QUEM SOU EU

Sou professora de Francês, mas hoje minha principal atividade é escrever e ler, além de cuidar dos meus três vira-latas: Charmoso, Príncipe e Luther.



Gosto de fazer ginástica, sou vegetariana e adoro animais em geral, menos baratas.



Sinto especial prazer quando meus textos agradam aos meus leitores. Espero continuar produzindo e me comunicando com todos os meus amigos, neste maravilhoso universo da net.



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sábado, 6 de abril de 2013

O prazer nos tempos do Feudalismo I

Já que vamos falar de uma época considerada a escuridão da História humana, seria interessante que vissem numa das últimas “Veja” a imagem do matadouro do qual é um dos sócios o Ministro da Agricultura da Dilma. Será que com 10 anos de PT no governo  voltamos aos horrores medievais? E somente uma voz se levantou no Congresso, a do líder do PPS. Prometo que vou tentar mandar o foto,  mas infelizmente, este não é meu forte.
Idade Média, escuridão, peste, sujeira, maldade. Contam que o Rei Felipe Augusto (1165-1223) desmaiou, estando próximo a uma janela do seu palácio em Paris,  no momento em que  uma carroça que passava pela rua  remexeu a imundice, espalhando um tal fedor que  o rei não resistiu. Os porcos andavam soltos nas ruas, e os dejetos, humanos ou não, eram despejados pelas janelas. Azar de quem passasse embaixo. E um dia foi o rei Luís XIX – Saint Louis – ( 1214-1270)  que recebeu, sobre sua capa bordada a ouro, as fezes de um urinol, jogadas por um estudante. Mas como era Santo (?) perdoou o sacrílego. Aliás, Paris continuou suja até a reforma de Haussmann, em meados do século 19.
Mas do que quero falar é dos “prazeres” na Idade Média, que começa com a decadência do Império Romano, lá pelo século 5 - chamada Alta Idade Média – e termina lá pelo ano 1000. A Baixa Idade Média se estende até o século XV , com o surgimento da burguesia, do capitalismo, do primeiros passos em direção ao centralismo governamental.  Mas aqui nos interessa , sobretudo, a Alta Idade Média.
Para começar, nós, mulheres independentes, podemos dar uma olhada no que pensavam  os clérigos destes tempos. Afinal, somos descendentes de Eva, e” É pela mulher que o pecado começou e é por causa dela que todos morremos”. Como castigo Jeová – Antigo Testamento- nos deu os sofrimentos da gravidez e as dores do parto.  Tudo isso, ainda que no “Cânticos dos Cânticos” chegue-se ao erotismo: “...em teu élan, tu te assemelhas à palmeira e teus seios são os frutos....”. Já no século X, dizia um monge: “ A beleza do corpo não reside senão na pele. Com efeito, se os homens vissem o que está debaixo da pele, a vista das mulheres dar-lhes-ia náuseas...” Dentre as mulheres só se salvava Virgem Maria, que havia concebido sem pecado. Não sei do que diziam de Maria Madalena.
No Cristianismo daqueles tempos primordiais prevaleceu o desprezo do mundo, e a vida considerada somente como uma passagem para eternidade. Para atingi-la, todos os prazeres deveriam ser banidos, a começar pelo sexual. E aí começa o grande imbróglio, como alcançar aquele princípio do Antigo TestamentoCrescei e multiplica-vos “? A Idade Média encontrou , sobretudo, nos escritos de São Paulo , elementos hostis à mulher e ao casamento. Mas como procriar? Se  o coito interrompido havia sido severamente condenado pelo Antigo Testamento, o ato sexual deveria ser o menos prazeroso possível. Buscou-se a “Etreinte reservée , onde o casal une-se pelo sexo sem permitir o prazer, sendo o órgão retirado logo que ele se  anuncia. Para a procriação, recomendava-se que ,enquanto  praticava o ato sexual, a  mulher orasse e recitasse para seu parceiro textos sagrados. Além do mais, havia os dias proibidos para o sexo, e eram tantos que, afinal, pouco sobrava para este ato. O sexo conjugal só tornou-se aceitável através de São Tomas de Aquino, pelas leituras aristotélicas.
E quanto aos demais prazeres? Nenhuma mulher devia esconder sua imperfeições, nem a passagem do tempo. A beleza seria um caminho do pecado  e a juventude logo se transformava em decrepitude. Toda vaidade era ofensiva a Deus. Jovens se encarceravam e passavam a vida orando e alimentando-se de menos do que o estritamente necessário. A tal ponto que o simples odor de um alimento levava-as ao desmaio. São Estevão, de família de posses, renuncia a todo prazer e leva ao extremo seu suplício. Todos os prazeres são banidos, seu pão embebido em lágrimas pelos pecados do mundo substitui os alimentos , usa cilício sobre a pele todo o tempo, no inverno mergulha em um lago gelado e ali permanece até que o frio o tenha penetrado totalmente. E ainda conta-se que São Luís de França, derramava água sobre os pratos que mais apreciava para não haver prazer na mesa.
Bem, mas afinal, não foi só de desprezo ao mundo que se fez a Idade Média. Houve mulheres como Alienor d`Aquitaine, mãe do célébre Ricardo Coração de Leão, Branca de Castela, sua neta e muitas outras de que falarei proximamente. É verdade que houve sempre mulheres que lutaram pela contra a soberania masculina, que brigaram pela sua liberdade. Creio que esta luta começou com nossas antepassadas, ainda nas cavernas, é muito antiga, e muitas de nós já conseguiram. Considero-me uma dessas. Também tive dificuldades, e muita luta. Mas não me deixei curvar. Infelizmente, a mentalidade de muitos homens continua tacanha, como daquele meu ex-namorado, que me encontrando na rua, e ficando sabendo de minha separação e de que toda minha família havia morrido, perguntou: “Mas como é possível? Você vive sozinha? Pelo menos freqüenta baladas? “ Tive vontade de perguntar-lhe: "E você, freqüenta? Somos contemporâneos, olhe-se e veja se dá para baladas.  Mas afinal, há também aqueles que evoluíram. E olhe há quanto tempo estamos lutando. E ainda há tanto a fazer.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Morreu o Coronel

