QUEM SOU EU

Sou professora de Francês, mas hoje minha principal atividade é escrever e ler, além de cuidar dos meus três vira-latas: Charmoso, Príncipe e Luther.



Gosto de fazer ginástica, sou vegetariana e adoro animais em geral, menos baratas.



Sinto especial prazer quando meus textos agradam aos meus leitores. Espero continuar produzindo e me comunicando com todos os meus amigos, neste maravilhoso universo da net.



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domingo, 16 de julho de 2017

Minha mãe morreu num dia vinte e seis de fevereiro, há muitos anos. Já havíamos sido advertidos de que seu tempo seria curto. Durante seis anos, eu lutara contra seu desgosto pela vida. Ela havia fraturado o fêmur e, depois disso, nunca mais andou. Negava-se a caminhar, negava-se a viver. Foram anos de sofrimento, sobretudo para nós duas, já que o resto da família podia viver sua própria vida. E tive força para lutar, para não sucumbir. Esperava que algum dia, quem sabe, ela voltasse a viver. Mas sua perda era irremediável, ela perdera seu amor, e nada mais a interessava. A mãe que eu conhecera toda minha vida, que me ninara na velha cadeira de balanço, ouvindo novelas no rádio, que me contara histórias de sua infância, que arrancara com um fio de linha cada um dos meus dentes de leite, que guardo até hoje, que me consolava quando eu caia e me machucava, que chorara o dia eu em que parti para completar meus estudos, esta mãe morrera já seis anos antes que seu coração parasse.
Mas esta força divina, que vem para aquele que sabe enxergá-la, iluminou meu caminho e me fez levantar a cabeça. Foi esta força, que está no mistério da vida e da morte, no sol que brilha e nos ilumina, e que meus cachorrinhos procuram para se aquecer. Esta força que eles sentem, e que muitos pobres seres humanos não enxergam. Foi ela que eu senti a cada manhã, tendo dormido ou não. E levei até o fim minha missão.
No dia em que minha mãe morreu, levei-a de carro, agonizante, sentada a meu lado, para o hospital, sabendo que era o fim. Cheguei buzinando. Levaram-na, imediatamente, não sei para onde. Mas antes que a levassem tirei a aliança de seu dedo. A aliança que meu pai colocara na sua mão direita aos 14 anos, e que me acompanha cada dia de minha vida. Minha irmã e eu ficamos esperando, sabendo o que aconteceria ou já acontecera. E quando saí do hospital, depois da notícia fatal, olhei para o céu e vi, em meio às minhas lágrimas, montinhos de nuvens que se acumulavam como criancinhas que brincavam. Lembrei-me da história que ela sempre me contava das sucessivas Corálias, sempre vestidas de branco e que morriam ainda criancinhas. Isto se passara na sua adolescência. Tomada por uma convicção divina, senti que Deus me enviava uma mensagem. Quem sabe eram elas que haviam vindo buscá-la?
Depois a funerária, mas ainda há pouco ela estava viva! Ou era só impressão? Voltei para casa, exausta. Na sala escura e silenciosa, senti meu corpo dobrar e orei, orei para Aquele que eu sabia estar ali. Sai na sacada e senti a vida penetrar em mim. Eu havia, naqueles anos de sofrimento, aprendido a enxergar Deus. Fui acendendo as luzes, e entrei em seu quarto. Sentei-me na poltrona onde a colocávamos tantas vezes. A almofadinha para os pés ainda estava lá. Fechei os olhos e mil lembranças me vieram à mente. Era como se um carrossel de meu passado mais distante girasse dentro de minha cabeça exausta. Ruas mal iluminadas onde as crianças brincavam, festas juninas ainda na minha primeira infância, o dia em que cortei o queixo e as Vicentinas que deslizavam pelos corredores, com aqueles enormes chapéus. De repente, abri os olhos e vi, sobre a mesinha, os seus remédios que eu sempre deixava separados, dentro de um potinho. Lágrimas desceram por meu rosto. Mas estava em paz. Resolvi tomar um banho e deixei a água deslizar sobre minha cabeça e meu corpo. Água, vida! Respirei fundo, eu havia compreendido! Como a água que refrescara meu corpo, senti que havia uma secura interna. Estava sedenta. Depois, peguei o telefone para avisar alguns amigos e parentes em Porto Alegre.
E ainda teria o velório! Com gente amiga ou não. Eu teria que ver seu corpo morto, inerte, suas belas mãos, que tantas coisas lindas haviam criado, cruzadas sobre o peito. Beijaria seu rosto gelado. E ainda faltava avisar meu irmão! Não me lembro mais como fiz. Lembro-me que o levei de carro ao cemitério. Ele não chorava, mas eu sabia o quanto sofria. Minha amiga, Many, chegou logo depois e levou-me para descansar um pouco num quarto. Eu estava profundamente triste! Mas havia algo dentro de mim que me assegurava de que ela, finalmente, estava feliz. De repente uma enorme barata na parede, quase me tocando, me fez dar um pulo e voltar para a sala.
Então, resolvi ir em casa, precisava pegar alguns documentos. Já começava a amanhecer. Many, amiga das boas e más horas, preparou-me um prato de mingau que engoli automaticamente.  Olhei o sol que começava a despontar e senti bem dentro de mim que toda aquela beleza do amanhecer era uma prova da existência de Deus, assim como a lua que iluminara minha triste noite. Toda aquela beleza me assegurava que tudo vinha Dele. Eu sabia!
Hoje passados tantos anos repito Fernando Pessoa “Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra.” E foi o que senti, ao vê-la morta, fria e inerte naquele caixão. Eu o sentia, e aquele céu resplandecente parecia um sinal. Vi minha amiga Sônia sentada num dos bancos do jardim ao lado de meu irmão, segurando-lhe carinhosamente a mão. Ficaram ali muito tempo, até que meu pobre irmão, que eu perderia um ano e meio mais tarde, tivesse coragem de ver a mãe morta.
Alice foi enterrada à tarde, quando o sol se punha atrás das montanhas, meu coração pulava dentro de meu peito, não quis prosseguir. Ali, nossos caminhos se separavam. Mãe, teu encontro comigo terminou, como tudo termina na vida. E, parodiando Fernando Pessoa, dá-lhe que sua alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.  Mãe, o solo que serve de leito aos teus despojos e de todos aqueles que amei e perdi, jamais é visitado por mim. Onde tu estás, e todos os outros, não é a terra seca e árida. Tua morada está além de mim e de todos os que irão depois. A morada de minhas cinzas, consumidas pela cremação, será o caminho do vento de um lugar alto que quase alcance o céu. De lá, verei toda tua obra, Senhor, e poderei enxergar melhor do que jamais pude toda tua beleza.
“Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim”  Tempo de dizer adeus

