada. Quem viveu estes anos, sabe bem o que é realmente um “golpe”. Na verdade, poucos eram os países democráticos no chamado “mundo livre”. Sou da geração que assistiu a tudo isso, que se horrorizou, que teve medo. E ao tomarmos conhecimento de tudo o que acontecia, muitos de nós optou pelo lado oposto. Viramos “comunistas”.
Em 1967, morre Chê, e torna-se nosso grande herói, vítima do capitalismo, no qual vivíamos confortavelmente. E é interessante notar que foi naquele ano, e no seguinte, que surgem no Brasil os primeiros sinais da frustrada guerrilha, que tantas vidas jovens levou. Movimentos insurrecionais surgem em regiões afastadas mas também nas cidades. Houve seqüestros, de Embaixadores sendo o mais famoso o do Embaixador americano. E ainda a inesquecível  luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos e o brutal assassinato de Martin Luther King, o maior líder negro, orgulho da raça. Seu assassino cumpriu  prisão perpétua até sua morte em 1998.  O assassinato de Robert Kennedy, que também provoca grande comoção no mundo. Havia um movimento de revolta por um mundo melhor, fosse de que cor, ou ideologia, fosse.
Também do outro lado do mundo, do outro lado daquela “cortina de ferro” surgia o movimento de liberação chamada “ Primavera de Praga”.  O dirigente do Partido  Comunista Tcheco Alexander Dubcek procura dar ao povo maior liberdade , introduzindo Reformas importantes e sobretudo uma nova Constituição. A incrível experiência da Liberdade, inspira o escritor Milan Kundera a escrever o mais famoso de seus livros “ A insustentável leveza do ser”. Mas Praga é invadida pelos tanques do Pacto de Varsóvia, e a esperança de LIBERDADE  acaba tendo muitos intelectuais fugindo, como o próprio Kundera , que exilou-se na França, onde recebeu cidadania francesa.
Ora, neste ano de 1968, sobre o qual Zuenir Ventura escreveu o livro “1968, o ano que não acabou”, no qual se refere especialmente ao Brasil, e que ainda não li, há coisa demais acontecendo. Fazendo uma breve retrospectiva, lembremo-nos que até 1958, vigorava na França a IVa Republica, instituída após a Segunda Guerra, e que não funcionou.  E Charles de Gaulle era, indubitavelmente, um herói nacional. Exilou-se na Inglaterra, quando da invasão nazista, de onde liberou “La France Libre”, com uma emissão de rádio que os franceses ouviam às escondidas. Voltando à França, o general de Gaulle, funda seu partido e reúne forças para promover a V Repubica . Ou seja, a V Constituição. Eleito em 1958, reelegeu-se até 1965. Mas sua atuação autoritária, ainda que tenha sido extremamente positiva para uma França, há poucos anos saída de uma guerra e de uma invasão, desagradava a estudantes e operários, estes comumente comunistas.
Foi então, em meio a este mundo conturbado que ocorre um incidente talvez banal de uma revolta localizada,  mas que teria grande repercussão. Não se pode localizar exatamente o momento em que surgiu a idéia de revolucionar a França. O Mundo brigava, americanos lutavam contra vietcongs, tchecos eram massacrados, africanos lutavam por suas liberdades. Um pequeno incidente na Universidade de Nanterre –Paris X – desencadeia uma reação desproporcional. Na inauguração de uma piscina,  comparece o Ministro  da Juventude e dos esportes,  há uma discussão entre ele e um estudante ruivo de origem alemã e judaica, Daniel Cohn-Bendit, que torna-se líder do movimento reivindicatório . O Ministro é vaiado pelos estudantes , o que deixa bem claro o descontentamento.  Não consta que Daniel pertencesse a algum partido político, mas pensava que era necessário movimentar a França , diante de um mundo em ebulição. Greves de estudantes e operários obrigam De Gaulle a tomar providências policiais.  Após o envolvimento da polícia , com prisões, a revolta concentra-se  no Quartier Latin . Dali se expandiu por toda a França. Houve barricadas em várias cidades, o movimento , ao que parece pretendia trazer de volta a célebre Comuna de 1871, que pretendia instituir o primeiro governo proletário no mundo. À Revolta de 1968, unem-se intelectuais como Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, Jean-Luc Goddard, e François Truffaut, entre outros. O Partido Comunista Francês, sob a direção de Georges Marchais, toma posição contrária, como havia acontecido no Brasil, com a posição de Luís Carlos Prestes contrária à guerrilha.  Num dia memorável, o grande poeta surrealista, Louis Aragon, já bem velho,  tenta falar aos estudantes. Membro do Partido Comunista, é estrondosamente vaiado. Vergonha para os que o vaiavam, Louis Aragon, tinha uma história de luta e era um símbolo da cultura francesa. Finalmente, concedem-lhe a palavra. Esta manifestação de intolerância já marca o começo do fim do movimento. Finalmente, operários, obedecendo às grandes  Centrais Sindicais, ligadas ao Partido Comunista, voltam às fábricas . O movimento enfraquece até sua extinção. Sem o prometida Revolução.  
Ao todo o movimento rebelde dura de maio a julho. Em 1969,  De Gaulle propõe um referendum  para regionalização do Senado , mas não consegue vitória. Em seguida, renuncia.
Morre em 1970, O próximo Presidente da  França  é Valéry Giscard D´Estaing.  De direita. 




sábado, 13 de janeiro de 2018

Temps de dire adieu



Ma mère est morte un certain vintg-six février, il y a déjà longtemps. On nous avait averti que son temps serait court. Pendant six ans, j´avais lutté contre son désenchantement de la vie. Elle avait fait une chutte et fracturé le  fêmur. Et puis, elle n´a plus jamais marché.  Elle se refusait à marcher, elle refusait la vie, toujours adossée à son lit. Les médecins venaient et revenaient. Toujours de nouveaux médicaments, surtout des antidépressifs, et des psychiatres, qui se renouvelaient sans cesse. Ce furent des années de souffrance, surtout pour nous deux, puisque le reste de la famille pouvait vivre sa propre vie. Et j´ai eu la force de lutter pour ne pas succomber. Il me restait toujours l´espoir , qui le sait, qu´ elle reviendrait à la vie. Mais sa perte était sans retour, elle avait perdu son amour et plus rien ne l´intéressait. La mère que j´avais connue toute ma vie, qui m´avait fait dodo dans la vieille chaise balançoire en écoutant les feuilletons à la radio, qui m´avait raconté des histoires de son enfance, qui avait arraché avec un fil chacune de mes dents de lait, que je conserve jusqu´aujour´hui,  qui me soulageait quand je me blessait, qui avait pleuré le jour où je suis partie pour compléter mes études, cette mère était déjà morte six ans avant que son coeur ne s´arretât.

