QUEM SOU EU

Sou professora de Francês, mas hoje minha principal atividade é escrever e ler, além de cuidar dos meus três vira-latas: Charmoso, Príncipe e Luther.



Gosto de fazer ginástica, sou vegetariana e adoro animais em geral, menos baratas.



Sinto especial prazer quando meus textos agradam aos meus leitores. Espero continuar produzindo e me comunicando com todos os meus amigos, neste maravilhoso universo da net.



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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Bretanha inesquecível

Foi há muitos anos atrás, comemorava-se o bicentenário da Revolução Francesa. Eu havia ganhado uma bolsa por causa de um trabalho teatral, que desenvolvia com meus alunos. Era o “Théâtre Gavroche”. Gavroche é um moleque, personagem de “Os Miseráveis” de Victor Hugo, que morre durante a Revolução de 1830. O título me foi sugerido por minha sobrinha Ludmila, que se formava em francês, e havia terminado de ler o livro. Recebi a bolsa do Adido Cultural da França, Jean-Paul Rebaud, que se interessou pelo trabalho que eu desenvolvia. Incluía ida e volta, em avião da Air-France e ainda uma quantia em dólares.
Saí, deixando para trás muita coisa. Um ano após a morte de meu pai, minha mãe havia tornado-se cadeirante, depois de fraturar o fêmur de uma das pernas, e desenvolver uma depressão terrível. Negava-se a caminhar.  Como eu já trouxera meu pai para minha casa durante a sua fatal cardiopatia, Alice continuou comigo. Necessitava de cuidados permanentes, com um esquadrão de cuidadoras. Médicos, de todas as especialidades, estavam sempre por aqui. Tomava um mundo de remédios, dos quais eu me incumbia, mesmo trabalhando o dia inteiro. Vivia correndo de um lado para outro, subindo e descendo, da Universidade até em casa, de casa até a Universidade. Até hoje, depois de vinte e três anos de sua morte, ainda me persegue a sensação de estar atrasada, de não conseguir fazer tudo que tenho a fazer. Teresa, minha irmã, ficou incumbida de ministrar os remédios e supervisionar as cuidadoras. Era um batalhão de medicamentos, com hora certa. Fiz uma lista detalhada, batida a máquina, com os horários e cores diferentes. Inventamos um processo mnemônico, para que nada faltasse ou atrasasse. Espalhei em lugares estratégicos da casa. Teresa tinha sempre o seu na bolsa. À noite, meu sobrinho, Bertrand, vinha “dormir” aqui. Alice o chamava a noite toda, como fazia muitas vezes comigo. Para ajudá-lo, vinha minha amiga, Sônia Miranda, a quem serei eternamente grata. Nesta batalha de toda preparação, esqueci de comprar uma mala nova – a minha tinha as duas fechaduras estragadas – esqueci até de comer, e, enfraquecida, tive uma terrível laringite.
Antes de partir para a França, eu teria de ir a Belo Horizonte, onde se comemorava a Inconfidência Mineira, e eu devia apresentar meu trabalho com o teatro. Deixei minha mala aqui, e só levei o necessário.  Separei as roupas que deveria levar para a França e pedi a Teresa que fizesse minha mala na véspera. Foi então que ela constatou que as fechaduras funcionavam precariamente. Desespero, telefonema para mim com uma bela descompostura. Em Belo Horizonte, apesar da minha laringite, tudo correu bem e, afinal, embarquei em Confins, em direção ao Rio, para tomar o avião para Paris. Encontrei minha irmã ainda emburrada, com a mala toda amarrada, já que não tivera tempo de comprar outra. Mas, contei com a sorte.
Minha chegada a Paris foi um desastre, a mala abriu – felizmente não foi durante a viagem – e esparramou roupa pelo chão do aeroporto, era como um ventre aberto expondo suas vísceras. Não havia outra coisa a fazer; agachei-me e comecei a catar, tentando fechá-la. Logo surgiram algumas pessoas que me ajudavam, enquanto eu dizia automaticamente: “Merci” , “Merci”, “Merci”. Amarrei-a de qualquer jeito e prossegui. Bem numa outra ocasião conto o resto desta aventura em Paris, que merece ser contada. No dia seguinte, segui para a Bretanha, para um Centro de Estudos perto de Saint-Nazaire. E quase perdi o trem, que saia às nove horas e sete minutos EXATOS.
A viagem foi extremamente agradável, apesar de minha garganta ainda doer. Em minha cabine havia um só passageiro, um operário que ia passar férias no campo, na Bretanha. Era um homem simples, já entrado nos anos, que usava uma espécie de casquete. Contei-lhe que era brasileira, e ele olhou-me espantado. Pensava que fosse italiana. Já ouvira falar vagamente do Brasil... Compartilhou comigo seu lanche constituído de uma baguette, queijo e vinho, que bebemos na mesma garrafa. Escrevi numa folha de papel meu nome e endereço e lembro-me que, já no Brasil, recebi um cartão seu. Havia xerografado o que lhe deixei escrito e colado no envelope. Respondi, mandando um cartão da Avenida Atlântica. Depois não tive mais notícias. Ainda tenho guardado seu endereço, uma recordação pela qual tenho muito carinho. Desceu antes de mim e foi aproveitar suas férias de verão.