quinta-feira, 1 de junho de 2017

A história se repete como farsa.

Referindo-se ao golpe de Luís Napoleão Bonaparte, disse Marx que a primeira vez a história acontece como tragédia, a segunda como farsa. Mas, em pelo menos dois acontecimentos, a história se repetiu como tragédia. A primeira vez com a dos Bourbon na Revolução Francesa e  depois com a dos Romanov na Revolução Russa. Não é possível louvá-las ou odiá-las. Foram dois acontecimentos históricos que mudaram a história da humanidade. E há entre elas algumas coisas importantes em comum. Sempre fui uma apaixonada pela Revolução Francesa. Versalhes, o mais suntuoso palácio do mundo, a Conciergerie, de onde Maria Antonieta partiu, numa carroça, cabelos cortados, as mãos amaradas nas costa, entre os xingamentos e a troça do povo. Ela, membro de uma das dinastias mais poderosas da Europa: os Habsburgo. Li sua vida, sua infância, assim como a de seu marido. Na adolescência fui monarquista, jacobina revolucionária na juventude. Hoje já no entardecer vejo tudo de modo diferente e agradeço à vida haver me ensinado. Uso a razão e procuro deixar de lado a paixão.
Nicolau, Luís XVI... Aliás, é interessante como o destino armou contra Luís XVI. Louis-Ferdinand, filho de Luís XV, beato, ao contrário do pai libertino, morreu cedo, deixando a viúva e, ao que me consta cinco filhos. Neste caso, deveria suceder ao avô o neto mais velho, cujas pretensões reais já se faziam sentir.   No entanto, uma queda de cavalo leva os médicos a descobrirem-lhe um tumor na perna, que, na época, foi diagnosticado como tuberculose óssea. Ao fim de longa agonia, durante a qual teve a seu lado seu irmão menor, o menino morre, Tinha dez anos. “Para o delfim e a delfina , bem como para o rei, no fundo está claro que a morte se enganou de presa...” Escreve a delfina em seu diário, em 1761: “ nada pode arrancar de meu coração a dor que nele está gravada para sempre.”Em 1765, morre o delfim Louis-Ferdinand, provavelmente de tuberculose. Dois anos mais tarde, morre sua mulher. Assim, o futuro Louis XVI torna-se delfim aos onze anos. Aos quinze anos, casa-se com Maria-Antonieta, num casamento combinado entre seu avô, Luís XV, e Maria-Teresa da Áustria. Ela tem quatorze anos e meio. No fundo, a princesa austríaca sabe que não reverá sua mãe, que a vê como uma carta no jogo de interesses políticos.
Nicolas II era filho de uma princesa dinamarquesa, Dagmar, que em russo tomara outro nome, e do Tzar Alexandre III. Durante o governo de seu avô, assim como de seu pai , a Rússia conheceu grande prosperidade. No terreno social, os chamados servos da gleba foram liberados e puderam construir suas próprias vidas. No terreno cultural, houve um desenvolvimento extraordinário com o surgimento de alguns dos maiores gênios da literatura universal, como Tolstoi, Tchechov, Dostoievsky, Gorki. Grandes artistas plásticos, escultores, pintores. Surgiram grandes universidades, grandes editoras. E também na música com gênios como Piotr Tchaikovsky, Rimsky-Korsakov, Aleksander Borodin, e muitos outros. E aqui não poderia deixar de mencionar meu inesquecível irmão, Sérgio, o homem mais inteligente e culto que conheci e a quem devo meu parco conhecimento cultural. Desde criança falou-me acerca do mundo da cultura. Onde esteja, obrigada, irmão!
Ao casar-se com Nicolau, a noiva, alemã, tomou outro nome transformando-se de Alix em Alexandra. De luterana fervorosa converteu-se em ortodoxa igualmente fervorosa. Sua mãe era a segunda filha da rainha Vitória da Inglaterra e tendo perdido cedo os pais foi criada pela avó. Mas ao contrário de Luís XVI, gordo, feio, desajeitado, Nicolau era um belo homem. E a paixão foi irresistível. Já convertida e com o nome de Alexandra, o casamento foi grandioso. E o amor entre ambos durou até a brutal execução em 1918. Mas, Alexandra nunca foi bem vista pela corte nem pelo povo russo. Era considerada arrogante,  pouco comunicativa e jamais manteve boas relações com a sogra, esta sim conhecedora da corte e do povo. Era fervorosa defensora dos direitos divinos do Tzar, e achava que opiniões alheias, vindas de onde viessem não tinham a menor importância. E é claro que exercia enorme poder sobre o marido apaixonado.