Mais cette force divine, qui vient pour celui qui sait la voir , a illuminé mon chemin et m´a fait dresser la tête. C´est cette force  qui est dans le mystère de la vie et de la mort, dans le solei qui brille et nous illumine, et que mes petits chiens recherchent pour se chauffer. Cette force qu´ils ressentent, et que beaucoup d´êtres humains ne sont pas capables de percevoir. C´est elle, que ,chaque matin,  je ressentais sur ma peau, ayant passé une nuit blanche ou non.  Et j`ai mené ma mission jusqu`à la fin.

Le jour ou ma mère est morte, je l´ai emmenée à l´hôpital, dans mon auto,  agonisante , assise à côté de moi. Je savais  que c´était la fin. Je suis arrivée em  klaxonnant. On l´a immédiatement  menée,  je ne sais pas où. Mais avant qu´on ne  la menât, j´ai enlevé  l´alliance de son doigt. L´alliance que mon père avait mis dans sa main droite, à quatorze ans, et qui m´accompagne chaque jour de ma vie.  Ma soeur et moi, nous sommes restées dans le hall,  attendant  ce qui arriverait ou était déjà arrivé.  Et quand je suis sortie de l´hôpital, après la fatale nouvelle, j´ai regardé le ciel et j´ai vu, confondus à mes  larmes, des amas de nuages , qui s´amoncelaient comme des enfants qui jouaient . J´ ai rappellé une vieille histoire qu´elle me racontait toujours , des successives Coralies,  toujours habillées  en blanc et qui mouraient encore enfants. Ça s´était passé dans son adolescence. Prise d´une conviction divine,  j´ai ressenti que Dieu m´envoyait un message.  Qui le sait?  Peut-être c´étaient elles qui était venues la prendre.

Puis, la funéraire,  mais il y avait quelques minutes  elle était encore vivante ! Ou, alors,  ce n´était qu´une impression? Je suis rentrée, épuisée.  Dans la salle sombre et silencieuse , j´ai ressenti mon corps courber. Et  j´ai prié pour  Celui que je savais être là. Je suis sortie dans le balcon et  la vie a pénetré  en moi. Pendant ces années de souffrance , j´avais appris a percevoir Dieu.  J ´ai  parcouru  le couloir en allumant les lumières,  et d´un coup , je suis entrée dans sa chambre.  Le vieux fauteuil, où on l´ asseyait  était là . Je m´y suis assise . En bas, le petit coussin pour les pieds.  J´ai fermé les yeux et des milliers de souvenirs de ma première enfance  me sont venus à la mémoire. C´était comme un carroussel de mon passé, le plus lointain, qui tournait  dans ma tête épuisée. Des rues mal illuminées où des enfants jouaient la marelle, des fêtes de juin, froid, le jour où je me suis coupé le menton, et les  Soeurs de Saint Vicent-de-Paul, avec leurs énomes chapeaux , glissant dans les couloirs. Soudain, j´ai ouvert les yeux et ,sur la petite table, j´ai vu ses médicaments,  que je laissais toujours organisés dans un petit pot. Alors, des larmes ont coulé sur mon visage. Mais je ressentais une grande paix. J´ai décidé de prendre un bain, et j´ai laissé l´eau couler sur ma tête et mon corps. Eau, vie! J´ai respiré profondément, remplissant d´air mes poumons. La vie!  J´avais compris, finalement! Comme l´eau qui avait rafraîchi mon corps, il y avait une sécheresse interne. J´étais assoiffée! Sur mon corps mouillé, j´ai mis une chemise et j´ai pris le téléphone pour avertir quelques amis et familiers à Porto Alegre.

Et il y aurait encore les funérailles ! Des amis ou ceux  qui venaient par devoir! Je devrai voir son corps mort, inerte, ses belles mains,  qui avaient crée tant de belles choses, croisées sur la poitrine. Je baiserais son visage gelé. Et  il fallait encore avertir mon frère! Je ne rappelle plus comment j´ai fait. Mais je me rappelle l´avoir  emmené en  auto  au cimetière. Il ne disait rien, mais je savais qu´il souffrait énormement.  Mon amie, Many, est arrivée peu après  et m´a  emmenée pour me reposer un peu dans une chambre. J´étais profondément abbatue! Pourtant, quelque chose au-dedans de moi, m´assurait qu´elle , finalement , était heureuse! Soudain, un énorme cafard , près de ma tête, m´a fait faire un saut, retournant dans la grande salle.

Alors, j´ai décidé d´aller chez moi. J´avais besoin de quelques documents. Le jour commençait à pointer. Many, mon  amie dans le bonheur ou le malheur, m´a préparée  une bouille que j´ai engloutie  automatiquement. Alors, j´ai regardé le soleil qui commençait a avaler la nuit et j´ai ressenti bien au-dedans de moi-même que toute cette beauté des couleurs du jour qui se levait était une preuve de l´existence de Dieu. Ainsi que la lune qui avait illuminé ma triste nuit.  Et cete splendeur m´ assurait que tout venait de Lui. Je le savais!

Aujourd´hui, après tant d´années  écoulées, je répète  Fernando Pessoa “ Accorde-moi de l´âme pour te servir et de l´âme pour t´aimer. Accorde –moi l´ acuité pour te voir toujours dans le ciel et la terre.” Et c´est cela que j´ai ressenti,  à sa vue , morte , rigide , dans ce cercueil . Je savais , et ce ciel resplendiscent, m´a paru un signe.  J´ai vu mon amie Sônia, assise sur un banc, à côté de mon frère, lui tenant caressement la main. Ils sont restés là longtemps, jusqu´à ce que mon pauvre  frère , que je perdrait un an et demi plus tard, eut le courage de voir sa mère morte.