Durante aquele agradável trajeto, que deve ter durado umas duas horas, esqueci-me da mala. Mas, chegando ao meu destino, a lembrança voltou-me, tragicamente, à memória, pois já havia sofrido, em Paris, por todo lugar onde passei com ela. Em Saint-Nazaire, a estação era pequena, quase vazia. Ao descer uma escada – nada de escada rolante -, justo aquela mala despencou e se abriu novamente. Imaginei como ficaria Teresa se visse a cena. Mas, no interior da França, tudo é diferente! Logo encontrei um senhor que me ajudou gentilmente a catar roupas e sapatos, que eu me lembre pela terceira vez desde que desci na França. E ainda procurou um taxi para mim. “Merci, monsieur.” E qualquer coisa a mais, de que não me lembro, mas que poderia ser “J´ai bien envie de vous embrasser”
E atravessando lindos campos cheios de girassóis, chegamos ao Centro de Estudos “Belc” que não me lembro mais o que significa. Eu ainda tinha dois problemas: a mala e a garganta. Naquela correria toda havia esquecido as duas. Entrei no prédio principal conforme me indicou o taxista... E foi lá, na França profunda, que passei alguns dos mais belos dias de minha vida. Fiquei curada da laringite e esqueci a mala. E também de toda angústia que havia deixado no Brasil. Nos diversos cursos, que tínhamos a escolher, quase todos os professores eram franceses, os alunos vinham do mundo inteiro.
Logo no primeiro dia, fomos passear até Saint-Marc-sur-mer, uma cidadezinha linda, como são todas aquelas do interior da França. Íamos falando em francês, cada qual com seu sotaque (e sem falsa modéstia, acho que a melhor pronúncia era a minha). Descobri que éramos um grupo formado por um espanhol, uma finlandesa, e uma búlgara. A finlandesa já havia vindo ao Brasil, e tinha uma camiseta com um papagaio. Já eu, nunca havia visto uma finlandesa. Mas, o maior espanto tive com a búlgara, ela jamais vira uma brasileira, e eu jamais vira uma búlgara. Desse espanto nasceu uma linda amizade.
Passávamos a manhã, a tarde e a noite em cursos e ateliers. Aos sábados e domingos tínhamos folga, íamos à praia em Saint-Marc, nadávamos, tomávamos sorvete Voltávamos encharcados. À noite, íamos à “caféteria”, onde dançávamos, inclusive uma fita de Gal Costa, que encantou a todos. Foi numa dessas ocasiões que conheci Guy Boucher, francês, professor na Bulgária. E tive que fazer grande esforço para não me apaixonar, o que sei foi recíproco. Tenho fotos suas que me fazem recordar, com imenso carinho, o homem mais gentil que conheci em minha vida. Mas tínhamos caminhos tão diferentes! Às vezes gazeteávamos, e foi assim que Guy me levou a Guérande, uma cidade medieval, onde íamos, freqüentemente, comer deliciosos crepes, especialidade da região. Foi neste período que comecei a me desencantar de minhas ilusões comunistas, típicas da juventude. Ao ver a pobreza de Svetla, ao vê-la sempre supervionada por Margueritta, esposa de um coronel, ao perceber seu medo. Propus-lhe dar de presente a fita cassette de Gal Costa, e, para meu espanto, ela recusou apavorada. Não entendi, e foi Guy quem me explicou: Ela teria sérios problemas com a polícia, já que sem entender nada, diriam que era propaganda anticomunista!
E também teve a festa a fantasia. Conforme me havia sido informado, desde o Brasil, eu deveria levar uma fantasia. E não tinha nada, a não ser as velhas fantasias, de húngara, cigana, colombina, dominó, etc, que minha mãe me vestia quando eu tinha 4 ou 5 anos, nem sei mais, e que ainda tenho guardadas como recordação. Minha amiga, Marlene, emprestou-me uma linda de sua filha Lilian. E foi assim, coberta de lantejoulas coloridas, com as pernas a mostra, cobertas somente por uma meia arrastão vermelha, e um magnífico adereço de plumas, que me apresentei, entre fantasias de televisão, Papai Noel, e de alguma coisa que até hoje não descobri o que seja.  Mas, afinal, sou brasileira! Em mim corre sangue português, negro, alemão, índio, cobra d´água, curupira, etc. Ninguém pode competir conosco. Sucesso total! Despertei paixões. Quiseram comprar minha fantasia, que nem era minha!
Mas como tudo na vida tem um fim, depois de um mês delicioso, mas de intenso trabalho, nos despedimos, sabendo que nunca mais voltaríamos a nos ver. Senti um aperto no coração. Mas ainda comprei uma mala nova em Saint-Nazaire e deixei a velha no alojamento. UFA! Passei ainda uns dez dias em Paris. Fui ao cinema, andei pelas ruas de minha infância, mas sentia saudades daqueles trinta dias. Anos depois voltei a Saint-Marc-sur-mer, o Centro de Estudos estava vazio. A cidade não tinha mais o encanto de outrora. Aos domingos, a feira, que tanto curtíamos, me pareceu sem graça. Mas as fotos me que passei para disquete, me fazem sempre lembrar aquele momento mágico, único em minha vida.
E ÚNICO porque foi MÁGICO!