As condições do povo eram miseráveis. A célebre marcha de São Petersburgo, de janeiro de 1905, organizada por um sacerdote ortodoxo, com milhares e milhares de homens, mulheres e crianças, todos cobertos de farrapos imundos, cujo único objetivo era ver o Tzar e mostrar-lhe suas terríveis condições de vida, transformou-se num morticínio, quando as tropas tzaristas, atirando para cima assustaram os cavalos, que começaram a pisotear o povo. Enfurecidos os manifestantes avançaram sobre as tropas, e estes milhares e milhares de miseráveis foram cruelmente esmagados, cruelmente fuzilados. Corpos se amontoavam pela imensa praça. Famílias foram destroçadas. A neve ficou tinta de sangue. E só queriam vê-lo, talvez na sua pobreza pedir-lhe pão. Nicolau só tomou conhecimento da tragédia dias depois, pois estava em outra residência. Conta-se que enfureceu-se com a reação de sua guarda, mas jamais cogitou qualquer diálogo com o povo. Afinal, ele era o Tzar, seu poder emanava de Deus. Há também indícios de que o religioso, organizador da marcha, fizera acordo com a polícia secreta do Tzar a fim de esmagar organizações de trabalhadores. Foi o início de greves, violentamente reprimidas, e movimentos revolucionários silenciosos.
E a situação na frente da batalha da guerra (1914-18) era a mais deplorável possível, não havia munição nem alimentos. Não havia mais comando, soldados se matavam entre si e também seus superiores. Tentando apaziguar, Nicolau parte e deixa o poder com a Tzarina. Sem nenhuma experiência, dominada pelo fanático Rasputin a quem eram atribuídos poderes sobrenaturais, o desastre foi total. Diz-se que este misterioso personagem conseguia estancar as crises hemofílicas de Alexei, único filho homem do Tzar. Mistura de bruxo e libertino, acabou sendo assassinado, durante uma orgia, pelo príncipe Felix Yussupov e alguns amigos. Homem enorme -1,93- de força descomunal, conta-se que permaneceu vivo após ingerir grande quantidade de cianureto. Finalmente, foi fuzilado com dezenas de tiros. Um personagem realmente invulgar. Meu pai tinha o livro escrito por Yussupov “Como matei Rasputin”, que, infelizmente se perdeu.
Enquanto se distanciava do poder, Nicolau se vê obrigado a abdicar e também em nome de seu filho doente. A Duma, espécie de Assembléia, criada em 1905, para apaziguar os movimentos que começavam a eclodir, mas com poderes limitados, já que poderia ser dissolvida pelo Tzar segundo seus interesses, traz para o campo de debates socialistas e social-democratas. Dissidência dos Bolchevistas, os Mencheviques, que pode-se comparar aos social- democratas, tiveram como seu maior líder Alexander Kerensky. Durante algum tempo, antes do poder dos Bolcheviques, Kerensky constituiu a única proteção do Tzar e sua família, ainda que não lhes tivesse nenhum apreço. A princípio, foram exilados na Sibéria. Com eles partiram o médico do filho Alexei, seu cuidador, o professor de pintura das princesas- Maria, Olga, Tatiana e Anastácia- e sua professora de francês. Ali viveram alguns meses até a chegada dos bolcheviques ao poder, cujo líder era o “camarada” Wladimir Lenin.  Este evento marcou a morte dos Romanov. Kerensky partiu para os Estados Unidos, onde morreu em 1970.
Como Luís XVI, igualmente influenciado pela mulher, ambas consideradas estrangeiras, Nicolau desdenhou o conselho de alguns de seus ministros de instituir uma monarquia parlamentar, onde o poder do rei era limitado por uma constituição. Luís XVI, ao ver as coisas piorarem, com vários clubes revolucionários, resolve convocar os “Estados Gerais” (États Géneraux) , que reuniria as três Ordens –Nobreza, Clero e Terceiro Estado. Não se tratando de uma sociedade da classes, mas de ordens, assim se constituíram os Estados Gerais. Sobre esta sociedade de “ordens” , gostaria de falar mais tarde. Os “Estados Gerais” haviam sido criados pelo rei Felipe Augusto em 1320, e seriam convocados em casos de alguma perturbação social ou econômica. Ao desconhecer o parecer dos deputados Girondinos, revolucionários moderados, adeptos da monarquia parlamentar, como já existia na Inglaterra, Luís XVI acabou subindo as escadas do cadafalso. Caso contrário, ele, assim como Nicolau II, teria, provavelmente, terminado tranquilamente seu reinado. 
Luís XVI foi guilhotinado em janeiro de 1973, sua mulher em outubro do mesmo ano. Depois da tomada do poder pelos Bolcheviques, a família Romanov ,e alguns servidores, foi transportada para Ikateringo, onde, sob ordem de Lenin, foi executada em julho de 1918.
Disse Lenin: “ As revoluções são as festas dos oprimidos e explorados”
Mas o que se viu a seguir foi a barbárie superando qualquer esperança de liberdade. Os oprimidos ainda oprimidos, tirania,  dor, medo,  pobreza. Sim é verdade que a História acontece uma vez como tragédia e a segunda como farsa. E foi a o que aconteceu com os ideais de Liberdade e Igualdade por que esperava o povo russo.
E antes de terminar não poderia deixar de levantar meu protesto contra o RIDÍCULO filme de Sofia Coppola sobre Maria Antonieta. REPUGNANTE!

