QUEM SOU EU

Sou professora de Francês, mas hoje minha principal atividade é escrever e ler, além de cuidar dos meus três vira-latas: Charmoso, Príncipe e Luther.



Gosto de fazer ginástica, sou vegetariana e adoro animais em geral, menos baratas.



Sinto especial prazer quando meus textos agradam aos meus leitores. Espero continuar produzindo e me comunicando com todos os meus amigos, neste maravilhoso universo da net.



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sábado, 9 de dezembro de 2017

LES HORIZONTALES

Século XIX ,  século XX. Depois de tantos acontecimentos, enfim , chegamos ao novo século. Na França, nestes cem anos, que  parecem ter fim, ao menos cronologicamente, foram tantos os acontecimentos! Dois golpes, duas revoluções, uma guerra contra a Prússia, uma França vencida, duas perdas territoriais, uma revolta em Paris, denominada Comuna. Enfim, destruídos os rebeldes, chega-se à Terceira República. Paris se engalana. É a Belle Epoque. Numa sociedade, ainda distante de qualquer resquício de igualdade, uma parte da população sente que a vida é para ser gozada. Não se poderia imaginar o que se preparava neste século recém-nascido.  Mas até a Primeira Guerra, as delícias deste mundo de artistas, música, das comédias de Feydeau,  das deliciosas operetas de Offenbach, do Moulin Rouge, do Impressionismo, tudo continuou existindo.
Prazer, jóias, amores ilícitos, cortesãs. Elas eram muitas, mas três se destacavam. Eram as mais belas, mais inteligentes, mais artistas. Começaram no famoso “Folies Bergère”, em pequenas cenas,  belas figurantes. Mas este não era seu objetivo. La Belle Otero, Liane de Pougy, Emilienne d´Alençon. Tinham origens diferentes. Caroline Otero, cujo verdadeiro nome era Agustina Del Carmen Otero Iglesias, nasceu na Espanha, de família duvidosa, com muitos filhos , cada um de um pai diferente. Com a morte do marido e a completa ruína da família, sua mãe se prostitue para manter a prole.  Isto até casar com um certo fulano que logo passa a detestar sua enteada, Agustina. Mas, na promiscuidade em que viviam, durante  uma festa na aldeia, a menina é violentada por um sapateiro. Ela tem apenas onze anos. Sua vida daí em diante torna-se um vendaval de homens e de um proxeneta. Aos treze anos, com seu amante ela aprende a dançar o flamengo, e a desenvolver certa habilidade teatral.  Descoberta como menor , ela é encaminhada para sua mãe, que a expulsa. Volta à vida de prostituição, até que, grávida, é obrigada a abortar, o que a torna estéril. Encontra um segundo amante, que também a explora e a leva a cabarés , onde exerce suas habilidades de dançarina, e também a explorar seu charme. Somente algum tempo depois, um rico banqueiro compra sua liberdade, ensina-lhe boas maneiras, e a leva para fora da Espanha. Mais tarde, já conhecida, ela estréia em pequenas cenas nas grandes salas de espetáculo de Paris, como Moulin Rouge, Folies Bergères, e Cirque d´éte, este último já desaparecido. Mas sua grande paixão é o jogo. E nele depositou milhões, dados por amantes: Reis,  Príncipes, Duques , milionários que freqüentavam esta Paris em ebulição.
Liane de Pougy, já tinha origem totalmente diferente. Era francesa, de uma família de militares. Anne-Marie Chassaigne , seu verdadeiro nome, recebeu fina educação junto às Irmãs “ Fidèles Compagnes de Jésus”, e desde cedo seu temperamento libertário se fez sentir. Mas, foi junto às Irmãs que ela aprendeu o savoir-faire e a cultura que mais tarde lhe serviram de base. Aos dezessete anos, ela se casa  com um militar, e pouco tempo mais tarde dá à luz um filho,  que se tornará um dos pioneiros da aviação na Primeira Guerra e morrerá aos vinte e sete anos. Com o marido fora, Anne-Marie arruma um amante, causa de uma bala que recebeu nas nádegas. Ela foge, e aproveita para se divorciar. Diz seu biógrafo, Jean Chalon, : “ A beleza , quando é pródiga em prazeres, pode ser uma chave abrindo muitas portas, inclusive as da imprensa”  Ela estabelece relações com os chefes de importantes órgãos da imprensa, como Gil Blas, hebdomadário, com sabor profano, e até o severo “Le Figaro”. Seu nome é presença nas rodas sociais e intelectuais. Ela aprende dança, e escreve. Seus amantes são ricos, poderosos, e pagam qualquer preço por uma noite, ou por somente vê-la nua, em todo seu esplendor. Liga-se de amizade com Sarah Bernard, que a aconselha a não tentar o teatro, por sua falta de vocação, conselho que ela desconhece. Faz amizade com Proust, que incentiva seu talento literário.
Uma certa noite, é chamada às pressas por seu amigo e admirador, Henri Meilhac, autor teatral e membro  da Academia Francesa de Letras. Dizia-lhe que se fizesse muito bela e elegante. Sem entender, Liane foi encontrar seu amigo e assustou-se, quando,  ao entrar no salão, viu levantar-se toda a platéia e a orquestra tocar um hino triunfal. Somente no dia seguinte, soube, pelos jornais, que substituira  a rainha da Suécia, impedida de ir na última hora.  É assim esta mulher que faz de seu corpo seu comércio, mas que não se esquece de sua capacidade intelectual. Como diz seu biografo ela nunca deixa de mostrar, a quem a visita em  sua mansão,  seu majestoso leito de seda e plumas como seu “ganha pão”. Ela havia descoberto que o leito pode ser explorado de várias maneiras. E fortunas se dissolvem em suas mãos, jóias, dinheiro, e tudo que tem valor...