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A BELEZA DE ENVELHECER

Acabei de ver um filme que falou-me ao coração. Falou de tudo que tenho sentido nestes anos, após os sessenta, quando a gente revê o passado. Penso nele e sinto saudades. Sei que este é o último ato, e quero vivê-lo o melhor possível . Quanto ao filme, não interessa a história, mas, em mim , provocou o imediato desejo de compartilhar tanta coisa, que vi, vivi, amei... Falar no passado, quando ele é tão maior do que o futuro, não é saudosismo, nem angústia da aproximação do check out. A música que encerra o filme me comoveu profundamente. Todos aqueles casais que dançavam, cabecinhas brancas , algumas mulheres tentando driblar o tempo, era uma das minhas preferidas aos quinze, dezesseis anos. 
Há tempo! Já a havia esquecido! Aqueles foram meus anos dourados, e, à medida que a gente vai envelhecendo, detalhes vão surgindo neste computador da memória, por mais longínquos que sejam. Pessoas que tiveram importância, lugares, desejos, sempre reprimidos... amores. Lembro de recantos que não existem mais, de sonhos que não pude realizar, mas realizei outros em que não pensava. As pessoas que então povoavam minha vida foram pouco a pouco desaparecendo, alguns morreram, outros não sei onde estão. Minha família original partiu, pai , mãe, irmão, irmã. Os rostos que hoje encontro no Natal, ou em outras reuniões familiares, são outros. Sinto saudades, mas, a cada partida, levantei a cabeça e pensei “É a vida, tenho que prosseguir”