   A história se repete como farsa.

sábado, 1 de abril de 2017

Svetla: une vie

Svetla Hantova: une vie

Quando ela nasceu, o comunismo já havia se instalado na Bulgária. Durante toda sua infância, sua juventude, sua maturidade havia sentido o medo. Quando a conheci, jamais havia conhecido a liberdade. Roubaram-lhe o apartamento, assim como todos os bens da família. Naquela inesquecível estadia na Bretanha, devia regular comigo, quarenta e dois anos. Vou falar no passado, porque a ele me refiro. Minha amiga tinha belos olhos azuis, e cabelos louros, daqueles que se via antigamente, descoloridos com a própria água oxigenada. Tintura, cores a escolher? Nem pensar! Teria sido uma bela mulher, de corpo esguio e belo sorriso. Svetla fazia o possível para ser uma mulher cuidada como as outras. Seu cabelo ressecado, sua pele maltratada eram o retrato do realismo socialista. Éramos professoras universitárias, vindas de países, majoritariamente, ocidentais. Algumas mais velhas, outras mais jovens, algumas mais belas outras menos. Havia até algumas polonesas, nem tão vaidosas – pecado burguês, como dizia meu ex-companheiro Robert Ponge, que, num dia de mau humor, corri de casa – mas pareciam mais à vontade do que minha amiga.
Nunca conhecera nenhuma comemoração natalina, este era um dia como qualquer outro. Nem um só dia festivo, talvez somente para “comemorar” o dia de março de 1917, em que os bolcheviques tomaram definitivamente o poder, e um dia, em 1946, em que o comunismo se instalou na Bulgária. Jamais uma oração, somente feita em casa, escondida como ato criminoso: ópio do povo. Svetla nunca vira uma árvore de Natal, apesar de provir de família ortodoxa. Nascer, crescer, viver no medo só não é pior do que acontece com crianças sírias. Esta é a variável comum a todas! O MEDO! Estamos vendo, e já ouvimos falar do medo, no holocausto, no regime stalinista, no maoísta. Tudo provocado por ditadores! É preciso varrê-los da terra!
Tínhamos raros momentos a sós, seu guarda-costa as vezes lhe dava uma folga. Quem sabe se compadecesse? Afinal, Marguerita , bem mais velha, esposa de um coronel, havia conhecido outros tempos! Nestes momentos, Svetla contava, que o contrabando era freqüente no país. Mas o que se podia comprar com tão pouco dinheiro? Meias de seda, como ela dizia, xampus, um batom. E isto era o cúmulo do luxo! Produtos vindos da Grécia, onde ela imaginava haver de tudo. A Bulgária havia sido invadida pelos turcos e ficara sob domínio otomano durante quatrocentos anos. Foram séculos de sofrimento, com impostos altos e discriminação. Enfim, conseguiram a liberdade já no século XVIII. Mas, na realidade, o país jamais conheceu a paz e sempre houve sofrimento para o povo. Em 1946, finalmente, foi declarada a “República Popular do Bulgária”. Chervenkov Valko, instalou no país o stalinismo e seu sucessor, Todor Zhivkov, continuou na linha da União Soviética até a queda do comunismo. Svetla convidou-me a ir a Sofia e até hoje não descobri se deveria visitar a múmia de um ou de outro. Imagino que de Vlako, que eu entendia outra coisa.
Havia nas redondezas um hiper-marché , de cujo nome não me recordo mais. Eu adorava ir nos momentos de folga, saborear biscoitos que não encontrava aqui. Em geral, ia com Guy, e foi com ele, que morava em Sofia, como funcionário francês, que aprendi muita coisa sobre o país: a função de Marguerita, o terror de Svetla com a fita cassette de Gal Costa, a história do velho que, não tendo mais onde morar na casa da família, foi instalado numa cabana para ele construída no pátio, e a constante escassez de tudo. Tentei dar-lhe uma nota do Brasil , que imaginei seria uma recordação, mas ela recusou com determinação. Só anos depois, juntando os pedaços, verifiquei que uma simples nota de um país estrangeiro poderia trazer-lhe problemas. Pela própria Svetla fiquei sabendo que logo que se formava fila, entrava-se nela, certo de que alguma coisa estava ou logo estaria faltando. Contou-me da falta de papel higiênico e hoje, quando vejo o que acontece na Venezuela, penso nela.
Contou-me que o maior sonho de uma búlgara era casar com um europeu e sair do país. Anos mais tarde, recebi, em minha casa, o filho e a namorada de uma amiga sua que se casara com um francês, astrônomo no Chile. Era um rapaz simpático, bem francês, e que mal falava o búlgaro. Também contou-me que era divorciada, sem filhos, que tinha, como eu, uma mãe doente, que não sei com quem deixara, que tinha uma tia também doente (pelo que dizia Alzheimer), que se negava a se deixar lavar, e que a família a deixara sem lavar, o que já durava anos. Imaginei apartamentos escuros, sombrios, decadentes. Mostrou-me uma foto sombria de sua mãe, deitada, doente, e lembrei-me da minha, cheia de cuidadoras, numa casa arejada e clara, e um batalhão de médicos. E deveríamos ser, não fosse o regime, da mesma classe social!
Um dia, Svetla, juntou algum dinheiro e, no hiper-marché, comprou uma bermuda estampada com números. Chegou exultante com sua nova roupa e logo a estreou. Sentia-se super elegante. Sinto-me orgulhosa de não ter o hábito, tão comum entre as brasileiras, de reparar roupas. Mas aquele dia foi diferente. Reparei que vestia uma blusa preta e sua bermuda colorida. Não olhei os sapatos. Ah! Svetla que se contentava com tão pouco! Que tinha tão pouco!  
Um dia, resolveu comprar presentinhos para amigas na Bulgária. Fomos juntas e durante horas procuramos o que caberia no seu parco orçamento. Em dado momento, sentou-se no chão e começou a contar as moedinhas espalhadas, para espanto de todos os clientes. Pensei que jamais chegaríamos a um consenso e completei (estávamos sós) o que faltava. Um chocolatinho, um pacote pequeno de biscoitos, umas balinhas coloridas, etc. Saiu feliz da vida, imaginando a alegria das presenteadas.  Pouco antes do fim do curso, notei que, após o almoço e jantar, jogava dentro de uma sacola que nos haviam dado, seu pedaço de pão e o meu, que eu nunca comia. Fiquei intrigada, não podia imaginar o porquê. Um dia, afinal, criei coragem e perguntei-lhe porque guardava pão duro e velho. Lembro-me perfeitamente de sua resposta: “Maria, vou esperar o avião em Orly  durante horas. Assim molho o pão na água e posso comer.” Fiquei estarrecida, como era possível? No dia seguinte, pela manhã , ao se despedir de mim, abracei e dei-lhe uma nota de cem dólares. Hoje, imagino que tenha jogado fora ou dado a alguém.
Com a queda do regime, Svetla recuperou seus bens, segundo contou-me sua amiga, de cujo nome não me lembro mais. Casou-se novamente e tinha até um cachorrinho. Durante algum tempo nos correspondemos, mas a distância e o tempo nos afastou.
Cruel regime que, felizmente, acabou. O que resta está tão podre que logo despencará. Não posso morrer sem ver isto acontecer. E continuo afirmando:
“VERMELHO SÓ MEU BATOM”vie