Herança sombria”, “ A maldição da múmia” , “A morte do caudilho”, etc, etc. Tudo é verdade. Saiu nas revistas, em manchetes garrafais. Tudo que havia para se conhecer do coronel com suas idéias bolivarianas já foi lido, analisado, revisado pelos especialistas. A mim não cabe dizer mais quase nada. Mas, convenhamos, o que há de novo em  morrer?  Morreremos todos, como disse Caetano “...de susto, de bala ou vício”. Morre-se de qualquer coisa. Conheci uma mulher que morreu falando ao telefone, um homem que morreu dançando ( que bonita morte!) Chavez  morreu de câncer como milhões de pessoas cada dia no mundo inteiro. Minha irmã morreu de câncer, minha avó paterna, amigos, amigas. Para mim, com a morte do coronel o mundo não ficou pior, ao contrário, acho que ficou um pouquinho melhor. Para seus afilhados , Carreras, Kichner, Morales, Mujica, Ortega e, principalmente, a gerontocracia cubana formada pelos irmãos Castro, esta morte tem significado especial. Para os Castros representa uma dúvida cruel, já que privados do dinheiro soviético, se abasteceram do petróleo venezuelano. E não podem contar com os outros, pobres coitados. Lula, um grande amigo, anda se debatendo com uma incipiente, mas visível, inflação. E ainda tem outros problemas internos, como a reeleição de sua pupila.
O Coronel foi tratar-se em Cuba, com aparelhos totalmente obsoletos, alguns apelidados de “Frankstein” pois são contituídos de peças descartadas por países desenvolvidos. Não veio ao Brasil, apesar do convite do governo, para que não fosse divulgado seu verdadeiro estado de saúde. Não sinto sua morte, e acho lamentável transformá-lo em múmia, no mais descarado culto à personalidade. Está, aliás, em boa companhia: Mao, Lenin e um tal de Titov, que após a guerra, implantou o  comunismo na Bulgária. Francamente, não sei se Stalin também está mumificado. Conheci a história de Titov quando, em um curso na França, fiz amizade com Svetla, uma bela búlgara loira  de olhos azuis. Foi então que pude avaliar o que deveria ser o regime comunista. Porque sou da geração que amou Guevara, Fidel, e até aqueles gordos feiosos que governaram a União Soviética depois de Stalin. Lembro-me de detalhes do comportamento de Svetla e sinto pavor em ver um José Dirceu (ainda que seu comunismo tenha muito do capitalismo, já que está muito rico) , e muitos outros que sonham com um Brasil que chamam de “socialista”. Svetla tinha medo de todo mundo, todos podiam ser alcagüetes do regime. Gostou de ouvir uma fita de Gal Costa, e quando quis dar-lhe de presente recusou apavorada. Contei o fato a Guy, um professor de francês que morava na Bulgária, e lembro-me de como ele riu. Disse-me que se a pegassem no aeroporto com uma fita com musicas cantadas numa língua totalmente desconhecida, iriam certamente supor que se tratava de alguma mensagem secreta e subversiva. Instruiu-me também para que não lhe mandasse nada em língua portuguesa, pois teria os mesmos problemas e poderia acabar presa. Aí foi minha vez de ficar assustada. Minha colega convidou-me a ir a Sofia, dizendo-me que conheceria a múmia de Titov !!!! Sua pobreza era tão extrema que notei que em todas as refeições jogava dentro da sacola pedaços de pão. Um dia não me contive e perguntei-lhe porque fazia isto, ao que respondeu: “E que devo esperar no aeroporto em Paris durante bastante tempo e assim como o pão e tomo água”. Pobre Svetla de quem fora confiscado o apartamento da família, que tinha medo e nenhuma esperança.
Acho que temos motivos para temer. Ao ver a população desesperada com a morte do coronel, e mesmo em ocasiões anteriores, achei-os muito parecidos com os lulistas que ovacionam o chefe. Lideres carismáticos, uma oposição fraca , e um povo pouco esclarecido – os esclarecidos ou acham que é bacana ser da esquerda radical , ou querem o regime totalitário ou são simplesmente vigaristas em busca de dinheiro fácil, o que é o mais comum -  são os ingredientes ideais para a instalação de regimes autoritários ou totalitários. Da mesma forma que na minha juventude odiei as ditaduras de direita que se espalhavam pela America Latina, temo sinceramente o que pode acontecer num futuro não distante. Nossos países não têm tradição democrática. O que vivemos agora no Brasil não foi conquista de guerrilheiros, mas a vitória  de uma parcela mais esclarecida do povo diante de um regime apodrecido.
E prestem atenção, se contarmos quantos anos tivemos de democracia fica muito pouco. O Antigo Regime, após o Império, não tinha nada de democrático, com o voto aberto, perseguições, eleições marcadas, impedimento das mulheres ao voto. A Revolução de 30, que prometia democracia, acabou por implantar o Estado Novo, ditadura getulista, em que morreram muitos opositores. Após a queda de Getúlio e um precioso período de cerca  de 19 anos de democracia, migramos para uma nova ditadura, comandada pelos militares. Ou seja, foram 20 anos de democracia. Hoje já contamos mais 28 anos de liberdade, mas será que não a estamos pondo em risco ?
Meus heróis não morreram de overdose, morreram quando descobri a verdade.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Receita para ser feliz