Alice a été ensevelie quand le soleil se couchait déjà derrière les montagnes. Mon coeur rebondissait dans ma poitrine, je n´ai pas voulu continuer. Mère, ta rencontre avec moi est finie, comme tout finit dans la vie. Et  parodiant Fernando Pessoa;  accorde –lui que son âme puisse paraître devant toi , comme un fils qui retourne à son foyer. Mère, le sol qui sert de lit à tes dépouilles et de tous ceux que j´ai aimés et perdus, n´est jamais fréquenté  par moi. Là où tu es, et tous les autres , n´est pas la terre sèche et aride. Ta demeure est  au-delà  de moi et de tous ceux qui iront après. La demeure de mon  corps , consommé par la crémation, devra être le chemin du vent. Mes cendres trouveront le chemin le plus élevé , qui puisse presque toucher le ciel. Lá haut, je verai toute ton oeuvre , Seigneur, et pourrai plus que jamais m´émerveiller de toute ta beauté.


“Seigneur , protège-moi , appuie-moi. Accorde-moi que je me remette à toi. Seigneur , libère-moi de moi.”


sábado, 9 de dezembro de 2017

LES HORIZONTALES

Século XIX ,  século XX. Depois de tantos acontecimentos, enfim , chegamos ao novo século. Na França, nestes cem anos, que  parecem ter fim, ao menos cronologicamente, foram tantos os acontecimentos! Dois golpes, duas revoluções, uma guerra contra a Prússia, uma França vencida, duas perdas territoriais, uma revolta em Paris, denominada Comuna. Enfim, destruídos os rebeldes, chega-se à Terceira República. Paris se engalana. É a Belle Epoque. Numa sociedade, ainda distante de qualquer resquício de igualdade, uma parte da população sente que a vida é para ser gozada. Não se poderia imaginar o que se preparava neste século recém-nascido.  Mas até a Primeira Guerra, as delícias deste mundo de artistas, música, das comédias de Feydeau,  das deliciosas operetas de Offenbach, do Moulin Rouge, do Impressionismo, tudo continuou existindo.
Prazer, jóias, amores ilícitos, cortesãs. Elas eram muitas, mas três se destacavam. Eram as mais belas, mais inteligentes, mais artistas. Começaram no famoso “Folies Bergère”, em pequenas cenas,  belas figurantes. Mas este não era seu objetivo. La Belle Otero, Liane de Pougy, Emilienne d´Alençon. Tinham origens diferentes. Caroline Otero, cujo verdadeiro nome era Agustina Del Carmen Otero Iglesias, nasceu na Espanha, de família duvidosa, com muitos filhos , cada um de um pai diferente. Com a morte do marido e a completa ruína da família, sua mãe se prostitue para manter a prole.  Isto até casar com um certo fulano que logo passa a detestar sua enteada, Agustina. Mas, na promiscuidade em que viviam, durante  uma festa na aldeia, a menina é violentada por um sapateiro. Ela tem apenas onze anos. Sua vida daí em diante torna-se um vendaval de homens e de um proxeneta. Aos treze anos, com seu amante ela aprende a dançar o flamengo, e a desenvolver certa habilidade teatral.  Descoberta como menor , ela é encaminhada para sua mãe, que a expulsa. Volta à vida de prostituição, até que, grávida, é obrigada a abortar, o que a torna estéril. Encontra um segundo amante, que também a explora e a leva a cabarés , onde exerce suas habilidades de dançarina, e também a explorar seu charme. Somente algum tempo depois, um rico banqueiro compra sua liberdade, ensina-lhe boas maneiras, e a leva para fora da Espanha. Mais tarde, já conhecida, ela estréia em pequenas cenas nas grandes salas de espetáculo de Paris, como Moulin Rouge, Folies Bergères, e Cirque d´éte, este último já desaparecido. Mas sua grande paixão é o jogo. E nele depositou milhões, dados por amantes: Reis,  Príncipes, Duques , milionários que freqüentavam esta Paris em ebulição.
Liane de Pougy, já tinha origem totalmente diferente. Era francesa, de uma família de militares. Anne-Marie Chassaigne , seu verdadeiro nome, recebeu fina educação junto às Irmãs “ Fidèles Compagnes de Jésus”, e desde cedo seu temperamento libertário se fez sentir. Mas, foi junto às Irmãs que ela aprendeu o savoir-faire e a cultura que mais tarde lhe serviram de base. Aos dezessete anos, ela se casa  com um militar, e pouco tempo mais tarde dá à luz um filho,  que se tornará um dos pioneiros da aviação na Primeira Guerra e morrerá aos vinte e sete anos. Com o marido fora, Anne-Marie arruma um amante, causa de uma bala que recebeu nas nádegas. Ela foge, e aproveita para se divorciar. Diz seu biógrafo, Jean Chalon, : “ A beleza , quando é pródiga em prazeres, pode ser uma chave abrindo muitas portas, inclusive as da imprensa”  Ela estabelece relações com os chefes de importantes órgãos da imprensa, como Gil Blas, hebdomadário, com sabor profano, e até o severo “Le Figaro”. Seu nome é presença nas rodas sociais e intelectuais. Ela aprende dança, e escreve. Seus amantes são ricos, poderosos, e pagam qualquer preço por uma noite, ou por somente vê-la nua, em todo seu esplendor. Liga-se de amizade com Sarah Bernard, que a aconselha a não tentar o teatro, por sua falta de vocação, conselho que ela desconhece. Faz amizade com Proust, que incentiva seu talento literário.