Tenho contato com dois amigos, de muitos anos atrás, que me dizem que era a menina mais bonita do colégio. E que eram secretamente apaixonados por mim! Confesso que fiquei feliz. Mas minha grande paixão era outro. Já morto há muitos anos. E há também as lembranças mais antigas, o velocípede que ganhei de Natal, trocado mais tarde pela bicicleta. A corda em que era mestra, as brincadeiras na rua, a roda “... vamos brincar de roda?” Lembro-me da moça alta e loura, que via, todos os dias, descendo do colégio. Destacava-se das outras pela altura e pelo cabelo loiríssimo. Ainda não havia resolvido se queria ser como ela ou como Teresa, minha irmã, que admirava muito, apesar de seus beliscões. Um dia sumiu, e fiquei sabendo que havia morrido. Naquela época não tinha idéia do fosse a morte , sabia que nunca mais a veria, e considerei, simplesmente, que ela havia ido embora. Alguns meses antes, havia morrido minha avó Joana, que morava conosco. Lembro-me de minha mãe aos prantos, comigo sentada no colo, eu chorava também... A noite fui com Teresa dormir na casa de uma vizinha. Acordei toda molhada, envergonhada pulei na cama de minha irmã e agarrei-me a ela.  
Mais tarde os “arrasta-pés”, onde dançávamos aquela linda música do final do filme, de cujo nome esqueci-me, e a orquestra de Ray Connif. Usava saltos bem altos, bico fino, impraticável hoje. Aos quatorze anos pintei meu cabelo de vermelho, aos dezesseis de louro platinado. Hoje vejo que tive pais bastante liberais. Era paquerada, mas sempre permaneci fiel ao meu primeiro amor, aquele que abriu caminho para outros. Não danço mais, nem pulo corda. Durante anos andei na minha bicicleta, até que, desviando de um buraco, fui atropelada. Fiquei com medo. Troquei meus exercícios, a bicicleta, a musculação, pelo pilates. Continuo com o vício de pintar os cabelos, agora para esconder os brancos. Minhas roupas mudaram de estilo. Há anos, vivo só, com meus três vira-latas. Gosto desta liberdade. Tenho que tomar remédio para dormir e antidepressivo. Herdei de minha mãe uma depressão endógena que me acompanha há anos. Mas, pela manhã, logo que acordo, peço coragem a DEUS, em que acredito firmemente, e levanto-me às cinco e meia para dar conta de todas minhas tarefas.
Olho duas fotos antigas. Minha mãe e minha tia Aracy, sua irmã por parte de mãe. Minha mãe devia ter cerca de quatorze anos e minha tia cerca de dezessete. Morreu pouco tempo depois de tirar a foto. Provavelmente, suicidou-se; já havia tentado uma vez. Conservou-se na memória dos que a conheceram linda, com sua coroa de flores, o rosto ligeiramente inclinado, um chale, talvez, que lhe deixa nu um dos ombros. Minha mãe, vê-se, é uma garota adolescente. Apesar da puberdade, tem um rosto mais sensual, lábios muito grossos, e traços menos requintados. Ambas são bonitas, cada qual no seu tipo. Minha tia não pode ter seu grande amor, que, aliás, morreu pouco depois dela, não teve filhos, não viu a família nascer e crescer. Ficou na sua solidão, linda e jovem. Para sempre. Minha mãe morreu aos oitenta e dois anos, encontrou seu amor, casou-se, teve filhos, netos. Engordou, seus cabelos ficaram grisalhos, sua pele mudou. Aos setenta e seis anos, desistiu da vida. Havia perdido seu amor, seu companheiro de tantos e tantos anos! Durante anos desesperei-me ao vê-la assim. Logo eu, mulher independente, com uma trajetória de vida de amores e desamores. Como compreendê-la? Mas no dia em que se foi, senti que se libertava, rezei por ela e me conformei. Afinal, apesar de todos os revezes da vida, minha  mãe viveu plenamente aquilo que projetara para ela. A velhice ao lado do companheiro, que envelheceu com ela, com os filhos e netos, foi feliz. Pouco importa seus cabelos grisalhos, sua pele já enrugando, o quanto havia engordado.  
 Hoje, aos setenta anos, cuido mais de mim, acumulo uma bagagem de conhecimento da vida e cultural que utilizei na formação de muita gente. Sempre gostei de ler, prazer que devo a meu irmão. Mas, agora, tenho que usar óculos. Confesso que a maior parte do que vivi foi bom. Coloquei-me na prioridade e quero continuar a ser feliz. Sei que o tempo passa célere, e aprendi a gozar cada dia. Não abro mão do que me dá prazer. Como disse um dia Mario de Andrade, meu cesto de cerejas já está bem vazio, mas pouco importa. Dizer que a vida é sopro é um lugar comum, mas verdadeiro. Mas ainda espero escrever ainda muitos textos, ler muitos livros, assistir muitos filmes. E conseguir vencer as batalhas , até a final!
Para informação, o filme chama-se “45” com Charlotte Ramplay e Tom Courtenay.  














sexta-feira, 2 de setembro de 2016


Há anos, escrevi um texto intitulado " CITOYENS, CAMARADAS, E COMPANHEIROS" . Meu companheiro de então sugeriu-me de publicá-lo no PORTAL DEFESA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA. Perdi-o no meu blog, o que lamento muito. Convido-os de lerem, pois foi um dos meus melhores trabalhos.
Não consegui passá-lo para meu blog .
Basta clicar o link abaixo.