É verdade que tenho estado particularmente feliz nestes últimos tempos, apesar das múltiplas preocupações. Obama venceu, os mensaleiros estão sendo julgados e condenados. Rui Falcão , aquela mistura pra lá de indigesta de Stalin com Goebbels - o ministro da propaganda nazista que dizia que uma mentira, a força de ser repetida infinitamente, acaba como verdade- está sendo denunciado, juntamente com o chefe, sobre a farsa do relatório final da CPI do Cachoeira, que deixou de lado notórios pilantras como o governador do Rio de Janeiro, um tal de Sérgio Cabral Filho. Dilma compareceu sorridente  à posse de Francisco Barbosa. E ainda umas outras pequenas cositas. Tenho a alegria de dizer que o homem mais poderoso do mundo e o mais respeitado do Brasil são negros. Negros como aquele meu antepassado lá do século 19, cuja fotografia guardo como recordação de família e como troféu de minha miscigenação. É a minha gota de sangue.
Mas, afinal, esta não é a receita para uma felicidade existencial. E ela existe? Lembrei-me disso ontem à noite, quando as nove e meia  fui me deitar para dormir daí a meia hora, já com o celular marcado para as cinco da manhã de hoje, amanhã, depois, depois e depois. Este é um dos princípios de minha receita de felicidade. Lembrei-me ao pensar em uma amiga que tem a sua e que não admite a minha. Bobagem, nós, humanos, somos tão infinitamente diferentes uns dos outros que decidi não discutir, lembrando-me de meu pai que dizia só discutir coisas inteligentes.
Houve um tempo, não muito distante, que para ser feliz uma mulher precisa casar-se. Não precisei. Outras precisaram.  Precisava procriar. Não precisei. Outras precisaram. Eu ainda não conhecia Simone de Beauvoir, mas tinha conceitos meio confusos acerca do que poderia ser a “minha” felicidade. Amei, tive paixões fulminantes, esqueci-os, ainda olho com saudades aqueles meus anos dourados, mas não quero nostalgia. Não imagino a felicidade numa cidade violenta, não imagino a felicidade baseada em constantes viagens, em compras, em luxo. Mas outras pensam assim, porque, afinal, somos infinitamente diferentes. Imagino a felicidade como uma grande, enorme liberdade. Aquela liberdade que Deus nos deu e que, mesmo que tenhamos escolhido a submissão, foi  responsável pela nossa escolha. Deixei de ter pena de fulana ou beltrana, que não deu certo na vida, tendo todos os membros no lugar, uma cabeça pensante e condições mínimas. Irrita-me ouvir “Coitada de Fulaninha!” Fiquei má. Acredito na liberdade, aquela que nos permite fazer qualquer escolha, desde que não cause dor a outro, que, aliás, tem a liberdade de defender-se. Quero ser livre, e peço todos os dias a Deus que morra no sono, como os bem-aventurados. Talvez sonhando com outro mundo, onde dizem que há uma paz tão profunda, como jamais experimentaremos aqui.
Como ser humano, posso ter o homem ( ou a mulher)  que quiser, e me quiser, sem nenhuma espécie de preconceito, mas quero a minha liberdade para escolher meu futuro e evoluir naquilo que para mim é importante. Sou uma individualidade, capaz de dar conta de minha vida, livre para viver no mato, no Rio, em Paris, livre para viver como quiser e onde quiser,... sendo feliz.
E madrugadora.  