Uma certa noite, é chamada às pressas por seu amigo e admirador, Henri Meilhac, autor teatral e membro  da Academia Francesa de Letras. Dizia-lhe que se fizesse muito bela e elegante. Sem entender, Liane foi encontrar seu amigo e assustou-se, quando,  ao entrar no salão, viu levantar-se toda a platéia e a orquestra tocar um hino triunfal. Somente no dia seguinte, soube, pelos jornais, que substituira  a rainha da Suécia, impedida de ir na última hora.  É assim esta mulher que faz de seu corpo seu comércio, mas que não se esquece de sua capacidade intelectual. Como diz seu biografo ela nunca deixa de mostrar, a quem a visita em  sua mansão,  seu majestoso leito de seda e plumas como seu “ganha pão”. Ela havia descoberto que o leito pode ser explorado de várias maneiras. E fortunas se dissolvem em suas mãos, jóias, dinheiro, e tudo que tem valor...
Emilienne d`Alençon , ou Emilie André,  nasceu em Paris, filha de uma “concierge” ( espécie de faxineira de um edifício, onde mora com a família, profissão praticamente desaparecida).  O pseudônimo lhe foi sugerido pela prostituta Laure de Chiffreville, que lhe prevê um futuro brilhante, devido à sua beleza e graça. Ela se introduz no Cirque d`Été , no Maxim´s . O grande incentivador de sua carreira foi o jovem duque Jacques d`Uzès, que, perdidamente apaixonado, pretendia fazer dela uma dama, que posteriormente esposaria. Mas esta não é a intenção de Emilie ou Emilienne, e tampouco da família do duque. Assim, enviam-no para o Congo, onde ele morre. Aí, então, a jovem futura cocotte, faz sua carreira. Por ela se apaixonam Leopoldo II da Bélgica, o futuro rei Eduardo VII e o Kaiser Guilherme II. Com Liane de Pougy, ambas com tendências lésbicas, estabelece um romance, que dá a Gil Blas a ocasião da seguinte piada: haveria um casamento e em pouco tempo nasceria um bebê.
Por causa de suas origens populares, é apelidada de “Gavroche feminina” ( moleque de rua do romance de Victor Hugo, “Les Misérables”, que acaba morrendo na revolução de 1830), no entanto, é uma mulher inteligente e talentosa. Apaixonada pela literatura, ela escreve uma coleção de poesias com o título “Sous le masque” , bem indicativo de sua própria vida. Bela mulher, e fotografando muito bem, ela usa esta estratégia para melhor marcar sua imagem. A descrição que dela faz um cronista é de uma irresistível mistura de inocência e sensualidade. Seu nariz arrebitado e audacioso, sua boca que ao mesmo tempo faz beicinho e convida ao beijo. Mas esta “Gavroche feminina” arruinou  muitos condes, duques, barões, milionários interditados pelas famílias.
E afinal, chega a Grande Guerra, e termina a Belle Epoque. As cocottes famosas já não são tão jovens e sedutoras. Liane de Pougy dá vazão às suas tendências lesbianas. Torna-se amante de uma jovem americana, Natalie Clifford Barney. Ela é bela, rica, poderosa. Desde que sabe amar, ela  ama as mulheres. Certa vez, acompanhando seu pai à Casa Branca, ela encanta-se  pela Primeira Dama e diz claramente: “ Ah ! Senhora Presidente, se pudesse continuar a presidir a  Casa Branca com não importa qual presidente!”  Constrangimento geral. Na França, procura Liane enviando-lhe um buquê de rosas. E então começa o romance mais ardente da vida das duas. Mas como tudo passa, o amor acaba, e resta uma profunda amizade. Em 1899, ressurge vida de Liane de Pougy seu filho Marc Pourpre, com doze anos, que ela havia quase esquecido. Levado pelos avós, conheceu aquela mulher que diziam ser sua mãe e cuja foto se espalhava por toda Paris. Liane o recebe, mas não consegue estabelecer com ele o amor maternal. Interna-o no melhor colégio de Paris, provê todas suas necessidades, oferece-lhe belas férias, e manda-lhe declarações de amor maternal.
Em 1910, finalmente, ela encontra seu príncipe, de verdade. Casa-se com o Príncipe romeno Georges Ghika , para grande furor da família do noivo.  A Grande Guerra aproxima-se. Em 1914, morre seu filho Marc, um pioneiro da aviação. Mas, estranhamente, mesmo antes de saber de sua morte, Liane cai em desespero. Contorce-se , tem  um tremor por todo corpo, prostra-se no chão. Seu desespero mostra que a mãe dentro dela não havia morrido. Ela havia implorado para que não fosse, mas ele queria, achava ser seu dever como francês,  reconquistar a Alsácia e Lorena. Ao saber de sua morte, a mãe cai em estado vegetativo, seu coma é quase fatal. Anoxérica, passa a  pesar quarenta e dois quilos.  Á sua cabeceira está  seu marido e sua ex-amante americana , Natalie Barney. Mais tarde ela dirá: “ Aprendi a maternidade na dor”
Em 1945, morre seu marido e ela resolve se recolher a um convento.  Morre em santidade em 1950. Como diz seu biógrafo: “Liane de Pougy, cortesã, princesa e santa.”
Belo Otero, passados os anos de apogeu, recolhe-se à sua mansão em Nice. Na mesa de jogo perde toda sua fortuna. Em 1960, sem recursos, encontra um amigo que lhe aluga um quarto, onde esquenta sua refeição. Conta-se que, à noite, via-se nos becos de Nice, uma velhinha que procurava comida no lixo. Morre em 1965.
Emilienne d´Alençon morre em 1945. Ela está falida e endividada.  Seu dinheiro fora gasto com as amantes, e seu corpo e seu espírito estão destruídos pelo ópio. Casou-se duas vezes com jokeys ingleses. Divorciou-se do primeiro e perdeu o segundo na Grande Guerra. Gasta pelo tempo, pelas drogas, pela miséria , foi-se.
Estas mulheres viveram um mundo de esplendor que terminaria na Grande Guerra. Neste novo mundo que surgia não havia lugar para elas. Todas viveram também os horrores da Segunda Guerra. No “entre-deux-guerres” , pensou-se que a vida retomaria seu rumo, mas a Primeira ainda não acabara. Ela recomeçou em 1938, quando, de joelhos, Daladier e Chamberlain, lideres da França e da Inglaterra ,entregaram, parte da Tchecoslováquia a Hitler. Daí em diante, o mundo jamais tornaria a ter paz.  