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Bretanha inesquecível

Foi há muitos anos atrás, comemorava-se o bicentenário da Revolução Francesa. Eu havia ganhado uma bolsa por causa de um trabalho teatral, que desenvolvia com meus alunos. Era o “Théâtre Gavroche”. Gavroche é um moleque, personagem de “Os Miseráveis” de Victor Hugo, que morre durante a Revolução de 1830. O título me foi sugerido por minha sobrinha Ludmila, que se formava em francês, e havia terminado de ler o livro. Recebi a bolsa do Adido Cultural da França, Jean-Paul Rebaud, que se interessou pelo trabalho que eu desenvolvia. Incluía ida e volta, em avião da Air-France e ainda uma quantia em dólares.
Saí, deixando para trás muita coisa. Um ano após a morte de meu pai, minha mãe havia tornado-se cadeirante, depois de fraturar o fêmur de uma das pernas, e desenvolver uma depressão terrível. Negava-se a caminhar.  Como eu já trouxera meu pai para minha casa durante a sua fatal cardiopatia, Alice continuou comigo. Necessitava de cuidados permanentes, com um esquadrão de cuidadoras. Médicos, de todas as especialidades, estavam sempre por aqui. Tomava um mundo de remédios, dos quais eu me incumbia, mesmo trabalhando o dia inteiro. Vivia correndo de um lado para outro, subindo e descendo, da Universidade até em casa, de casa até a Universidade. Até hoje, depois de vinte e três anos de sua morte, ainda me persegue a sensação de estar atrasada, de não conseguir fazer tudo que tenho a fazer. Teresa, minha irmã, ficou incumbida de ministrar os remédios e supervisionar as cuidadoras. Era um batalhão de medicamentos, com hora certa. Fiz uma lista detalhada, batida a máquina, com os horários e cores diferentes. Inventamos um processo mnemônico, para que nada faltasse ou atrasasse. Espalhei em lugares estratégicos da casa. Teresa tinha sempre o seu na bolsa. À noite, meu sobrinho, Bertrand, vinha “dormir” aqui. Alice o chamava a noite toda, como fazia muitas vezes comigo. Para ajudá-lo, vinha minha amiga, Sônia Miranda, a quem serei eternamente grata. Nesta batalha de toda preparação, esqueci de comprar uma mala nova – a minha tinha as duas fechaduras estragadas – esqueci até de comer, e, enfraquecida, tive uma terrível laringite.
Antes de partir para a França, eu teria de ir a Belo Horizonte, onde se comemorava a Inconfidência Mineira, e eu devia apresentar meu trabalho com o teatro. Deixei minha mala aqui, e só levei o necessário.  Separei as roupas que deveria levar para a França e pedi a Teresa que fizesse minha mala na véspera. Foi então que ela constatou que as fechaduras funcionavam precariamente. Desespero, telefonema para mim com uma bela descompostura. Em Belo Horizonte, apesar da minha laringite, tudo correu bem e, afinal, embarquei em Confins, em direção ao Rio, para tomar o avião para Paris. Encontrei minha irmã ainda emburrada, com a mala toda amarrada, já que não tivera tempo de comprar outra. Mas, contei com a sorte.
Minha chegada a Paris foi um desastre, a mala abriu – felizmente não foi durante a viagem – e esparramou roupa pelo chão do aeroporto, era como um ventre aberto expondo suas vísceras. Não havia outra coisa a fazer; agachei-me e comecei a catar, tentando fechá-la. Logo surgiram algumas pessoas que me ajudavam, enquanto eu dizia automaticamente: “Merci” , “Merci”, “Merci”. Amarrei-a de qualquer jeito e prossegui. Bem numa outra ocasião conto o resto desta aventura em Paris, que merece ser contada. No dia seguinte, segui para a Bretanha, para um Centro de Estudos perto de Saint-Nazaire. E quase perdi o trem, que saia às nove horas e sete minutos EXATOS.
A viagem foi extremamente agradável, apesar de minha garganta ainda doer. Em minha cabine havia um só passageiro, um operário que ia passar férias no campo, na Bretanha. Era um homem simples, já entrado nos anos, que usava uma espécie de casquete. Contei-lhe que era brasileira, e ele olhou-me espantado. Pensava que fosse italiana. Já ouvira falar vagamente do Brasil... Compartilhou comigo seu lanche constituído de uma baguette, queijo e vinho, que bebemos na mesma garrafa. Escrevi numa folha de papel meu nome e endereço e lembro-me que, já no Brasil, recebi um cartão seu. Havia xerografado o que lhe deixei escrito e colado no envelope. Respondi, mandando um cartão da Avenida Atlântica. Depois não tive mais notícias. Ainda tenho guardado seu endereço, uma recordação pela qual tenho muito carinho. Desceu antes de mim e foi aproveitar suas férias de verão.