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Requiem pour Bibi


Conheci Bibi dentro de um caixãozinho branco, recoberto de véu também branco. Ao lado do seu rosto, como se dormisse com ela, sua bonequinha de pano que a acompanhava desde sempre. Nas mãos cruzadas onde se via um terço branco, se destacavam as unhas pintadas de rosa-pink. Tive vontade de beijar seu rosto, mas senti uma censura dentro mim. Ao invés disso, beijei suas mãozinhas geladas pela morte. Meu réquiem sem música era, no entanto, verdadeiro. Havia uma criança morta, aos oito anos, feitos alguns dias antes. Não contive as lágrimas, como a maioria das pessoas que ali estavam. Abracei e beijei a mãe, que mostrava no rosto o sofrimento de mais de dois anos de luta contra um câncer que, afinal, levara sua Bibi. Seu rosto, apesar do sofrimento, sorria, e mostrava simultaneamente a dor e a serenidade de quem lutou até o fim. O pai tinha a mesma expressão de dor, mas mostrava calma. Ambos haviam, naqueles quase três anos, dedicado suas vidas à filha, que sabiam irremediavelmente condenada.
Por que aos oito anos, depois de tanto sofrimento, Beatriz partira? Inexplicável. Como diz o Eclesiastes:
Há um momento para tudo e para todo propósito debaixo do céu.
Tempo de nascer,
E tempo de morrer;
tempo de plantar,
e tempo de arrancar a planta.
................................................
Tempo de chorar,
e tempo de rir;
tempo de gemer ,
e tempo de bailar.
.................................. “