LES HORIZONTALES

sábado, 9 de setembro de 2017

TUDO QUE ME CONTARAM
Há muitos anos, resolvi contar histórias. Aquelas que havia ouvido das velhas da família. São as interessantes. Velhas primas, amigas de minha mãe, gente que havia vivido um outro tempo, que eu não conhecia. Afinal, quando minha obra ficou pronta, tive que refazer, e refazer, e refazer.... Sempre havia coisa nova ou inverossímil, que eu não havia percebido. Também pouco a pouco as velhas foram partindo e fiquei sem meios de verificar. Intitulei-a “Tudo que me contaram” e fechei meu “livro”.Quem sabe algum dia o reabrirei? Ou alguém, ao encontrá-lo, poderá publicar?
De todas minhas fontes de informação, a melhor, a mais fidedigna, vem de minha Alice. Desde tomei algum conhecimento do mundo, conheci o seu colo aconchegante, que me ninava até que o sono fechasse meus olhos. Bem acomodada, quase no escuro, ainda com chupeta na boca, ouvia suas histórias. Eu devia ter três anos ou talvez menos. Ela gostava das novelas de rádio, mas gostava igualmente de contar-me suas histórias. Foi assim que soube que aquela moça bonita, cuja foto estava numa mesinha, era sua irmã Aracy. Que ela havia morrido aos dezessete anos. Não me disse de quê, nem perguntei. E por que vovó sempre colocava uma rosa diante do foto? Soube que a menininha com pezinhos a mostra e camisolinha rendada era irmã de papai. E que ela também havia morrido. Aos doze anos.
Aos poucos fui conhecendo a história da família. Tive duas tias, Aracy , irmã de minha mãe por parte de mãe  e Maria irmã de meu pai também por parte de mãe. Já na adolescência minha mãe contou-me que Maria morrera de peste bubônica, e Aracy provavelmente se suicidara. Já havia tentado uma vez. Minhas avós eram cunhadas, já que minha avó materna, Joana, era irmã do falecido marido de minha avó paterna. Já era crescida quando entendi que meus pais eram primos, o que hoje é considerado um casamento de alto risco. E foi este parentesco que os apresentou. Mas foi no colo acolhedor de minha mãe, em que adormecia toda noite, sentindo o balanço da velha cadeira, que, há muitos anos passados, a embalara e também minha tia Aracy, que ouvi histórias lindas, comoventes, engraçadas, tristes. 
Com a família longe, no Rio Grande do Sul, com meios de comunicação precários, eu não conhecia ninguém. Meu pai, militar, havia feito a Escola Militar de Engenharia no Rio, e de lá o transferiram para Santarém. Conseguiu com um colega paraense, a troca para Juiz de Fora, lugar de que talvez jamais ouvira falar. Sempre brinco que as montanhas mineiras inspiraram meus pais, já que minha mãe engravidou pouco depois de chegar. Já tinha filhos grandes e esta não foi uma boa surpresa. Mas fui bem-vinda e amada. Hoje, penso que esta hora, quando me embalava, era o momento de falar dos  que deixara para trás. Havia histórias mais recentes e outras bem antigas. Lembro-me de tia Porfíria, cunhada de minha bisavó, Vitória. Eram ambas argentinas, já que naquela fronteira quase todo mundo é meio brasileiro, meio argentino. Quando minha mãe a conheceu, já era viúva. Tinha uma dezena, ou mais, de filhos, de todas as idades. Nas férias, minha avó levava suas duas filhas para passarem uns dias na estância, que não sei se ficava no Brasil ou na Argentina. Minha mãe sempre me falou do dia em que chegou à estância e viu, pela primeira vez, um rádio. Era ainda bem pequena, de seis ou sete anos. Ela não podia imaginar o que significava aquele estranho objeto, entronizado sobre uma mesa, num recanto especial da  sala, que funcionava como um altar a um deus desconhecido. Imagino que fosse daqueles em estilo catedral, bem envernizado, com belos botões de ebonite pretos. O programa vinha da Argentina, e Alice ouvia, extasiada, o que se dizia em espanhol, acompanhado de uma terrível descarga, sem entender patavina. Aquele objeto parecia tão estranho que ela me confessou que sentia na sua presença um considerável medo, de tal forma que quando atravessava sozinha a sala onde estava o monstro que falava em meio a trovões, passava correndo. A prima que sabia manejar o estranho objeto devia parecer-lhe uma espécie de sacerdotisa, e Alice lhe tinha o maior respeito. Nunca consegui saber como aquela gente, no fim do mundo conseguia energia elétrica. Uma outra filha nascera cega. Vivia sentada num canto da sala, mexendo uma coisa que, a minha mãe, parecia ser um colar de contas grandes. Viveu e morreu na mais completa escuridão. Sua cegueira era solitária, jamais aprendera nada, o Braile lhes era totalmente desconhecido. Minha mãe guardava dela a imagem de uma mulher boa e carinhosa. Que terrível vida!