http://www.ecsbdefesa.com.br/fts/Citoyens.pdf

sábado, 30 de abril de 2016

Saint-Just, o Anjo Exterminador

Quando meu pai foi estudar na França, eu tinha dez anos. Mas apesar de haver sido uma oportunidade extraordinária, foi a princípio muito difícil. É duro para uma criança abandonar os amigos, o colégio, a bicicleta. Além de hábitos alimentares tão diferentes! Mas, acima de tudo, aquele mundo, cuja língua eu não entendia, me parecia hostil. Mas sempre fui muito adaptável, e alugado o apartamento e começando meu contato com crianças francesas, tudo voltou ao normal. E voltei a ser como antes. E sempre agradecerei a meu pai a oportunidade impar de entrar, ainda tão jovem, em contato com outra cultura. Felippe era um homem cultivado, professor no Instituto Militar de Engenharia e fez questão de que esta oportunidade fosse definitiva em minha vida.
Foi visitando o Louvre que me apaixonei pela Antiguidade e, durante muitos anos, sonhei em ser arqueóloga. Sonho que, infelizmente, não pude realizar. Visitei Versalhes várias vezes, percorri seus salões, desci e subi suas escadarias suntuosas. Muitos anos mais tarde, já adulta, fiz um curso sobre o palácio e descobri espaços recônditos, e desconhecidos dos visitantes, como o pequeno teatro de Maria Antonieta, todo decorado em “papier mâché”, aquela mistura de papel, água e cola com que se faziam bebês. Júlio, um esses bebês, o preferido de minha irmã, Teresa, foi motivo de nossa primeira briga, quando, ainda bem pequena, arranquei sua cabeça. Queria me bater, mas minha mãe não deixou e acho que lhe comprou outro. Pois o pequenino teatro, primor de bom gosto rococó, era o espaço onde a Rainha ensaiava textos com alguns cortesãos e cortesãs. Contava a professora que por vezes o Rei Luís XVI ia vê-la ensaiar. Depois, voltei algumas vezes, mas nunca mais consegui reencontrá-lo.
Visitei a Conciergerie, onde a Rainha, passou seus últimos dias, depois dos meses passados na prisão do Templo. Foi da prisão do Templo, antigo monastério Templário, já destruído, que Luís XVI, agora Luís Capet, devido à sua dinastia, foi levado à guilhotina. Algum tempo depois, seqüestraram o filho da “viúva Capet”, que, apesar de suas súplicas, foi entregue a um “citoyen” sapateiro, e que ela nunca mais voltou a ver. Maria Antonieta, como diz Stefan Zweig na sua biografia, era uma mulher comum, sem nada que a distinguisse de milhões de outros seres humanos. Diz ele : “ O trágico não resulta somente dos traços extraordinários de um ser....mas da desproporção existente entre um homem e seu destino. Manifesta-se quando um ser superior, um herói, um gênio , entra em conflito com o mundo que o rodeia, demais hostil, demais estreito para a tarefa que o mundo o destinou, como Napoleão sufocando no minúsculo quadrado de Santa-Helena ou Beethoven aprisionado em sua surdez......Mas o trágico existe também quando uma natureza mediana, e mesmo fraca, é ligada a um destino extraordinário” Sem a Revolução esta princesa insignificante teria vivido e morrido dentro dos mesmos padrões de tantas outras que a antecederam! Como rainha teria homenagens especiais em sua morte, e não seria mais do que uma lápide, já meio apagada, como tantas “Marie-Adelaïde e Adelaïde-Marie, as Anna-Cathérine e Cathérine-Anna” Maria-Antonieta é um dos mais belos exemplos deste heroísmo involuntário”
Estes tempos de minha infância, me levaram a este mundo, e me disseram que a rainha era tão somente uma mártir. Li sua biografia de um membro da Academia Francesa,  Pierre de Nolhac, e chorei. Mais recentemente, além de Stefan Zweig, li uma biografia de Simone Bertière , onde é mostrado o papel que lhe havia destinado sua mãe, Maria Teresa da Áustria, e que não cumpriu e, aliás, nem se interessou. Hoje, levo dela uma imagem bem mais realista, ainda que me comova o que conta Zweig, quase ao final do livro ”A multidão é dispersa. Leva-se em uma carroça o corpo da supliciada, a cabeça entre as pernas. Alguns guardas vigiam a guilhotina. Mas ninguém se preocupa com o sangue que lentamente penetra na terra, o lugar está novamente deserto.”
Nos meus tempos de juventude, vivendo sob uma ditadura, tudo me parecia diferente. Amei os “citoyens”, os “camaradas” e os “companheiros”. Sobre este tema, aliás, escrevi um texto que Ricardo, meu companheiro na época, publicou num blog que tinha na Universidade, e que desde então sumiu do meu, onde publiquei primeiramente. Hoje, já com muitos e muitos anos vividos, não tenho mais paixões e procuro usar a razão para viver.
Mas, afinal, a razão do texto não é Maria Antonieta, nem eu. Quero falar de uma figura que empolgou minha juventude revolucionária: Saint-Just. Releio “Souvenirs pieux” de  Marguerite Youcenar, escritora franco-belga. É uma auto-biografia onde ela faz uma bela retrospectiva de sua existência, desde a gravidez da mãe, Fernande, morta logo após o parto. Penetra fundo no seu passado e de sua família. Vai a tempos medievais e volta à sua juventude. Perde-se nas brumas do passado e fala de si mesma. Falando de sua juventude, diz ela “Como muitos franceses e francesas de minha geração, tive, ainda bem jovem um culto por Saint-Just. Passei muitos momentos no Museu Carnavalet ( museu da cidade de Paris), contemplando o retrato do Anjo Exterminador.....” O Anjo Exterminador é Louis-Antoine-Léon de Saint-Just. E continua, “Este belo rosto enquadrado de cachos flutuantes, este pescoço feminino, envolvido como que pudicamente numa echarpe de fino tecido eram elementos importantes na minha admiração pelo violento amigo de Robespierre. Mais tarde, mudei: a admiração cedeu lugar a uma trágica piedade por este homem consumido antes de chegar realizar-se.” Ao ler o que diz de Saint-Just, chamou-me especialmente a atenção o que me disse alguma vez, ou várias, meu pai acerca de sua admiração de juventude pelo mesmo herói. E o fato de ambos haverem nascido no mesmo ano, 1903. O que levaria aquelas duas pessoas, separadas pela distância e pela cultura, a partilhar a mesma admiração? A mim parece que foram os ideais de liberdade, ainda que Saint-Just tenha ido ao extremo do Terror. Para meu pai, como muitos militares de sua geração, seduzido na juventude pelos ideais comunistas, e, ainda que desiludido devido às barbáries stalinistas, mas para sempre ligado à esquerda, era esse idealismo sem limites que o levava a esta admiração. Meu pai, que apesar de suas idéias, chegou ao ponto mais alto de sua carreira, graças, à sua inteligência.
No processo do rei, os argumentos secos e ásperos de Saint-Just muito influíram na condenação do rei. E diz Marguerite Youcenar : “....ele empurra para o cesto a cabeça dos Girondinos (burgueses ricos que se empenhavam por uma monarquia parlamentar, como a inglesa), as dos Dantonistas ( ou Indulgents que queriam o fim do Terror) , as dos Hébertistas”  , liderados por Jacques Hébert, facção ultra-revolucionária jacobina. Também seu amigo de anos passados, Camille Desmoulins, extraordinário panfletista, do grupo dos Indulgentes. E mais trágico, no dia seguinte às execuções de Hébert -25 de março de 1794,  e de Camille Desmoulins – 5 de abril de 1794,  suas viúvas foram igualmente guilhotinadas, acusadas de complô contra o governo. Durante o processo de Maria Antonieta, agora denominada “veuve Capet”, o execrável Hébert, que não sei se fazia parte dos jurados, lançou-lhe a terrível blasfêmia de que mantinha relações sexuais com o filho, ao que a “veuve Capet” retrucou indignada a célebre frase : “J´en appelle à toutes les mères de France!” ( Peço justiça a todas as mães de França). Terrível blasfêmia, proferida por um demente, contra uma mulher sem armas de defesa, que deixou revoltados mesmos os mais empedernidos revolucionários. Pois após um jantar, ainda durante o processo, relembrando esta e outras nojentas acusações dirigidas a ela, diz Saint–Just, sem escrúpulos: “... servirão para melhorar a moral pública”. Para fundar esta sociedade ideal, dizia  um amigo, estaria pronto a “sacrificar cem mil cabeças, incluindo a sua.” Este homem, obcecado por uma idéia, levou a tal ponto seu ideal que acabou por matá-lo.
Mas todos já estavam saturados do Terror, e assim, num súbito ataque, deputados moderados golpearam de morte o temido “Comitê de Salut Public”, chefiado por Robespierre. Invadida a sala onde estavam, tiros foram disparados atingindo o rosto de Robespierre que teve o maxilar quebrado. Deitado sobre a mesa onde tantas mortes haviam sido decididas, o “Incorruptível” gemia de dor. O sangue jorrava e vários dentes foram arrancados aos pedaços. Um dos membros, Philippe Le Bas, suicida-se, Couthon,  paralítico tenta esconder-se, mas não consegue. Seguem-se trinta e seis horas de agonia. Afinal, sem julgamento, somente confirmando seus nomes, foram conduzidos à guilhotina.” Aos vinte e seis anos, elegante, apesar de trinta e seis horas de agonia, impecável no seu fraque e suas calças cinza claro, mas sinistramente despojado de suas longas mechas e suas argolas, o belo pescoço desnudo, despojado do fino lenço branco, ele espera estoicamente sua vez na guilhotina, entre Couthon, o paralítico, e seu herói  da mandíbula quebrada, Robespierre. “
Danton tinha a seu lado todo grande capital internacional, que reagiria. Banqueiros foram decapitados, numa espiral de loucura, mas a vingança viria célere. Pela “force de choses”, este elemento mais forte do que a razão, Robespierre, ao sentenciar à morte Danton, sabia que assinava sua própria sentença. E como é dito no filme “Danton” de Andrzej Wajda, ele previu ao passar pelo prédio onde morava Robespierre, a caminho do cadafalso: “Dans trois mois, tu me suivras, et ton corps pourrira à côté du mien.”
  