Emilienne d`Alençon , ou Emilie André,  nasceu em Paris, filha de uma “concierge” ( espécie de faxineira de um edifício, onde mora com a família, profissão praticamente desaparecida).  O pseudônimo lhe foi sugerido pela prostituta Laure de Chiffreville, que lhe prevê um futuro brilhante, devido à sua beleza e graça. Ela se introduz no Cirque d`Été , no Maxim´s . O grande incentivador de sua carreira foi o jovem duque Jacques d`Uzès, que, perdidamente apaixonado, pretendia fazer dela uma dama, que posteriormente esposaria. Mas esta não é a intenção de Emilie ou Emilienne, e tampouco da família do duque. Assim, enviam-no para o Congo, onde ele morre. Aí, então, a jovem futura cocotte, faz sua carreira. Por ela se apaixonam Leopoldo II da Bélgica, o futuro rei Eduardo VII e o Kaiser Guilherme II. Com Liane de Pougy, ambas com tendências lésbicas, estabelece um romance, que dá a Gil Blas a ocasião da seguinte piada: haveria um casamento e em pouco tempo nasceria um bebê.
Por causa de suas origens populares, é apelidada de “Gavroche feminina” ( moleque de rua do romance de Victor Hugo, “Les Misérables”, que acaba morrendo na revolução de 1830), no entanto, é uma mulher inteligente e talentosa. Apaixonada pela literatura, ela escreve uma coleção de poesias com o título “Sous le masque” , bem indicativo de sua própria vida. Bela mulher, e fotografando muito bem, ela usa esta estratégia para melhor marcar sua imagem. A descrição que dela faz um cronista é de uma irresistível mistura de inocência e sensualidade. Seu nariz arrebitado e audacioso, sua boca que ao mesmo tempo faz beicinho e convida ao beijo. Mas esta “Gavroche feminina” arruinou  muitos condes, duques, barões, milionários interditados pelas famílias.
E afinal, chega a Grande Guerra, e termina a Belle Epoque. As cocottes famosas já não são tão jovens e sedutoras. Liane de Pougy dá vazão às suas tendências lesbianas. Torna-se amante de uma jovem americana, Natalie Clifford Barney. Ela é bela, rica, poderosa. Desde que sabe amar, ela  ama as mulheres. Certa vez, acompanhando seu pai à Casa Branca, ela encanta-se  pela Primeira Dama e diz claramente: “ Ah ! Senhora Presidente, se pudesse continuar a presidir a  Casa Branca com não importa qual presidente!”  Constrangimento geral. Na França, procura Liane enviando-lhe um buquê de rosas. E então começa o romance mais ardente da vida das duas. Mas como tudo passa, o amor acaba, e resta uma profunda amizade. Em 1899, ressurge vida de Liane de Pougy seu filho Marc Pourpre, com doze anos, que ela havia quase esquecido. Levado pelos avós, conheceu aquela mulher que diziam ser sua mãe e cuja foto se espalhava por toda Paris. Liane o recebe, mas não consegue estabelecer com ele o amor maternal. Interna-o no melhor colégio de Paris, provê todas suas necessidades, oferece-lhe belas férias, e manda-lhe declarações de amor maternal.
Em 1910, finalmente, ela encontra seu príncipe, de verdade. Casa-se com o Príncipe romeno Georges Ghika , para grande furor da família do noivo.  A Grande Guerra aproxima-se. Em 1914, morre seu filho Marc, um pioneiro da aviação. Mas, estranhamente, mesmo antes de saber de sua morte, Liane cai em desespero. Contorce-se , tem  um tremor por todo corpo, prostra-se no chão. Seu desespero mostra que a mãe dentro dela não havia morrido. Ela havia implorado para que não fosse, mas ele queria, achava ser seu dever como francês,  reconquistar a Alsácia e Lorena. Ao saber de sua morte, a mãe cai em estado vegetativo, seu coma é quase fatal. Anoxérica, passa a  pesar quarenta e dois quilos.  Á sua cabeceira está  seu marido e sua ex-amante americana , Natalie Barney. Mais tarde ela dirá: “ Aprendi a maternidade na dor”
Em 1945, morre seu marido e ela resolve se recolher a um convento.  Morre em santidade em 1950. Como diz seu biógrafo: “Liane de Pougy, cortesã, princesa e santa.”
Belo Otero, passados os anos de apogeu, recolhe-se à sua mansão em Nice. Na mesa de jogo perde toda sua fortuna. Em 1960, sem recursos, encontra um amigo que lhe aluga um quarto, onde esquenta sua refeição. Conta-se que, à noite, via-se nos becos de Nice, uma velhinha que procurava comida no lixo. Morre em 1965.
Emilienne d´Alençon morre em 1945. Ela está falida e endividada.  Seu dinheiro fora gasto com as amantes, e seu corpo e seu espírito estão destruídos pelo ópio. Casou-se duas vezes com jokeys ingleses. Divorciou-se do primeiro e perdeu o segundo na Grande Guerra. Gasta pelo tempo, pelas drogas, pela miséria , foi-se.
Estas mulheres viveram um mundo de esplendor que terminaria na Grande Guerra. Neste novo mundo que surgia não havia lugar para elas. Todas viveram também os horrores da Segunda Guerra. No “entre-deux-guerres” , pensou-se que a vida retomaria seu rumo, mas a Primeira ainda não acabara. Ela recomeçou em 1938, quando, de joelhos, Daladier e Chamberlain, lideres da França e da Inglaterra ,entregaram, parte da Tchecoslováquia a Hitler. Daí em diante, o mundo jamais tornaria a ter paz.  