Durante aquele agradável trajeto, que deve ter durado umas duas horas, esqueci-me da mala. Mas, chegando ao meu destino, a lembrança voltou-me, tragicamente, à memória, pois já havia sofrido, em Paris, por todo lugar onde passei com ela. Em Saint-Nazaire, a estação era pequena, quase vazia. Ao descer uma escada – nada de escada rolante -, justo aquela mala despencou e se abriu novamente. Imaginei como ficaria Teresa se visse a cena. Mas, no interior da França, tudo é diferente! Logo encontrei um senhor que me ajudou gentilmente a catar roupas e sapatos, que eu me lembre pela terceira vez desde que desci na França. E ainda procurou um taxi para mim. “Merci, monsieur.” E qualquer coisa a mais, de que não me lembro, mas que poderia ser “J´ai bien envie de vous embrasser”
E atravessando lindos campos cheios de girassóis, chegamos ao Centro de Estudos “Belc” que não me lembro mais o que significa. Eu ainda tinha dois problemas: a mala e a garganta. Naquela correria toda havia esquecido as duas. Entrei no prédio principal conforme me indicou o taxista... E foi lá, na França profunda, que passei alguns dos mais belos dias de minha vida. Fiquei curada da laringite e esqueci a mala. E também de toda angústia que havia deixado no Brasil. Nos diversos cursos, que tínhamos a escolher, quase todos os professores eram franceses, os alunos vinham do mundo inteiro.
Logo no primeiro dia, fomos passear até Saint-Marc-sur-mer, uma cidadezinha linda, como são todas aquelas do interior da França. Íamos falando em francês, cada qual com seu sotaque (e sem falsa modéstia, acho que a melhor pronúncia era a minha). Descobri que éramos um grupo formado por um espanhol, uma finlandesa, e uma búlgara. A finlandesa já havia vindo ao Brasil, e tinha uma camiseta com um papagaio. Já eu, nunca havia visto uma finlandesa. Mas, o maior espanto tive com a búlgara, ela jamais vira uma brasileira, e eu jamais vira uma búlgara. Desse espanto nasceu uma linda amizade.
Passávamos a manhã, a tarde e a noite em cursos e ateliers. Aos sábados e domingos tínhamos folga, íamos à praia em Saint-Marc, nadávamos, tomávamos sorvete Voltávamos encharcados. À noite, íamos à “caféteria”, onde dançávamos, inclusive uma fita de Gal Costa, que encantou a todos. Foi numa dessas ocasiões que conheci Guy Boucher, francês, professor na Bulgária. E tive que fazer grande esforço para não me apaixonar, o que sei foi recíproco. Tenho fotos suas que me fazem recordar, com imenso carinho, o homem mais gentil que conheci em minha vida. Mas tínhamos caminhos tão diferentes! Às vezes gazeteávamos, e foi assim que Guy me levou a Guérande, uma cidade medieval, onde íamos, freqüentemente, comer deliciosos crepes, especialidade da região. Foi neste período que comecei a me desencantar de minhas ilusões comunistas, típicas da juventude. Ao ver a pobreza de Svetla, ao vê-la sempre supervionada por Margueritta, esposa de um coronel, ao perceber seu medo. Propus-lhe dar de presente a fita cassette de Gal Costa, e, para meu espanto, ela recusou apavorada. Não entendi, e foi Guy quem me explicou: Ela teria sérios problemas com a polícia, já que sem entender nada, diriam que era propaganda anticomunista!
E também teve a festa a fantasia. Conforme me havia sido informado, desde o Brasil, eu deveria levar uma fantasia. E não tinha nada, a não ser as velhas fantasias, de húngara, cigana, colombina, dominó, etc, que minha mãe me vestia quando eu tinha 4 ou 5 anos, nem sei mais, e que ainda tenho guardadas como recordação. Minha amiga, Marlene, emprestou-me uma linda de sua filha Lilian. E foi assim, coberta de lantejoulas coloridas, com as pernas a mostra, cobertas somente por uma meia arrastão vermelha, e um magnífico adereço de plumas, que me apresentei, entre fantasias de televisão, Papai Noel, e de alguma coisa que até hoje não descobri o que seja.  Mas, afinal, sou brasileira! Em mim corre sangue português, negro, alemão, índio, cobra d´água, curupira, etc. Ninguém pode competir conosco. Sucesso total! Despertei paixões. Quiseram comprar minha fantasia, que nem era minha!
Mas como tudo na vida tem um fim, depois de um mês delicioso, mas de intenso trabalho, nos despedimos, sabendo que nunca mais voltaríamos a nos ver. Senti um aperto no coração. Mas ainda comprei uma mala nova em Saint-Nazaire e deixei a velha no alojamento. UFA! Passei ainda uns dez dias em Paris. Fui ao cinema, andei pelas ruas de minha infância, mas sentia saudades daqueles trinta dias. Anos depois voltei a Saint-Marc-sur-mer, o Centro de Estudos estava vazio. A cidade não tinha mais o encanto de outrora. Aos domingos, a feira, que tanto curtíamos, me pareceu sem graça. Mas as fotos me que passei para disquete, me fazem sempre lembrar aquele momento mágico, único em minha vida.
E ÚNICO porque foi MÁGICO!