Bibi deve ter cumprido seu tempo. A plantinha tenra foi arrancada. Mas foi tão breve seu tempo! Foi arrancada dos braços amorosos de seus pais, avós, mas foi recebida nos braços de Deus, criaturinha sem pecados.
Foi aos meus oito ou nove anos,  que vi, pela primeira vez, uma criança morta. Era um menino e deveria ter cinco ou seis anos. Foi numa casa pobre num bairro popular, uma daquelas construções de duas janelas que dão diretamente sobre a rua. Havia morrido de alguma doença na cabeça, quem sabe hidrocefalia. Tinha a cabeça enorme, descomunal para seu corpo que parecia ser miúdo. Uma cor amarelada, doentia, que mesmo a mim, criança, impressionou. Ficamos debruçadas na janela olhando, minha amiguinha e eu. Alguém depois nos disse do que morrera, mas não guardei na memória, é claro. No entanto, aquela imagem da criança morta, nunca mais esqueci. Muitos anos depois, vi o neto de uma amiga dentro de um pequeno caixão, depois de uma longa luta contra a leucemia. Tinha dez anos.
E ainda diz o Eclesiastes:
“....Também colocou no coração do homem o conjunto do tempo, sem que o homem possa atinar com a obra que Deus realiza desde o princípio até o fim....”

Temos todos o nosso tempo, de chorar de rir, de gemer e de calar. E de morrer. Mas não podemos atinar com a obra de Deus.
 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Paris: a festa continuou- II