Saint-Just, O Anjo Exterminador

Quando meu pai foi estudar na França, eu tinha dez anos. Mas apesar de haver sido uma oportunidade extraordinária, foi a princípio muito difícil. É duro para uma criança abandonar os amigos, o colégio, a bicicleta. Além de hábitos alimentares tão diferentes! Mas, acima de tudo, aquele mundo, cuja língua eu não entendia, me parecia hostil. Mas sempre fui muito adaptável, e alugado o apartamento e começando meu contato com crianças francesas, tudo voltou ao normal. E voltei a ser como antes. E sempre agradecerei a meu pai a oportunidade impar de entrar, ainda tão jovem, em contato com outra cultura. Felippe era um homem cultivado, professor no Instituto Militar de Engenharia e fez questão de que esta oportunidade fosse definitiva em minha vida.
Foi visitando o Louvre que me apaixonei pela Antiguidade e, durante muitos anos, sonhei em ser arqueóloga. Sonho que, infelizmente, não pude realizar. Visitei Versalhes várias vezes, percorri seus salões, desci e subi suas escadarias suntuosas. Muitos anos mais tarde, já adulta, fiz um curso sobre o palácio e descobri espaços recônditos, e desconhecidos dos visitantes, como o pequeno teatro de Maria Antonieta, todo decorado em “papier mâché”, aquela mistura de papel, água e cola com que se faziam bebês. Júlio, um esses bebês, o preferido de minha irmã, Teresa, foi motivo de nossa primeira briga, quando, ainda bem pequena, arranquei sua cabeça. Queria me bater, mas minha mãe não deixou e acho que lhe comprou outro. Pois o pequenino teatro, primor de bom gosto rococó, era o espaço onde a Rainha ensaiava textos com alguns cortesãos e cortesãs. Contava a professora que por vezes o Rei Luís XVI ia vê-la ensaiar. Depois, voltei algumas vezes, mas nunca mais consegui reencontrá-lo.
Visitei a Conciergerie, onde a Rainha, passou seus últimos dias, depois dos meses passados na prisão do Templo. Foi da prisão do Templo, antigo monastério Templário, já destruído, que Luís XVI, agora Luís Capet, devido à sua dinastia, foi levado à guilhotina. Algum tempo depois, seqüestraram o filho da “viúva Capet”, que, apesar de suas súplicas, foi entregue a um “citoyen” sapateiro, e que ela nunca mais voltou a ver. Maria Antonieta, como diz Stefan Zweig na sua biografia, era uma mulher comum, sem nada que a distinguisse de milhões de outros seres humanos. Diz ele : “ O trágico não resulta somente dos traços extraordinários de um ser....mas da desproporção existente entre um homem e seu destino. Manifesta-se quando um ser superior, um herói, um gênio , entra em conflito com o mundo que o rodeia, demais hostil, demais estreito para a tarefa que o mundo o destinou, como Napoleão sufocando no minúsculo quadrado de Santa-Helena ou Beethoven aprisionado em sua surdez......Mas o trágico existe também quando uma natureza mediana, e mesmo fraca, é ligada a um destino extraordinário” Sem a Revolução esta princesa insignificante teria vivido e morrido dentro dos mesmos padrões de tantas outras que a antecederam! Como rainha teria homenagens especiais em sua morte, e não seria mais do que uma lápide, já meio apagada, como tantas “Marie-Adelaïde e Adelaïde-Marie, as Anna-Cathérine e Cathérine-Anna” ...Maria-Antonieta é um dos mais belos exemplos deste heroísmo involuntário”
Estes tempos de minha infância, me levaram a este mundo, e me disseram que a rainha era tão somente uma mártir. Li sua biografia de um membro da Academia Francesa,  Pierre de Nolhac, e chorei. Mais recentemente, além de Stefan Zweig, li uma biografia de Simone Bertière , onde é mostrado o papel que lhe havia destinado sua mãe, Maria Teresa da Áustria, e que não cumpriu e, aliás, nem se interessou. Hoje, levo dela uma imagem bem mais realista, ainda que me comova o que conta Zweig, quase ao final do livro ”A multidão é dispersa. Leva-se em uma carroça o corpo da supliciada, a cabeça entre as pernas. Alguns guardas vigiam a guilhotina. Mas ninguém se preocupa com o sangue que lentamente penetra na terra, o lugar está novamente deserto.”
Nos meus tempos de juventude, vivendo sob uma ditadura, tudo me parecia diferente. Amei os “citoyens”, os “camaradas” e os “companheiros”. Sobre este tema, aliás, escrevi um texto que Ricardo, meu companheiro na época, publicou num blog que tinha na Universidade, e que desde então sumiu do meu, onde publiquei primeiramente. Hoje, já com muitos e muitos anos vividos, não tenho mais paixões e procuro usar a razão para viver.
Mas, afinal, a razão do texto não é Maria Antonieta, nem eu. Quero falar de uma figura que empolgou minha juventude revolucionária: Saint-Just. Releio “Souvenirs pieux” de  Marguerite Youcenar, escritora franco-belga. É uma auto-biografia onde ela faz uma bela retrospectiva de sua existência, desde a gravidez da mãe, Fernande, morta logo após o parto. Penetra fundo no seu passado e de sua família. Vai a tempos medievais e volta à sua juventude. Perde-se nas brumas do passado e fala de si mesma. Falando de sua juventude, diz ela “Como muitos franceses e francesas de minha geração, tive, ainda bem jovem um culto por Saint-Just. Passei muitos momentos no Museu Carnavalet ( museu da cidade de Paris), contemplando o retrato do Anjo Exterminador.....” O Anjo Exterminador é Louis-Antoine-Léon de Saint-Just. E continua, “Este belo rosto enquadrado de cachos flutuantes, este pescoço feminino, envolvido como que pudicamente numa echarpe de fino tecido eram elementos importantes na minha admiração pelo violento amigo de Robespierre. Mais tarde, mudei: a admiração cedeu lugar a uma trágica piedade por este homem consumido antes de chegar realizar-se.” Ao ler o que diz de Saint-Just, chamou-me especialmente a atenção o que me disse alguma vez, ou várias, meu pai acerca de sua admiração de juventude pelo mesmo herói. E o fato de ambos haverem nascido no mesmo ano, 1903. O que levaria aquelas duas pessoas, separadas pela distância e pela cultura, a partilhar a mesma admiração? A mim parece que foram os ideais de liberdade, ainda que Saint-Just tenha ido ao extremo do Terror. Para meu pai, como muitos militares de sua geração, seduzido na juventude pelos ideais comunistas, e, ainda que desiludido devido às barbáries stalinistas, mas para sempre ligado à esquerda, era esse idealismo sem limites que o levava a esta admiração. Meu pai, que apesar de suas idéias, chegou ao ponto mais alto de sua carreira, graças, à sua inteligência.
No processo do rei, os argumentos secos e ásperos de Saint-Just muito influíram na condenação do rei. E diz Marguerite Youcenar : “....ele empurra para o cesto a cabeça dos Girondinos (burgueses ricos que se empenhavam por uma monarquia parlamentar, como a inglesa), as dos Dantonistas ( ou Indulgents que queriam o fim do Terror) , as dos Hébertistas”  , liderados por Jacques Hébert, facção ultra-revolucionária jacobina. Também seu amigo de anos passados, Camille Desmoulins, extraordinário panfletista, do grupo dos Indulgentes. E mais trágico, no dia seguinte às execuções de Hébert -25 de março de 1794,  e de Camille Desmoulins – 5 de abril de 1794,  suas viúvas foram igualmente guilhotinadas, acusadas de complô contra o governo. Durante o processo de Maria Antonieta, agora denominada “veuve Capet”, o execrável Hébert, que não sei se fazia parte dos jurados, lançou-lhe a terrível blasfêmia de que mantinha relações sexuais com o filho, ao que a “veuve Capet” retrucou indignada a célebre frase : “J´en appelle à toutes les mères de France!” ( Peço justiça a todas as mães de França). Terrível blasfêmia, proferida por um demente, contra uma mulher sem armas de defesa, que deixou revoltados mesmos os mais empedernidos revolucionários. Pois após um jantar, ainda durante o processo, relembrando esta e outras nojentas acusações dirigidas a ela, diz Saint–Just, sem escrúpulos: “... servirão para melhorar a moral pública”. Para fundar esta sociedade ideal, dizia a um amigo, estaria pronto a “sacrificar cem mil cabeças, incluindo a sua.” Este homem, obcecado por uma idéia, levou a tal ponto seu ideal que acabou por matá-lo.
Mas todos já estavam saturados do Terror, e assim, num súbito ataque, deputados moderados golpearam de morte o temido “Comitê de Salut Public”, chefiado por Robespierre. Invadida a sala onde estavam, tiros foram disparados atingindo o rosto de Robespierre que teve o maxilar quebrado. Deitado sobre a mesa onde tantas mortes haviam sido decididas, o “Incorruptível” gemia de dor. O sangue jorrava e vários dentes foram arrancados aos pedaços. Um dos membros, Philippe Le Bas, suicida-se, Couthon,  paralítico tenta esconder-se, mas não consegue. Seguem-se trinta e seis horas de agonia. Afinal, sem julgamento, somente confirmando seu nome, foram conduzidos à guilhotina.” Aos vinte e seis anos, elegante, apesar de trinta e seis horas de agonia, impecável no seu fraque e suas calças cinza claro, mas sinistramente despojado de suas longas mechas e suas argolas, o belo pescoço desnudo, despojado do fino lenço branco, ele espera estoicamente sua vez na guilhotina, entre Couthon, o paralítico, e seu herói  da mandíbula quebrada, Robespierre. “
Danton tinha a seu lado todo grande capital internacional, que reagiria. Banqueiros foram decapitados, numa espiral de loucura, mas a vingança viria célere. Pela “force de choses”, este elemento mais forte do que a razão, Robespierre, ao sentenciar à morte Danton, sabia que assinava sua própria sentença. E como é dito no filme “Danton” de Andrzej Wajda, ele previu ao passar pelo prédio onde morava Robespierre, a caminho do cadafalso: “Dans trois mois, tu me suivras, et ton corps pourrira à côté du mien.”
  




terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

“Antes do dilúvio” “Um retrato de Berlim nos anos 20”

Um marco para a física e a astronomia: cientistas de vários países anunciaram nesta quinta-feira ter detectado ondas gravitacionais, ondulações espaço-tempo, que foram previstas por Albert Einstein há um século.”

Complicado, não é? Li e reli um artigo explicativo, e nada. Ou talvez só um pouquinho, bem pouquinho. Pois este gênio, um dos maiores de todos os tempos, decifrou o fenômeno por cálculos matemáticos , HÁ UM SÉCULO

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O que passo a narrar não é de minha autoria. Trata-se de um trecho de um livro fantástico, do escritor e pesquisador norte-americano, já falecido, Otto Friedrich. Nesta monumental obra, ele conta, de forma fascinante, o que foi a República de Weimar, criada logo após a Primeira Guerra, aquela que nunca acabou. Descreve a vida do povo e os prolegômenos do Nazismo. A perseguição aos intelectuais judeus ou não, mas independentes. Conta como ocorreu a terrível morte da líder comunista, e judia, até hoje uma lenda, Rosa de Luxemburgo, pelos grupos de extrema direita, dos quais nasceria o diabólico nazismo.

Mas, o que quero transcrever fala de Einstein, cientista, professor e judeu.
Na verdade, para os nacionalistas, ele condensava tudo o que havia de mais despresível- judeu, liberal, internacionalista, pacifista, cético, inovador e, além de tudo, cientista, isto é, engajado em uma atividade que frustrava a inteligência média. Costumava ser apupado ao sair do apartamento , em Haberlandstrasse, ou do escritório, na Academia Prussiana de Ciências. “Ciência judia!” – gritavam grupos de desordeiros. Entupiam a sua caixa de correio com cartas obscenas e ameaçadoras. Certa ocasião, a sua aula foi interrompida por estudantes de direita e um deles vociferou: - Vou cortar a garganta daquele judeu sujo. – Rudolph Leibus, demagogo anti-semita , colocou sua cabeça a prêmio; foi preso e condenado a pagar uma multa de...16 dólares. Um grupo direitista , o Comitê de trabalho dos Filósofos da Alemanha alugou o salão da Filarmônica de Berlim para uma série de conferências contra o “embuste Einstein”. Ele compareceu e assistiu o encontro, rindo às gargalhadas e aplaudindo os ataques. Na vida privada, porém, era menos atrevido. – A imprensa marrom e outros tolos estão nos meus calcanhares , quase me impedindo de respirar , ou realizar qualquer trabalho realmente decente- confidenciou a um amigo.
Os admiradores o incomodavam tanto quanto os inimigos, mas, não raro, ele sucumbia , usando sua celebridade  em benefício de boas causas. Acompanhou o líder sionista Chaim Weizmann na viagem deste aos Estados Unidos a fim de angariar fundos, percorrendo várias cidades e sendo invariavelmente obrigado a explicar a relatividade do jeito mais simples possível. Ganhou o Prêmio Nobel. Foi ao Oriente. Visitou a Palestina e escreveu um artigo a respeito da “mágica de tais espantosas realizações e de tamanha devoção, realmente sobre-humana.” Tornou-se um dos membros da Liga das Nações, participando de reuniões com pacifistas franceses e alemães. Todo esse afã enfurecia os nacionalistas cada vez mais. Circulavam rumores de que ele estava marcado para morrer, assim como Walther Rathenau, e ele passou a andar em companhia de um guarda-costas, solicitado pela esposa e à sua revelia.....”

Em 1933, quando Hitler chegou ao poder, mudou-se para os Estados Unidos e adquiriu cidadania americana.
Mas o nazismo não está morto. Ainda nestes dias, uma candidata, eleita, a prefeita, se não me engano, de Colônia foi apunhalada por defender a migração. Há alguns anos, vi, na feira do livro de Gramado, uma banca vendendo obras apologéticas do Nazismo, reagi e quase fui agredida. Mas reagi! E confesso, e posso ser acusada de reacionária (!!!???), mas pouco me importa, ser contra a publicação de “Mein Kampf”, escrito por Hitler, durante sua prisão, na década de vinte, onde expõe suas idéias anti-semitas e genocidas. Não sou, como Luís Fernando Veríssimo, politicamente correta. Aliás, orgulho de dizer, repetir e haver escrito “JE NE SUIS PAS CHARLIE”, o que me valeu bobagens e grosserias.





quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Os best-sellers proibidos do século XVIII