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A BELEZA DE ENVELHECER

Acabei de ver um filme que falou-me ao coração. Falou de tudo que tenho sentido nestes anos, após os sessenta, quando a gente revê o passado. Penso nele e sinto saudades. Sei que este é o último ato, e quero vivê-lo o melhor possível . Quanto ao filme, não interessa a história, mas, em mim , provocou o imediato desejo de compartilhar tanta coisa, que vi, vivi, amei... Falar no passado, quando ele é tão maior do que o futuro, não é saudosismo, nem angústia da aproximação do check out. A música que encerra o filme me comoveu profundamente. Todos aqueles casais que dançavam, cabecinhas brancas , algumas mulheres tentando driblar o tempo, era uma das minhas preferidas aos quinze, dezesseis anos. 
Há tempo! Já a havia esquecido! Aqueles foram meus anos dourados, e, à medida que a gente vai envelhecendo, detalhes vão surgindo neste computador da memória, por mais longínquos que sejam. Pessoas que tiveram importância, lugares, desejos, sempre reprimidos... amores. Lembro de recantos que não existem mais, de sonhos que não pude realizar, mas realizei outros em que não pensava. As pessoas que então povoavam minha vida foram pouco a pouco desaparecendo, alguns morreram, outros não sei onde estão. Minha família original partiu, pai , mãe, irmão, irmã. Os rostos que hoje encontro no Natal, ou em outras reuniões familiares, são outros. Sinto saudades, mas, a cada partida, levantei a cabeça e pensei “É a vida, tenho que prosseguir”