LES HORIZONTALES

sábado, 9 de setembro de 2017

TUDO QUE ME CONTARAM
Há muitos anos, resolvi contar histórias. Aquelas que havia ouvido das velhas da família. São as interessantes. Velhas primas, amigas de minha mãe, gente que havia vivido um outro tempo, que eu não conhecia. Afinal, quando minha obra ficou pronta, tive que refazer, e refazer, e refazer.... Sempre havia coisa nova ou inverossímil, que eu não havia percebido. Também pouco a pouco as velhas foram partindo e fiquei sem meios de verificar. Intitulei-a “Tudo que me contaram” e fechei meu “livro”.Quem sabe algum dia o reabrirei? Ou alguém, ao encontrá-lo, poderá publicar?
De todas minhas fontes de informação, a melhor, a mais fidedigna, vem de minha Alice. Desde tomei algum conhecimento do mundo, conheci o seu colo aconchegante, que me ninava até que o sono fechasse meus olhos. Bem acomodada, quase no escuro, ainda com chupeta na boca, ouvia suas histórias. Eu devia ter três anos ou talvez menos. Ela gostava das novelas de rádio, mas gostava igualmente de contar-me suas histórias. Foi assim que soube que aquela moça bonita, cuja foto estava numa mesinha, era sua irmã Aracy. Que ela havia morrido aos dezessete anos. Não me disse de quê, nem perguntei. E por que vovó sempre colocava uma rosa diante do foto? Soube que a menininha com pezinhos a mostra e camisolinha rendada era irmã de papai. E que ela também havia morrido. Aos doze anos.
Aos poucos fui conhecendo a história da família. Tive duas tias, Aracy , irmã de minha mãe por parte de mãe  e Maria irmã de meu pai também por parte de mãe. Já na adolescência minha mãe contou-me que Maria morrera de peste bubônica, e Aracy provavelmente se suicidara. Já havia tentado uma vez. Minhas avós eram cunhadas, já que minha avó materna, Joana, era irmã do falecido marido de minha avó paterna. Já era crescida quando entendi que meus pais eram primos, o que hoje é considerado um casamento de alto risco. E foi este parentesco que os apresentou. Mas foi no colo acolhedor de minha mãe, em que adormecia toda noite, sentindo o balanço da velha cadeira, que, há muitos anos passados, a embalara e também minha tia Aracy, que ouvi histórias lindas, comoventes, engraçadas, tristes. 
Com a família longe, no Rio Grande do Sul, com meios de comunicação precários, eu não conhecia ninguém. Meu pai, militar, havia feito a Escola Militar de Engenharia no Rio, e de lá o transferiram para Santarém. Conseguiu com um colega paraense, a troca para Juiz de Fora, lugar de que talvez jamais ouvira falar. Sempre brinco que as montanhas mineiras inspiraram meus pais, já que minha mãe engravidou pouco depois de chegar. Já tinha filhos grandes e esta não foi uma boa surpresa. Mas fui bem-vinda e amada. Hoje, penso que esta hora, quando me embalava, era o momento de falar dos  que deixara para trás. Havia histórias mais recentes e outras bem antigas. Lembro-me de tia Porfíria, cunhada de minha bisavó, Vitória. Eram ambas argentinas, já que naquela fronteira quase todo mundo é meio brasileiro, meio argentino. Quando minha mãe a conheceu, já era viúva. Tinha uma dezena, ou mais, de filhos, de todas as idades. Nas férias, minha avó levava suas duas filhas para passarem uns dias na estância, que não sei se ficava no Brasil ou na Argentina. Minha mãe sempre me falou do dia em que chegou à estância e viu, pela primeira vez, um rádio. Era ainda bem pequena, de seis ou sete anos. Ela não podia imaginar o que significava aquele estranho objeto, entronizado sobre uma mesa, num recanto especial da  sala, que funcionava como um altar a um deus desconhecido. Imagino que fosse daqueles em estilo catedral, bem envernizado, com belos botões de ebonite pretos. O programa vinha da Argentina, e Alice ouvia, extasiada, o que se dizia em espanhol, acompanhado de uma terrível descarga, sem entender patavina. Aquele objeto parecia tão estranho que ela me confessou que sentia na sua presença um considerável medo, de tal forma que quando atravessava sozinha a sala onde estava o monstro que falava em meio a trovões, passava correndo. A prima que sabia manejar o estranho objeto devia parecer-lhe uma espécie de sacerdotisa, e Alice lhe tinha o maior respeito. Nunca consegui saber como aquela gente, no fim do mundo conseguia energia elétrica. Uma outra filha nascera cega. Vivia sentada num canto da sala, mexendo uma coisa que, a minha mãe, parecia ser um colar de contas grandes. Viveu e morreu na mais completa escuridão. Sua cegueira era solitária, jamais aprendera nada, o Braile lhes era totalmente desconhecido. Minha mãe guardava dela a imagem de uma mulher boa e carinhosa. Que terrível vida!
E havia também, o rapaz bonito, que chegara em Porto Alegre vindo do interior, que se apaixonara por ela, que, aos quatorze anos, já estava apaixonada pelo primo. Viviam-se os anos vinte. Um dia, ao voltar de um jogo de futebol, minha mãe, da janela de sua casa, notou que ele lhe parecia abatido e apoiava-se num guarda-chuva. Esta foi a última imagem que Alice guardou dele. No dia seguinte, já com evidentes sinais da peste, foi transportado para um isolamento onde morreu. O ano era 1922, foi em 22 que também morreu Maria e sua melhor amiga. Aquelas mortes de jovens e crianças me impressionou de tal forma, que durante muito tempo tive o hábito de olhar nas velhas casas o ano de construção que muitas ostentam no alto. Ainda há algum tempo, fui a um restaurante cuja construção datava deste ano. E por incrível que pareça, isto me impressionou.
Este foi também um ano especial para a arte brasileira, que se libertava da influência tradicional européia e buscava novas formas. A Semana de Arte Moderna, fez surgir nomes que marcaram nossa arte, imbuída de uma brasilidade até então desconhecida. Surgiram nomes como Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, e também foram conhecidos estrangeiros como Braque, Picasso e Matisse. Mas enquanto a arte se expandia no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul, governado por Borges de Medeiros, o Chimango, e toda uma equipe que se considerava positivista, sem acreditar em saneamento, em saúde pública, a peste grassou. Ainda hoje, numa das principais avenidas de Porto Alegre, há um “Templo” positivista , que data do século 19. Durante anos, passei diante dele, sempre fechado. Até que um dia encontrei-o aberto e entrei. Havia um pequeno grupo de homens, que muito gentilmente me falaram do filósofo Auguste Comte e ainda ficaram mais entusiasmados ao saber que eu havia visitado o apartamento do filósofo em Paris. Mas se Comte representa alguma coisa dentro da filosofia francesa, no Brasil, a partir de Júlio de Castilhos, famoso caudilho gaúcho, foi um desastre.
E para rir havia a história do árabe que se casou com uma colona, que logo engravidou de gêmeos. Parto difícil, longo com muito sofrimento da mãe. De repente, toda vizinhança, apavorada, vê o homem subir no telhado, ajoelhar-se e começar uma ladainha incompreensível, sempre voltado para o mesmo lado. Naquela Porto Alegre antiga, ninguém poderia supor que fosse um muçulmano, orando, no ponto mais alto possível, o telhado, voltado para Meca. E, afinal, a oração deu certo, pois, alguns dias mais tarde, mulher e marido exibiam orgulhosos os dois pimpolhos.
São tantas as histórias de um tempo que já se foi, e escutei ao longo de minha vida! Com ela percorri os pampas gaúchos, morei em Uruguaiana, brinquei com meus primos Deodoro e Alzira. Com elas chorei a morte de Aracy e Maria. Tive tifo, apaixonei-me pelo primo Felippe . Com elas assisti à partida de meu marido com as tropas para o Rio de Janeiro e rezei para que ele voltasse logo. Hoje, passados tantos anos, me pergunto, será que ela me contava estas histórias e eu as confundia com a história do rádio? Quem sabe, adormecida, eu não sonhava com elas e as incorporava ao mais profundo da minha lembrança e da minha sensibilidade?
Mas a vida sempre continua. Já partiram todos os que me contaram histórias. Todos os que conheceram Maria e Aracy.  Não sei para onde, certamente muito longe. E quem sabe, agora, estejam juntos e relembrem este passado? E morreram também os mais jovens. Morreu minha prima Marina, seu irmão Alberto, meu primo Renato, o Belo Brummel, minha prima Lourdes, meu primo Luís Pedro. E morreu meu irmão Sérgio, minha irmã Teresa.  Fiquei eu, talvez porque ainda tenha alguma missão a cumprir. Não lamento as mortes, elas fazem parte da vida. E o que me resta, quero viver feliz.  Recordações? Só as boas! Se for possível!
Quero continuar meu Pilates, minhas acrobacias, meu bom humor, minha vaidade, meu amor à vida. Porque ela vale a pena!!!

