QUEM SOU EU

Sou professora de Francês, mas hoje minha principal atividade é escrever e ler, além de cuidar dos meus três vira-latas: Charmoso, Príncipe e Luther.



Gosto de fazer ginástica, sou vegetariana e adoro animais em geral, menos baratas.



Sinto especial prazer quando meus textos agradam aos meus leitores. Espero continuar produzindo e me comunicando com todos os meus amigos, neste maravilhoso universo da net.



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domingo, 16 de julho de 2017

Minha mãe morreu num dia vinte e seis de fevereiro, há muitos anos. Já havíamos sido advertidos de que seu tempo seria curto. Durante seis anos, eu lutara contra seu desgosto pela vida. Ela havia fraturado o fêmur e, depois disso, nunca mais andou. Negava-se a caminhar, negava-se a viver. Foram anos de sofrimento, sobretudo para nós duas, já que o resto da família podia viver sua própria vida. E tive força para lutar, para não sucumbir. Esperava que algum dia, quem sabe, ela voltasse a viver. Mas sua perda era irremediável, ela perdera seu amor, e nada mais a interessava. A mãe que eu conhecera toda minha vida, que me ninara na velha cadeira de balanço, ouvindo novelas no rádio, que me contara histórias de sua infância, que arrancara com um fio de linha cada um dos meus dentes de leite, que guardo até hoje, que me consolava quando eu caia e me machucava, que chorara o dia eu em que parti para completar meus estudos, esta mãe morrera já seis anos antes que seu coração parasse.
Mas esta força divina, que vem para aquele que sabe enxergá-la, iluminou meu caminho e me fez levantar a cabeça. Foi esta força, que está no mistério da vida e da morte, no sol que brilha e nos ilumina, e que meus cachorrinhos procuram para se aquecer. Esta força que eles sentem, e que muitos pobres seres humanos não enxergam. Foi ela que eu senti a cada manhã, tendo dormido ou não. E levei até o fim minha missão.
No dia em que minha mãe morreu, levei-a de carro, agonizante, sentada a meu lado, para o hospital, sabendo que era o fim. Cheguei buzinando. Levaram-na, imediatamente, não sei para onde. Mas antes que a levassem tirei a aliança de seu dedo. A aliança que meu pai colocara na sua mão direita aos 14 anos, e que me acompanha cada dia de minha vida. Minha irmã e eu ficamos esperando, sabendo o que aconteceria ou já acontecera. E quando saí do hospital, depois da notícia fatal, olhei para o céu e vi, em meio às minhas lágrimas, montinhos de nuvens que se acumulavam como criancinhas que brincavam. Lembrei-me da história que ela sempre me contava das sucessivas Corálias, sempre vestidas de branco e que morriam ainda criancinhas. Isto se passara na sua adolescência. Tomada por uma convicção divina, senti que Deus me enviava uma mensagem. Quem sabe eram elas que haviam vindo buscá-la?
Depois a funerária, mas ainda há pouco ela estava viva! Ou era só impressão? Voltei para casa, exausta. Na sala escura e silenciosa, senti meu corpo dobrar e orei, orei para Aquele que eu sabia estar ali. Sai na sacada e senti a vida penetrar em mim. Eu havia, naqueles anos de sofrimento, aprendido a enxergar Deus. Fui acendendo as luzes, e entrei em seu quarto. Sentei-me na poltrona onde a colocávamos tantas vezes. A almofadinha para os pés ainda estava lá. Fechei os olhos e mil lembranças me vieram à mente. Era como se um carrossel de meu passado mais distante girasse dentro de minha cabeça exausta. Ruas mal iluminadas onde as crianças brincavam, festas juninas ainda na minha primeira infância, o dia em que cortei o queixo e as Vicentinas que deslizavam pelos corredores, com aqueles enormes chapéus. De repente, abri os olhos e vi, sobre a mesinha, os seus remédios que eu sempre deixava separados, dentro de um potinho. Lágrimas desceram por meu rosto. Mas estava em paz. Resolvi tomar um banho e deixei a água deslizar sobre minha cabeça e meu corpo. Água, vida! Respirei fundo, eu havia compreendido! Como a água que refrescara meu corpo, senti que havia uma secura interna. Estava sedenta. Depois, peguei o telefone para avisar alguns amigos e parentes em Porto Alegre.
E ainda teria o velório! Com gente amiga ou não. Eu teria que ver seu corpo morto, inerte, suas belas mãos, que tantas coisas lindas haviam criado, cruzadas sobre o peito. Beijaria seu rosto gelado. E ainda faltava avisar meu irmão! Não me lembro mais como fiz. Lembro-me que o levei de carro ao cemitério. Ele não chorava, mas eu sabia o quanto sofria. Minha amiga, Many, chegou logo depois e levou-me para descansar um pouco num quarto. Eu estava profundamente triste! Mas havia algo dentro de mim que me assegurava de que ela, finalmente, estava feliz. De repente uma enorme barata na parede, quase me tocando, me fez dar um pulo e voltar para a sala.
Então, resolvi ir em casa, precisava pegar alguns documentos. Já começava a amanhecer. Many, amiga das boas e más horas, preparou-me um prato de mingau que engoli automaticamente.  Olhei o sol que começava a despontar e senti bem dentro de mim que toda aquela beleza do amanhecer era uma prova da existência de Deus, assim como a lua que iluminara minha triste noite. Toda aquela beleza me assegurava que tudo vinha Dele. Eu sabia!
Hoje passados tantos anos repito Fernando Pessoa “Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra.” E foi o que senti, ao vê-la morta, fria e inerte naquele caixão. Eu o sentia, e aquele céu resplandecente parecia um sinal. Vi minha amiga Sônia sentada num dos bancos do jardim ao lado de meu irmão, segurando-lhe carinhosamente a mão. Ficaram ali muito tempo, até que meu pobre irmão, que eu perderia um ano e meio mais tarde, tivesse coragem de ver a mãe morta.
Alice foi enterrada à tarde, quando o sol se punha atrás das montanhas, meu coração pulava dentro de meu peito, não quis prosseguir. Ali, nossos caminhos se separavam. Mãe, teu encontro comigo terminou, como tudo termina na vida. E, parodiando Fernando Pessoa, dá-lhe que sua alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.  Mãe, o solo que serve de leito aos teus despojos e de todos aqueles que amei e perdi, jamais é visitado por mim. Onde tu estás, e todos os outros, não é a terra seca e árida. Tua morada está além de mim e de todos os que irão depois. A morada de minhas cinzas, consumidas pela cremação, será o caminho do vento de um lugar alto que quase alcance o céu. De lá, verei toda tua obra, Senhor, e poderei enxergar melhor do que jamais pude toda tua beleza.
“Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim”  Tempo de dizer adeus