Tenho contato com dois amigos, de muitos anos atrás, que me dizem que era a menina mais bonita do colégio. E que eram secretamente apaixonados por mim! Confesso que fiquei feliz. Mas minha grande paixão era outro. Já morto há muitos anos. E há também as lembranças mais antigas, o velocípede que ganhei de Natal, trocado mais tarde pela bicicleta. A corda em que era mestra, as brincadeiras na rua, a roda “... vamos brincar de roda?” Lembro-me da moça alta e loura, que via, todos os dias, descendo do colégio. Destacava-se das outras pela altura e pelo cabelo loiríssimo. Ainda não havia resolvido se queria ser como ela ou como Teresa, minha irmã, que admirava muito, apesar de seus beliscões. Um dia sumiu, e fiquei sabendo que havia morrido. Naquela época não tinha idéia do fosse a morte , sabia que nunca mais a veria, e considerei, simplesmente, que ela havia ido embora. Alguns meses antes, havia morrido minha avó Joana, que morava conosco. Lembro-me de minha mãe aos prantos, comigo sentada no colo, eu chorava também... A noite fui com Teresa dormir na casa de uma vizinha. Acordei toda molhada, envergonhada pulei na cama de minha irmã e agarrei-me a ela.  
Mais tarde os “arrasta-pés”, onde dançávamos aquela linda música do final do filme, de cujo nome esqueci-me, e a orquestra de Ray Connif. Usava saltos bem altos, bico fino, impraticável hoje. Aos quatorze anos pintei meu cabelo de vermelho, aos dezesseis de louro platinado. Hoje vejo que tive pais bastante liberais. Era paquerada, mas sempre permaneci fiel ao meu primeiro amor, aquele que abriu caminho para outros. Não danço mais, nem pulo corda. Durante anos andei na minha bicicleta, até que, desviando de um buraco, fui atropelada. Fiquei com medo. Troquei meus exercícios, a bicicleta, a musculação, pelo pilates. Continuo com o vício de pintar os cabelos, agora para esconder os brancos. Minhas roupas mudaram de estilo. Há anos, vivo só, com meus três vira-latas. Gosto desta liberdade. Tenho que tomar remédio para dormir e antidepressivo. Herdei de minha mãe uma depressão endógena que me acompanha há anos. Mas, pela manhã, logo que acordo, peço coragem a DEUS, em que acredito firmemente, e levanto-me às cinco e meia para dar conta de todas minhas tarefas.
Olho duas fotos antigas. Minha mãe e minha tia Aracy, sua irmã por parte de mãe. Minha mãe devia ter cerca de quatorze anos e minha tia cerca de dezessete. Morreu pouco tempo depois de tirar a foto. Provavelmente, suicidou-se; já havia tentado uma vez. Conservou-se na memória dos que a conheceram linda, com sua coroa de flores, o rosto ligeiramente inclinado, um chale, talvez, que lhe deixa nu um dos ombros. Minha mãe, vê-se, é uma garota adolescente. Apesar da puberdade, tem um rosto mais sensual, lábios muito grossos, e traços menos requintados. Ambas são bonitas, cada qual no seu tipo. Minha tia não pode ter seu grande amor, que, aliás, morreu pouco depois dela, não teve filhos, não viu a família nascer e crescer. Ficou na sua solidão, linda e jovem. Para sempre. Minha mãe morreu aos oitenta e dois anos, encontrou seu amor, casou-se, teve filhos, netos. Engordou, seus cabelos ficaram grisalhos, sua pele mudou. Aos setenta e seis anos, desistiu da vida. Havia perdido seu amor, seu companheiro de tantos e tantos anos! Durante anos desesperei-me ao vê-la assim. Logo eu, mulher independente, com uma trajetória de vida de amores e desamores. Como compreendê-la? Mas no dia em que se foi, senti que se libertava, rezei por ela e me conformei. Afinal, apesar de todos os revezes da vida, minha  mãe viveu plenamente aquilo que projetara para ela. A velhice ao lado do companheiro, que envelheceu com ela, com os filhos e netos, foi feliz. Pouco importa seus cabelos grisalhos, sua pele já enrugando, o quanto havia engordado.  
 Hoje, aos setenta anos, cuido mais de mim, acumulo uma bagagem de conhecimento da vida e cultural que utilizei na formação de muita gente. Sempre gostei de ler, prazer que devo a meu irmão. Mas, agora, tenho que usar óculos. Confesso que a maior parte do que vivi foi bom. Coloquei-me na prioridade e quero continuar a ser feliz. Sei que o tempo passa célere, e aprendi a gozar cada dia. Não abro mão do que me dá prazer. Como disse um dia Mario de Andrade, meu cesto de cerejas já está bem vazio, mas pouco importa. Dizer que a vida é sopro é um lugar comum, mas verdadeiro. Mas ainda espero escrever ainda muitos textos, ler muitos livros, assistir muitos filmes. E conseguir vencer as batalhas , até a final!
Para informação, o filme chama-se “45” com Charlotte Ramplay e Tom Courtenay.