TUDO QUE ME CONTARAM

Há muitos anos, resolvi contar histórias. Aquelas que havia ouvido das velhas da família. São as interessantes. Velhas primas, amigas de minha mãe, gente que havia vivido um outro tempo, que eu não conhecia. Afinal, quando minha obra ficou pronta, tive que refazer, e refazer, e refazer.... Sempre havia coisa nova ou inverossímil, que eu não havia percebido. Também pouco a pouco as velhas foram partindo e fiquei sem meios de verificar. Intitulei-a “Tudo que me contaram” e fechei meu “livro”.Quem sabe algum dia o reabrirei? Ou alguém, ao encontrá-lo, poderá publicar?
De todas minhas fontes de informação, a melhor, a mais fidedigna, vem de minha Alice. Desde tomei algum conhecimento do mundo, conheci o seu colo aconchegante, que me ninava até que o sono fechasse meus olhos. Bem acomodada, quase no escuro, ainda com chupeta na boca, ouvia suas histórias. Eu devia ter três anos ou talvez menos. Ela gostava das novelas de rádio, mas gostava igualmente de contar-me suas histórias. Foi assim que soube que aquela moça bonita, cuja foto estava numa mesinha, era sua irmã Aracy. Que ela havia morrido aos dezessete anos. Não me disse de quê, nem perguntei. E por que vovó sempre colocava um vasinho com uma rosa ao lado da foto? Soube que a menininha com pezinhos a mostra e camisolinha rendada era irmã de papai. E que ela também havia morrido. Aos doze anos.
Aos poucos fui conhecendo a história da família. Tive duas tias, Aracy , irmã de minha mãe por parte de mãe  e Maria irmã de meu pai também por parte de mãe. Já na adolescência minha mãe contou-me que Maria morrera de peste bubônica, e Aracy provavelmente se suicidara. Já havia tentado uma vez. Minhas avós eram cunhadas, já que minha avó materna, Joana, era irmã do falecido marido de minha avó paterna. Já era crescida quando entendi que meus pais eram primos, o que hoje é considerado um casamento de alto risco. E foi este parentesco que os apresentou. Mas foi no colo acolhedor de minha mãe, em que adormecia toda noite, sentindo o balanço da velha cadeira, que, há muitos anos passados, a embalara e também minha tia Aracy, que ouvi histórias lindas, comoventes, engraçadas, tristes. 
Com a família longe, no Rio Grande do Sul, com meios de comunicação precários, eu não conhecia ninguém. Meu pai, militar, havia feito a Escola Militar de Engenharia no Rio, e de lá o transferiram para Santarém. Conseguiu com um colega paraense, a troca para Juiz de Fora, lugar de que talvez jamais ouvira falar. Sempre brinco que as montanhas mineiras inspiraram meus pais, já que minha mãe engravidou pouco depois de chegar. Já tinha filhos grandes e esta não foi uma boa surpresa. Mas fui bem-vinda e amada. Hoje, penso que esta hora, quando me embalava, era o momento de falar dos  que deixara para trás. Havia histórias mais recentes e outras bem antigas. Lembro-me de tia Porfíria, cunhada de minha bisavó, Vitória. Eram ambas argentinas, já que naquela fronteira quase todo mundo é meio brasileiro, meio argentino. Quando minha mãe a conheceu, já era viúva. Tinha uma dezena, ou mais, de filhos, de todas as idades. Nas férias, minha avó levava suas duas filhas para passarem uns dias na estância, que não sei se ficava no Brasil ou na Argentina. Minha mãe sempre me falou do dia em que chegou à estância e viu, pela primeira vez, um rádio. Era ainda bem pequena, de seis ou sete anos. Ela não podia imaginar o que significava aquele estranho objeto, entronizado sobre uma mesa, num recanto especial da  sala, que funcionava como um altar a um deus desconhecido. Imagino que fosse daqueles em estilo catedral, bem envernizado, com belos botões de ebonite pretos. O programa vinha da Argentina, e Alice ouvia, extasiada, o que se dizia em espanhol, acompanhado de uma terrível descarga, sem entender patavina. Aquele objeto parecia tão estranho que ela me confessou que sentia na sua presença um considerável medo, de tal forma que quando atravessava sozinha a sala onde estava o monstro que falava em meio a trovões, passava correndo. A prima que sabia manejar o estranho objeto devia parecer-lhe uma espécie de sacerdotisa, e Alice lhe tinha o maior respeito. Nunca consegui saber como aquela gente, no fim do mundo conseguia energia elétrica. Uma outra filha nascera cega. Vivia sentada num canto da sala, mexendo uma coisa que, a minha mãe, parecia ser um colar de contas grandes. Viveu e morreu na mais completa escuridão. Sua cegueira era solitária, jamais aprendera nada, o Braile lhes era totalmente desconhecido. Minha mãe guardava dela a imagem de uma mulher boa e carinhosa. Que terrível vida!
E havia também, o rapaz bonito, que chegara em Porto Alegre vindo do interior, que se apaixonara por ela, que, aos quatorze anos, já estava apaixonada pelo primo. Viviam-se os anos vinte. Um dia, ao voltar de um jogo de futebol, minha mãe, da janela de sua casa, notou que ele lhe parecia abatido e apoiava-se num guarda-chuva. Esta foi a última imagem que Alice guardou dele. No dia seguinte, já com evidentes sinais da peste, foi transportado para um isolamento onde morreu. O ano era 1922, foi em 22 que também morreu Maria e sua melhor amiga. Aquelas mortes de jovens e crianças me impressionou de tal forma, que durante muito tempo tive o hábito de olhar nas velhas casas o ano de construção que muitas ostentam no alto. Ainda há algum tempo, fui a um restaurante cuja construção datava deste ano. E por incrível que pareça, isto me impressionou.
Este foi também um ano especial para a arte brasileira, que se libertava da influência tradicional européia e buscava novas formas. A Semana de Arte Moderna, fez surgir nomes que marcaram nossa arte, imbuída de uma brasilidade até então desconhecida. Surgiram nomes como Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, e também foram conhecidos estrangeiros como Braque, Picasso e Matisse. Mas enquanto a arte se expandia no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul, governado por Borges de Medeiros, o Chimango, e toda uma equipe que se considerava positivista, sem acreditar em saneamento, em saúde pública, a peste grassou. Ainda hoje, numa das principais avenidas de Porto Alegre, há um “Templo” positivista , que data do século 19. Durante anos, passei diante dele, sempre fechado. Até que um dia encontrei-o aberto e entrei. Havia um pequeno grupo de homens, e muito gentilmente me falaram do filósofo Auguste Comte e ainda ficaram mais entusiasmados ao saber que eu havia visitado o apartamento do filósofo em Paris. Mas se Comte representa alguma coisa dentro da filosofia francesa, no Brasil, a partir de Júlio de Castilhos, famoso caudilho gaúcho, foi um desastre.
E para rir havia a história do árabe que se casou com uma colona, que logo engravidou de gêmeos. Parto difícil, longo com muito sofrimento da mãe. De repente, toda vizinhança, apavorada, vê o homem subir no telhado, ajoelhar-se e começar uma ladainha incompreensível, sempre voltado para o mesmo lado. Naquela Porto Alegre antiga, ninguém poderia supor que fosse um muçulmano, orando, no ponto mais alto possível, o telhado, voltado para Meca. E, afinal, a oração deu certo, pois, alguns dias mais tarde, mulher e marido exibiam orgulhosos os dois pimpolhos.
São tantas as histórias de um tempo que já se foi, e escutei ao longo de minha vida! Com ela percorri os pampas gaúchos, morei em Uruguaiana, brinquei com meus primos Deodoro e Alzira. Com elas chorei a morte de Aracy e Maria. Tive tifo, apaixonei-me pelo primo Felippe . Com elas assisti à partida de meu marido com as tropas para o Rio de Janeiro e rezei para que ele voltasse logo. Hoje, passados tantos anos, me pergunto, será que ela me contava estas histórias e eu as confundia com a história do rádio? Quem sabe, adormecida, eu não sonhava com elas e as incorporava ao mais profundo da minha lembrança e da minha sensibilidade?
Mas a vida sempre continua. Já partiram todos os que me contaram histórias. Todos os que conheceram Maria e Aracy.  Não sei para onde, certamente muito longe. E quem sabe, agora, estejam juntos e relembrem este passado? E morreram também os mais jovens. Morreu minha prima Marina, seu irmão Alberto, meu primo Renato, o Belo Brummel, minha prima Lourdes, meu primo Luís Pedro. E morreu meu irmão Sérgio, minha irmã Teresa.  Fiquei eu, talvez porque ainda tenha alguma missão a cumprir. Não lamento as mortes, elas fazem parte da vida. E o que me resta, quero viver feliz.  Recordações? Só as boas! Se for possível!
Quero continuar meu Pilates, minhas acrobacias, meu bom humor, minha vaidade, meu amor à vida. Porque ela vale a pena!!!