Autos-de-fé, praticados abundantemente nas trevas da Idade Média e do Nazismo, constituíam na queima de livros considerados hereges, infiéis ou não-arianos. Nestas trevas, em geral, o autor, e qualquer pessoa a ele ligada,  era igualmente queimado ou mais “modernamente” enviado às “câmaras de gás”. Hoje quando vejo um ser humano ser queimado vivo, degolado, afogado encerrado em jaulas. Quando vejo crianças  aprendendo a ser carrascos. Quando vejo monumentos de nosso mais remoto passado ser destruídos, penso que ainda temos muita treva. E temo sinceramente que ela se espalhe pelo mundo.
Mas no século XVIII, apesar da falta de higiene, dos desdentados e das perucas imundas, que encobriam carecas igualmente imundas, os carrascos dos livros procuravam prestar “homenagem à força da palavra impressa”. Queimava-se o mínimo possível, sendo mais uma demonstração pública de que a lei estava sendo cumprida. É assim que começa a magnífica obra do historiador norte-americano, Robert Darnton, cujo título copiei para meu artigo. Li-o, quase de uma só vez, há alguns anos, e procurarei colocar aqui o que me parece ser mais interessante e ilustrativo do “século das luzes”. Enquanto queimavam-se alguns exemplares, leitores ávidos liam o que de melhor se publicava de ilegal. E falar em legal e ilegal, lícito e ilícito, é preciso notar que a fronteira existente entre os dois tornou-se difícil de distinguir, já que as próprias autoridades encarregadas desta função procuravam camuflar o que era ser um ou outro. Ser subversivo incluía três critérios, igualmente “flous”: solapar a autoridade do Rei, atacar a Igreja, ferir a moralidade convencional. E dentro destes três princípios havia uma gama complicada de nuances, indo do “muito” ao “moderadamente”. Os que atacavam a moral convencional poderiam voltar às mãos do livreiro ou mandá-lo para a Bastilha. Nesta intrincada “classificação”, encontravam-se lado a lado “O Contrato Social” de Rousseau ou a Enciclopédia, coordenada pelo filósofo e matemático  D`Alembert e o igualmente genial Diderot, e livros pornográficos ou de nenhum interesse. A fonte que melhor se presta para estudo da terminologia do setor livreiro são os documentos STN, “Société Typographique de Neuchâtel”, grande editora atacadista sediada no principado de Neutachâtel, na fronteira entre a França e a Suíça.” Foi através desta grande editora que leitores menos aquinhoados puderam ter acesso a uma literatura “lícita” ou “ilícita”. Com preços reduzidos, edições simples, em menores proporções, puderam os franceses ler o que havia de mais novo e profícuo. Através dos documentos da STN, pode-se perceber claramente todas as dificuldades enfrentadas por problemas de comunicação, por estradas em péssimas condições e pela complicada classificação das obras. ““Filosofia” indicava perigo.” E uma escolha típica abarcava desde a pornografia até a Filosofia como a entendemos.
E dentre esta profusão de criações literárias “filosóficas” , quais os livros mais procurados nesta França pré-revolucionária ? E o que eles puderam influenciar no movimento revolucionário que abalou não só a França, mas todo o mundo civilizado de então? A primeira dificuldade é identificar como um leitor de há duzentos anos leria uma obra ou outra. O mundo de valores era então diferente do nosso! E são estes que dirigem nosso olhar à direita ou à esquerda, de um lado ou de  outro. Este aspecto fica além de nosso alcance. O que está a nosso alcance é tentar compreender as diferentes referências deste mundo, o contexto em que se desenvolveram, e imaginar como puderam atuar na mente dos leitores. A literatura obscena existe desde a Antiguidade. E o que nos parece obsceno hoje não pareceria a um grego, de cuja formação, inclusive intelectual, fazia parte a relação com outro homem mais velho. Por esta função pedagógica surgiu a palavra pederastia, cujo sufixo” ped- “ é o mesmo de pedagogo. Logo a homofobia não era cogitada na Grécia, assim como um tipo de prostituição formada por mulheres cultas, que serviam sexualmente e intelectualmente, chamadas de “heteras”. Consta que Aspásia, amante do grande Péricles, havia sido uma “hetera”. Logo, valores mudam com o passar do tempo e hoje mesmo vemos rápidas mudanças.
O escritor Restif de la Bretonne cunhou o termo “pornographe” numa obra de 1769, em que...” defendia um sistema de prostituição legal, controlado pelo Estado.”Após o refinado “La princesse de Clèves”, escrito por Madame de Lafayette, de 1678, a começou , ainda no século XVII, um processo que culminaria, já no século XVIII , com o mais lido romance pornográfico, “ Thérèse philosophe”, provavelmente escrito em 1748, por Jean-Baptiste Boyer. A obra pode figurar ao lado de “ Les bijoux indiscrets” e “Lettres sur les aveugles” de Diderot, que o levou à prisão em Vincennes. “Thérèse philosophe” é ao mesmo tempo filosofia e erotismo. “Na verdade, o combustível da dupla explosão provinha da mesma fonte: a libertinagem, uma mistura de livre-pensamento e vida livre, que desafiava tanto as doutrinas religiosas quanto os  valores morais.”  Em “Thérèse philosophe” entremeiam-se orgias e discussões metafísicas. Baseado em fato real, mas que no livro assume dimensões dantescas e hiláriantes, Thérèse assiste ao estupro de uma jovem por um padre que a convence que é penetrada pelo cordão endurecido que São Francisco usava no hábito. A dimensão filosófica é a expressão da dicotomia razão e carne, espírito ( no sentido intelectual) e desejo carnal. A linguagem, tratando-se de um livro “pornográfico”, procura evitar um vocabulário chulo, a não ser em histórias como a do padre e da devota.
Mas, dentre tantos livros eróticos/pornográficos não poderia faltar a história de Madame du Barry, a última favorita de Luís XV. “ Anecdotes sur Mme la comtesse du Barry” fez enorme sucesso, pois é divertido, bem escrito e mostra a pobreza vencendo pela astúcia uma corte podre. Não se trata de uma obra escrita num volume, mas de panfletos que circularam abertamente pela França. Jeanne Bécu, nasceu nas camadas mais populares da sociedade, mas sua beleza a faz exemplar. Já tendo morrido, há muitos anos, a rainha da França, e também a célebre favorita de Luís XV, Madame de Pompadour, o velho rei lascivo, se entrega à mais absoluta libertinagem. Normalmente, no caso de morte da Rainha, caberia às três filhas do Rei, chamadas “Mesdames”, o papel de Soberanas. No entanto, segundo conta Stephan Zweig em sua biografia de Maria Antonieta, tratava-se de três velhas carolas, sem nenhum interesse às quais o Rei não dava nenhuma satisfação. Tampouco os cortesãos.  E o velho Luís XV tem seu alcoviteiro, um certo Le Bel, encarregado de encontrar jovens bonitas, que sirvam à libido insaciável do rei e são , bem remuneradas, despachadas pela manhã. É então que entra em cena Jeanne Bécu, muito jovem, fresca e belíssima. E Jeanne não fica só uma noite. Arrumam-lhe um marido com título de nobreza, conde du Barry, imediatamente despachado, um apartamento com passagem direta para os compartimentos reais e “Madame la contesse du Barry”, passa a reinar, apesar do ódio das velhas carolas, da corte, e posteriormente de Maria Antonieta, de quinze anos, manobrada por “Mesdames”. Dominado por seus segredos de alcova, Luís XV passa-lhe um poder irrestrito. À sua volta orbitam cortesãos, embaixadores de todos os soberanos, reis e príncipes. Sua trajetória, desde as prováveis ruas e bordéis até a corte, daria um romance diz Stephan Zweig.
Mas , afinal, tudo tem seu fim, e também o reinado da “du Barry”. Certo dia do ano de 1774, durante uma caçada, o rei sente-se mal, uma terrível dor de cabeça o acomete. Levado à Versailles, cercado dos melhores médicos, pouco a pouco, o soberano francês é diagnosticado com a terrível varíola. É verdade que durante séculos a doença havia matado ou marcado indelevelmente muitas e muitas gerações. Os pais preferiam que seus filhos tivessem a doença em criança, já que ela vinha mais branda. Luís XV já tivera a sua e esta reincidência surpreendeu, assim como a força com que o atingiu. Em poucos dias, seu corpo cobriu-se de chagas que cheiravam a decomposição. O grande Luís XV retomou sua condição de simples humano. Apavorados com a possibilidade de contágio e o odor pútrido, cortesãos se afastaram. Coube então à “Mesdames”, durante o dia, e à “du Barry” à noite guardar seu corpo decomposto. Com medo do Inferno, Luís quis confessar-se, mas os padres fugiam ao se defrontar com o odor e a imagem. Foi o Arcebispo de Paris quem lhe fez a última confissão, que exigiu ser pública, com a corte acotovelando-se nas portas. Poucas horas depois o rei deu seu último suspiro.
La Contesse du Barry, partiu para uma residência particular. Durante a revolução, foi utilizada como pombo-correio entre nobres na França e exilados na Inglaterra. Denunciada, foi presa e condenada à morte. Conta-se que se desesperou na hora da execução, tendo que ser arrastada, denunciando pessoas e tentando até mesmo subornar o carrasco com suas jóias. Por fim, disse em voz quase inaudível: “ S´il vous plaît , Monsieur, seul un petit moment.” Tinha cinqüenta anos.

Discorri mais longamente sobre a história da “du Barry” pois ela ilustra bem o que era a corte francesa. É verdade que há muito mais coisas a dizer sobre estes escritos proibidos e não se pode saber o quanto influenciaram a Revolução Francesa. Desde criança, aos dez anos, na França, apaixonei-me por este movimento que mudou os caminhos do mundo. Já fui monarquista e chorei ao ler a descrição da execução de Maria Antonieta. Também já fui esquerdista radical e considerei meus heróis todos os Jacobinos. Li imensamente sobre este fato histórico sem paralelo. Hoje, com tudo que li, tendo vivido tantos e tantos anos, tenho uma visão mais moderada, que não vou expor, porque, afinal este não é o assunto.