QUEM SOU EU

Sou professora de Francês, mas hoje minha principal atividade é escrever e ler, além de cuidar dos meus três vira-latas: Charmoso, Príncipe e Luther.



Gosto de fazer ginástica, sou vegetariana e adoro animais em geral, menos baratas.



Sinto especial prazer quando meus textos agradam aos meus leitores. Espero continuar produzindo e me comunicando com todos os meus amigos, neste maravilhoso universo da net.



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quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A BELEZA DE ENVELHECER

Acabei de ver um filme que falou-me ao coração. Falou de tudo que tenho sentido nestes anos, após os sessenta, quando a gente revê o passado. Penso nele e sinto saudades. Sei que este é o último ato, e quero vivê-lo o melhor possível . Quanto ao filme, não interessa a história, mas, em mim , provocou o imediato desejo de compartilhar tanta coisa, que vi, vivi, amei... Falar no passado, quando ele é tão maior do que o futuro, não é saudosismo, nem angústia da aproximação do check out. A música que encerra o filme me comoveu profundamente. Todos aqueles casais que dançavam, cabecinhas brancas , algumas mulheres tentando driblar o tempo, era uma das minhas preferidas aos quinze, dezesseis anos. 
Há tempo! Já a havia esquecido! Aqueles foram meus anos dourados, e, à medida que a gente vai envelhecendo, detalhes vão surgindo neste computador da memória, por mais longínquos que sejam. Pessoas que tiveram importância, lugares, desejos, sempre reprimidos... amores. Lembro de recantos que não existem mais, de sonhos que não pude realizar, mas realizei outros em que não pensava. As pessoas que então povoavam minha vida foram pouco a pouco desaparecendo, alguns morreram, outros não sei onde estão. Minha família original partiu, pai , mãe, irmão, irmã. Os rostos que hoje encontro no Natal, ou em outras reuniões familiares, são outros. Sinto saudades, mas, a cada partida, levantei a cabeça e pensei “É a vida, tenho que prosseguir”

Tenho contato com dois amigos, de muitos anos atrás, que me dizem que era a menina mais bonita do colégio. E que eram secretamente apaixonados por mim! Confesso que fiquei feliz. Mas minha grande paixão era outro. Já morto há muitos anos. E há também as lembranças mais antigas, o velocípede que ganhei de Natal, trocado mais tarde pela bicicleta. A corda em que era mestra, as brincadeiras na rua, a roda “... vamos brincar de roda?” Lembro-me da moça alta e loura, que via, todos os dias, descendo do colégio. Destacava-se das outras pela altura e pelo cabelo loiríssimo. Ainda não havia resolvido se queria ser como ela ou como Teresa, minha irmã, que admirava muito, apesar de seus beliscões. Um dia sumiu, e fiquei sabendo que havia morrido. Naquela época não tinha idéia do fosse a morte , sabia que nunca mais a veria, e considerei, simplesmente, que ela havia ido embora. Alguns meses antes, havia morrido minha avó Joana, que morava conosco. Lembro-me de minha mãe aos prantos, comigo sentada no colo, eu chorava também... A noite fui com Teresa dormir na casa de uma vizinha. Acordei toda molhada, envergonhada pulei na cama de minha irmã e agarrei-me a ela.  
Mais tarde os “arrasta-pés”, onde dançávamos aquela linda música do final do filme, de cujo nome esqueci-me, e a orquestra de Ray Connif. Usava saltos bem altos, bico fino, impraticável hoje. Aos quatorze anos pintei meu cabelo de vermelho, aos dezesseis de louro platinado. Hoje vejo que tive pais bastante liberais. Era paquerada, mas sempre permaneci fiel ao meu primeiro amor, aquele que abriu caminho para outros. Não danço mais, nem pulo corda. Durante anos andei na minha bicicleta, até que, desviando de um buraco, fui atropelada. Fiquei com medo. Troquei meus exercícios, a bicicleta, a musculação, pelo pilates. Continuo com o vício de pintar os cabelos, agora para esconder os brancos. Minhas roupas mudaram de estilo. Há anos, vivo só, com meus três vira-latas. Gosto desta liberdade. Tenho que tomar remédio para dormir e antidepressivo. Herdei de minha mãe uma depressão endógena que me acompanha há anos. Mas, pela manhã, logo que acordo, peço coragem a DEUS, em que acredito firmemente, e levanto-me às cinco e meia para dar conta de todas minhas tarefas.
Olho duas fotos antigas. Minha mãe e minha tia Aracy, sua irmã por parte de mãe. Minha mãe devia ter cerca de quatorze anos e minha tia cerca de dezessete. Morreu pouco tempo depois de tirar a foto. Provavelmente, suicidou-se; já havia tentado uma vez. Conservou-se na memória dos que a conheceram linda, com sua coroa de flores, o rosto ligeiramente inclinado, um chale, talvez, que lhe deixa nu um dos ombros. Minha mãe, vê-se, é uma garota adolescente. Apesar da puberdade, tem um rosto mais sensual, lábios muito grossos, e traços menos requintados. Ambas são bonitas, cada qual no seu tipo. Minha tia não pode ter seu grande amor, que, aliás, morreu pouco depois dela, não teve filhos, não viu a família nascer e crescer. Ficou na sua solidão, linda e jovem. Para sempre. Minha mãe morreu aos oitenta e dois anos, encontrou seu amor, casou-se, teve filhos, netos. Engordou, seus cabelos ficaram grisalhos, sua pele mudou. Aos setenta e seis anos, desistiu da vida. Havia perdido seu amor, seu companheiro de tantos e tantos anos! Durante anos desesperei-me ao vê-la assim. Logo eu, mulher independente, com uma trajetória de vida de amores e desamores. Como compreendê-la? Mas no dia em que se foi, senti que se libertava, rezei por ela e me conformei. Afinal, apesar de todos os revezes da vida, minha  mãe viveu plenamente aquilo que projetara para ela. A velhice ao lado do companheiro, que envelheceu com ela, com os filhos e netos, foi feliz. Pouco importa seus cabelos grisalhos, sua pele já enrugando, o quanto havia engordado.  
 Hoje, aos setenta anos, cuido mais de mim, acumulo uma bagagem de conhecimento da vida e cultural que utilizei na formação de muita gente. Sempre gostei de ler, prazer que devo a meu irmão. Mas, agora, tenho que usar óculos. Confesso que a maior parte do que vivi foi bom. Coloquei-me na prioridade e quero continuar a ser feliz. Sei que o tempo passa célere, e aprendi a gozar cada dia. Não abro mão do que me dá prazer. Como disse um dia Mario de Andrade, meu cesto de cerejas já está bem vazio, mas pouco importa. Dizer que a vida é sopro é um lugar comum, mas verdadeiro. Mas ainda espero escrever ainda muitos textos, ler muitos livros, assistir muitos filmes. E conseguir vencer as batalhas , até a final!
Para informação, o filme chama-se “45” com Charlotte Ramplay e Tom Courtenay.  














3 comentários:

Nazaré Laroca disse...


Bela crônica, amiga! Também eu ando pensando em como o tempo é implacável e voraz!

Maria Cristina Silveira disse...

Lindo texto. Ainda temos muito o que viver, e o que importa é a qualidade de nossa vida. Parabéns.

Simplesmente mulheres disse...

Obrigada, amigas. Como diz o Eclesiastes, há um tempo para tudo na vida. Vivi meu tempo de dançar, de brincar, de me apaixonar. Hoje meu tempo é outro, e quero vivê-lo o melhor possível. Sou a minha PRIORIDADE. Beijos