E havia também, o rapaz bonito, que chegara em Porto Alegre vindo do interior, que se apaixonara por ela, que, aos quatorze anos, já estava apaixonada pelo primo. Viviam-se os anos vinte. Um dia, ao voltar de um jogo de futebol, minha mãe, da janela de sua casa, notou que ele lhe parecia abatido e apoiava-se num guarda-chuva. Esta foi a última imagem que Alice guardou dele. No dia seguinte, já com evidentes sinais da peste, foi transportado para um isolamento onde morreu. O ano era 1922, foi em 22 que também morreu Maria e sua melhor amiga. Aquelas mortes de jovens e crianças me impressionou de tal forma, que durante muito tempo tive o hábito de olhar nas velhas casas o ano de construção que muitas ostentam no alto. Ainda há algum tempo, fui a um restaurante cuja construção datava deste ano. E por incrível que pareça, isto me impressionou.
Este foi também um ano especial para a arte brasileira, que se libertava da influência tradicional européia e buscava novas formas. A Semana de Arte Moderna, fez surgir nomes que marcaram nossa arte, imbuída de uma brasilidade até então desconhecida. Surgiram nomes como Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, e também foram conhecidos estrangeiros como Braque, Picasso e Matisse. Mas enquanto a arte se expandia no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul, governado por Borges de Medeiros, o Chimango, e toda uma equipe que se considerava positivista, sem acreditar em saneamento, em saúde pública, a peste grassou. Ainda hoje, numa das principais avenidas de Porto Alegre, há um “Templo” positivista , que data do século 19. Durante anos, passei diante dele, sempre fechado. Até que um dia encontrei-o aberto e entrei. Havia um pequeno grupo de homens, que muito gentilmente me falaram do filósofo Auguste Comte e ainda ficaram mais entusiasmados ao saber que eu havia visitado o apartamento do filósofo em Paris. Mas se Comte representa alguma coisa dentro da filosofia francesa, no Brasil, a partir de Júlio de Castilhos, famoso caudilho gaúcho, foi um desastre.
E para rir havia a história do árabe que se casou com uma colona, que logo engravidou de gêmeos. Parto difícil, longo com muito sofrimento da mãe. De repente, toda vizinhança, apavorada, vê o homem subir no telhado, ajoelhar-se e começar uma ladainha incompreensível, sempre voltado para o mesmo lado. Naquela Porto Alegre antiga, ninguém poderia supor que fosse um muçulmano, orando, no ponto mais alto possível, o telhado, voltado para Meca. E, afinal, a oração deu certo, pois, alguns dias mais tarde, mulher e marido exibiam orgulhosos os dois pimpolhos.
São tantas as histórias de um tempo que já se foi, e escutei ao longo de minha vida! Com ela percorri os pampas gaúchos, morei em Uruguaiana, brinquei com meus primos Deodoro e Alzira. Com elas chorei a morte de Aracy e Maria. Tive tifo, apaixonei-me pelo primo Felippe . Com elas assisti à partida de meu marido com as tropas para o Rio de Janeiro e rezei para que ele voltasse logo. Hoje, passados tantos anos, me pergunto, será que ela me contava estas histórias e eu as confundia com a história do rádio? Quem sabe, adormecida, eu não sonhava com elas e as incorporava ao mais profundo da minha lembrança e da minha sensibilidade?
Mas a vida sempre continua. Já partiram todos os que me contaram histórias. Todos os que conheceram Maria e Aracy.  Não sei para onde, certamente muito longe. E quem sabe, agora, estejam juntos e relembrem este passado? E morreram também os mais jovens. Morreu minha prima Marina, seu irmão Alberto, meu primo Renato, o Belo Brummel, minha prima Lourdes, meu primo Luís Pedro. E morreu meu irmão Sérgio, minha irmã Teresa.  Fiquei eu, talvez porque ainda tenha alguma missão a cumprir. Não lamento as mortes, elas fazem parte da vida. E o que me resta, quero viver feliz.  Recordações? Só as boas! Se for possível!
Quero continuar meu Pilates, minhas acrobacias, meu bom humor, minha vaidade, meu amor à vida. Porque ela vale a pena!!!