E Paris retomou sua vida, o mais normal possível, ainda que muitos franceses tivessem optado por deixar a cidade, ou a França. Na capital, pessoas comuns, intelectuais, artistas, tinham que sobreviver, ainda que a presença do invasor estivesse em toda parte. E como frisa a autor, a história da cultura francesa havia influenciado o mundo e era o maior trunfo da França diante da Alemanha nazista. Paris sempre fora uma cidade cosmopolita, onde a vida agitada, que misturava cultura e lazer, a diferenciava das outras capitais. Aos nazistas interessava que os franceses continuassem se divertindo, ou “chafurdando na própria decadência.” Assim cabarés e bordéis tinham entre os alemães seus principais frequentadores.  Ali conviviam com franceses. A cidade tinha bandeiras com a suástica por toda parte, mas, apesar disso, a velha Paris continuava fazendo sua vida encantadora. No entanto, Goebbels – o, infelizmente, genial homem da propaganda e da informação nazistas - tinha outra preocupação: era preciso oprimir a França, aviltá-la, fazendo com que sua incomensurável vida cultural, vinda dos seus tempos mais antigos, tivesse uma estagnação. O complexo de inferioridade dos alemães vinha de muito longe, dos tempos em que a França já produzia Arte de todo tipo, enquanto eles ainda permaneciam bárbaros. Então, de agora em diante, Paris não mais irradiaria luzes por todo mundo. A França deveria se calar. Em uma instrução à embaixada alemã em Paris, dizia Goebbels : “ O resultado de nossa luta vitoriosa será o fim da supremacia cultural da França, na Europa e no resto do mundo.......Toda forma de auxílio ou tolerância à propaganda cultural francesa será considerada crime contra a nação.”   Em contrapartida, seria dada à prioridade à cultura alemã. Um Departamento de Propaganda, com complicada estrutura foi criado com esta finalidade. Disseminar a cultura alemã não era difícil, já que os dirigentes dos órgãos de propaganda franceses eram fascistas convictos, ou queriam agradar o invasor. Alguns oficiais alemães, profundos conhecedores e admiradores da cultura francesa, fluentes na língua, vieram a Paris a fim de criar com franceses fascistas um  Groupe de Collaboration, cujo nome já indica a finalidade. A verdade é que os homens enviados a Paris para este fim eram de grande gabarito intelectual. Orquestras alemãs apresentaram concertos, muitas vezes regidos por Von Karajan,  seguidos de recepções a que compareciam intelectuais franceses. Ao fim de algum tempo, Goebbels resolveu convidar à Alemanha artistas e intelectuais franceses.
No entanto, muitos franceses, diretores de cinema, atores, além de intelectuais judeus, haviam deixado a França. E a perseguição anti-semita continuava implacável. Os judeus ricos abandonavam suas mansões e migravam para a Inglaterra ou Estados Unidos, os pobres, fugidos da invasão do Leste europeu, serviram de gado humano para os famigerados campos de concentração. Nas mansões abandonadas a rapina era imediata. Simone de Beauvoir, professora, conta que foi obrigada a assinar um documento afirmando sob juramento que não tinham nenhuma ascendência judaica nem ligação com a maçonaria. No governo fantoche de Vichy também acontecia uma terrível perseguição anti-semita. Judeus foram expulsos do serviço público e, se não fugiam, eram presos e, posteriormente, enviados a campos de trabalhos ou de concentração. E muitos franceses tiveram que exercer trabalho escravo na Alemanha.
Mas já prevendo a guerra, o governo francês, em 1939, havia esvaziado o Museu do Louvre, retirando de suas molduras pinturas famosas e levando-as para um castelo na região do Val de Loire. No Museu do Jeu de Paume, onde se expunha obras dos mestres franceses impressionistas,  muitas telas foram roubadas por Goering, pessoalmente, que vinha a Paris escolher para si ou para Hitler. Enquanto isto, intelectuais franceses continuaram a produzir, numa atitude que poderia parecer dúbia, já que tinham que passar pela censura alemã. Cocteau, Satre, Guitry, por exemplo, exibiram peças, onde uma muito significativa parte da platéia era constituída de oficiais alemães. Artistas, como Picasso, Matisse, Bonnard, continuaram em Paris produzindo suas obras, indiferentes ao drama político francês. Conta-se que um militar alemão ao visitar o estúdio de Picasso, foi presenteado com um cartão postal de sua obra Guernica, que retrata a destruição da cidade basca pela aviação alemã, com autorização do ditador Francisco Franco. Pergunta-lhe o oficial, após observar o postal. “Você fez isso”? Ao que Picasso responde: “ Não, você fez!”
E em Paris, continuava a festa. A matéria-prima que faltava para a moda foi substituída por outra. As mulheres continuaram elegantes, e, com os grandes costureiros, usaram a imaginação. Sem haver material para a fabricação de meias, que naquele tempos tinha a famosa costura na parte posterior, imaginou-se marcá-las com canetas. Chapéus eram feitos de todos os tipos de materiais, inclusive papel. Mas se a comida era escassa, os cabarés continuavam múltiplos e cheios. Muitas francesas tornaram-se amantes de oficiais alemães, sendo que a grande musa do cinema, Arletty, aparecia oficialmente com seu amante alemão. Ao ser presa e interrogada após a liberação de Paris disse uma frase que ficou famosa: “Se meu coração é francês, minha bunda é internacional.” Foi liberada e viveu até os noventa e quatro anos. Outras, sem seu status tiveram a cabeça raspada e forma obrigadas a desfilar nuas. Mas, enquanto Arletty dava seu “cul” ao alemão, a resistência lutava, matava e morria. E de Londres, o General De Gaulle incitava os franceses a defender a pátria.
Em agosto de 1944, as tropas aliadas entram em Paris. Alemães são presos , assim como os franceses colaboracionistas. Alguns se suicidam como Drieu La Rochelle, no entanto amigo de muitos resistentes. Robert Brasillach, jovem e extraordinário intelectual é fuzilado em 1945, apesar dos pedidos de clemência vindos de todos os lados. Pierre Laval que migrara do famigerado stalinismo para o também famigerado fascismo, Primeiro Ministro de Vichy, é fuzilado em 1945.  O General Pétain, primeiramente condenado a morte, teve sua pena convertida em prisão perpétua. Morreu em 1951, totalmente senil, aos noventa e cinco anos. E muitos outros foram fuzilados ou relegados ao ostracismo, como Louis Ferdinand de Céline, grande escritor, somente reabilitado após sua morte em 1962.
E a vida na cidade luz continuou. As marcas da guerra ainda estão presentes em muros com placas assinalando que ali morreu um jovem resistente. França e Alemanha se reconciliaram e como dizia uma amiga um dia desses: “Fumar, ser comunista ou nazista, está completamente fora de moda.” O inimigo agora é outro.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Paris. A festa continou