TUDO QUE ME CONTARAM

domingo, 16 de julho de 2017

Minha mãe morreu num dia vinte e seis de fevereiro, há muitos anos. Já havíamos sido advertidos de que seu tempo seria curto. Durante seis anos, eu lutara contra seu desgosto pela vida. Ela havia fraturado o fêmur e, depois disso, nunca mais andou. Negava-se a caminhar, negava-se a viver. Foram anos de sofrimento, sobretudo para nós duas, já que o resto da família podia viver sua própria vida. E tive força para lutar, para não sucumbir. Esperava que algum dia, quem sabe, ela voltasse a viver. Mas sua perda era irremediável, ela perdera seu amor, e nada mais a interessava. A mãe que eu conhecera toda minha vida, que me ninara na velha cadeira de balanço, ouvindo novelas no rádio, que me contara histórias de sua infância, que arrancara com um fio de linha cada um dos meus dentes de leite, que guardo até hoje, que me consolava quando eu caia e me machucava, que chorara o dia eu em que parti para completar meus estudos, esta mãe morrera já seis anos antes que seu coração parasse.
Mas esta força divina, que vem para aquele que sabe enxergá-la, iluminou meu caminho e me fez levantar a cabeça. Foi esta força, que está no mistério da vida e da morte, no sol que brilha e nos ilumina, e que meus cachorrinhos procuram para se aquecer. Esta força que eles sentem, e que muitos pobres seres humanos não enxergam. Foi ela que eu senti a cada manhã, tendo dormido ou não. E levei até o fim minha missão.
No dia em que minha mãe morreu, levei-a de carro, agonizante, sentada a meu lado, para o hospital, sabendo que era o fim. Cheguei buzinando. Levaram-na, imediatamente, não sei para onde. Mas antes que a levassem tirei a aliança de seu dedo. A aliança que meu pai colocara na sua mão direita aos 14 anos, e que me acompanha cada dia de minha vida. Minha irmã e eu ficamos esperando, sabendo o que aconteceria ou já acontecera. E quando saí do hospital, depois da notícia fatal, olhei para o céu e vi, em meio às minhas lágrimas, montinhos de nuvens que se acumulavam como criancinhas que brincavam. Lembrei-me da história que ela sempre me contava das sucessivas Corálias, sempre vestidas de branco e que morriam ainda criancinhas. Isto se passara na sua adolescência. Tomada por uma convicção divina, senti que Deus me enviava uma mensagem. Quem sabe eram elas que haviam vindo buscá-la?
Depois a funerária, mas ainda há pouco ela estava viva! Ou era só impressão? Voltei para casa, exausta. Na sala escura e silenciosa, senti meu corpo dobrar e orei, orei para Aquele que eu sabia estar ali. Sai na sacada e senti a vida penetrar em mim. Eu havia, naqueles anos de sofrimento, aprendido a enxergar Deus. Fui acendendo as luzes, e entrei em seu quarto. Sentei-me na poltrona onde a colocávamos tantas vezes. A almofadinha para os pés ainda estava lá. Fechei os olhos e mil lembranças me vieram à mente. Era como se um carrossel de meu passado mais distante girasse dentro de minha cabeça exausta. Ruas mal iluminadas onde as crianças brincavam, festas juninas ainda na minha primeira infância, o dia em que cortei o queixo e as Vicentinas que deslizavam pelos corredores, com aqueles enormes chapéus. De repente, abri os olhos e vi, sobre a mesinha, os seus remédios que eu sempre deixava separados, dentro de um potinho. Lágrimas desceram por meu rosto. Mas estava em paz. Resolvi tomar um banho e deixei a água deslizar sobre minha cabeça e meu corpo. Água, vida! Respirei fundo, eu havia compreendido! Como a água que refrescara meu corpo, senti que havia uma secura interna. Estava sedenta. Depois, peguei o telefone para avisar alguns amigos e parentes em Porto Alegre.
E ainda teria o velório! Com gente amiga ou não. Eu teria que ver seu corpo morto, inerte, suas belas mãos, que tantas coisas lindas haviam criado, cruzadas sobre o peito. Beijaria seu rosto gelado. E ainda faltava avisar meu irmão! Não me lembro mais como fiz. Lembro-me que o levei de carro ao cemitério. Ele não chorava, mas eu sabia o quanto sofria. Minha amiga, Many, chegou logo depois e levou-me para descansar um pouco num quarto. Eu estava profundamente triste! Mas havia algo dentro de mim que me assegurava de que ela, finalmente, estava feliz. De repente uma enorme barata na parede, quase me tocando, me fez dar um pulo e voltar para a sala.
Então, resolvi ir em casa, precisava pegar alguns documentos. Já começava a amanhecer. Many, amiga das boas e más horas, preparou-me um prato de mingau que engoli automaticamente.  Olhei o sol que começava a despontar e senti bem dentro de mim que toda aquela beleza do amanhecer era uma prova da existência de Deus, assim como a lua que iluminara minha triste noite. Toda aquela beleza me assegurava que tudo vinha Dele. Eu sabia!
Hoje passados tantos anos repito Fernando Pessoa “Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra.” E foi o que senti, ao vê-la morta, fria e inerte naquele caixão. Eu o sentia, e aquele céu resplandecente parecia um sinal. Vi minha amiga Sônia sentada num dos bancos do jardim ao lado de meu irmão, segurando-lhe carinhosamente a mão. Ficaram ali muito tempo, até que meu pobre irmão, que eu perderia um ano e meio mais tarde, tivesse coragem de ver a mãe morta.
Alice foi enterrada à tarde, quando o sol se punha atrás das montanhas, meu coração pulava dentro de meu peito, não quis prosseguir. Ali, nossos caminhos se separavam. Mãe, teu encontro comigo terminou, como tudo termina na vida. E, parodiando Fernando Pessoa, dá-lhe que sua alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.  Mãe, o solo que serve de leito aos teus despojos e de todos aqueles que amei e perdi, jamais é visitado por mim. Onde tu estás, e todos os outros, não é a terra seca e árida. Tua morada está além de mim e de todos os que irão depois. A morada de minhas cinzas, consumidas pela cremação, será o caminho do vento de um lugar alto que quase alcance o céu. De lá, verei toda tua obra, Senhor, e poderei enxergar melhor do que jamais pude toda tua beleza.
“Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim”  Tempo de dizer adeus