TUDO QUE ME CONTARAM

Há muitos anos, resolvi contar histórias. Aquelas que havia ouvido das velhas da família. São as interessantes. Velhas primas, amigas de minha mãe, gente que havia vivido um outro tempo, que eu não conhecia. Afinal, quando minha obra ficou pronta, tive que refazer, e refazer, e refazer.... Sempre havia coisa nova ou inverossímil, que eu não havia percebido. Também pouco a pouco as velhas foram partindo e fiquei sem meios de verificar. Intitulei-a “Tudo que me contaram” e fechei meu “livro”.Quem sabe algum dia o reabrirei? Ou alguém, ao encontrá-lo, poderá publicar?
De todas minhas fontes de informação, a melhor, a mais fidedigna, vem de minha Alice. Desde tomei algum conhecimento do mundo, conheci o seu colo aconchegante, que me ninava até que o sono fechasse meus olhos. Bem acomodada, quase no escuro, ainda com chupeta na boca, ouvia suas histórias. Eu devia ter três anos ou talvez menos. Ela gostava das novelas de rádio, mas gostava igualmente de contar-me suas histórias. Foi assim que soube que aquela moça bonita, cuja foto estava numa mesinha, era sua irmã Aracy. Que ela havia morrido aos dezessete anos. Não me disse de quê, nem perguntei. E por que vovó sempre colocava um vasinho com uma rosa ao lado da foto? Soube que a menininha com pezinhos a mostra e camisolinha rendada era irmã de papai. E que ela também havia morrido. Aos doze anos.
Aos poucos fui conhecendo a história da família. Tive duas tias, Aracy , irmã de minha mãe por parte de mãe  e Maria irmã de meu pai também por parte de mãe. Já na adolescência minha mãe contou-me que Maria morrera de peste bubônica, e Aracy provavelmente se suicidara. Já havia tentado uma vez. Minhas avós eram cunhadas, já que minha avó materna, Joana, era irmã do falecido marido de minha avó paterna. Já era crescida quando entendi que meus pais eram primos, o que hoje é considerado um casamento de alto risco. E foi este parentesco que os apresentou. Mas foi no colo acolhedor de minha mãe, em que adormecia toda noite, sentindo o balanço da velha cadeira, que, há muitos anos passados, a embalara e também minha tia Aracy, que ouvi histórias lindas, comoventes, engraçadas, tristes. 
Com a família longe, no Rio Grande do Sul, com meios de comunicação precários, eu não conhecia ninguém. Meu pai, militar, havia feito a Escola Militar de Engenharia no Rio, e de lá o transferiram para Santarém. Conseguiu com um colega paraense, a troca para Juiz de Fora, lugar de que talvez jamais ouvira falar. Sempre brinco que as montanhas mineiras inspiraram meus pais, já que minha mãe engravidou pouco depois de chegar. Já tinha filhos grandes e esta não foi uma boa surpresa. Mas fui bem-vinda e amada. Hoje, penso que esta hora, quando me embalava, era o momento de falar dos  que deixara para trás. Havia histórias mais recentes e outras bem antigas. Lembro-me de tia Porfíria, cunhada de minha bisavó, Vitória. Eram ambas argentinas, já que naquela fronteira quase todo mundo é meio brasileiro, meio argentino. Quando minha mãe a conheceu, já era viúva. Tinha uma dezena, ou mais, de filhos, de todas as idades. Nas férias, minha avó levava suas duas filhas para passarem uns dias na estância, que não sei se ficava no Brasil ou na Argentina. Minha mãe sempre me falou do dia em que chegou à estância e viu, pela primeira vez, um rádio. Era ainda bem pequena, de seis ou sete anos. Ela não podia imaginar o que significava aquele estranho objeto, entronizado sobre uma mesa, num recanto especial da  sala, que funcionava como um altar a um deus desconhecido. Imagino que fosse daqueles em estilo catedral, bem envernizado, com belos botões de ebonite pretos. O programa vinha da Argentina, e Alice ouvia, extasiada, o que se dizia em espanhol, acompanhado de uma terrível descarga, sem entender patavina. Aquele objeto parecia tão estranho que ela me confessou que sentia na sua presença um considerável medo, de tal forma que quando atravessava sozinha a sala onde estava o monstro que falava em meio a trovões, passava correndo. A prima que sabia manejar o estranho objeto devia parecer-lhe uma espécie de sacerdotisa, e Alice lhe tinha o maior respeito. Nunca consegui saber como aquela gente, no fim do mundo conseguia energia elétrica. Uma outra filha nascera cega. Vivia sentada num canto da sala, mexendo uma coisa que, a minha mãe, parecia ser um colar de contas grandes. Viveu e morreu na mais completa escuridão. Sua cegueira era solitária, jamais aprendera nada, o Braile lhes era totalmente desconhecido. Minha mãe guardava dela a imagem de uma mulher boa e carinhosa. Que terrível vida!
E havia também, o rapaz bonito, que chegara em Porto Alegre vindo do interior, que se apaixonara por ela, que, aos quatorze anos, já estava apaixonada pelo primo. Viviam-se os anos vinte. Um dia, ao voltar de um jogo de futebol, minha mãe, da janela de sua casa, notou que ele lhe parecia abatido e apoiava-se num guarda-chuva. Esta foi a última imagem que Alice guardou dele. No dia seguinte, já com evidentes sinais da peste, foi transportado para um isolamento onde morreu. O ano era 1922, foi em 22 que também morreu Maria e sua melhor amiga. Aquelas mortes de jovens e crianças me impressionou de tal forma, que durante muito tempo tive o hábito de olhar nas velhas casas o ano de construção que muitas ostentam no alto. Ainda há algum tempo, fui a um restaurante cuja construção datava deste ano. E por incrível que pareça, isto me impressionou.
Este foi também um ano especial para a arte brasileira, que se libertava da influência tradicional européia e buscava novas formas. A Semana de Arte Moderna, fez surgir nomes que marcaram nossa arte, imbuída de uma brasilidade até então desconhecida. Surgiram nomes como Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, e também foram conhecidos estrangeiros como Braque, Picasso e Matisse. Mas enquanto a arte se expandia no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul, governado por Borges de Medeiros, o Chimango, e toda uma equipe que se considerava positivista, sem acreditar em saneamento, em saúde pública, a peste grassou. Ainda hoje, numa das principais avenidas de Porto Alegre, há um “Templo” positivista , que data do século 19. Durante anos, passei diante dele, sempre fechado. Até que um dia encontrei-o aberto e entrei. Havia um pequeno grupo de homens, e muito gentilmente me falaram do filósofo Auguste Comte e ainda ficaram mais entusiasmados ao saber que eu havia visitado o apartamento do filósofo em Paris. Mas se Comte representa alguma coisa dentro da filosofia francesa, no Brasil, a partir de Júlio de Castilhos, famoso caudilho gaúcho, foi um desastre.
E para rir havia a história do árabe que se casou com uma colona, que logo engravidou de gêmeos. Parto difícil, longo com muito sofrimento da mãe. De repente, toda vizinhança, apavorada, vê o homem subir no telhado, ajoelhar-se e começar uma ladainha incompreensível, sempre voltado para o mesmo lado. Naquela Porto Alegre antiga, ninguém poderia supor que fosse um muçulmano, orando, no ponto mais alto possível, o telhado, voltado para Meca. E, afinal, a oração deu certo, pois, alguns dias mais tarde, mulher e marido exibiam orgulhosos os dois pimpolhos.
São tantas as histórias de um tempo que já se foi, e escutei ao longo de minha vida! Com ela percorri os pampas gaúchos, morei em Uruguaiana, brinquei com meus primos Deodoro e Alzira. Com elas chorei a morte de Aracy e Maria. Tive tifo, apaixonei-me pelo primo Felippe . Com elas assisti à partida de meu marido com as tropas para o Rio de Janeiro e rezei para que ele voltasse logo. Hoje, passados tantos anos, me pergunto, será que ela me contava estas histórias e eu as confundia com a história do rádio? Quem sabe, adormecida, eu não sonhava com elas e as incorporava ao mais profundo da minha lembrança e da minha sensibilidade?
Mas a vida sempre continua. Já partiram todos os que me contaram histórias. Todos os que conheceram Maria e Aracy.  Não sei para onde, certamente muito longe. E quem sabe, agora, estejam juntos e relembrem este passado? E morreram também os mais jovens. Morreu minha prima Marina, seu irmão Alberto, meu primo Renato, o Belo Brummel, minha prima Lourdes, meu primo Luís Pedro. E morreu meu irmão Sérgio, minha irmã Teresa.  Fiquei eu, talvez porque ainda tenha alguma missão a cumprir. Não lamento as mortes, elas fazem parte da vida. E o que me resta, quero viver feliz.  Recordações? Só as boas! Se for possível!
Quero continuar meu Pilates, minhas acrobacias, meu bom humor, minha vaidade, meu amor à vida. Porque ela vale a pena!!!