Considero meu amor pela leitura uma grande benção. Quando a gente lê com amor, não interessa onde esteja, o barulho que façam a seu redor, a cachorrada que late – Tila e Charmoso estão neste momento em uma de brincadeira em que um abocanha a orelha do outro. Mas acabei de ler um livro fantástico e vim direto para o computador para contar a meus amigos o que li e aprendi. O autor é Alan Riding, nascido no Brasil de pais ingleses, com longa carreira jornalística. É também escritor. Atualmente, mora em Paris como correspondente cultural do New York Times. Conheci-o através de uma entrevista em “Conexão Roberto D´Avila”, meu programa de domingo a noite. Fiquei fascinada com sua inteligência, cultura, sua personalidade, e o assunto, que sempre foi para mim uma incógnita: o que acontecia em Paris sob a ocupação nazista, no período entre 1940 e 1944. Como estou impedida de fazer musculação com os braços, tive que optar pela bicicleta, e foi durante aqueles quarenta minutos, que se transformaram em momentos incrivelmente prazerosos, que li vorazmente o livro. Trata-se de um trabalho de pesquisa gigantesco, que contou com a colaboração de historiadores importantes deste período e também de testemunhas daqueles anos sombrios, alguns já falecidos quando da publicação do livro. Mas cabe a mim um agradecimento especial a Allan Riding, por ter permitido que um dever quase suplicial se transformasse em puro deleite.
Para melhor compreender a pesquisa é necessário um pequeno passeio pela história da França com suas múltiplas Repúblicas, ou Constituições. A primeira, elaborada pela Assembléia Constituinte Nacional em 1792, aboliu definitivamente a monarquia. A ela seguiram mais duas, surgidas por acontecimentos políticos importantes.  Depois da derrota na guerra contra a Prússia, foi elaborada a Terceira República. Foi sob ela que Paris viveu seus dias mais gloriosos, que entre 1870 e 1914 foram chamados de “Belle Epoque “. No entre- guerras (1918-1940), Paris reuniu artistas do mundo inteiro, tantos que não dá para citá-los. Foram os “anos loucos”, que Woody Allen genialmente mostra em seu filme “Meia-noite em Paris”. Todos viviam a ilusão de que o mundo girava a seu favor, que nunca mais haveria guerra, sem atentarem para o que se passava na Alemanha falida, onde um partido de extrema direita, seqüestrava e matava qualquer opositor, e onde surgia uma figura sinistra, carismática, feita no modelo exato para um povo desesperado. Da forma mais imoral, França e Inglaterra a ele foram cedendo tudo, a começar pelo vergonhoso Tratado de Munique, que entregava uma parte da Tchecoslováquia aos nazistas. Mas o que era a Tchecoslováquia? A França vivia um momento especial chamado “Front Popullaire” que durou de 1936 a 1939, cujo Primeiro Ministro era Léon Blum, socialista, judeu, posteriormente preso pelos nazistas. Foi um momento de euforia Os trabalhadores conquistaram o direito a quinze dias de férias anuais, a quarenta horas de trabalho semanal, e a um aumento de salário. Uma velha canção interpretada por Jean Gabin, cantor e galã da época, conta a perplexidade da classe operária, que não sabe o que fazer com os dias sem trabalho. No entanto, o Front Populaire era formado por uma coalisão de partidos, que jamais se entenderam. E durou até o momento em que Hitler invadiu a Polônia e começou a avançar pela Europa Ocidental,  ainda tendo seu Ministro de Relações Exteriores, Ribbentrop, firmado com a União Soviética um tratado de não agressão. A França compreende então que suas aspirações são muito maiores do que se havia imaginado.
Depois de vergonhosa derrota, que incorporou à Alemanha, duas províncias: Alsácia e Lorena, os nazista invadiram Paris e em maio de 1940 desfilaram na Avenida des Champs Elysées, tendo atravessado o Arco do Triunfo. A França despedaçada, com uma extrema direita, nazista ou não, mas profundamente anti-semita, foi dividida em duas partes, a região ocupada ao norte, incluindo Paris, e ao sul um governo fantoche comandado pelo General Pétain, herói na Primeira Guerra. Muitas famílias parisienses, crendo ser mais seguro, fugiram desesperadas para o sul, sob um governo instalado na cidade de Vichy. No entanto, este governo fantoche era quase tão perigoso quanto o dos nazistas. Mas era preciso sobreviver, ainda que não se vislumbrasse nenhuma luz no fim do túnel. A esta III Republica foi promulgada e 1945 a  IV, e , finalmente, em 1958, o General Charles de Gaulle, eleito Presidente inaugurou a V, que persiste até agora.
Mas o texto já está bem longo e tenho medo de chateá-los. Logo, estarei contando o que realmente me interessa, Paris sob a ocupação.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