8 comentários:

Vitoria disse...

Lindo, amiga. De uma profundidade, de uma beleza, de uma generosidade tocantes. Que belo texto, que linda alma. Que sorte Deus tê-la colocado no meu caminho. Um abraço afetuoso, um beijo carinhoso.

Simplesmente mulheres disse...

Obrigada, amiga querida. Escrevi-o com minha alma e minha emoção. O sofrimento nos ensina a descobrir Deus. Beijos.

Nazaré Laroca disse...

Um texto comovente, lindo! Seu coração pulsa em cada palavra! Fiquei muito emocionada, com vontade de chorar. Conheci a meiga Dona Alice! Ela agora está em paz, na luz de Deus! Beijos

Simplesmente mulheres disse...

Para mim escrever foi doloroso
Lembrei me de todo aquele sofrimento de 6 anos. Mas sei que ela está feliz ao lado de seu amor.
Beijos

Simplesmente mulheres disse...

Para mim escrever foi doloroso
Lembrei me de todo aquele sofrimento de 6 anos. Mas sei que ela está feliz ao lado de seu amor.
Beijos

Simplesmente mulheres disse...

Para mim escrever foi doloroso
Lembrei me de todo aquele sofrimento de 6 anos. Mas sei que ela está feliz ao lado de seu amor.
Beijos

Maria Cristina Silveira disse...

Emocionante e emocionado relato de vida! Estou com lágrimas nos olhos...

Simplesmente mulheres disse...

Obrigada , amiga . Digo que foi escrito com o coração.