quinta-feira, 1 de junho de 2017

A história se repete como farsa.

Referindo-se ao golpe de Luís Napoleão Bonaparte, disse Marx que a primeira vez a história acontece como tragédia, a segunda como farsa. Mas, em pelo menos dois acontecimentos, a história se repetiu como tragédia. A primeira vez com a dos Bourbon na Revolução Francesa e  depois com a dos Romanov na Revolução Russa. Não é possível louvá-las ou odiá-las. Foram dois acontecimentos históricos que mudaram a história da humanidade. E há entre elas algumas coisas importantes em comum. Sempre fui uma apaixonada pela Revolução Francesa. Versalhes, o mais suntuoso palácio do mundo, a Conciergerie, de onde Maria Antonieta partiu, numa carroça, cabelos cortados, as mãos amaradas nas costa, entre os xingamentos e a troça do povo. Ela, membro de uma das dinastias mais poderosas da Europa: os Habsburgo. Li sua vida, sua infância, assim como a de seu marido. Na adolescência fui monarquista, jacobina revolucionária na juventude. Hoje já no entardecer vejo tudo de modo diferente e agradeço à vida haver me ensinado. Uso a razão e procuro deixar de lado a paixão.
Nicolau, Luís XVI... Aliás, é interessante como o destino armou contra Luís XVI. Louis-Ferdinand, filho de Luís XV, beato, ao contrário do pai libertino, morreu cedo, deixando a viúva e, ao que me consta cinco filhos. Neste caso, deveria suceder ao avô o neto mais velho, cujas pretensões reais já se faziam sentir.   No entanto, uma queda de cavalo leva os médicos a descobrirem-lhe um tumor na perna, que, na época, foi diagnosticado como tuberculose óssea. Ao fim de longa agonia, durante a qual teve a seu lado seu irmão menor, o menino morre, Tinha dez anos. “Para o delfim e a delfina , bem como para o rei, no fundo está claro que a morte se enganou de presa...” Escreve a delfina em seu diário, em 1761: “ nada pode arrancar de meu coração a dor que nele está gravada para sempre.”Em 1765, morre o delfim Louis-Ferdinand, provavelmente de tuberculose. Dois anos mais tarde, morre sua mulher. Assim, o futuro Louis XVI torna-se delfim aos onze anos. Aos quinze anos, casa-se com Maria-Antonieta, num casamento combinado entre seu avô, Luís XV, e Maria-Teresa da Áustria. Ela tem quatorze anos e meio. No fundo, a princesa austríaca sabe que não reverá sua mãe, que a vê como uma carta no jogo de interesses políticos.
Nicolas II era filho de uma princesa dinamarquesa, Dagmar, que em russo tomara outro nome, e do Tzar Alexandre III. Durante o governo de seu avô, assim como de seu pai , a Rússia conheceu grande prosperidade. No terreno social, os chamados servos da gleba foram liberados e puderam construir suas próprias vidas. No terreno cultural, houve um desenvolvimento extraordinário com o surgimento de alguns dos maiores gênios da literatura universal, como Tolstoi, Tchechov, Dostoievsky, Gorki. Grandes artistas plásticos, escultores, pintores. Surgiram grandes universidades, grandes editoras. E também na música com gênios como Piotr Tchaikovsky, Rimsky-Korsakov, Aleksander Borodin, e muitos outros. E aqui não poderia deixar de mencionar meu inesquecível irmão, Sérgio, o homem mais inteligente e culto que conheci e a quem devo meu parco conhecimento cultural. Desde criança falou-me acerca do mundo da cultura. Onde esteja, obrigada, irmão!
Ao casar-se com Nicolau, a noiva, alemã, tomou outro nome transformando-se de Alix em Alexandra. De luterana fervorosa converteu-se em ortodoxa igualmente fervorosa. Sua mãe era a segunda filha da rainha Vitória da Inglaterra e tendo perdido cedo os pais foi criada pela avó. Mas ao contrário de Luís XVI, gordo, feio, desajeitado, Nicolau era um belo homem. E a paixão foi irresistível. Já convertida e com o nome de Alexandra, o casamento foi grandioso. E o amor entre ambos durou até a brutal execução em 1918. Mas, Alexandra nunca foi bem vista pela corte nem pelo povo russo. Era considerada arrogante,  pouco comunicativa e jamais manteve boas relações com a sogra, esta sim conhecedora da corte e do povo. Era fervorosa defensora dos direitos divinos do Tzar, e achava que opiniões alheias, vindas de onde viessem não tinham a menor importância. E é claro que exercia enorme poder sobre o marido apaixonado.