TUDO QUE ME CONTARAM

domingo, 16 de julho de 2017

Minha mãe morreu num dia vinte e seis de fevereiro, há muitos anos. Já havíamos sido advertidos de que seu tempo seria curto. Durante seis anos, eu lutara contra seu desgosto pela vida. Ela havia fraturado o fêmur e, depois disso, nunca mais andou. Negava-se a caminhar, negava-se a viver. Foram anos de sofrimento, sobretudo para nós duas, já que o resto da família podia viver sua própria vida. E tive força para lutar, para não sucumbir. Esperava que algum dia, quem sabe, ela voltasse a viver. Mas sua perda era irremediável, ela perdera seu amor, e nada mais a interessava. A mãe que eu conhecera toda minha vida, que me ninara na velha cadeira de balanço, ouvindo novelas no rádio, que me contara histórias de sua infância, que arrancara com um fio de linha cada um dos meus dentes de leite, que guardo até hoje, que me consolava quando eu caia e me machucava, que chorara o dia eu em que parti para completar meus estudos, esta mãe morrera já seis anos antes que seu coração parasse.
Mas esta força divina, que vem para aquele que sabe enxergá-la, iluminou meu caminho e me fez levantar a cabeça. Foi esta força, que está no mistério da vida e da morte, no sol que brilha e nos ilumina, e que meus cachorrinhos procuram para se aquecer. Esta força que eles sentem, e que muitos pobres seres humanos não enxergam. Foi ela que eu senti a cada manhã, tendo dormido ou não. E levei até o fim minha missão.
No dia em que minha mãe morreu, levei-a de carro, agonizante, sentada a meu lado, para o hospital, sabendo que era o fim. Cheguei buzinando. Levaram-na, imediatamente, não sei para onde. Mas antes que a levassem tirei a aliança de seu dedo. A aliança que meu pai colocara na sua mão direita aos 14 anos, e que me acompanha cada dia de minha vida. Minha irmã e eu ficamos esperando, sabendo o que aconteceria ou já acontecera. E quando saí do hospital, depois da notícia fatal, olhei para o céu e vi, em meio às minhas lágrimas, montinhos de nuvens que se acumulavam como criancinhas que brincavam. Lembrei-me da história que ela sempre me contava das sucessivas Corálias, sempre vestidas de branco e que morriam ainda criancinhas. Isto se passara na sua adolescência. Tomada por uma convicção divina, senti que Deus me enviava uma mensagem. Quem sabe eram elas que haviam vindo buscá-la?
Depois a funerária, mas ainda há pouco ela estava viva! Ou era só impressão? Voltei para casa, exausta. Na sala escura e silenciosa, senti meu corpo dobrar e orei, orei para Aquele que eu sabia estar ali. Sai na sacada e senti a vida penetrar em mim. Eu havia, naqueles anos de sofrimento, aprendido a enxergar Deus. Fui acendendo as luzes, e entrei em seu quarto. Sentei-me na poltrona onde a colocávamos tantas vezes. A almofadinha para os pés ainda estava lá. Fechei os olhos e mil lembranças me vieram à mente. Era como se um carrossel de meu passado mais distante girasse dentro de minha cabeça exausta. Ruas mal iluminadas onde as crianças brincavam, festas juninas ainda na minha primeira infância, o dia em que cortei o queixo e as Vicentinas que deslizavam pelos corredores, com aqueles enormes chapéus. De repente, abri os olhos e vi, sobre a mesinha, os seus remédios que eu sempre deixava separados, dentro de um potinho. Lágrimas desceram por meu rosto. Mas estava em paz. Resolvi tomar um banho e deixei a água deslizar sobre minha cabeça e meu corpo. Água, vida! Respirei fundo, eu havia compreendido! Como a água que refrescara meu corpo, senti que havia uma secura interna. Estava sedenta. Depois, peguei o telefone para avisar alguns amigos e parentes em Porto Alegre.
E ainda teria o velório! Com gente amiga ou não. Eu teria que ver seu corpo morto, inerte, suas belas mãos, que tantas coisas lindas haviam criado, cruzadas sobre o peito. Beijaria seu rosto gelado. E ainda faltava avisar meu irmão! Não me lembro mais como fiz. Lembro-me que o levei de carro ao cemitério. Ele não chorava, mas eu sabia o quanto sofria. Minha amiga, Many, chegou logo depois e levou-me para descansar um pouco num quarto. Eu estava profundamente triste! Mas havia algo dentro de mim que me assegurava de que ela, finalmente, estava feliz. De repente uma enorme barata na parede, quase me tocando, me fez dar um pulo e voltar para a sala.
Então, resolvi ir em casa, precisava pegar alguns documentos. Já começava a amanhecer. Many, amiga das boas e más horas, preparou-me um prato de mingau que engoli automaticamente.  Olhei o sol que começava a despontar e senti bem dentro de mim que toda aquela beleza do amanhecer era uma prova da existência de Deus, assim como a lua que iluminara minha triste noite. Toda aquela beleza me assegurava que tudo vinha Dele. Eu sabia!
Hoje passados tantos anos repito Fernando Pessoa “Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra.” E foi o que senti, ao vê-la morta, fria e inerte naquele caixão. Eu o sentia, e aquele céu resplandecente parecia um sinal. Vi minha amiga Sônia sentada num dos bancos do jardim ao lado de meu irmão, segurando-lhe carinhosamente a mão. Ficaram ali muito tempo, até que meu pobre irmão, que eu perderia um ano e meio mais tarde, tivesse coragem de ver a mãe morta.
Alice foi enterrada à tarde, quando o sol se punha atrás das montanhas, meu coração pulava dentro de meu peito, não quis prosseguir. Ali, nossos caminhos se separavam. Mãe, teu encontro comigo terminou, como tudo termina na vida. E, parodiando Fernando Pessoa, dá-lhe que sua alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.  Mãe, o solo que serve de leito aos teus despojos e de todos aqueles que amei e perdi, jamais é visitado por mim. Onde tu estás, e todos os outros, não é a terra seca e árida. Tua morada está além de mim e de todos os que irão depois. A morada de minhas cinzas, consumidas pela cremação, será o caminho do vento de um lugar alto que quase alcance o céu. De lá, verei toda tua obra, Senhor, e poderei enxergar melhor do que jamais pude toda tua beleza.
“Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim”  Tempo de dizer adeus