O Terceiro Ato







Fiquei fora do ar por mais de três meses. Que pena! Espero que meus amigos ainda estejam fiéis a mim, apesar de meu silêncio. Mas por quê? Preguiça? Falta de assunto? Mas o mundo nunca esteve tão efervescente! Vontade de mudar um pouco minha vida? Mas ela estava tão boa! Enfim, alguma coisa aconteceu em mim. E agora não me interessa ficar tentando descobrir o que foi. Hoje acordei com vontade de voltar, não ao passado, porque este é inacessível, mas de retomar o que abandonei. É verdade que li muito, vários livros que me fascinaram e me fizeram viver vidas que não são minhas, mas tão incorporadas! Deles falarei proximamente. Hoje meu assunto sou eu mesma e todos aqueles que estão vivendo o terceiro ato, o derradeiro, mas talvez o melhor.


O título, tirei de uma palestra de Jane Fonda, que aos setenta e quatro anos mostra uma forma física admirável e uma grande alegria de viver. A inspiração, de minha amiga Walquíria para quem telefonei dando-lhe os parabéns e que me fez ver o quanto é importante ter vivido até agora com saúde e felicidade, ainda que a vida nos tenha dado muitas lambadas. Ainda sou capaz de me comover e ,como dizia Nélida Piñon numa entrevista a Roberto D´Avila , a gente envelhece quando não é mais capaz de se comover. Choro quando vejo as crianças sofredoras na África, no Haiti, na India e também aqui. Emociono-me com o sofrimento de seres humanos e dos animais. Sinto em mim ainda viva a capacidade de amar. Amar o ser humano. Depois daquela entrevista de Nélida e da observação de minha amiga, refleti o que pode significar a vida e sobretudo neste Terceiro ato, quando já passamos dos cinqüenta, dos sessenta e sentimos em nós esta semente de vida sempre florescente e se renovando.


Tive uma vida difícil, com um irmão psicótico, mas de inteligência extraordinária, um pai devotado, mas de gênio difícil, com quem, graças a Deus, tive grande embates, uma mãe amorosa mas que não suportando a separação do marido, primo e namorado desde a meninice, resolveu morrer e durante seis anos esteve na cama, em minha casa, pedindo a morte que não vinha. Depois de sua libertação, fiquei com o encargo de meu irmão até o dia de sua súbita morte. O que me causou grande dor. E enfim, perdi minha única irmã, com um câncer de ovário. Vivo sozinha e assim espero terminar meus dias. Já tive os amores que tinha que ter. Do passado sinto falta de pouca coisa, talvez daqueles longínquos anos de início da adolescência. Mas olho para frente, sei que tenho muito mais passado do que futuro, mas isto é a vida. E ter chegado até aqui, ainda me comovendo com o que vejo, com o que leio, é haver vencido uma caminhada que ainda me seduz. Quero tomar meu vinho todas as noites, comer meus quitutes naturais, sem carne, sem aditivos, minhas frutas, legumes e verduras, minhas massas integrais. Quero ouvir meus netos, Felipe e João, dizerem : “A geladeira da vovó é diferente de todas as outras. A gente abre e diz: “Ôba mamão de soja, oba, água, oba, pizza de soja.” Quero poder fazer minha ginástica diária, beijar fraternalmente meus amigos, sorrir para as pessoas que olham com simpatia meus bichinhos na rua. Quero participar deste grande espetáculo que é a vida.


E até bem breve. E desta vez pra valer.


Comunico-lhes ainda que também postarei a mensagem de novo texto no meu facebook. http://www.facebook.com/maria.viana.737448