As condições do povo eram miseráveis. A célebre marcha de São Petersburgo, de janeiro de 1905, organizada por um sacerdote ortodoxo, com milhares e milhares de homens, mulheres e crianças, todos cobertos de farrapos imundos, cujo único objetivo era ver o Tzar e mostrar-lhe suas terríveis condições de vida, transformou-se num morticínio, quando as tropas tzaristas, atirando para cima assustaram os cavalos, que começaram a pisotear o povo. Enfurecidos os manifestantes avançaram sobre as tropas, e estes milhares e milhares de miseráveis foram cruelmente esmagados, cruelmente fuzilados. Corpos se amontoavam pela imensa praça. Famílias foram destroçadas. A neve ficou tinta de sangue. E só queriam vê-lo, talvez na sua pobreza pedir-lhe pão. Nicolau só tomou conhecimento da tragédia dias depois, pois estava em outra residência. Conta-se que enfureceu-se com a reação de sua guarda, mas jamais cogitou qualquer diálogo com o povo. Afinal, ele era o Tzar, seu poder emanava de Deus. Há também indícios de que o religioso, organizador da marcha, fizera acordo com a polícia secreta do Tzar a fim de esmagar organizações de trabalhadores. Foi o início de greves, violentamente reprimidas, e movimentos revolucionários silenciosos.
E a situação na frente da batalha da guerra (1914-18) era a mais deplorável possível, não havia munição nem alimentos. Não havia mais comando, soldados se matavam entre si e também seus superiores. Tentando apaziguar, Nicolau parte e deixa o poder com a Tzarina. Sem nenhuma experiência, dominada pelo fanático Rasputin a quem eram atribuídos poderes sobrenaturais, o desastre foi total. Diz-se que este misterioso personagem conseguia estancar as crises hemofílicas de Alexei, único filho homem do Tzar. Mistura de bruxo e libertino, acabou sendo assassinado, durante uma orgia, pelo príncipe Felix Yussupov e alguns amigos. Homem enorme -1,93- de força descomunal, conta-se que permaneceu vivo após ingerir grande quantidade de cianureto. Finalmente, foi fuzilado com dezenas de tiros. Um personagem realmente invulgar. Meu pai tinha o livro escrito por Yussupov “Como matei Rasputin”, que, infelizmente se perdeu.
Enquanto se distanciava do poder, Nicolau se vê obrigado a abdicar e também em nome de seu filho doente. A Duma, espécie de Assembléia, criada em 1905, para apaziguar os movimentos que começavam a eclodir, mas com poderes limitados, já que poderia ser dissolvida pelo Tzar segundo seus interesses, traz para o campo de debates socialistas e social-democratas. Dissidência dos Bolchevistas, os Mencheviques, que pode-se comparar aos social- democratas, tiveram como seu maior líder Alexander Kerensky. Durante algum tempo, antes do poder dos Bolcheviques, Kerensky constituiu a única proteção do Tzar e sua família, ainda que não lhes tivesse nenhum apreço. A princípio, foram exilados na Sibéria. Com eles partiram o médico do filho Alexei, seu cuidador, o professor de pintura das princesas- Maria, Olga, Tatiana e Anastácia- e sua professora de francês. Ali viveram alguns meses até a chegada dos bolcheviques ao poder, cujo líder era o “camarada” Wladimir Lenin.  Este evento marcou a morte dos Romanov. Kerensky partiu para os Estados Unidos, onde morreu em 1970.
Como Luís XVI, igualmente influenciado pela mulher, ambas consideradas estrangeiras, Nicolau desdenhou o conselho de alguns de seus ministros de instituir uma monarquia parlamentar, onde o poder do rei era limitado por uma constituição. Luís XVI, ao ver as coisas piorarem, com vários clubes revolucionários, resolve convocar os “Estados Gerais” (États Géneraux) , que reuniria as três Ordens –Nobreza, Clero e Terceiro Estado. Não se tratando de uma sociedade da classes, mas de ordens, assim se constituíram os Estados Gerais. Sobre esta sociedade de “ordens” , gostaria de falar mais tarde. Os “Estados Gerais” haviam sido criados pelo rei Felipe Augusto em 1320, e seriam convocados em casos de alguma perturbação social ou econômica. Ao desconhecer o parecer dos deputados Girondinos, revolucionários moderados, adeptos da monarquia parlamentar, como já existia na Inglaterra, Luís XVI acabou subindo as escadas do cadafalso. Caso contrário, ele, assim como Nicolau II, teria, provavelmente, terminado tranquilamente seu reinado. 
Luís XVI foi guilhotinado em janeiro de 1973, sua mulher em outubro do mesmo ano. Depois da tomada do poder pelos Bolcheviques, a família Romanov ,e alguns servidores, foi transportada para Ikateringo, onde, sob ordem de Lenin, foi executada em julho de 1918.
Disse Lenin: “ As revoluções são as festas dos oprimidos e explorados”
Mas o que se viu a seguir foi a barbárie superando qualquer esperança de liberdade. Os oprimidos ainda oprimidos, tirania,  dor, medo,  pobreza. Sim é verdade que a História acontece uma vez como tragédia e a segunda como farsa. E foi a o que aconteceu com os ideais de Liberdade e Igualdade por que esperava o povo russo.
E antes de terminar não poderia deixar de levantar meu protesto contra o RIDÍCULO filme de Sofia Coppola sobre Maria Antonieta. REPUGNANTE!

   A história se repete como farsa.

sábado, 1 de abril de 2017

Svetla: une vie

Svetla Hantova: une vie

Quando ela nasceu, o comunismo já havia se instalado na Bulgária. Durante toda sua infância, sua juventude, sua maturidade havia sentido o medo. Quando a conheci, jamais havia conhecido a liberdade. Roubaram-lhe o apartamento, assim como todos os bens da família. Naquela inesquecível estadia na Bretanha, devia regular comigo, quarenta e dois anos. Vou falar no passado, porque a ele me refiro. Minha amiga tinha belos olhos azuis, e cabelos louros, daqueles que se via antigamente, descoloridos com a própria água oxigenada. Tintura, cores a escolher? Nem pensar! Teria sido uma bela mulher, de corpo esguio e belo sorriso. Svetla fazia o possível para ser uma mulher cuidada como as outras. Seu cabelo ressecado, sua pele maltratada eram o retrato do realismo socialista. Éramos professoras universitárias, vindas de países, majoritariamente, ocidentais. Algumas mais velhas, outras mais jovens, algumas mais belas outras menos. Havia até algumas polonesas, nem tão vaidosas – pecado burguês, como dizia meu ex-companheiro Robert Ponge, que, num dia de mau humor, corri de casa – mas pareciam mais à vontade do que minha amiga.
Nunca conhecera nenhuma comemoração natalina, este era um dia como qualquer outro. Nem um só dia festivo, talvez somente para “comemorar” o dia de março de 1917, em que os bolcheviques tomaram definitivamente o poder, e um dia, em 1946, em que o comunismo se instalou na Bulgária. Jamais uma oração, somente feita em casa, escondida como ato criminoso: ópio do povo. Svetla nunca vira uma árvore de Natal, apesar de provir de família ortodoxa. Nascer, crescer, viver no medo só não é pior do que acontece com crianças sírias. Esta é a variável comum a todas! O MEDO! Estamos vendo, e já ouvimos falar do medo, no holocausto, no regime stalinista, no maoísta. Tudo provocado por ditadores! É preciso varrê-los da terra!
Tínhamos raros momentos a sós, seu guarda-costa as vezes lhe dava uma folga. Quem sabe se compadecesse? Afinal, Marguerita , bem mais velha, esposa de um coronel, havia conhecido outros tempos! Nestes momentos, Svetla contava, que o contrabando era freqüente no país. Mas o que se podia comprar com tão pouco dinheiro? Meias de seda, como ela dizia, xampus, um batom. E isto era o cúmulo do luxo! Produtos vindos da Grécia, onde ela imaginava haver de tudo. A Bulgária havia sido invadida pelos turcos e ficara sob domínio otomano durante quatrocentos anos. Foram séculos de sofrimento, com impostos altos e discriminação. Enfim, conseguiram a liberdade já no século XVIII. Mas, na realidade, o país jamais conheceu a paz e sempre houve sofrimento para o povo. Em 1946, finalmente, foi declarada a “República Popular do Bulgária”. Chervenkov Valko, instalou no país o stalinismo e seu sucessor, Todor Zhivkov, continuou na linha da União Soviética até a queda do comunismo. Svetla convidou-me a ir a Sofia e até hoje não descobri se deveria visitar a múmia de um ou de outro. Imagino que de Vlako, que eu entendia outra coisa.
Havia nas redondezas um hiper-marché , de cujo nome não me recordo mais. Eu adorava ir nos momentos de folga, saborear biscoitos que não encontrava aqui. Em geral, ia com Guy, e foi com ele, que morava em Sofia, como funcionário francês, que aprendi muita coisa sobre o país: a função de Marguerita, o terror de Svetla com a fita cassette de Gal Costa, a história do velho que, não tendo mais onde morar na casa da família, foi instalado numa cabana para ele construída no pátio, e a constante escassez de tudo. Tentei dar-lhe uma nota do Brasil , que imaginei seria uma recordação, mas ela recusou com determinação. Só anos depois, juntando os pedaços, verifiquei que uma simples nota de um país estrangeiro poderia trazer-lhe problemas. Pela própria Svetla fiquei sabendo que logo que se formava fila, entrava-se nela, certo de que alguma coisa estava ou logo estaria faltando. Contou-me da falta de papel higiênico e hoje, quando vejo o que acontece na Venezuela, penso nela.
Contou-me que o maior sonho de uma búlgara era casar com um europeu e sair do país. Anos mais tarde, recebi, em minha casa, o filho e a namorada de uma amiga sua que se casara com um francês, astrônomo no Chile. Era um rapaz simpático, bem francês, e que mal falava o búlgaro. Também contou-me que era divorciada, sem filhos, que tinha, como eu, uma mãe doente, que não sei com quem deixara, que tinha uma tia também doente (pelo que dizia Alzheimer), que se negava a se deixar lavar, e que a família a deixara sem lavar, o que já durava anos. Imaginei apartamentos escuros, sombrios, decadentes. Mostrou-me uma foto sombria de sua mãe, deitada, doente, e lembrei-me da minha, cheia de cuidadoras, numa casa arejada e clara, e um batalhão de médicos. E deveríamos ser, não fosse o regime, da mesma classe social!
Um dia, Svetla, juntou algum dinheiro e, no hiper-marché, comprou uma bermuda estampada com números. Chegou exultante com sua nova roupa e logo a estreou. Sentia-se super elegante. Sinto-me orgulhosa de não ter o hábito, tão comum entre as brasileiras, de reparar roupas. Mas aquele dia foi diferente. Reparei que vestia uma blusa preta e sua bermuda colorida. Não olhei os sapatos. Ah! Svetla que se contentava com tão pouco! Que tinha tão pouco!  
Um dia, resolveu comprar presentinhos para amigas na Bulgária. Fomos juntas e durante horas procuramos o que caberia no seu parco orçamento. Em dado momento, sentou-se no chão e começou a contar as moedinhas espalhadas, para espanto de todos os clientes. Pensei que jamais chegaríamos a um consenso e completei (estávamos sós) o que faltava. Um chocolatinho, um pacote pequeno de biscoitos, umas balinhas coloridas, etc. Saiu feliz da vida, imaginando a alegria das presenteadas.  Pouco antes do fim do curso, notei que, após o almoço e jantar, jogava dentro de uma sacola que nos haviam dado, seu pedaço de pão e o meu, que eu nunca comia. Fiquei intrigada, não podia imaginar o porquê. Um dia, afinal, criei coragem e perguntei-lhe porque guardava pão duro e velho. Lembro-me perfeitamente de sua resposta: “Maria, vou esperar o avião em Orly  durante horas. Assim molho o pão na água e posso comer.” Fiquei estarrecida, como era possível? No dia seguinte, pela manhã , ao se despedir de mim, abracei e dei-lhe uma nota de cem dólares. Hoje, imagino que tenha jogado fora ou dado a alguém.
Com a queda do regime, Svetla recuperou seus bens, segundo contou-me sua amiga, de cujo nome não me lembro mais. Casou-se novamente e tinha até um cachorrinho. Durante algum tempo nos correspondemos, mas a distância e o tempo nos afastou.
Cruel regime que, felizmente, acabou. O que resta está tão podre que logo despencará. Não posso morrer sem ver isto acontecer. E continuo afirmando:
“VERMELHO SÓ MEU BATOM”vie